Frankenstain
43 Lembranças de 1860
Notas iniciais
Nunca antes passara por uma vergonha tão grande na sua vida.
¬ SUI!! – esbarrou em uma moça. – Desculpa! SUI!!
Estava correndo desesperado atrás do que podia ser um engano.
Era a primeira vez que ia sozinho para Paris.
Só tinha que comprar os mantimentos que sua família precisava e voltar antes que o sol deitasse no horizonte, mas agora corria atrás de uma possível ilusão.
¬ SUI!! – estava quase alcançando. – SUI!!
Estava na Praça de Notre-Dame e agora não tinha mais ninguém para atrapalhar seu caminho.
Agarrou o braço alvo com força o bastante para frear a pessoa e obrigá-la a lhe dar atenção.
¬ Sui. – sentia que iria desmoronar a qualquer momento.
O rapaz que perseguia o mirou assustado, os olhos azuis foscos tinham um brilho verde surpreso e os cabelos negros com poucos fios castanhos se soltaram da fita que o prendia.
Seus ombros caíram no mesmo instante.
Eram parecidos, mas não era quem procurava.
O cabelo deveria ser totalmente castanho e os olhos verdes de raposa deveriam brilhar como os de sua mãe.
O rosto lembrava o da mãe, mas cabelos e olhos não mudam assim, não sem uma força externa.
Queria muito, mas não era ele.
¬ Perdoe-me. – disse o mais novo. – Não sou esse Sui que procura.
¬ D-Desculpe... – sentia as lágrimas querendo escorrer. – Eu me enganei...
Afastou-se o mais depressa possível, sentia as lágrimas escorrerem impiedosas por seu rosto e as lembranças voltarem em ondas violentas.
¬ M-Moço! – o rapaz que prendera por um curto tempo tencionou ir atrás de si. – Espere moço!
¬ Shun! – seu braço foi agarrado novamente. – O que eu disse sobre se afastar e falar com estranhos?
¬ Mas Ikki...!
Correu por centenas de metros e não ousou olhar para trás uma única vez. A última vez que se sentiu tão impotente e fraco foi naquele dia, naquele dia horrível quando sua família simplesmente foi desfeita.
Foi há 18 anos.
Seu irmãozinho tinha nascido não fazia nem uma semana.
Sua mãe estava muito fraca, pois sofreu com complicações e por pouco ela e filho caçula não sucumbiram.
Foi um susto, claro, mas agora que estava tudo bem podiam respirar mais aliviados e voltar para rotina de sempre.
Como era ingênuo, tinha apenas três anos afinal.
Seu irmão era diferente, era muito diferente.
Lembrava-se até hoje da expressão de medo e dor que tomou o rosto de seu pai ao pegar o filho recém-nascido no colo.
Na época não entendeu, se quer tinha idade para entender, no entanto, descobriu anos mais tarde que as razões para aquilo estavam no que realmente seu irmão era.
Sui era o nome de seu pequeno e querido irmão.
No dia que o menor nasceu, prometeu que o protegeria com todas as suas forças e que jamais permitiria que algum mal lhe ocorresse.
Amava-o mais do que tudo no mundo e mesmo ele tendo menos de uma semana, vivia com o pequeno no colo, sempre cantarolando alguma melodia ou contando uma historinha ou dizendo o quanto ele era amado.
Mas isso não bastava para proteger seu irmãozinho.
Sui era um Puros. E não somente isso, ele era o Puros mais puro.
Quando lhe contaram isso da primeira vez não entendeu nada e queria mais que o mundo explodisse. Era seu irmão!
Mas depois entendeu.
Os Puros são almas extremamente boas, extremamente carinhosas, extremamente gentis, extremamente etéreos e inocentes. Os Puros são basicamente tudo que pode haver de bom no mundo e Sui era o mais casto.
O problema disso se encontrava no fato de que quanto mais estreme, mais simples era para se depravar.
E isso era tudo o que um Princips, necessitado de um corpo mortal forte, precisava para andar entre os homens.
Lembrava-se de cada palavra.
¬ Papa. – chamou sentado ao lado do mais velho. – O que é iso? No é feio?
¬ É um pentagrama, filho. E não, não é feio. – respondeu lhe fazendo um leve carinho. — Vai proteger seu irmão de todas as coisas ruins desse mundo.
¬ De toda, Papa? – disse todo feliz.
¬ Bom, de todas que não sejamos capazes de meter uma bala. – respondeu rindo.
Lembrava-se de cada sentimento.
Gostava de ficar deitado com a mãe até a hora de dormir e agora o irmãozinho também lhe acompanhava nesse gostar.
¬ Sente meu anjo? – perguntou-lhe a mãe, a voz não passando de um fio. – Sente o peito do seu irmãozinho subir e descer?
¬ Como dome. – disse fazendo um leve bico, a mão pousada delicadamente nas costas do bebê. – Ando ei vai pode bica comigo?
¬ Logo meu anjinho, logo. – sorriu para o mais velho dos filhos.
¬ Poque ei dome tanto Mama? – arrumou-se melhor nos braços da mãe.
¬ A pergunta certa é: “Porque ele dorme tão bem?”. – disse fazendo um carinho nos cabelos negros do filho.
¬ Eto poque ei dome bem, Mama? – refez sengundo instruído.
¬ Porque sabe que é muito amado. – riu e arrumou-se melhor para dormir, ajeitando seu bebê no peito e seu pequeno ao seu lado.
¬ Eu tambe domia bem, Mama? – perguntou.
¬ Dorme até hoje. – deu um beijo em sua cabeça e sorriu, aquele sorriso que só ela tinha. – Agora. Durma bem. – deu mais um beijo em sua cabeça e outros dois em seus olhos.
Não tinha como não adormecer dessa forma.
E...
Lembrava-se da armadura negra.
Havia gritos e soluços, pedidos desesperados por socorro e por um meio de escapar daquele inferno que se formava.
¬ KAGAHO!! – urrava o pai desesperado. – SUI!!
A chuva implacável transformava o campo em que estavam num verdadeiro pântano iluminado pelas chamas dos furiosos ataques.
¬ PAPA!! – corria o mais rápido que podia com o irmãozinho chorando em seu colo. – PAPA!!
Uma risada trovejante e cruel inundou os ouvidos infantis ao mesmo tempo em que mais uma explosão era causada quase do seu lado.
¬ PAPA!! – urrou ainda mais alto, tentando não chorar a todo custo.
Todos fugiam desesperados, poucos sobraram para enfrentar o homem de armadura negra e olhos cor de sangue.
Trincou uma costela ao cair e tentar proteger o irmãozinho.
Uma dor lancinante o fez gemer de dor e ver luzes piscarem mesmo de olhos fechados, tentar respirar e se acalmar só fazia a dor piorar.
¬ PORQUE NÃO ALCANÇO?!! – urrava aquele homem de armadura negra.
Prendeu a respiração ao vê-lo sobre si, tentando a todo custo atingi-lo com seus golpes, que por alguma razão simplesmente se desviavam.
Era como se tivesse um escudo sobre si e o irmão.
¬ SE AFASTE DOS MEUS FILHOS!!
Assistiu aquele monstro vestido de preto ser jogada pelos ares com um sopro furioso de ar em chamas, logo mais uma ave de fogo o acertou e levou consigo um pedaço da armadura.
¬ Kagaho! Sui! – sentiu ser pego no colo. – Meu filho, vocês estão bem?
O pai corria por entre os corpos banhados em sangue e lama, abraçado aos filhos na tentativa de escondê-los daquele horror e tentando achar um caminho que os livrasse.
O mirava admirado, nunca antes tinha visto aquilo.
A pedra benben que o pai carregava em anel agora brilhava em uma espécie de elmo que cobria todo seu rosto, deixando apenas os olhos à vista. Ombreiras imponentes protegiam-lhe os ombros e parte das costas. Proteções de braço se estendiam até depois dos cotovelos e formavam laminas, lembrando esporões de aves de rapina.
¬ DÊ-ME MEU SENHOR, VERME!! – urrou o inimigo.
¬ SÓ POR CIMA DO MEU CADÁVER!! – urrou o pai em resposta.
Viu o pai rasgar o chão com o pé e dali sair uma gigantesca parede de fogo que deteu seu perseguidor por algum tempo.
Enquanto tentavam desesperadamente escapar, viu no pescoço do irmão aquele tal de pentagrama.
Nunca ia esquecer-se daquele simples objeto.
Um colar de prata em forma de circulo, dentro dele uma estrela com uma pequenina pedra benben.
Estavam cercados pelas chamas criadas pelo pai na esperança de afastar o agressor, sua única saída agora era o Vístula.
O pai apanhou um cesto em chamas pelo caminho e correu com os dois até o rio, onde mergulhou o cesto e findou as chamas.
¬ Papa... – as lágrimas marcavam seu rosto quando o pai o fez entrar no riu e agarrar-se ao cesto.
O mais velho criou uma nova coluna de chamas nas duas margens e voltou a mirar os filhos, pela primeira vez via o pai chorar.
O mais velho voltou ao normal, aquela proteção que o cobria antes sumiu e ele agora colocava o anel em sua mão, passando-lhe o título de futuro Wánax.
Seu irmãozinho chorava a plenos pulmões, mas aquietou-se um pouco ao sentir a mão do pai lhe dispensar um carinho, assim como fazia com o irmão mais velho.
¬ Quietos, meus filhos, não devem chorar...
Sejam fortes até o fim...
Cuidem um do outro...
Amem sem temor...
Eu os verei do eterno jardim...
Cantava tão suave quanto fosse possível, estava usando de seu dom, tentando evitar um sofrer maior.
¬ Papa... – estava com medo.
¬ Não temam meus filhos, não devem chorar...
Ao rio os entregarei...
Durmam e se lembrem de que ouviram meu cantar...
E junto a vocês estarei...
Sentiu ser empurrado e logo depois começou a sentir que era arrastado junto do irmão, agora adormecido. O cesto precário deixava um pouco de água entrar, mas nada que pudesse prejudicar.
O pai continuou a mirá-los entre lágrimas.
¬ Papa... – esticou a mão, porque ele não vinha? – Papa!
¬ Durma e sonhe... – o mais velho lhe sorriu. – Sonhe e Faça...
¬ Papa... – sua visão foi escurecendo e logo não via mais nada.
Nunca saberia dizer o que viu ou deixou de ver.
A morte de seu pai foi uma certeza que embalou seu sono aquele dia.
Mas o que aconteceu depois de acordar era algo que lhe assombrava constantemente.
Podiam ter sido arrastados por metros, quilômetros talvez.
Estava em uma margem e o irmão na outra, em algum momento foram separados pela correnteza.
¬ SUI!! – gritou tão alto quanto podia.
Tentava entrar na água e chegar até o irmão, mas quando a corrente ameaçava levá-lo se via obrigado a voltar.
Depois de muitas tentativas e berros, viu uma moça encoberta por um capuz se aproximar do irmão, provavelmente atraída pelo choro da criança.
¬ SUI!! – gritou ainda mais alto, quase rasgando o pulmão. – SAI DE PETO DEI!! SUI!!
A moça então lhe dirigiu o olhar e voltou a mirar seu irmãozinho, pouco depois pediu com um gesto que esperasse um pouco e apanhou o bebê no colo com todo o cuidado do mundo.
Permitiu-se sorrir assim que viu a moça começar a improvisar com alguns ramos uma corda-guia para o cesto, ao mesmo tempo cuidava de seu irmãozinho como se fosse a mãe dos dois.
Assistiu a moça fazer aquilo por horas.
Horas estas que ela lhe instruiu com gestos o que fazer enquanto continuava a tecer a corda ou então que parava apenas para cuidar de alguma necessidade do bebezinho.
Ela não parecia nem um pouco disposta a arriscar um grito e isso lhe despertava certo medo. Para que esconder a voz se estavam sós?
Enquanto assistia a corda se tornar cada vez maior e a vegetação ficar cada vez mais escassa, pensava em sua mãe, em seu pai e em sua família.
Será que estavam bem? Será que procuravam por si e pelo irmão pequeno?
Era quase manhã do outro dia quando a viu amarrar a corda numa pedra e acenar-lhe com um sorriso. No mesmo instante se levantou a fim de apanhar a pedra que era lançada.
Precisou de cinco tentativas, mas enfim conseguiu apanhar a pedra, dar a volta com a corda em uma árvore e lançar a pedra de volta. Tinham criado uma espécie de sistema de roldana e rezava para que desse certo.
A moça então amarrou o cesto na corda e arrumou seu irmãozinho o melhor que podia, cedendo-lhe um carinho e sorriso de despedida antes de pousá-lo no cesto.
¬ NÜWÜ!! – o urro vindo do nada quase o matou do coração.
Alguns homens montados e empunhando armas seguiam ferozes na direção da moça, por suas bocas escorria espuma e seus olhos injetados de ódio se assemelhavam ao de feras.
A moça, em evidente desespero, apanhou seu irmão e saio correndo o mais depressa que podia, conseguindo ser mais veloz que os cavalos.
Assistiu horrorizado os cavalos estourarem a corda ao passarem e a moça sumir em meio à mata enquanto o choro de seu irmãozinho ficava cada vez mais distante.
¬ SUIIIIIIHHHH!!!
Foi encontrado pela família em algum momento.
Todos diziam que quase se afogara tentando atravessar o riu em meio ao choro e que se debateu ao ser resgatado, querendo morder e se livrar para voltar ao rio.
Somente depois de muito tempo e esforço, foi posto no colo da mãe, onde enfim se acalmou.
¬ Kagaho, mas o que...! – agora que o susto passou daria umas belas palmadas no filho, nem ligava que já era um homem feito. – Cadê os mantimentos e quem te deu a ideia de matar sua mãe?!
Quase atropelou a mãe com o cavalo ao voltar de Paris.
Levou o primeiro cocre ao descer do cavalo, mas nem sentiu o golpe e nem levou mais nenhum outro cocre depois desse primeiro.
¬ Kagaho... – a mãe agora o obrigava a erguer o rosto. – Meu filho, está chorando? Porque chora? Meu filho?
Encontrou no olhar da mãe uma dor semelhante a de anos atrás, talvez ela já soubesse muito bem a razão de suas lágrimas, só não compreendia o porque de justo agora.
¬ Mamãe...
Abraçou-a como se ainda fosse um menino precisando de alento e carinho, precisando do abraço protetor que somente a mãe era capaz de dar.
Urrava em meio a lágrimas no colo da mãe, agora cercados por amigos e parentes que se preocupavam.
¬ Shh... – a mãe lhe acarinhava os cabelos. – Chorar é diminuir a profundida da dor. – depositou um beijo em sua cabeça. – Já fora forte demais, meu filho, pode chorar.
Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente.
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