Frankenstain
5 Outono de 1778
Notas iniciais
Milo amava a cidade.
Adorava andar pelas ruas a observar as cores e pessoas.
Era sua diversão.
A cidade era muito bonita, com casas grandes e viçosas. A maioria das pessoas eram gentis e honestas. As cores das plantas e panos tornavam o lugar alegre e vivo.
Era um pequeno e agitado centro comercial.
Tinha dia que era impossível andar pela praça central de tantas pessoas que por ali andavam.
Gostava da cidade. Não tinham como não gostar dela.
O único problema se encontrava no irmão da felicidade, o sofrimento.
O sofrimento ainda estava presente, oculto nos cantos escuros e becos, mas ainda estava ali e insistia em aparecer na forma de proscritos.
Seu criador falava muito mal dos proscritos. Afirmava que eram ladrões, malfeitores e bandidos, não importando a origem, no entanto, tudo o que ele via eram pessoas que buscavam seu sustento no dia a dia das cidades. Engoliam seu orgulho e se submetiam as mais terríveis humilhações por uma misera moeda.
Estava sozinho na cidade, algo normal de acontecer quando eram coisas simples a se fazer, e dessa vez ele só tinha que comprar pães e estava com a quantia exata de moedas para comprar a quantia pedida.
¬ Moço... – olhou para trás.
Tinha saído a pouco da padaria, com seis pães e nenhuma moeda. Estava pronto para voltar quando foi abordado por uma menina.
Já estava próxima da idade de se tornar mulher, vestia roupas coloridas e esfarrapadas, seu olhar era sofrido e uma muleta sustentava o lado do corpo cuja perna faltava. Uma criança pequena se escondia atrás de sua saia e usava bandagens sobre um olho.
¬ Tem uma moeda para me dar, moço? – seu tom era submisso. – Ao menos o bastante para dar de comer ao meu irmãozinho. Juro não incomodá-lo mais, eu só quero dinheiro para alimentar meu irmãozinho.
Estava em um impasse.
Queria dar a moeda. Queria ajudar. Porém, tinha gastado tudo com os pães. Sabia que a menina e a criança estavam querendo apenas sobreviver, mas ele não tinha como.
Olhou entristecido para os dois, depois olhou para a bolsa de moedas e para os pães que carregava logo em seguida.
Soltou um suspiro.
Iria levar um esporro quando chegasse às terras de seu criador, mas ninguém naquelas terras passava dificuldades. A menina e a criança a sua frente passavam.
Estendeu o pacote de pães sem nenhum traço de arrependimento, só o olhar de quem sabia que iria pagar bem caro pelo ato.
A surpresa adornou o rosto juvenil.
Não estava acostumada a esse nível de gentileza, muito pelo contrario, estava acostumada a levar respostas mal educadas e tapas. Ela começou a chorar, fazendo o mais velho se desesperar.
¬ E-eu fiz algo errado? – ele olhava de um lado para o outro sem saber o que fazer. – Não sei o que fiz, mas, por favor, me desculpe.
Ela continuava a chorar, tentando abafar os soluços com uma das mãos. Limpava as lágrimas que não paravam de cair, limpando seu rosto manchado e lavando suas mãos. Sorria e por vezes ria, o que deixava o homem a sua frente cada vez mais confuso e agoniado.
¬ Não. – um soluço irrompeu pela garganta da menor. – Não. Eu estou feliz, senhor. – ela sorriu com lágrimas ainda escorrendo. – O senhor não só foi o primeiro a me dar atenção, como também foi o primeiro e, talvez o único, a dar algo para o meu irmãozinho. – ela pegou os pães e arrancou um pedaço, dando-o ao pequeno atrás de si que saio correndo sorridente com o pão em mãos. – Muito obrigado, senhor. – ela curvou a cabeça e sorriu. – Que Deus o abençoe.
Ela se virou e seguiu a criança, seu passo era lento e esforçado.
Uma verdadeira guerreira, sobrevivente da fome, medo e ignorância do mundo.
Uma menina forte que merecedora de coisas melhores, mas que ainda teria uma longa batalha pela frente.
¬ E que Ele esteja sempre contigo. – não era natural de si mencionar Deus, mas nada custava retribuir o bem querer.
Suspirou. Era comum ele suspirar.
Sentou-se na carroça com as rédeas do cavalo em mãos, tentava imaginar o que diria para Srta. Sasha quando chegasse de mãos vazias.
Diria a verdade ou uma mentira?
Já sabia que a verdade era contar os acontecimentos sem ocultar nada e esperar que as consequências não fossem tão graves, mas também tinha a total consciência de que a verdade muitas vezes podia machucar. Também sabia que a mentira era ocultar acontecimentos, viver com o medo de ser descoberto e esperar se safar.
Não queria mentir, mas também não queria dizer a verdade.
As regras de seu criador eram rigorosas e descumpri-las era um castigo na certa. Suspirou. Estava cansado de castigos, apesar de sempre tentar fazer o certo, seu criador parecia nunca estar satisfeito.
O que diria? Verdade? Mentira?
Os sentimentos de preservação e julgamento estavam em um sério conflito.
Verdade? Mentira?
¬ Bonito de sua parte isso foi. – virou-se em um ímpeto.
Tinha um senhor sentado na parte de trás da carroça.
Era baixo, usava um chapéu de palha e parecia ser de idade, muita idade. Não conseguia ver o rosto por debaixo do chapéu, levava um cajado e suas roupas pareciam de outro lugar.
Definitivamente não era dali e também não parecia nem um pouco disposto a ir embora tão cedo.
¬ Quem é o senhor? – perguntou o óbvio. – E, sem querer ser mal educado, o que está fazendo sentado na carroça?
¬ Cansado eu estava, então parar eu fui fazer.
¬ Senhor. – volveu educado. – Não entendi direito.
¬ Preocupar-se não deve. – ignorou-o. – Verdade deve contar e perdoado será.
Parou. Como ele sabia?
Tinha sido mandado para cumprir a simples tarefa de comprar pão e voltaria de mãos abanando. Não se arrependia e jamais se arrependeria de seu ato, no entanto, seu criador certamente teria um acesso de ódio.
Seu criador não gostava de proscritos, nem um pouco. E quando estava com ódio nada o segurava, não temia por sua segurança, mas sim com a de outro que estivesse por perto. Por isso seu impasse.
Se dissesse a verdade, alguém além dele podia se machucar.
Se mentisse, e se descoberto, o castigo e violência seriam ainda maiores e alguém além dele sairia machucado novamente.
Mas ele não era de resmungar, como muitas pessoas que via. Não tinha como aquele senhor saber de seu conflito.
Ainda era inocente quanto algumas coisas do mundo, então acreditava piamente quando o azulado afirmava que pessoas de idade sabiam de tudo.
Mal desconfiava que esse “poder” nada mais era do que dedução combinada à sabedoria adquirida com a idade. Porém, tinha algo a mais naquele senhor que o incomodava.
Decidiu ignorar, era apenas um senhor.
¬ Senhor. – começou. – Eu tenho que partir e não sei se o caminho que tomarei é o mesmo que o seu. – explicou. – Se for, eu não me incomodo de levá-lo até onde posso, mas se não for, eu sinto muito, gostaria que o senhor saísse para que eu possa partir.
Percebeu que o senhor possuía barba, viu a mesma se mexer enquanto o senhor contorcia um pouco sua expressão. Talvez estivesse indignado com a forma com que Milo falara ou, quem sabe, estivesse considerando a oferta.
¬ Que caminho tomará meu jovem?
¬ O do Norte. – indicou.
¬ Uma história para você irei contar. – foi tudo o que disse antes de se ajeitar melhor na carroça. – Insistir nada resultará, sair não irei enquanto a história não contar. – a fala do senhor era estranha e só conseguia entender depois de algum tempo. – O Norte você vai e para lá devo ir. Com você irei para meu destino chegar, enquanto lá não chegar a história vou contar.
¬ O senhor não é daqui, é?
Bateu as rédeas duas vezes para que o animal partisse.
Chacoalharam um pouco até saírem da pequena cidade, e se mantiveram em silencio até saírem de seus limites. Somente quando estavam praticamente no nada é que o senhor voltou a se pronunciar.
¬ Há muito tempo, na China, viveu um menino que de flores muito gostava. – início o dialogo com calma. – Com mãos dedicadas, Ping, assim se chamava ele, cultivava orquídeas e outras flores, bambus e pequenos arbustos e ainda arvores de fruto.
¬ O senhor vai me contar a história de um jardineiro? – questionou um tanto indignado. – E o que é essa tal China? – ouviu o senhor bater o cajado e achou prudente se calar.
¬ Cada planta por ele tocada forte e viçosa crescia. – prosseguiu. – Todos os habitantes do império também de flores gostavam muito e tratavam-nas com igual carinho. Por todo lado plantavam-nas e delicioso era o ar perfumado. – dava para imaginar o quão agradável seria um lugar desses. – O Imperador muito gostava de pássaros e outros animais, mas, acima de tudo, as flores preferia. Todos os dias, o seu próprio jardim cultivava.
¬ Um Império de Jardineiros, acredito conhecer alguém que odiaria esse lugar. – verdade seja dita, seu criador odiava plantas. – Mas o senhor ainda não disse o que é China.
¬ O tempo passou e o Imperador, de avançada idade e sem parentes ou filhos próximos, precisou escolher um sucessor. – o senhor continuava a ignorar seus comentários um tanto descabidos. – Quem poderia seu sucessor ser? Como escolher poderia? Dado que gostava tanto de flores, deixar que fossem elas a escolher por ele decidiu.
¬ Mas flores não falam. – parece que seus comentários estavam irritando o senhor, que bateu em sua cabeça com o cajado. – Isso dói! – protesto que fora respondido com outra cajadada.
¬ No dia seguinte, mensageiros enviou a todos os cantos do império com uma ordem: os meninos ao palácio dirigir-se deviam. Imediatamente milhares de súbditos pequenos tomaram o caminho do palácio.
¬ Foram a pé?! – outra cajadada e mais protestos.
¬ O Imperador todas as crianças esperou chegar. – e o senhor, sempre de forma calma prosseguia com seu discurso. – Apareceu, então, no seu cavalo branco montado com ar de felicidade. “Crianças”, ele disse com voz determinada, “preciso de escolher o meu sucessor entre vocês. Para isso, tenho uma tarefa muito especial para vos dar”. Então, muitas sementes de flores mostrou-lhes. “Tenho aqui estas sementes. Quero que as levem e as cultivem. Quem me trouxer a flor mais bonita, mais cuidada, ao fim de um ano, será o meu sucessor”.
¬ Ocioso. – conseguiu segurar o cajado antes que acertasse sua cabeça e sorria ladino. – Aprendi! – seu tom era brincalhão, mas o sorriso em seu rosto morreu quando o senhor moveu o cajado de forma que ele acertasse o próprio rosto. – AI!! – soltou o cajado para averiguar o estrago em seu nariz.
¬ Sonhavam os pais que os seus filhos escolhidos como sucessores do Imperador fossem e os meninos com ilusão o mesmo esperavam. – nada impediria aquele senhor de terminar sua história e, por mais que fosse tentador agora, jogá-lo para fora da carroça também não parecia ser a melhor das opções. – Quando Ping recedeu a sua semente das mãos do Imperador, o menino mais feliz de todos foi. Seguro estava que cultivar a flor mais formosa podia. Um excelente jardineiro ele era.
O senhor parou e Milo virou-se para ver o que aconteceu. Ele o observava como quem esperava algo.
Percebeu que esperava um comentário seu, pois o cajado já estava preparado para acertá-lo.
Sabia que era bem provável levar uma cajadada na cabeça, mas achou prudente falar algo, do contrario, ficariam nesse impasse pelo resto do trajeto.
¬ Pode continuar, eu já desisti de retrucar. – o senhor pareceu sorrir, mas deu-lhe uma cajadada do mesmo jeito.
¬ Quando em casa chegou, um vaso de terra fértil encheu. Depois, com mil cuidados, a semente nela colocou. Cuidadosamente, regou-a. Depois, estrumou-a, para que ela com vigor se desenvolvesse. Estava ansioso por vê-la brotar, crescer e florescer. – falando assim, parecia fácil cuidar de plantas. – Os dias passaram, depois, semanas, mas nada acontecia, a semente não germinava. Ping preocupar-se começou. Decidiu pôr terra num vaso maior. Na sua inocência, pensou que esse deveria ser um fator importante para o início da vida de uma planta. Em seguida, mudou a semente. Esperou algum tempo, mas nada aconteceu. – mudou de ideia, não era fácil cuidar de plantas. – Ping desesperava. É que, por mais que se esforçasse a semente não brotava. O menino tudo fez: adubou mais a terra, colocou o vaso ao sol, regou a semente com água nascente, mas nada valeram os seus esforços. No fim do inverno, completava-se um ano. A tristeza apoderou-se de Ping.
¬ Mas e agora? – não podia negar, acabou se envolvendo com a narrativa e estava interessado em seu desfecho. – Ele não tinha uma flor, o que faria para explicar ao Imperado? – cajadada. – Eu estou prestando atenção! – tentou argumentar, mas ganhou mais uma cajadada.
¬ Chegou a Primavera e, com ela, o fim do prazo dado pelo Imperador. – podia sentir um possível galo latejando em sua cabeça. – Todas as crianças para irem à presença do Imperador se prepararam. No dia aprazado, todos acorreram ao palácio, acalentando a esperança de serem os eleitos. – todos menos um, pensou Milo. – Envergonhado com seu vaso vazio Ping estava. Pensou que os outros meninos escarnecer dele iriam porque cultivar uma flor não tinha sabido. Ao palácio chegavam meninos carregando vasos com flores de todas as cores. Até o vizinho de Ping exibia, orgulhoso, as belíssimas flores do seu vaso.
¬ Isso é maldade. – protestou e ganhou outra cajadada. – Francamente, tem como o senhor parar de me bater?! – outra cajadada, estava começando a elaborar planos de como quebrar aquele cajado.
¬ Ping muito triste estava, mas o pai reconfortou-o: “Fizeste o melhor que pudeste. A tua dedicação foi extrema, mas a semente não brotou. Não te envergonhes, filho. Diz a verdade ao Imperador. Talvez seja esta a lição que o Imperador deseje que tu aprendas. Algumas vezes, a verdade não é tão bonita como uma flor, mas precisamos de a encarar com coragem para vencer grandes desafios”. – fez uma careta ao imaginar seu criador falando isso para Mestre Dégel ou Mestre Natassha. – Animado com estas palavras de esperança, o menino pegou no vaso vazio e rumou ao palácio. Sentado no seu trono, o Imperador examinava minuciosamente as plantas. Perguntava a cada criança o que aprendera com a semente e todas respondiam ter aprendido sobre talento, a perseverança e o dom necessário para fazer a semente brotar.
¬ Mas porque a semente delas brotou e a de Ping não?! – estava enervado com a desgraça da personagem e ganhou outra cajadada.
¬ Que linda era aquela quantidade de flores! – comentou em tom alegre. – Porém, permanecia sério o Imperador e palavra alguma dizia, sequer sorria. Finalmente, aproximou-se de Ping, que inclinou a cabeça, cheio de vergonha, esperando ser repreendido. “Se o Imperador não aprovou aquelas plantas maravilhosas, o que não dirá do meu vaso contendo apenas terra?”, pensou o menino, receoso. – agora seu tom voltou ao normal, na verdade, parecia até triste. – Ping fora-se atrasando intencionalmente e, quando deu conta, era o último. “Vejamos”, perguntou-lhe o Imperador, aproximando-se com grave voz, “O que tens ai para me mostrar? Hum... Por que trouxeste um vaso vazio?”. Ping a chorar começou e respondeu cheio de pudor: “Senhor, pus a semente que me deu na terra, reguei-a e tratei-a com todos os cuidados, mas não germinou. Coloquei-a num vaso maior, mas tão pouco a situação melhorou. Esperei o ano inteiro... Mas nada. Estou envergonhado e peço perdão... Talvez tenha sido falta de sorte, mas dedicação não me faltou”. E concluiu: “Refleti muito sobre qual seria a minha atitude e optei por dizer a verdade, relatar-lhe meu esforço e rogar-lhe perdão”.
¬ Devo admitir, o menino é corajoso. – outra cajadada. – Para! – mais outra.
¬ Quando o Imperador escutou estas palavras, sorriu, abraçou Ping e exclamou: “Encontrei! Encontrei uma pessoa digna de ser o próximo Imperador!”. E dava pulos de alegria, como uma criança. – a expressão de Milo se contorceu. – “Não te envergonhes, menino. Levanta a cabeça. És o meu futuro sucessor. E vós”, aos outros disse o Imperador, “Prestai atenção: Hoje, o valor que prevaleceu foi a verdade, a honestidade”. – como assim? – E dirigindo-se novamente para Ping continuou: “Vou-te explicar. Eu tinha queimado todas as sementes antes de as entregar às crianças. Nenhuma poderia germinar, jamais. Portanto, entre todas as crianças que aqui estão, tu foste a única que cultivou a Semente da Verdade”. – não sabia dizer se o Imperador era esperto ou o capeta em pessoa para fazer uma criança sofrer tanto. – Voltando-se novamente para os pequenos súbditos, rematou: “Admiro a grande valentia de Ping de comparecer diante de mim com sua verdade vazia. Assim, concedo-lhe o título de Imperador da China!”. – o senhor soltou um pequeno riso e bateu-lhe com o cajado só para não perder a pratica. – Terminada história esta, meu rapaz. E China um grande império ser. – ficou feliz pelo senhor ao menos se lembrar de respondê-lo.
Sabia que histórias existiam para nos dar exemplos e lições de moral.
Suspeitava, ou melhor, tinha certeza de qual era a moral da história, mas estava passando por uma pequena negação, então, decidiu ter a resposta da boca do senhor.
¬ Então a moral da história é...
¬ Mesmo vergonhosa e dolorosa, verdade ainda melhor caminho ser. – o senhor se levantou. – Aqui minha parada é.
Antes que pudesse falar ou fazer algo, o senhor pulou da carroça em movimento.
Milo logo foi invadido por um verdadeiro medo do senhor ter se machucado, e também pulou para socorrê-lo.
Porém, parou onde caio.
Agora um homem o encarava com um grande sorriso, parecia a versão mais jovem do senhor, o que era reforçado pelas vestes e cajado. Ele sorria e andava calmamente para Leste, sem nunca desviar o olhar de Milo, mesmo que de costas.
¬ Não se esqueça. – afirmou. – A verdade é sempre o melhor caminho.
Passou alguns minutos vendo estranho se afastar, tentando entender como um homem jovem conseguiu se passar por um velho e enganá-lo, ou, então, como um velho se transformou em um homem jovem.
Somente quando lembrou que o cavalo com a carroça ainda seguia sem ele é que despertou e passou a correr atrás do animal que já estava relativamente longe.
Depois daquela história, Milo passou a remoer ainda mais o ocorrido na cidade. Diria a verdade? Ou a mentira?
Guardou o animal e a carroça, fechou a bainha depois de fazer um carinho no animal. Saio e olhou para o horizonte, concluindo que tinha se atrasado e que por sorte ou azar, depende da bronca que levaria depois, o pão já não tinha mais importância.
Dirigiu-se para trás da casa, tinha que pegar água do poço para limpar o cavalo que o levou a cidade. Voltou para os estábulos e passou a cuidar do animal, molhando um pano e torcendo, passando com carinho nas patas e testa do animal.
Ouviu a porta dos estábulos se abrir, não deu muita importância, pensou que fosse Mestre Kardia.
¬ Onde está o pão?
Congelou.
Aquela voz grossa e profunda era sempre sua perdição, odiava ouvi-la, era sinal de desastre ouvi-la.
Levantou-se lentamente e fez um carinho atrás da orelha do animal.
¬ De todos nessa casa, porque justo o Diabo? – sussurrou para o animal.
Virou-se para encará-lo de cabeça erguida.
Não gostava de sua presença, nem de sua voz e muito menos de seu olhar, mas tinha que aturá-lo. Não podia erguer a voz e nem reagir, sempre se manteve submisso e muitas vezes não entendia nem o porquê de abaixar a cabeça para aquele homem.
Mas o que podia fazer? Já estava condicionado a isso e não era fácil mudar, apesar de ter a vontade.
Só que existia algo que o incomodava. Ainda estava indeciso entre a verdade e a mentira.
Precisava decidir e temia se arrepender.
¬ Eu... – hesitou em sua decisão. – Eu dei os pães para crianças com fome. Desculpe. – abaixou a cabeça como quem é culpado de um crime pior. – Elas pediram e eu não consegui negar, afinal, elas pareciam bem mais necessitadas do que qualquer um nessas terras. Sinto muito, Criador. – abaixou a cabeça ainda mais. – Se quiser, volto agora mesmo para comprar mais pão.
¬ Deixe-me ver se entendi. – não olhava, mas sabia que ele estava de braços cruzados e o olhar mais duro que o normal. – Você deu o MEU pão, que foi comprado com o MEU dinheiro, para ladrõezinhos?
A palavra “ladrõezinhos” o atingiu em cheio.
Sentiu um calor absurdo subir por sua cabeça, sentiu a expressão se contorcer e uma vontade insana de enterrar a mão no rosto do homem a sua frente. Mas respirou bem fundo e conteve o ódio, apesar de sua voz ainda possuir um tom venenoso.
¬ Não vejo como uma menina sem perna e uma criança saída do colo possam ser “ladrõezinhos”. – respondeu o menos mal educado que conseguia. – Eles estavam com fome, tudo que queriam era um pouco de comida e eu tinha pão. Era tudo o que eu tinha, era tudo o que eu podia oferecer. – ele abriu os braços para indicar o todo. – Aqui, nós temos uma dispensa enorme, comida nunca nos falta, e estás a reclamar por conta de seis pães?
A postura de Milo irritou seu criador, que não precisou de nada mais do que um gesto para indicar que ele estava passando dos limites.
Milo se calou a contra gosto.
Ainda se perguntava o porquê de abaixar a cabeça, e o pior é que sabia a resposta.
¬ Ainda tenho as agulhas e linhas que usei para te juntar. Se eu quiser, posso costurar sua boca mal educada. – nunca admitiria, mas sentiu um frio subir pelas costas e uma sensação desconfortável onde ainda existiam pontos. – Nunca mais fale comigo assim. Agora me dê uma boa razão para que eu não faça coisa pior.
Odiava ter que ficar dando satisfação para aquele homem, no entanto sabia que isso seria algo normal de sua vida enquanto ainda morasse sob aquele teto.
¬ Se o simples fato deles precisarem mais do que qualquer um nessa casa não lhe convence, nada nesse mundo há de convencê-lo. – respondeu. – Castigue-me se quiser, mas saiba que nunca vou me arrepender do que fiz.
Abusou. Passou dos limites. Pode ver pela expressão de seu criador.
Não tinha o que fazer. Se evitasse ou revidasse seria muito pior, então apenas esperou pela dor decorrente de algum soco e depois um duro castigo que era incapaz de imaginar, pois ao contrario de si, seu criador tinha uma grande imaginação no que diz respeito castigar as pessoas.
Esperava por tudo, menos ter a mão de seu criador pousada em seu ombro.
Engoliu um seco e ficou olhando com certo desespero para mão de seu criador. Não tinha ideia do que ele faria e, pela primeira vez em sua existência, temeu seu criador.
¬ Você foi corajoso de me dizer a verdade. Ainda estou irritado com sua língua ferina, mas acho que foste justo. – estava mudo. – Minha esposa costumava dizer que nem todos no mundo são monstros com sorrisos bonitos, também existem Quasimodos com almas lindas. Ela diria que você fez bem em ajudar esses Quasimodos. – permanecia mudo enquanto o via se afastar até as portas do celeiro. – Se não fosse um monstro, eu até poderia ter orgulho de você. – e saio.
Depois disso Milo tentou se beliscar, pois jurava estar sonhando pela primeira vez em sua existência.
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