Frankenstain
44 Verão de 1861
Notas iniciais
O ganido do cervo ecoou pela floresta.
Correu até o animal empunhando sua faca e tocou seu pescoço com respeito, sussurrava palavras de agradecimento e consideração para apenas o animal ouvir.
A faca acertou o coração palpitante e com um último ganido o cervo parou de se agitar.
¬ Pronto. – disse num suspiro. – Agora assar uma parte e deixar a outra salgada no sol.
Amarrou as patas do animal morto em um cajado que levava e voltou para o pequeno acampamento que montara junto de sua mais nova companheira de viagens.
Por si próprio não teria caçado e matado aquele glorioso cervo, que pelo tamanho dos chifres ainda era jovem e bastante saudável, mas sua “irmã” tinha fome e a comida tinha acabado no dia anterior.
Fez todo o processo necessário para aproveitar tudo que era possível.
Os chifres certamente poderiam ser vendidos por um bom preço, virando cabos de faca, botões de roupa ou prêmios de uma caçada que não foi feita pelo futuro dono, um burguês com certeza.
A pele não ia ter tanto valor de venda, ainda mais agora que um negócio estranho chamado máquina confeccionava roupas de algodão e seda com facilidade e rapidez. Talvez valesse mais a pena transformar em cobertor ou casaco para presentear sua jovem companheira.
A carne seria comida pela pequena ao longo dos dias de viagem, então esta teria um bom aproveitamento e o que não fosse comido pela menina seria comido pelos animais carniceiros.
Os ossos também poderiam ser vendidos e virariam prendedores ou pentes de cabelo, dependendo da qualidade do osso e do animal poderia ganhar o bastante para comprar alguns pães.
E o sangue poderia ser vendido para uma tinturaria ou fabrica, sendo adicionado à composição de tintas para tingir roupas ou para que canetas tinteiro pudessem escrever.
Se tem um principio que aprendeu com os Santos e seguia à risca era: Dê utilidade à tudo, não desperdice nada, pois não há egoísmo maior do que fazer algo em vão.
¬ Milo! – chamou a pequena. – Milo!
¬ Estou aqui! – respondeu enquanto terminava de limpar a carne. – Trouxe a lenha?
¬ Me ajuda... – choramingou a pequena carregada de lenha, nem conseguindo olhar para frente.
O loiro deu risada com a situação da menina, mas não lhe negou ajuda, apanhando um bom tanto da madeira e alimentando o fogo com a mesma.
Logo estavam os dois sentados um do lado do outro, organizando o que seria o jantar da menina e a degustação de Milo, já que fome era algo que ele não sentiria por um bom tempo.
¬ Você é muito agitada, Sônia. – comentou rindo. – Não precisávamos de tanta lenha, aliais, onde arrumou tantos galhos?
¬ Os cervos estavam esfregando os chifres nas árvores, o que acabou arrancando muitos ganhos. – explicou a menina enquanto cortava alguns legumes para sopa que fazia. – Então esperei eles irem embora e recolhi tudo o que conseguia carregar.
¬ Até mais do que podia eu diria. – soltou um pequeno riso ao mesmo tempo em que picava a carne para ser adicionada à sopa.
A menina mirava os pedaços de carne confusa desde que se sentaram e parecia relutante em se pronunciar.
¬ Eu cacei um cervo. – disse para menina. – Na cidade vou vender os ossos dele, assim como a galhada e o sangue que recolhi. Com a pele vou pedir para alguma costureira que te faça um casaco e a carne vai durar uns bons dias.
Os olhos da pequena cresceram assustadoramente, chegando a assustar mesmo ao mais velho.
Ela já tinha olhos grandes – e muito bonitos, diga-se de passagem – quando os arregalava ficavam gigantescos.
¬ Mas Milo isso é errado! – disse bastante assustada. – Alguém te viu caçar? Ou melhor, esconde tudo isso, se nos pegarem seremos castigados!
¬ Hã?! – foi sua vez de não entender nada.
¬ Se nos pegarem com animais do Imperador ou do Senhor destas terras, seremos punidos de formas horríveis. – a menina tremeu dos pés a cabeça. – Matrona Akvarium deixava que a caça ocorresse em suas terras, mas os outros não gostavam em nada de gente caçando em suas terras. Soube de histórias terríveis de tortura e assassinatos.
Milo limitou-se a um sorriso e um afago nos cabelos loiros e curiosamente rosáceos.
¬ Até onde eu saiba os animais são presentes de Théos aos homens para matar sua fome em momento de necessidade, antes mesmo de pertencerem a qualquer rei. – contou para menina. – Nessas terras a caçada é permitida, mesmo que de forma errada.
¬ Forma errada? – e existe forma certa?
¬ Sim. – continuou com seu discurso. – Aqui a caçada é um esporte. As pessoas mais caçam por bel prazer de matar do que por necessidade e isso é errada. Uma vida é uma vida, ela deve ser respeitada acima de todas as coisas e mesmo quando morta o respeito deve permanecer, pois, mesmo que sua contribuição tenha sido mínima, ela já foi muito importante no meio em que vivia. Toda vida é importante e insubstituível, jamais devemos brincar com algo tão importante que nos fora dado de bom grado.
A boca da menina formava um “O” quase perfeito e seus olhos continuavam surpresos, mas não no mesmo nível – assustador – de antes.
¬ Eu... – era tão ruim quando as palavras faltavam. – Eu nunca imaginei algo sim... Ou melhor. Nunca imaginei nada do que me disse.
¬ E essas são as vantagens de andar pelo mundo. – sorriu fazendo um leve afago em seus cabelos. – Tem aprendido rápido sobre o mundo e isso tem me deixado muito orgulhoso.
A pequena sorriu levemente corada, gostava muito de ser elogiada por Milo, ainda mais por ver nele a figura de irmão mais velho e amigo que lhe faltou por muito tempo.
Afinal era só ela e o pai no mundo depois que a mãe morreu.
¬ Milo. – chamou depois do jantar, confortavelmente protegida em suas cobertas. – Para onde estamos indo?
¬ Heidelberg. – respondeu sem desviar a atenção do que escrevia em seu caderninho de couro. – É onde encontraremos os Descendentes de Pisces, os Jaeger.
¬ Você os conhece? – perguntou curiosa.
¬ Conheci dois deles muito tempo atrás, mas duvido seriamente que estejam vivos. – respondeu. – Devemos encontrar algum filho ou neto.
¬ E eles vão nos receber? – estranhada que só ela.
¬ Claro. – sorriu. – Somos todos membros de uma grande família afinal.
Mais um sorriso adornou o rosto jovem.
Aprendera com o loiro que a verdadeira família é aquela unida pelo espírito e não pelo sangue. Um laço formado entre espíritos pode atravessar eternidades, agora um laço de sangue se rompe a partir do momento que se declara o óbito.
Milo não lhe dizia que as famílias de sangue eram falsas ou algo do tipo, não, muito longe disso, dizia sempre que está lhe receberia de braços abertos.
Ele apenas lhe mostrava que a família não se limitava ao sangue, o amor não se limitava ao sangue, ele ia muito além.
¬ Milo. – bocejou. – Vamos viajar para onde depois?
¬ Ainda vamos visitar os Descendentes de Capricornus e Cancer, os Diaz e os Auditore. – explicou. – Depois disso vamos para Martinica, onde mora um Descendente de Aquarius que é meu amigo de longa data, ele se chama Krest e vou deixar você com ele.
¬ O que?! – a menina se levantou em um pulo. – Por quê?!
¬ Depois eu vou para America do Norte. – continuou explicando bastante calmo e agora mais sério. – Lá está ocorrendo uma guerra civil e eu não vou arriscar você por nada nesse mundo. Por isso vou te deixar em Martinica. – seu tom de voz não era autoritário, mas o olhar que mandava era bem claro em sua decisão. – Depois disso vou para o Brasil, me embrenhar na mata virgem e encontrar os Descendentes de Taurus.
¬ E eu vou ficar em Martinica?! – era uma criança, mesmo que falassem que era perigoso ia continuar querendo ir.
¬ Não fale como se fosse a pior coisa do mundo. – rebateu rindo. – Krest é sério ao extremo, mas é um bom homem e certamente vai cuidar de você como sempre cuidou de Camus.
¬ Seu feio! – disse a menina fazendo bico. – Aliais, quem é Camus? Das poucas vezes que dorme o chama!
Milo sentiu suas bochechas arderem como se estivesse tendo febre e sentiu um nó se formar na gargante, estava muito envergonhado por ser pego desta forma.
¬ Vai dormir! – empurrou a menina o mais gentil possível de volta as cobertas.
¬ Grosso! – disse a menina se revirando.
Depois de algum tempo a pequena adormeceu de fato e foi coberta direito, a noite estava fria e nunca deixaria que ela ficasse doente.
Sorriu gentil e voltou a escrever em seu caderno de couro, ainda tinha muito o que escrever ali e essa tarefa certamente tomaria-lhe a noite.
Viajaram por mais um dia inteiro e Diamond estava ainda mais cansado do que no dia anterior, odiava forçar tanto seu querido amigo de viagens, no entanto, era um mal necessário levando-se em conta que Sônia era criança.
¬ Calma... – fez carinho no focinho do animal. – Já estamos chegando, só temos que descer esse vale e chegar naquela cidade. – o cavalo relinchou um tanto revoltado, o caminho ainda era longo. – Ei, calma... Sônia também está cansada, está dormindo em suas costas até, logo logo vamos estar descansando, você vai ver. – fez mais um carinho e voltou a guiá-lo pela estrada. – Vou te deixar no melhor estábulo, onde vai ser muito mimado e onde vai poder descansar direito. Prometo.
O cavalo apenas relinchou um tanto revoltado, mas o seguiu de perto com passos leves para não acordar a menina adormecida em seu lombo.
A cidade só era acessada através de uma ponte larga com muretas baixas e alguns postos de guarda.
Era uma construção antiga, feita de tijolos e forrada por pedras avermelhadas ou rosadas, não sabia ao certo, e o chão era feito de paralelepípedos que esquentavam durante o dia e emanava um calor agradável durante a noite.
Bastante acolhedor apesar de ser pedra.
A estrada de paralelepípedo seguia cidade adentro, já começando a emanar aquele acolhedor calor.
Algumas pessoas começavam a voltar para suas casas depois de mais um dia de trabalho, abraçavam seus filhos com força e beijavam seus cônjuges com carinho.
¬ Com licença. – chamou um homem que passava perto de si. – Pode me dizer onde encontro um estábulo?
¬ Tem os estábulos das estalagens mais antigas e também tem os estábulos públicos, que ficam na cidade alta, próximo ao castelo. – explicou bastante educado, tinha um sotaque interessante. – O senhor é um mascate?
¬ Não exatamente, sou mais um mensageiro. – respondeu sorrindo. – Aliais, pode me dizer onde encontro a família Jaeger?
O homem soltou um riso anasalado e sorriu irônico, era como se estivesse rindo do triste destino que aguardava Milo.
¬ Qual delas? – respondeu com o mesmo sorriso, curiosamente seu cosmo era bem grande. – Cerca de metade dessa cidade atende pelo sobrenome Jaeger.
¬ Qual delas é a mais importante? – tinha que fazer a pergunta certa. – Eles têm a mesma origem, denunciada pelo sobrenome, mas fazem parte de diferentes ordens sociais dentro da comunidade, ainda sim eles vivem como se fossem uma sociedade a parte. Então as famílias mais simples devem responder a uma família mais abastada e estas respondem a uma família que geralmente tem um posto importante na comunidade. – explicou da melhor maneira possível. – Eu estou procurando essa família mais importante.
¬ Ah! – o homem abriu um sorriso enorme e cruzou os braços enquanto acenava positivo, agora tinha entendido o que Milo queria. – Então está procurando Albafica Jaeger.
¬ Ele mesmo! – não tinha certeza na verdade. – Eu tinha me esquecido o nome dele, o que é péssimo vindo de um mensageiro.
¬ O senhor deve estar apenas de cabeça cheia. – disse o outro o mais gentil possível, porém, sem abandonar o sorriso irônico. – Mas eu receio que talvez ele não o receba.
¬ Por quê? – não podia evitar a curiosidade.
¬ Dizem as más línguas que ele é muito grosseiro e rude apesar de sua grande beleza capaz de causar inveja até na mais bela das mulheres, também dizem que ele não gosta das pessoas, preferindo as rosas que planta em seu jardim. – contou enquanto gesticulava bastante. – Se quer vai às festas em que é convidado e não tem muitos amigos, se é que tem alguém que ele chama de amigo. E ele também não tem criados, faz tudo sozinho, nem mesmo os familiares se aproximam dele com facilidade.
¬ E como farei meu trabalho assim?! – fica difícil para qualquer um. – Não tem ninguém que entre em contato com ele com mais facilidade? Alguém com quem eu possa falar?
¬ Na verdade tem uma pessoa sim. – respondeu com um leve sorriso. – Tem um italiano que vive entrando elegante e saindo com vasos voando da casa dele.
¬ Que italiano? – tinha que encontrar o cidadão o quanto antes. – Ele tem algum nome conhecido na cidade?
¬ Manigold Auditore de Firenze. – se curvou com um sorriso ainda maior. – Agora me diga o que quer com o Al?
Parou alguns instantes pensando que era alguma brincadeira de mal gosto. No entanto, aquele homem não parecia brincar e tudo indicava que ele não estava brincando mesmo.
Mas o que um Auditore estaria fazendo ali, sendo que a família vive na Toscana, Itália, mais especificamente em Florença?
¬ Tudo bem. – disse o loiro consigo mesmo. – Eu devo ser a pessoa mais sortuda do mundo ou a mais azarada. Have vos umquam senserit mundus?
O outro se assustou, dando um pulo ao endireitar a postura e fazendo uma careta enquanto tentava absorver o que Milo dissera.
Por alguns instantes pensou que tinha feito algo errada, mas excluiu essa opção ao ver o outro começar a gargalhar em alto e bom som, chegando a perturbar um pouco o sono de Sônia.
¬ Que a luz da inteligência nos mostre o caminho ou algo assim, tudo naquela língua velha pra caramba. – respondeu ainda rindo. – Se o Velho descobrir que eu não decorei isso ele me mata, mas que bom que ele não está aqui! – parou de rir e saio andando, o chamando para perto com um gesto. – Siga-me! Dessa vez o Al recebe a gente!
¬ E-Espera! – foi atrás o mais depressa possível. – Tem como passarmos nos estábulos públicos primeiro?! Meu cavalo vai desmaiar nesse ritmo!
Manigold o guiou até os estábulos, onde deixou Diamond sob as instruções de que deveria ser muito bem cuidado e pagaria bem se o cavalo aparentasse estar até mais jovem.
Depois disso pegou suas coisas e a própria Sônia no colo.
Manigold não se ofereceu para levar nada, para ele Milo ia conseguir levar tudo sem problemas e o próprio Milo não ia ser mal educado e exigir algo.
Em pouco tempo chegaram ao destino.
A casa era muito bonita e bastante parecida com as outras em sua simplicidade e beleza com algumas vigas que ficavam a mostra, intercalando a fachada da casa com a cor creme da parede. O telhado era escuro e bastante inclinado para evitar que a neve acumulasse, discretamente as chaminés se erguiam no topo do telhado. E por todo lugar havia roseiras.
Aquelas roseiras eram o maior diferencial da casa.
Havia rosas vermelhas bastante viçosas e atraentes, porém, sua beleza disfarçava os imensos espinhos afiados.
Rosas brancas e delicadas davam alguma leveza ao lugar, só que a beleza não conseguia esconder os inúmeros espinhos finos.
E, assustadoramente, rosas negras eram poucas e as mais belas dentre todas, mais pareciam um alerta a todos que se aproximassem e seus espinhos não eram visíveis.
¬ AL!! – berrou o italiano esmurrando a porta. – ME DEIXA ENTRAR!! O DONO DA ESTALAGEM ME JOGOU PRA FORA!!
Ouviram passos descendo as escadas, trincos sendo destravados e logo a porta foi aberta por uma moça muito bonita de longos cabelos de um loiro tão claro que virava azul e que, por alguma razão, usava roupas de homem.
Mas o homem que procurava não vivia sozinho?
¬ Se gritar mais uma vez, juro pelo sangue de Athena que eu arranco a sua língua. – então, Milo se enganou, era homem e vivia sozinho sim.
¬ Quanto amor... – disse o moreno sorrindo. – Vamos... Deixe-nos entrar.
O outro homem olhou por cima do ombro do italiano e estreitou os olhos ao ver Milo com Sônia no colo.
¬ Fora. Da minha. Casa. – ditou firme.
¬ Nossa Al! – o outro gesticulava bastante. – Eles estão viajando há dias e eu também! Estamos todos cansados e nenhum dono de estalagem quer ver minha cara!
¬ Se não tivesse cortejado todas as mulheres, inclusive as casadas, ainda teria onde dormir. – rebateu mal humorado. – Sabe de minha condição melhor do que ninguém, então arrume algum lugar ao menos para eles, mas na minha casa não!
O mais baixo ia fechar a porta, mas o italiano colocou o pé no vão e segurou a porta com as duas mãos para que não fosse forçada.
¬ Al! – teimava, era insistente. – Per favore... A menina ainda é pequena, não pode ficar no sereno. E Milo é um enviado de nossos senhores, ele veio falar com você e provavelmente comigo também. – pode tirar o pé do vão. – Vamos Al, não seja insensível e cruel... Eu te conheço, você não é assim... Nunca negaria nada a alguém necessitado e muito menos aos nossos senhores... Mesmo depois de tudo você ainda é muito leal e também é a pessoa com o coração mais bondoso que já conheci... Deixe-nos entrar, Al.
Ouviram um suspiro bastante pesado, como se a pessoa tivesse medo de arrepender-se muito amargamente.
Logo mais a porta se abriu e o dono da casa dera espaço com a expressão irredutível.
¬ Peço apenas que evitem chegar perto das rosas e de minha pessoa. – disse fechando a porta após todos entrarem. – Ademais, a casa é de vocês. Agora me deem licença, tenho que fazer o jantar.
¬ Oba! – comemorou o italiano. – Quer ajuda?
¬ Não. – e saio andando.
¬ Qual o problema dele? – foi impossível segurar a língua.
¬ Olha, pra resumir a história, Al teve uma vida meio complicada. – disse Manigold mais sério e, talvez, triste. – Mais tarde quando conversarmos eu prometo que te explico tudo.
Milo apenas acenou.
Pouco mais de uma hora depois, com Sônia dormindo em um dos quartos de hospede junto de todas as bolsas e pertences, foi que pode se juntar aos dois homens.
¬ Sou Albafica Jaeger, Wánax de Pisces. – apresentou-se o dono da casa ao vê-lo entrar. – E o senhor já deve ter conhecido Manigold Auditore de Firenze, Wánax de Cancer.
¬ E ai? – disse o italiano com um aceno.
¬ Prazer em conhecê-los. – respondeu com a mão no peito. – Sou Milo Dilitírio e venho em nome de Athena convocá-los para batalha que se aproxima.
Os dois mais novos apenas trocaram olhares e voltaram a mirá-lo logo em seguida. A conversa seria bem longa.
E foi longa mesmo, como todas as outras.
Outra coisa que foi igual às demais conversas foi a questão da organização, afinal nem todas as famílias eram de nômades.
¬ Tudo bem. – disse Milo em um suspiro. – Compreendo que não possam fazer tudo de uma hora para outra, mas ao menos estão avisados e isso já me tira um grande peso.
¬ Quem agradece somos nós, Milo. – volveu Albafica já se levantando. – Vou buscar algo para bebermos, essa conversa foi bastante cansativa e não quero ter dor de cabeça amanhã.
Assistiu-o rumar em direção a porte e sumir no corredor escuro, deixando italiano e loiro naquele pequeno e confortável escritório.
¬ Ele tem um coração lindo. – comentou Manigold um tanto distante.
¬ Como conheceu o senhor Albafica? – perguntou depois de um tempo.
¬ As famílias Auditore, Jaeger e Diaz são bastante unidas, isso não é novidade para nenhuma outra família de Descendentes. – explicou. – Somos como nossos Senhores, entende?
¬ Eles realmente não se desgrudam. – completou. – Somente Capricornus que se afasta com mais frequência.
¬ Sí. Isso acontece aqui também. – jogou a cabeça para trás cansado. – Só que nossas famílias queriam mais e começamos a nos unir, só faltando as Famílias Reais. E foi ai que nossos pais combinaram que iríamos nos casar depois dos quinze anos.
No mesmo instante Milo corou, nunca tinha ouvido disso antes e claro que se assustou, mas também ficou um tanto interessado.
¬ Como assim?! – sua voz saio um tanto exaltada.
¬ Calma... – respondeu Manigold com um riso. – Nossas mães ainda estavam grávidas quando esse acordo foi feito e quando nascemos os planos todos se desmancharam, dois homens não podem ter filhos. Se pudéssemos, acho que nossas famílias teriam nos casado do mesmo jeito.
¬ E vocês...?
¬ Ah não. – riu. – Somos apenas bons amigos, quase irmãos. Cuido dele e ele cuida de mim. Brigamos algumas vezes, mas sempre fazemos as pazes. Albafica é meu melhor amigo, não o trocaria por nada nesse mundo e muito menos o deixaria por nada nesse mundo.
¬ E porque ele não quer se aproximar das pessoas?
¬ O “dom” dele é o do toque. – respondeu. – Tudo que entra em contato com ele morre, menos aquelas roseiras lá fora, que na verdade parecem compartilhar da mesma maldição. E parece que somente os cabelos dele não fazem mal a ninguém, de resto...
¬ Mas eu pensei que o dom do toque curava as pessoas. – volveu confuso.
¬ Esses dons às avessas são conhecidos como maldições. – respondeu. – Então a maldição do Al é a do toque. Tudo que ele toca morre e sua primeira vitima foi o próprio pai, o senhor Rugonis. – suspirou. – Já nascemos com esses dons ou maldições, mas eles só se manifestam quando começamos a treinar. Minha maldição é a da alma, o oposto do dom da mente, eu controlo a alma dos mortos e posso fazer o que quiser com a ajuda delas, todo que eu faço de “estranho” é através do mundo dos mortos.
¬ Eu... – o que dizer? – Eu sinto muito... Eu...
¬ Não sinta. – respondeu o outro com um leve sorriso. – O importante é que estamos superando as dificuldades juntos, sempre juntos. Mesmo sendo um Wánax e tendo minhas próprias obrigações para com minha família, eu nunca deixo de estar ao lado dele, procuro sempre estar por perto.
¬ Prometa-me que sempre lutaremos juntos e que sempre protegeremos um ao outro e que, aconteça o que acontecer, nós iremos ou sobreviver juntos ou morrer juntos.
Os dois voltaram suas atenções para porta na mesma hora, ambos com a maior cara de susto.
Albafica já tinha voltado com um pouco de café e um sorriso um tanto tristonho no rosto.
¬ Eu prometi. – continuou. – Você, Mani, também prometeu. E o senhor, senhor Milo? Promete também?
Milo levou menos de um segundo para elaborar a resposta, mas o pensamente que desenvolveu para chegar naquela única palavra pareceu ter levado décadas para se formar em sua mente.
¬ Prometo.
Promessa era divida.
E essa divida Milo pagaria com todo prazer do mundo.
Ainda demoraram alguns dias na casa, principalmente para ajudar os dois Wánax a organizarem suas forças e também para descansar antes de mais uma viagem.
¬ Até outra vez piccola! – Manigold bagunçava os cabelos da risonha Sônia.
¬ Façam uma boa viagem, Milo. – desejava Albafica com um mínimo sorriso. – Rodrigo é um bom homem e um bom amigo, além de ser uma pessoa muito leal. Tem o dom da visão e do sentir, ele certamente estará aguardando os dois assim que entrarem no vilarejo.
¬ Muito obrigado por nos hospedar esses dias. – respondeu com um sorriso, tentando lembrar que não podia estender a mão em cumprimento.
¬ Ora... – sorriu mais abertamente, um sorriso deveras bonito. – Somos irmãos de armas ou não?
Milo acabou rindo.
Irmãos de armas.
Lutando em uma guerra em que não queria estar e batalhando pela vida para qual anseiam voltar.
Homens. Guerreiros. Filhos. Irmãos. Pais. Amigos. Companheiros.
Irmãos de armas.
Tão humano quanto o outro. Tão forte quanto o outro. Tão digno de sua vida quanto o outro é da dele.
Eram sim irmãos de armas, porque se necessário lutariam até as últimas forças pelo que quisessem proteger.
¬ Somos, mas isso ainda não esconde o fato de que abusei de sua hospitalidade. – respondeu fazendo um leve carinho no focinho de Diamond, que, impaciente, o cutucou.
¬ Abuso de hospitalidade e até de vida é aquele homem. – disse o belo rapaz apontando para o italiano, que os mirou na mesma hora o mais indignado possível. – Apenas pare de pensar que abusou de minha boa vontade e vá em paz.
Mais um sorriso.
¬ Obrigado, Albafica.
¬ Obrigado você, Milo. – respondeu sorrindo.
Auditore se juntou pouco depois, ficando o mais perto possível do belo Jaeger sem que este chiasse.
Eles formavam uma dupla interessante, ou melhor, eles tinham um elo interessante e bonito.
Ali existia um tipo diferente de amor, um amor sem carne e sem o beijo, um simples amor. Um amor pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro trazia ou então pelo tormento que causava.
Sorriu meio bobo. Já foi assim consigo também.
Se despediram mais uma vez e partiram para o próximo destino.
¬ Pra onde vamos agora, Milo? – perguntou Sônia coçando o olho.
¬ Vilarejo de Ronda na província de Andaluzia, Espanha. – respondeu fazendo mais um carinho em Diamond. – Temos um longo caminho pela frente.
¬ Então já me deixe dormir. – volveu a menina já se deitando nas costas do cavalo.
Milo deu risada de tamanha preguiça, mas deixou que a pequena dormisse mais um pouco, chegando a cobri-la com seu casaco, e continuou guiando Diamond pelo longo caminho.
Era uma tarde do final de julho quando o vilarejo escarpado de Ronda apareceu no horizonte, coroado pela Puente Nuevo na “Garganta del Tajo” junto à Puente Viejo e Puente Árabe.
¬ Aquele é o vilarejo de Ronda, Milo? – perguntou Sônia brincando com a crina de Diamond.
¬ É sim. – sorriu-lhe gentil. – Depois dele vamos para Martinica. Ansiosa?
¬ Um pouquinho. – já estava acostumada com a ideia.
Pouco tempo depois passaram pelos portões principais da cidade e pela ampla rua principal, que levava à antiga cidadela.
¬ Onde será que está o Wánax de Capricornus? – perguntou a menina olhando para todos os lados, admirada com o mercado colorido e diverso.
¬ Albafica e Manigold disseram que ele é conhecido na cidade inteira como El Cid, O Senhor. Também disseram que ele coleciona espadas e trabalha como professor das famílias mais abastadas, sendo o mais respeitado de toda cidade, daí a alcunha de O Senhor. – comentou com a pequena. – Acho que se sairmos perguntando logo vamos descobrir onde ele mora.
A pequena acenou e estendeu os braços, logo Milo a tirou de cima de Diamond e a colocou sobre seus ombros.
¬ Vamos arrumar um lugar para Diamond primeiro, certo? – combinou com a pequena.
¬ Certo! – respondeu animada e apanhou uma mecha do cabelo loiro começando a trançá-lo.
Estavam atravessando a praça central quando Diamond, já bastante cansado, se soltou de Milo e seguiu na direção da fonte de água.
¬ E-Ei! Diamond! – foi atrás do animal naturalmente.
O enorme cavalo, tadinho, não pensou duas vezes e enfiou o focinho na água, louco para matar sua cede.
Com aquela visão Milo se apiedou no mesmo instante.
Tirou Sônia de seus ombros, deixando-a sentadinha na beirada da fonte e voltou-se ao cavalo.
Tirou todas as bolsas que ele carregava, assim como a cela e reios, deixando-os junto de Sônia.
Depois começou a fazer carinho no animal, vendo os músculos tremerem pelo esforço e clamarem por descanso.
¬ Desculpe meu amigo. – pediu sem parar o carinho. – Está há tanto tempo comigo e já passou por cada coisa por culpa minha que às vezes esqueço de que já tem 14 anos bem vividos.
O animal trotou um pouco, como quem troca o peso de uma perna para outra, e continuou bebendo da água.
¬ Desculpe. – disse mais uma vez, coçando atrás de sua orelha. – Prometo que logo não vai mais precisar me acompanhar para cima e para baixo, logo poderá descansar o quanto quiser.
Foi então que sentiu um frio escalar sua espinha.
Enrijeceu a postura na mesma hora e parecia que Diamond sentiu o mesmo, pois também enrijeceu todos os músculos e ergueu a cabeça.
Era uma sensação assustadora.
Era como se tivesse uma espada sendo apontada para seu pescoço.
¬ É um bom dono. – disse uma voz ao seu lado. – Aconteça o que acontecer o cavalo vai continuar fiel, principalmente depois de tantos anos juntos.
Voltou a atenção para o lado de Sônia, que agora comia um doce conhecido como penitente, ao seu lado estava um homem de roupas formais e cabelos rebeldes.
¬ Admito que fiquei bastante receoso ao vê-lo chegar, principalmente por conta do enorme cosmo que emana, mas tenho minhas obrigações e não podia deixar que um provável inimigo ficasse zanzando pelo meu vilarejo. – continuou enquanto assistia a menina comer o doce. – Agora vejo e entendo que estava errado, que devo recebê-lo, que devo ouvi-lo e que devo atendê-lo em seu pedido. Não me falta lealdade se é o que desejas saber. – o homem o mirou com intensidade, seus olhos eram afiados como laminas. – É um bom dono, um bom mestre, um bom amigo e um bom companheiro. É uma honra tê-lo aqui, Milo Dilitírio. Ou melhor, Aurum Scorpius.
Na mesma hora puxou Sônia para detrás de si e assumiu uma postura defensiva, não gostava quando alguém sabia seu nome sem que o tenha dito uma única vez.
E gostava menos ainda quando um desconhecido o chamava de Scorpius!
¬ Quem é você? – perguntou sem educação alguma.
¬ Rodrigo Asura Diaz. – apresentou-se o mais educadamente possível. – Mas pode me chamar de El Cid. E, permita-me dizer, será uma honra servir nesta guerra santa ao lado de tão valoroso Santos de Athena.
¬ A força de um guerreiro não está em sua arma ou no que acredita e sim no desejo de cumprir a justiça. – rebateu, com uma das frases de Libra, ainda um tanto desconfiado.
¬ Eu sei disso. – respondeu. – Por isso mesmo é uma honra.
Porque naquele momento lembrou de Camus e sua enorme vontade de lutar pelo que era certo?
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