Frankenstain
9 Outono de 1782
Notas iniciais
Você só saberá realmente o que é o amor, quando lhe perguntarem sobre ele e você não pensar em uma definição, mas em um nome.
Até mesmo a rotina conseguia ser divertida para Milo.
Todos os dias tinha que acordar cedo para realizar suas tarefas e acordar Kardia.
Irônico como os papéis se inverteram, afinal era Kardia quem o acordava. Mas agora o rapaz parecia mais sonolento e às vezes nem estava na cama quando Milo acordava, devia ser algum tipo de resfriado.
Escovava os cavalos de seus Mestres.
Acordava Dégel, isso quando o sumido Kardia já não o tinha feito.
Ia até os correios pegar as cartas da casa e ficava bastante animada quando via as cartas de Sasha e Natassha entre elas.
Ajudava na hora de fazer o almoço, receber as visitas e por vezes na hora de servir o próprio dono da casa, o avô Krest.
Dedicava-se inteiramente a Dégel e Kardia a maior parte do tempo.
E algumas vezes, depois de buscar Dégel na escola, se dedicava à carpintaria, algo que descobriu gostar muito depois de reformar a carruagem de seu criador dois anos antes.
No momento estava trabalhando num relógio novo para colocar na casa dos criados.
Talhava a madeira com extremo carinho, como se temesse machucá-la. Lixava e arredondava as pontas e superfície a fim de tirar todas as farpas e deixar a madeira gostosa de tocar.
¬ Com licença. – bateram na portinha do galpão em que trabalhava.
¬ Mestre Dégel. – sorriu. – Entre, por favor, já lhe darei atenção, só quero terminar de entalhar este cacho de uva.
¬ Na verdade eu só quero conversar, Milo. – respondeu.
Parou o que fazia na hora e mirou o rapaz.
Dégel estava visivelmente nervoso, a expressão contorcida e os ombros caídos.
¬ Tudo bem. – respondeu largando seu material e puxando um toquinho para se sentar. – Estarei ouvindo.
¬ Milo. – começou um tanto hesitante. – Lembra-se da minha prima Serafina?
¬ Sim. – ninguém esqueceria a garota de cabelos tão claros que se tornavam brancos – Aquela que Mestre Kardia diz ser um pecado ambulante e que devia ser trancada ou vendida como esposa pra alguém da corte.
Engraçado que Kardia não gostava em nada da garota e nem do irmão dela, chegando a rezar para eles não fazerem as visitas anuais de inverno.
¬ Oh... – o rapaz se assustou com a denominação. – Lembrar-me de falar com Kardia sobre sua língua ferina.
Milo apenas concordou. Kardia andava bastante mal educado.
¬ E então? – instigou depois de um tempo. – O que tem sua prima?
¬ Meu pai me mandou uma carta essa semana e me contou umas coisas. – lembrava-se de ter trazido várias cartas aquela semana, mas não lembrava de nenhuma vinda de seu criador. – Ele disse que mandou duas cartas com você quando viemos para Paris. Uma carta para Lord Garcia e outra para Lord Krest. E na carta que ele me mandou, ele me explicou tudo. – os olhares se cruzaram, o rapaz parecia sofrer muito. – Meu pai quer que eu me case com ela.
Não sabia de nada daquilo.
Não conseguia se quer imaginar algo desse tipo.
Mas também não podia falar mal.
Serafina tinha seus defeitos sim, mas não era uma má pessoa, muito pelo contrario, era uma menina maravilhosa. Era amiga, quase irmã de Dégel, um casamento com ela não seria de todo ruim.
¬ Tenho certeza que ela será uma ótima esposa. – respondeu o que lhe pareceu o mais correto.
¬ Só que eu ainda non fiz o pedido. – respondeu mordendo o lábio.
¬ Existe dúvida?! – espantou-se.
Dégel não tinha dúvidas de nada.
Sempre pensando de forma racional, calculando todo e qualquer passo que dava. Sempre a frente de tudo e todos.
Ele já teria feito o pedido de casamento em situação normal.
¬ Non! – adiantou-se em justificar, parecia envergonhado. – Ela é uma garota maravilhosa, é bonita, é confiável, é inteligente, é bondosa, é alguém com quem eu podia passar a minha vida toda. Podia ter filhos, uma família, uma vida com ela.
¬ Então qual é o problema? – inquiriu curioso.
O rapaz corou fortemente. Parecia um tomate maduro.
¬ Oh... Bem. Ah... Eh... – aquilo estava assustando Milo, o rapaz nunca gaguejava. – É que eu tenho alguém muito especial para mim. É tão gentil, engraçado, bonito, fiel, e quando eu estou com essa pessoa, eu non quero ficar com mais ninguém. – confessou em um suspiro, o olhar um tanto sonhador e distante.
¬ Isso... É um problema?! – não sabia ao certo o que dizer. – Não sei se a resposta é sim ou não. Mas ser for “sim, é um problema”, acredito que a resposta esteja bem a sua frente, Mestre Dégel.
Nunca vira um olhar tão esperançoso.
Os olhos verdes de Dégel chegavam a brilhar de expectativa. Estava perdido e queria desesperadamente uma luz.
¬ Case com esse alguém especial. – ele ficou branco, mais branco que um lençol. – O que foi?
¬ Bom... Essa pessoa non é... Eu non sei... – seu olhar era pura confusão. – Um relacionamento entre nós seria impossível. Nunca daria certo.
¬ Por quê? – volveu.
Pelo que os outros criados falavam, era melhor casar com alguém especial do que com alguém que não lhe é tão especial assim.
¬ Oh, bem... Por que... Porque ele é... Ele non é e nem nunca seria...
Dégel parou no meio da sentença.
Suspirando de forma triste e pensativa.
¬ O que há? – instigou.
¬ Non seriamos aceitos pela sociedade. – respondeu depois de algum tempo. – Viveríamos das piores formas possíveis e eu jamais seria capaz de exigir tal sacrifício dele. Eu... Eu o amo demais para pedir isso dele, Milo. Sem contar que nós somos...
Mais uma vez parara no meio da sentença.
Aquilo estava deixando Milo cada vez mais aflito.
O rapaz estava bastante pensativo e triste com todas as conclusões em que chegava.
¬ Algum problema? – perguntou preocupado.
¬ Hãn?!– pareceu acordar de um traze. – Non. Nada. – levantou-se e saio em direção à porta. – Obrigado por me escutar, Milo.
¬ Fico feliz em ser útil. – acenou em resposta. – Mestre Dégel. – chamou antes que este fechasse a porta. – O que fará em relação à Lady Serafina?
¬ Vou pedi-la em casamento. – respondeu instantaneamente, apesar de sua voz apresentar ainda certa falha.
¬ Mestre Dégel. – chamou novamente antes que saísse. – Não se esqueça de chamar Mestre Kardia para ser seu padrinho.
Dégel tremeu dos pés à cabeça quando ouviu o nome do azulado.
Não falou mais nada, apenas bateu a porta com certa força e deixou Milo em paz pelo resto do dia.
Aquilo o estava deixando preocupado.
Alguns dias mais tarde Milo presenciou algo que não gostaria.
Estava levando alguns livros de volta a biblioteca por ordem de Krest quando ouviu a voz de seus Mestre.
¬ Ah... – Kardia estava entediado pelo tom de voz. – Já é o terceiro livro em duas horas, Dégel!
¬ Me deixe em paz Kardia. – respondeu em tom triste.
¬ O que foi? – perguntou dando a volta no mais velho. – Você anda esquisito todos esses dias. Tem evitado falar comigo. Foge quando me vê no corredor. Não me deixa mais entrar no seu quarto. Não me sorri mais. – tentou tocá-lo, mas foi afastado. – E não me deixa te tocar. Não me ama mais, Dégel?
¬ Non fale besteiras! – respondeu de cabeça baixa. – É claro que eu te amo Kardia, mas eu tenho deveres com minha família, non posso faltar com eles, sou o único homem.
¬ Como assim? – a voz do mais novo estava mais séria. – O que sua família quer?
Milo ouviu um soluço.
Dégel estava chorando.
¬ Minha família quer que eu me case Kardia. – teve de reunir muita coragem. – Já está tudo acertado... Há dois anos que está tudo acertado... Eu vou me casar com Serafina no final do outono...
¬ O quê?! – Kardia chegou a cambalear para trás. – Não! Vamos embora, então! Pedimos ajuda pro Milo, ele vem conosco! Vamos para bem longe, onde ninguém nos encontre!
¬ Non posso... – Dégel escondeu os olhos. – Eu sinto tanto, Kardia... Non posso...
¬ Pode sim! – rebateu já com lágrimas nos olhos. – É a sua vida! É a minha vida! É a nossa vida!
¬ Non Kardia... – soluçou. – Minha família quer ao menos um neto... Non de Natassha... Non de Unity... Non de Serafina com qualquer outro... Eles querem um filho meu, pois eu tenho a linhagem mais direta da família... Eu tenho que casar... Non posso faltar...
¬ Prefere ser infeliz para agradar sua família, do que ser feliz comigo? – estava cada vez mais afetado.
¬ Você non entende Kardia! – secava as lágrimas com ódio.
¬ Entender o quê?! – rebateu irritado. – Que nunca me amou?! Que só queria se divertir?! Não se preocupe, isso eu entendi perfeitamente! – e tomou o rumo da saída.
¬ Kardia Dilitírio! – tentou ir atrás. – Non me dê as costas!
¬ Imagine Mestre Dégel. – respondeu com a voz carregada de veneno e se desvencilhando para longe. – Não estou te dando as costas, ainda tenho meu dever a cumprir, só estou me colocando no meu lugar e aprendendo a deixar de ser idiota! – voltou a se afastar. – Tenha um bom dia, meu senhor! E felicidades no casório!
Dégel ruiu.
Deixou-se chorar como a tanto tempo queria, mas não podia.
Milo apenas fechou a porta deixada aberta pelo azulado e ofereceu um abraço ao rapaz que ficou.
¬ Desde pequenos que somos apegados um ao outro... – soluçou contra o peito de Milo. – Gostaria de tê-lo conhecido em outras circunstâncias...
Milo não falou nada, não tinha o direito de falar.
Apenas ficou acalentando seu jovem Mestre.
Não condenava suas lágrimas.
As pessoas choram não por serem fracas. Mas sim por terem sido fortes por tempo demais.
O tempo passou e a casa começou a ficar cada vez mais agitada.
Parentes começaram a vir de todos os lugares, até mesmo seu criador, o temido e respeitado Radamanthys Artorius York Wyvern, veio para ver a cerimonia, todos ansiando pelo casamento mais que os próprios noivos.
Milo via o ar de tristeza que todos ignoravam.
Kardia mal comia e não conseguia ficar perto de Dégel sem ter que se esconder pouco depois pra chorar.
Dégel comia apenas quando Milo o obrigava, todas as noites conseguia ouvir o choro dele e sua expressão era de pura tristeza e dor.
Serafina, que viera conviver com o futuro marido, também não parecia tão feliz quanto uma noiva devia estar.
Ninguém enxergava aquele sofrer além de Milo.
E por fim o dia marcado e aguardado chegara.
Serafina estava linda em seu vestido branco e Dégel ainda mais belo em seu sobretudo azul marinho.
Todos os convidados pareciam muito orgulhosos da união. Lá estavam Condes, Marqueses, Duques e clérigos, todos parentes dos noivos.
Os pais e avós ficavam nos bancos da frente. Mais atrás os demais parentes e convidados. E no final da catedral ficavam os criados, lá estava Milo e Kardia, vestindo suas melhores roupas.
Não existiam padrinhos. Dégel se recusou a escolher um, então Serafina também não pode escolher.
Tudo que se ouvia na imensa catedral eram as palavras do Bispo e os votos que os noivos deveriam repetir.
¬ Com esta mão espantarei as suas tristezas. Sua taça jamais ficará vazia, pois eu serei seu vinho. – os votos do rapaz eram frios como gelo. – Com esta vela iluminarei o seu caminho na escuridão. E com esta aliança eu lhe peço que seja minha.
¬ Com esta mão espantarei suas tristezas. Sua taça nunca ficará vazia, pois eu serei seu vinho. – e os da jovem também não eram dos mais calorosos. – Com esta vela iluminarei o seu caminho na escuridão. E com esta aliança eu aceito ser sua.
¬ O que Deus unir, o homem não separa. – proclamou o Bispo.
Os convidados se ergueram para aplaudir os noivos.
Kardia por outro lado deixou um soluço escapar.
¬ Kardia... – chamou Milo preocupado. – Você está bem?
¬ Estou. – respondeu tentando engolir o choro antes que mais alguém notasse.
O Bispo começou a fazer um novo discurso sobre o que era uma união matrimonial e isso não era do interesse de Milo no momento.
Afinal aquele casamento era uma farsa, os próprios criados da casa diziam isso, então para Milo as palavras do Bispo nada valiam.
As palavras que realmente valiam era a de quem estava mais próximo.
As palavras que valiam eram as de Kardia.
¬ Você é o “alguém especial” de quem Mestre Dégel falava, não é? – Milo já tinha essa certeza, mas queria saber o lado daquele que lhe era um irmão.
¬ Sempre observador. – Kardia soltou um mínimo riso e volto a secar suas lágrimas. – Mas acho que ele já explicou nossa situação.
¬ Mas... Isso... Isso é horrível! – respondeu mirando Kardia e suas lágrimas de sangue. – Ele não devia fazer isso, se ele te ama, devia ficar com o senhor, Mestre Kardia. Não com Lady Serafina. – não sabia nada sobre o amor, mas se esse era o tão falado amor, porque então? – É como se ele estivesse desprezando o seu apresso. Isso não é amar.
¬ É amor sim. – Kardia soluçou. – Vou lhe explicar Milo, então preste atenção.
Conforme o rapaz falava, Milo ia tecendo seu entendimento.
Amor é quando duas pessoas se gostam tanto que independe das situações e problemas que possam viver.
O amor é algo que nada abala e que resiste a qualquer dificuldade.
É algo que une as pessoas nos momentos ruins e celebra todos os momentos bons.
O amor vai muito além do romantismo e do erotismo, é uma questão de empenho, trabalho, cuidado e um forte compromisso.
Pessoas acreditam que o cada um constrói seu próprio amor, não existem padrões, existem qualidades e exigências que fazem cada um feliz, de acordo com suas preferências e vontades.
O amor é diferente da paixão.
Ele não se concentra em coisas fúteis e pequenas, ele se preocupa com o grande, com os sentimentos.
¬ Milo. – chamou Kardia enquanto assistia os recém-casados partirem na carruagem. – Tenho uma pergunta pra você.
¬ Pode dizer Mestre Kardia. – respondeu.
¬ Foram-nos dadas duas pernas para andar. Duas mãos para segurar. Dois ouvidos para ouvir. Dois olhos para ver. – disse o rapaz. – Mas sabe me dizer por que só um coração?
¬ Não sei.
¬ Porque o outro foi dado a alguém para nos encontrar. E quando encontrei o meu alguém, ele me foi tirado. – soluçou, deixando-se chorar agora que só restavam os dois. – Mas agora eu entendo que ele me foi tirado porque ele não suportaria me ver sofrer com as crueldades do mundo. Ele me ama ao ponto de me querer perto, mas me ama o bastante para me manter longe.
E finalmente entendeu o que significa o verdadeiro amor.
Amor quer dizer que você se importa mais com a felicidade da outra pessoa do que a sua própria. Não importa o quão dolorosas sejam as escolhas que você tiver que enfrentar. Desde que a pessoa amada esteja bem, nada mais importa.
¬ E mesmo assim, ainda não somos capazes de perceber que o amor é algo que não devia estar a relacionado a corpo, condição social, sangue ou a puta que nos colocou no mundo. – seguiu com seu discurso de cabeça baixa, as lágrimas correndo sem parar. – A sociedade não se permite perceber que você se apaixona e ama uma essência, não uma aparência ou um gênero... Eu amo o Dégel, Milo... Eu o amo muito...
Milo queria consolar, mas percebeu que nada ajudaria.
Só saberia realmente o que era o amor, quando lhe perguntassem sobre ele e não conseguisse pensar em uma definição, mas em um nome.
Fale com o autor