Frankenstain

14 Outono de 1793


Notas iniciais
Agora você vão ficar feliz ;) O Inverno e seu mago estão chegando. Boa leitura :)

Por um lado existia a vida.

Zaphire crescia forte e saudável. Sempre sorrindo. Sempre enchendo o lugar de alegrias.

O menino era a luz daquela casa.

¬ Zaphire. – chamava pelo pequeno enquanto o buscava. – Zaphire. Onde você se escondeu? Milo, você o viu?

Estava observando a perseguição há algum tempo.

O menino adorava brincar de se esconder com Kardia e sempre arrumava locais novos para brincar, principalmente no jardim, onde atualmente se encontravam.

Milo apenas viu o bebê bem agasalhado correr um tanto desajeitado para outra moita atrás do azulado.

¬ Não vi não. – adorava compactuar com aquele grão de gente.

Kardia apenas ria e virava de costas indo pra onde o olhar de Milo se dirigia há poucos instantes. Não conseguia enganar nem uma criança.

¬ Zaphire. – Kardia agora era mais cuidadoso em seus passos e prestava mais atenção. – Zaphire.

Milo ouviu um risinho infantil e viu um mínimo farfalhar na moita, o menino estava ali.

Kardia também notara aquele mínimo farfalhar.

¬ TE ACHEI!! – gritou o escorpiano pulando na moita.

Depois disso só se ouviu gritos e risadas animadas de criança e de adulto.

Kardia surgiu pouco depois com Zaphire no colo, ambos cheios de folhas secas e rindo até cansar.

¬ Zaphire. – chamou Dégel da porta, se pondo de joelhos e abrindo os braços.

¬ Papa! – o menino se agitou no colo do mais velho.

Kardia então o colocou no chão e acompanhou sua corrida até o aquariano, que o acolheu com um sorriso e cheio de carinho.

¬ Pater! – chamou esticando o bracinho e chamando o escorpiano para perto. – Pater!

Kardia riu e se juntou aos dois, limpando as folhas dos fios escuros do menino e afagando o rosto sorridente.

¬ Aliais... – disse Dégel sorrindo. – O que significa “pater”, Kardia?

¬ Isso eu vou deixar que Zaphire te conte futuramente. – riu estalando um discreto beijo no nariz do mais velho.

Milo apenas deu risada.

Sabia muito bem que “pater” significava “pai” em grego.

Não tinha quem não fosse feliz ao lado de Zaphire, o que dirá Dégel e Kardia que eram apenas sorrisos perto do menino.

E também, não tinham vergonha de serem verdadeiros frente o pequeno, só lhe pedindo o silencio quando perto de outras pessoas.

¬ Papa... – a voz chorosa despertou os mais velhos na mesma hora.

¬ Zaphire? – Kardia se apoiou em um cotovelo para olhar na direção da porta. – O que fora meu pequeno?

¬ Esadeio... – choramingou ainda ao pé da porta.

¬ Hun... – Dégel se sentou coçando a cabeça e abrindo os braços. – Venha mon anje... Pode dormir com papai e Kardia hoje...

O menino mais do que depressa fechava a porta – sabia que os mais velhos, juntos ou separados, gostavam de dormir com a porta fechada – e corria na direção da cama, se enfiando entre os dois abaixo das cobertas.

¬ Boa noite. – Dégel beijava seu rostinho antes de abraçá-lo.

¬ Boa... – dizia o menino se aninhando ao pai. – E sê... No cota pa nigue...

¬ Isso mesmo. – Kardia beijava sua cabeça e sempre abraçava aos dois.

Zaphire os amava tanto.

Era pequeno, mas não bobo.

Mesmo com tenra idade sentia que certas coisas não eram bem vistas, por isso seus amados Papa e Pater se escondiam tanto.

O menino não via mal naquilo.

Era inocente, via o mundo com o coração puro e sem maldades de uma criança.

Ele sabia que não encontraria felicidade maior em nenhum outro lugar e muito menos igual nível de amor e carinho, mas sabia que os outros achavam aquilo errado.

E ele nada achava.

Era amor, era carinho, era sua família. Que diferença fazia ter outro pai no lugar de uma mãe? Amavam-lhe.

Ali o menino era pai do homem.

Em algum lugar, entre o certo e o errado, existe um jardim. E nesse jardim ele sabia que poderia encontrar e viver em paz com sua família, livre de preconceitos e medos.

Mas no momento, tudo o que queria era continuar naquele abraço.

¬ Amo... – dizia todas as noites antes de dormir.

Kardia e Dégel apenas se olhavam sorridentes e voltavam a dormir.

Zaphire estava aprendendo e agradeciam aos céus por estar aprendendo o certo.

¬ Zaphire! – chamava Milo sempre que voltava da cidade. – Zaphire! Trouxe aquele doce que você gosta!

¬ MIO!! – brotava geralmente da cozinha para abraçar suas pernas.

¬ Olá pequeno interesseiro. – sorriu o maior.

¬ No so iteresero... – dizia fazendo bico.

Milo o afastava com carinho e se ajoelhava para ficar de seu tamanho.

¬ Tudo bem. – ria mostrando o doce. – Mas vai querer ou não?

¬ Queio! – agarrava o doce num piscar de olhos.

O menino se afastava um pouco, quebrava o doce na metade, entregava um pedaço para Milo e saia correndo pra não ter que dividir com mais ninguém.

Era sempre assim e isso lhe tirava risos.

Aquele menino era definitivamente a alegria da casa.

¬ Zaphire! – o criador só se fingia de bravo.

¬ Vovô... – fazia manha.

Ficavam se encarando por um longo tempo, uma batalha silenciosa de resistência.

¬ Está bem! – e que sempre era o mais velho a ceder. – Pode fazer.

O menino então sorria todo feliz e pegava as roupas do avô, calçando as gigantescas botas e vestindo os enormes casacos.

As botas lhe cobriam as pernas por completo e o casaco sumia com suas mãos, que seguravam a bengala do avô como se fosse um rifle.

O pequeno então se jogava no chão ou na cama e começava a encenar uma caçada. Sempre capturava o tapete de urso e o dedicava ao avô, que sorria só de ver o neto brincar.

¬ Ah! – Sasha sempre queria morrer quando via o menino se arrastando no chão. – Zaphire!

O menino então dava um pulo, se livrando rapidamente das roupas do avô e saia correndo do quarto.

¬ Esse menino. – falava irritada e recolhendo o casaco e botas do chão. – Será que ele não tem dó de mim?

¬ E você tinha de sua mãe quando minha esposa deixava que usasse seus vestidos? – perguntava o mais velho com um sorriso.

¬ Não. – suspirava para sorrir de leve pouco depois. – Mas já tenho o Kouga pra me sujar as roupas, não precisa que ele ajude.

¬ Ora vamos. – dizia o homem rindo. – Deixe-o ser criança.

¬ Tudo bem. – se rendia com um sorriso. – Mas só dessa vez.

Nunca era só daquela vez.

Afinal o menino era a luz e alegria daquela casa.

Mas por outro lado existia a morte.

Milo o viu definhar.

Ao passo que o pequeno Zaphire se tornava cada vez mais vivaz, o criador se tornava cada vez mais vagaroso e fraco.

Os piores momentos eram as crises de tosse.

¬ CRIADOR!! – Milo sempre ficava assustado ao ver tamanha quantia de sangue. – Vou chamar Mestre Dégel!

¬ Parado! – urrava o homem antes de voltar a tossir.

Milo passava as crises ao seu lado, tentando ajudá-lo a parar de tossir, mas nada adiantava. A tosse parava sozinha e somente muito depois de começar.

¬ Saia Milo... – o homem morria, mas se recusava a pedir sua ajuda.

Seu criador sofria.

A barriga estava inchada e fazia barulho de água. A pele e olhos estavam amarelados, como se o sangue tivesse sido trocado por pus.

O homem chorava de dor por muitas noites e raramente tinha uma noite de sono decente.

Era um cadáver ambulante, dissera Kouga certa vez.

Milo estremeceu naquele dia.

Era assim que se parecia antes de ser trazido a vida?

Achava difícil, afinal descobrira pelos diários de seu criador que fora feito a partir de oito corpos de diferentes homens que morreram por problemas no coração.

Ainda tinha leves riscos cicatrizados quase perfeitamente por onde a pele fora unida por linhas e agulha pra provar o que tinha nos diários.

¬ Meu pai... – Dégel segurava a mão do homem com firmeza.

¬ Eu tenho de ir... – dizia o homem. – Sua mãe me chama... Posso ouvir a voz dela...

¬ Pobre Mestre... – dizia Tenma em tom verdadeiramente triste. – Está delirando...

Delírio ou não, Milo conseguia ver a alma do homem se esvair.

Daquela noite ele não passaria.

O enterraram no cemitério da família, era mais do que ele merecia.

Sepultado ao lado da esposa e pais, seu criador agora repousava no berço da morte, embalado pelo sono eterno de tão doce e indolor canção.

¬ Vovô... – Zaphire chorava no colo de Kardia. – Vovô... Pometeu que ia vê mia casada... Vovô mau... Vovô no mateve pomesa...

¬ Vovô dorme agora, mon anje... – Dégel pegara o filho e o beijara. – Deixe-o descansar agora, está bem?

¬ Ma vovô pometeu Papa... – secava suas lágrimas com as mãos pequenas.

¬ Vovô um dia cumpre a promessa, Zaphire. – disse Kardia. – Um dia ele assiste sua caçada.

O menino apenas deitou a cabeça no ombro do pai e ficou vendo a cova ser coberta por terra.

Milo achou engraçado sentir um pequeno peso no peito aquele dia e ver chover, apesar de sentir gota alguma contra pele.

¬ Que Deus tenha piedade de vossa alma. – desejou frente a lapide recém-esculpida.

Radamanthys Artorius York Wyvern

1737 – 1793

“Às vezes, você precisa se perder para poder se reencontrar”.

Notas finais
Espero que tenham gostado :) Bjs. L :3