Frankenstain
6 Inverno de 1779
Notas iniciais
Tinha que admitir que se assustou quando tudo aquilo começou.
Nunca antes fora chamado por seu criador para conversar, o que dirá conversar no escritório do mesmo. E quando isso aconteceu pensou que o homem devia estar às portas da morte ou muito doente.
Afinal seu criador preferia ver o Diabo em pessoa, mas não queria ver Milo nem vestindo roupas de ouro e prata.
Atendeu a convocação inesperada, afinal ele ainda era seu criador e Mestre, devia obedecê-lo. E teve a tão temida “conversa”, onde apenas ouviu e nada falou.
Desde então começou a trabalhar no que seu criador mandara.
Toda semana ele queria saber do progresso de Milo no que lhe fora mandado e quando o trabalho estava quase pronto as coisas foram esclarecidas para o restante da família, que não entendia o porquê de Milo passar o dia inteiro trancado nos estábulos.
Foi um anuncio bem simples, segundo Kardia.
Seu criador apenas ditou o futuro do único herdeiro varão com a frase: “Dégel. Você vai para Paris daqui duas semanas, morar na casa de seu avô Krest, estudar nas melhores escolas por sete anos e se formar em Direito ou Medicina. Vou mandar Milo e Kardia com você”.
Kardia lhe contou que o mais velho não disse nada contra o pai, para seu espanto pessoal, apenas aceitou as palavras deste.
E como fora outorgado por seu criador, em duas semanas Milo estava arrumando os baús na parte de trás da carruagem que passou três meses reformando para a aguardada data.
Kardia e Dégel seguraram o choro durante toda a despedida. Sasha e Natassha choraram o tempo todo, exigindo cartas e noticias constantes. Tenma e Alone estavam visivelmente abalados e apenas disseram para se cuidarem. E seu criador apenas se despediu, não parecia em nada abalado.
Logo os três já estavam a caminho de Paris.
A carruagem chacoalhava um pouco na estrada de terra. Para qualquer um dos lados que olhasse só tinha campos de trigo cobertos por neve e bosques ainda virgens. No caminho não havia alma viva.
¬ Milo. – chamou Dégel. – Quanto tempo falta pra chegarmos?
¬ Vosso pai dissera três semanas Mestre Dégel. – respondeu – E ao que me consta, essas três semanas já passaram, então devemos estar bastante perto.
O menino apenas voltou para dentro da carruagem e deixou Milo seguir com a viagem.
E no final Milo estava correto em sua estimativa.
Avistou a magnífica e vivaz cidade ao longe. E logo mais estava adentrando as ruas da cidade, onde os cascos do cavalo geravam eco em meio à agitada cidade, que se mostrava bela como nenhuma outra, mas que escondia suas impurezas em becos e ruas vazias como qualquer outra.
Tocavam os sinos. Paris despertou ao soar de Notre-Dame.
Já havia peixe fresco e o pão já assara ao soar de Notre-Dame. Sinos grandes com sons trovejantes e pequenos com sons de oração. Pareciam divinos os sons dos sinos. Os sons de Notre-Dame.
¬ Onde fica a casa de vosso avô, Mestre Dégel? – perguntou Milo guiando o animal pelas ruas de modo que pudesse ver tudo.
¬ Papa falou algo sobre Chatto Bluergraad em Neuilly-sur-Seine. – respondeu. – É só seguir as carruagens chiques, dizia Mama. Depois avistara uma placa com o nome do lugar, siga até ver o Chatto cujo brasão de armas acima do portão seja o de um navio mercante com tridentes cruzados e com um céu estrelado. Isso ajuda?
¬ Muito. – respondeu sorrindo e indo atrás de uma dessas carruagens.
Algumas pessoas os cumprimentavam quando passavam a cavalo, a pé ou até mesmo de carruagem. Seu transporte era simples, mas ainda era símbolo de poder, daí tamanha “gentileza”.
¬ Seu francês tá melhorando. – brincou Kardia.
¬ E você lá sabe francês pra julgar, Kardia? – respondeu tentando não soar mal educado.
¬ Apenas o básico do básico. – respondeu rindo ladino. – Mas você tá fazendo biquinho e dizem que franceses falam fazendo biquinho. Cuidado pra não ficar bicudo. – riu consigo mesmo, nem Milo conseguiu evitar um risinho ao ouvir.
O mais velho se recusou a responder e apenas ignorou o mais novo a partir dali. Não estava bravo de verdade, só não queria dar razão à Kardia, coisa que o azulado sabia e muito bem.
O trajeto se estendeu por mais algum tempo. Tempo em que a vista de prédios iguais e ruas movimentadas foram substituídas por grandes mansões com diferentes requintes e belezas.
Passaram pelo magnífico portão de ferro trabalhado, sustentado por pilastras bastante belas e ladeado por duas estatuas de mulheres. Ambas as estatuas portando escudos, lanças e um elmo, uma coruja repousava em seus ombros.
A porta maciça de carvalho se abriu para revelar um pequeno grupo de criados devidamente uniformizados. Eles mais do que prontamente guiaram Dégel pelos corredores da grandiosa construção e levaram suas bagagens.
Kardia e Milo, por outro lado, foram levados para uma casa nos fundos, dedicada aos criados. Lá se instalaram como era possível e tomaram merecidos banhos.
E quando a noite chegara, puderam conhecer o dono daquela magnífica casa.
¬ Odeio essas roupas. – Kardia queria tirar aquele laço em seu pescoço.
¬ Se comporte. – disse Milo. – Mestre Dégel vai nos apresentar a seus parentes, devemos estar apresentáveis e causar boa impressão, do contrario nem na casa vamos entrar.
¬ Como tem tanta certeza? – revidou.
¬ Perguntei ao cocheiro quando fui ver o tratamento que estavam dando a Antares e Aurora. – respondeu se lembrando dos belos cavalos.
O azulado apenas gemeu injuriado e aguardou ao lado de Milo até que fossem chamados.
Coisa que não demorou a ocorrer.
¬ Lord Krest. – dissera Dégel bastante respeitoso. – Estes são os criados que meu pai mandara comigo. Milo e Kardia. Seria pedir demais que eles me servissem enquanto estou sob seu teto?
Curioso.
Milo entendia perfeitamente o que Dégel falara, mas Kardia parecia apavorado.
O homem a sua frente era bastante sério e não apresentava muitos sinais de idade. Sua beleza era rígida e fria, assim como os olhos castanhos avermelhados.
Ao seu lado tinha duas crianças. Um menino e uma menina. Ambos bastante parecidos e de cabelos tão claros que se tornavam brancos.
¬ Eles entendem francês? – perguntou o mais velho, pelo jeito notara Kardia.
¬ Non. – respondeu o menor. – Mas acredito que se passarem algum tempo na casa, convivendo diretamente com a língua, podem sim passar a compreendê-la e talvez até falá-la.
¬ Pois bem. – prosseguiu o mais velho. – Deixarei que os dois o sirva, desde que sigam as regras de minha casa e ajudem caso convocados pelos outros empregados. Apresente a casa para eles caso se sinta disposto, do contrario peça para um dos criados. Esta dispensado por hoje Dégel. Qualquer cousa venha falar comigo. – virou-se para as outras duas crianças. – Unity. Serafina. Vão com seu primo. Precisão criar laços mais fortes.
As crianças apenas assentiram e logo os acompanhavam.
A mansão lhes fora mostrada por completo. Agora sabiam onde ficavam todos os cômodos e onde poderiam encontrar Dégel com mais frequência.
O menino até tentara integrar tanto os primos quanto Kardia, mas isso se mostrou uma tarefa impossível uma vez que a língua era uma barreira até maior que a condição social.
E ao final do dia Milo quis conversar com Dégel a fim de saber mais sobre sua família, pois ainda tinha uma missão muito importante dada por seu criador.
Krest Depardieu Aquarion Aragon era o patriarca e Conde de Aragon.
Garnet Vouivre Aquarion Aragon era a matriarca já falecida.
Pandora Depardieu Aquarion Vouivre Aragon Wyvern era a filha mais velha, também já falecida, e mãe de Mestre Dégel e Mestre Natassha.
Garcia Depardieu Aquarion Vouivre Aragon era o filho caçula e pai dos jovens Unity Depardieu Aquarion Vouivre Scilla Aragon e Serafina Depardieu Aquarion Vouivre Scilla Aragon. Este atualmente se encontrava no Palácio de Versalhes na companhia da esposa, resolvendo alguns assuntos importantes em nome do pai.
Nomes deveras pomposos e exagerados em sua opinião, mas que segundo Dégel eram fundamentais para se conhecer as origens de um homem. O que não lhe tinha sentido, afinal todos os homens vieram de Adão e Eva. Como um nome podia torná-los tão diferentes?
Mas isso não tinha importância agora.
Com tais conhecimentos adquiridos, Milo pode seguir com sua tarefa. E no momento aguardava ser chamado, e quando isso ocorreu chegou a engolir seco quando se viu completamente sozinho.
¬ O que desejas tratar comigo senhor? – o avô de Dégel era assustadoramente sério.
O bom é que ao menos ele se dirigia a Milo em alemão.
Seria difícil explicar como entendia e, talvez, falava francês fluente.
¬ Meu Mestre mandou-me entregar uma carta para o senhor, Sua Graça, e outra para vosso filho. – quase escorregou e falou “criador”, sem contar que era uma dor de cabeça lembrar que devia chamar aquele homem de “Sua Graça”. – Ele disse ser muito importante e que eu devia entregá-las o quanto antes.
¬ E onde estão essas cartas? – também era um homem direto.
Milo apenas retirou as duas cartas da pequena bolsa que trouxe consigo. Estendeu a endereçada ao mais velho e guardou a outra.
¬ Porque não pode me entregar a outra carta também? – questionou com a sobrancelha erguida.
¬ Desculpe-me. – curvou-se levemente. – Meu Mestre fora bastante claro. A carta endereçada à Sua Graça deve ser entregue ao senhor e somente ao senhor. A carta endereçada ao Lord Garcia deve ser entregue a ele e somente a ele.
O homem o estudou por alguns minutos.
Podia sentir o olhar o despindo de suas palavras e intenções. O olhar daquele homem buscava por uma alma.
¬ Pois bem. – enfim cortara o silencio sufocante. – Pode ir. Meu filho retorna do Palácio de Versalhes dentro de dois meses. Até lá cuide bem da carta que lhe é endereçada e, principalmente, cuide muito bem de meu neto.
¬ Sua Graça não pede. Sua Graça manda. – curvou-se novamente e retirou-se.
O homem que ficou apenas se espantou.
Era inspirador saber-se de uma lealdade.
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