Frankenstain

41 Inverno de 1860


Notas iniciais
Eu ainda não morri em prol de um bom vestibular, quando isso for acontecer eu prometo que aviso XP Boa leitura :)

Os olhos azuis faiscavam atento a qualquer movimento dos olhos dourados, fixos em seu ser.

Em passos cautelosos tratou de dar a volta e se afastar sem nunca dar as costas, primeiro por ser suicídio o fazer e depois por ser um desrespeito para tão formidável criatura.

Somente quando viu o majestoso animal relaxar, foi que se permitiu respirar mais aliviado.

Não sabia dizer naquele momento de observação se era abençoado ou não, afinal com que frequência se vê um tigre se alimentar? E com que frequência se vê uma mãe ensinando seus filhotes a caçar e comer?

Aqueles dois pequenos filhotes de tigre, que rolavam brincalhões pela relva, ainda não estavam tão interessados no que a mãe tinha para ensinar, no entanto, isso não os impediria de se transformarem em grandes, poderosos e respeitáveis caçadores num futuro não tão distante.

Um deles lhe lembrava do amado, pois, ao contrario da mãe e irmão, seus olhos eram avermelhados e profundos, exatamente como os do aquariano.

Aquilo lhe fez pensar enquanto voltava a andar.

Qual a diferença entre o ruivo e aquele filhote afinal?

Claro que havia o fato de pertencerem à espécies totalmente diferentes, mas não era nesse sentido que pensava.

Ambos tinham muito que aprender e o potencial para isso. Viviam em um mundo perigoso e ainda desconhecido em parte, mas tinham e aprenderiam o necessário para sobreviver.

Só porque hoje tem uma aparência frágil, não significava que amanhã não poderia ser um invicto.

Suspirou. Uma hora teria que contar.

¬ Deixe disso Milo. – dizia a si próprio. – Camus não é mais um filhote, quando voltar é seu dever contar.

De fato, era seu dever contar, mas isso se torna difícil quando a pessoa que se quer ensinar desconhece todo seu potencial de defesa e ataque, o ruivo se quer tinha desperto o cosmo. Além de que julgava as verdades ocultas do mundo um monte de bobagens creditadas por pessoas pouco estudadas e cegas por uma falsa fé de homens poderosos.

O amado se parecia com o filhote de tigre mesmo. Não por sua fragilidade momentânea, mas sim pela inocência que lhe restara.

Outro suspiro.

¬ Pare com isso. – se repreendia. – Você veio atrás dos Padma Simar e deve se concentrar nessa missão.

Ainda bem que se repreendeu em voz alta, ao menos assim conseguiu esquecer-se do ruivo por um tempo e se preocupar no que realmente importava naquele meio de selva, encontrar os Descendentes de Virgo.

E claro, arrumar um lugar pra ficar.

Atualmente se encontrava na selva indiana, onde perigos naturais não faltavam, procurando pelo isolado grupo de monges.

Sim, monges.

Os Descendentes de Virgo eram uma comunidade de monges que habitavam um templo construído no meio da selva e onde se chegava depois de três dias de caminhada pela floresta, e não, não tinha outro caminho.

¬ Só espero chegar antes do pôr do sol. – comentou afastando as folhas com um cajado, criando uma pequena tilha. – Descansar nas árvores faz muito mal pras costas e insetos são chatos.

Estava andando há mais de dois dias, naturalmente esperava chegar o quanto antes em seu destino.

Sobreviver numa selva desconhecida com apenas seu conhecimento de mundo, um cajado mal esculpido e a roupa do corpo somada com mais duas pobres peças na trouxa de couro maltratada, não era nada fácil para ser ou pessoa alguma.

¬ Depois da estátua ancestral de Kali, vire na direção do rio que segue o braço da deusa e acompanhe de perto sua correnteza. Ande por três dias sem para, só assim encontrará o templo velado por água na densa mata. – sitava o que tinham lhe falado. – Porque todos que encontro para pedir informações gostam de enigmas?

Falava sozinho para não enlouquecer depois de tanto tempo sozinho no meio do mato.

O céu já estava alaranjado e a selva estava cada vez mais escura. Cada barulho mínimo era razão o bastante para se preparar para um possível combate.

Desconfiou que estivesse seguindo na direção errada, porém, logo teve a certeza de que estava indo pelo caminho certo.

¬ Isso é alguma brincadeira de mau gosto dos deuses?! – perguntou quando virou o alvo de lanças e flechas. – Como vocês Descendentes se escondem tão bem?!

Jamais negariam que os homens e mulheres fiéis à Athena eram exímios guerreiros, mas não precisavam demonstrar todo seu potencial tático justo consigo.

As armas foram empunhadas com mais firmeza, se é que isso era possível, e as expressões dos homens que o cercavam estavam cada vez mais irredutíveis e duras.

¬ Have vos umquam senserit mundus? – Vocês já sentiram o cosmo?

Os homens pareceram ficar ainda mais furiosos, mas havia um ar de indecisão em todos eles.

Das duas, uma. Encontrou uma comunidade isolada e violenta, bem diferente do que procurava, ou encontrou os monges e eles não estavam colocando muita fé em si.

¬ Quod lux sapientiae dirigendos pedes nostros. – Que a luz da sabedoria nos guie.

O mundo pareceu parar com aquela resposta e pode ver um jovem adolescente loiro surgir por entre as árvores.

Por questão de segundos prendeu a respiração por jurar ser o próprio Virgo, mas conseguiu respirar mais aliviado quando viu se tratar de outra pessoa.

¬ Obrigado. – disse ao recém-chegado. – Foi você quem fez isso?

¬ Foi sim. – ele mantinha os olhos fechados. – Mas antes das devidas apresentações, é melhor sairmos daqui. Os membros de nossa aldeia vizinha não ficarão paralisados por muito tempo.

Acenou em resposta e seguiu o jovem quando este o chamou para perto com um movimento de mão.

Seguiram pela floresta sem grandes dificuldades.

Pode notar pela forma que o mato estava dividido que aquilo era uma trilha bastante utilizada, tanto por animais quanto por pessoas.

Tiveram que descer a encosta de uma cachoeira por suas pedras escorregadias, mas que curiosamente tinha degraus naturais.

E logo que chegaram na metade da descida, o rapaz o guiou para detrás da cachoeira, onde um gigantesco templo esculpido na rocha o recebia.

¬ Eu não acredito. – e era mesmo difícil.

A construção massiva assustava um pouco por conta de suas fundações, que pareciam dizer que aquilo tinha sido expulso ou esculpido na terra.

Homens e mulheres com mantos laranja e avermelhados andavam pelo lugar conversando ou realizando tarefas, alguns deles levavam crianças de colo consigo.

As estalagmites e estalactites ajudavam na função de assustar, mas a forma com que tudo foi esculpido, principalmente as estatuas e ornamentos, mostravam que aquele local não tinha nenhum mal.

Outros estavam sentados na posição de lótus, recitando mantras ou em silencio, todos em busca da elevação espiritual.

Havia crianças por todos os cantos, todas muito diferentes entre si, mas seguindo os mesmos mestres e ensinamentos.

¬ Asmita! – gritou um menino ao vê-los.

Logo estavam cercados por crianças e adultos, todos animados com a presença do jovem loiro e de certa forma aliviados.

¬ Asmita, você não devia ter saído sozinho! – dizia um senhor. – Quase morremos ao ver que não estava mais no salão!

¬ Desculpem-me. – pedia com um leve sorriso. – Tinha de buscar nosso convidado, seria indelicadeza minha não o fazer.

¬ Falando em convidado. – disse uma mulher. – Quem é ele Asmita?

Imediatamente se viu obrigado a apurar seus sentidos e repreendeu-se por não ter feito antes.

¬ Perdoem minha intromissão. – disse o mais educadamente possível. – Mas você é o Wánax de Virgo não é?

¬ Asmita Padma Simar é o meu nome. – apresentou-se com um meneio de cabeça e um leve sorriso. – Mas e você quem é homem de dúvidas?

¬ Milo Dilítirio. – respondeu com o mesmo nível de educação. – Fui enviado pelo Santuário e preciso falar com o senhor.

¬ Tudo bem. – respondeu colocando a mão na cabeça de uma das crianças em um pequeno afago. – Por favor. Sinta-se em casa e descanse, logo me juntarei ao senhor para que possamos conversar.

Já dizia Kardia: “Aproveite todo e qualquer momento para descansar, não se sabe quando vai ter uma nova chance”.

Quando enfim pode se reunir com o jovem Wánax, estava tomado banho e com os pés cansados descalços, usava um dos mantos avermelhados que os monges lhe cederam e tomava do chá feito pelo próprio rapaz.

¬ Compreendo. –bebericou mais um pouco de chá. – Fui um tolo de não perceber a mudança e não ter me juntado ao meu Senhor antes. Meus ancestrais e parentes devem estar morrendo de vergonha nesse momento.

¬ Não se culpe. – pediu caridoso. – Você era apenas uma criança quando tudo começou, se quer sabia a verdade direito.

Milo contou tudo o que sabia para o rapaz, que o ouviu atentamente, comentando algo uma vez ou outra e revelando mais sobre a realidade daquela família.

Os Descendentes de Virgo não tinham uma ligação de sangue direta, não existiam mães, pais e filhos ali, existiam apenas irmãos e irmãs com diferentes pais e origens.

Sua ligação era mais antiga, vinda dos tempos em que imperadores mogóis tinham mil filhos. Todos ali tinham diferentes pais e vinham de diferentes lugares, tudo o que os unia era a irmandade vinda de um elo antigo e um mesmo Senhor.

A forma com que chegavam ali era o único mistério que encontravam.

Alguma força, alguma entidade ou até seus próprios pais simplesmente os deixava ali para que fossem encontrados e criados desde bebê naquele meio. Ficavam em cestos presos no alto das árvores frutíferas até que fossem encontrados por um de seus futuros irmãos, o que não demorava a acontecer.

O mais famoso Descendente daquela família se chamava Sidarta Gautama e era conhecido como Buda, o Iluminado.

¬ Mesmo assim era meu dever como Wánax perceber e mover meus irmãos e irmãs. – volveu com um suspiro. – Nem todos aqui são adultos e não podemos simplesmente ir embora, precisamos de tempo para nos organizar, decidir quem fica e decidir quem vai para batalha.

¬ Eu entendo, todos me dizem isso e vejo que não é fácil se organizar para o que estou pedindo. – respondeu. – Então peço que não se preocupe, haja de acordo com seu próprio tempo. Só peço que esteja presente quando for a hora de resistir.

Os monges buscavam a paz, a iluminação e tinha votos bastante rigorosos, mas isso não os impedia – ao menos aquele pequeno grupo – de praticar artes marciais e também não os impedia de cometer “pecados” por um bem maior, desde que ele realmente fosse justificável.

Milo preferia levar mais um tiro em sua vida do que lutar com um monge daquele templo. Tinha visto uma menina destroçar um boneco de treino com um bastão enquanto procurava se defender de seus braços de madeira.

Aquelas eram famílias de guerreiros e devotos.

Pessoas que não apenas buscavam a paz para seu tempo, mas também a paz para os que estavam por vir. Eles pensavam sempre no futuro e não no agora, eram de fato admiráveis.

Devia haver mais pessoas como eles no mundo.

¬ Me alegra sentir que ainda mantem seu coração de Santos. – disse o mais novo com um pequeno sorriso. – Mas me entristece sentir que ele sofre com a dúvida de amar.

¬ Hã?! – era um livro aberto pelo acaso?

¬ Desculpe. – pediu bebendo um pouco mais de chá. – Meu dom é o dom de sentir. Permite-me saber dos sentimentos dos outros e como eles se expressão em problemas, e assim posso aconselhar corretamente. O que se alia ao meu outro dom, o dom da fala.

Isso explicava muita coisa.

¬ Bem. – começou Milo com um sorriso brincalhão. – Já falamos das responsabilidades. Porque não nos distrairmos um pouco com uma conversa mais mundana?

¬ Parece uma boa sugestão, apesar de que gosto de conversas mais voltadas para reflexões. – respondeu o mais novo com um mínimo sorriso.

¬ Então, por favor, se manifeste. – endireitou-se na almofada que ocupava. – Gosto bastante de conversar.

O rapaz sorriu como quem alcança um objetivo.

¬ Um fio no tapete artístico, cujas cores não tem par, não vê o seu propósito no padrão que veio adornar. – segurava o bordado de suas vestes como quem brinca. – Então me diga, a grande pedra que está lá no topo da montanha ou lá quase, mais importante seria do que aquelas que formam a base?

¬ Porque vocês gostam de enigmas? – volveu em tom de riso. – Mas lhe respondendo, eu suponho que não. Todas tem o seu valor, afinal estão compondo a montanha, cada qual com sua função e dever.

¬ Então como avaliar qual é o seu valor e qual é o seu papel? – respondeu com um sorriso enigmático. – Não deve ver como o homem vê. Você deve olhar com o olhar do céu.

O rapaz abriu os olhos e permitiu que Milo visse as íris foscas e azuladas como o seu noturno e igualmente cheio de estrelas.

Agora entendia porque dele manter os olhos cerrados. De que adianta deixá-los abertos se nada enxerga? Ao menos como as outras pessoas enxergam.

¬ O pastor é pra ovelha o que o rei não pode ser. – continuava o rapaz. – Se um homem perde o que tem deixará de ter valor? Ou esse é o reinício de um destino agraciador?

¬ Não tenho ideia. – respondeu. – Imagino que só o destino dirá.

¬ Pois como julgar o que o homem é? Em posse, força ou fé? Pelo quanto ganhou, pelo quanto deu? – aquilo estava o atingindo de forma estranha. – Resposta terá só quem quiser. A vida é olhar com o olhar do céu.

Calou-se.

Não sabia o que dizer naquele momento.

Sentia aquelas palavras calarem fundo em seu peito, o marcando para nunca esquecer.

¬ A vida tende a se transformar, se o destino determinar, embora sem ninguém saber. – bebeu um pouco mais. – Como julgar o que o homem é? Pela riqueza não é. Não deve ver como o homem vê. Deve olhar com o olhar do céu. – bebeu mais um pouco. – E principalmente. Entender que aquele que ama tem um papel tão fundamental nesta batalha quanto você.

Acabou caindo na risada, o que confundiu um pouco o mais jovem.

¬ É por isso que adoro vir atrás de vocês. – riu mais um pouco. – Sempre são meu alento e melhor conselheiro.

¬ Disponha. – respondeu com um pequeno sorriso.

Ainda ficou alguns dias para ajudar Asmita a se organizar, chegando a lhe ceder seu mapa, e também para conhecer melhor aquela forma de vida, bastante agradável e apaziguadora.

Depois que estavam todos prontos para viajar se preparou para sua própria viagem, afinal ainda tinha que ir atrás das últimas famílias presentes naquela parte do mundo.

Em momento algum deixou de pensar no ruivo, sempre divido entre o medo e o alivio de contar, e claro que tentou distrair a mente por toda viagem.

Sua sorte era que já sabia o caminho pelas montanhas, então não enfrentou dificuldades, e pouco tempo depois estava da província de Jiangxi, na cidade de Jiujiang, a caminho dos Cinco Picos Antigos de Rozan, onde estavam as famílias de Libra e Draco.

¬ Nossa. – comentou com um sorriso. – Eu queria poder pintar um quadro disso.

A neblina encobria parcialmente os picos verdes de Rozan, não deixando que seu tamanho e beleza fossem admirados por completo naquele momento. Talvez esta fosse sua real beleza, o mistério.

Os vales eram ocupados por singelas casas e arrozais perto da colheita que também eram parcialmente encobertas pela neblina.

Em um ponto mais alto da pequena vila havia uma espécie de academia, devia ser ali que praticavam a arte da luta e leitura, e logo ao lado um pequeno templo.

Ao longe conseguia ver os adultos trabalhando em suas plantações e as crianças brincando entre si.

O lago refletia o céu azul e as cachoeiras quase invisíveis pela névoa enchiam seus ouvidos com uma melodia gostava e calmante.

Encontrara Shangri La, o bendito chão, e ninguém lhe contara?

Não tinha certeza, aquele lugar era bonito demais para ser menos que divino, mas primeiro tinha que chegar para descobrir.

E assim começou sua longa descida até o vale de Rozan.

¬ Quem é você e o que faz aqui? – sentiu uma faca em sua garganta.

Já tinha alcançado a pequena cidade, mas assim que chegou as pessoas começaram a se esconder, como se fugissem dele.

Ergueu as mãos e tentou mirar seu algoz por cima do ombro.

Pensou ser uma moça a principio por conta de seu rosto fino e bem desenhado, além de sua estrutura física delicada e pequena, mas o pomo de adão proeminente desmitificou seu primeiro julgamento.

¬ Responda. – apertou a lamina contra sua carne.

¬ Solte-o Ryuho. – disse uma voz calma.

Voltou seu rosto para uma das casas, onde uma mulher de longa trança estava sentada nas escadas com um pincel em mãos, bastante atenta ao que escrevia ou desenhava.

¬ Mas mãe...!

¬ Solte-o. – repetiu a mulher. – Eu o vi em meus sonhos, ele foi mandado até aqui e precisamos ouvi-lo, meu filho. – ergueu o rosto bonito e os mirou com os grandes olhos safira. – Seja bem-vindo, Milo Dilitírio. Sou Shunrei Rozan Shoryu-Ha, a Wánax de Draco e Libra.

Milo acabou sorrindo gentil, estava no lugar certo afinal.

Os Rozan Shoryu-Ha eram pessoas simples e felizes, que viviam um dia de cada vez num estado de espírito sempre sereno, no entanto, eram bastante conhecidos por seus guerreiros. Tinham a fama de já terem servido o próprio Imperador em tempos não tão distantes como guardas pessoais e espiões leais.

Era uma família que já tinham conseguido se unir por completo, não sabendo nem dizer quem era Descendente de quem. Mas isso não afetava em nada sua enorme sabedoria e respeito pela vida.

¬ Have vos umquam senserit mundus? – falou apenas para não perder a cortesia.

¬ Quod lux sapientiae dirigendos pedes nostros. – respondeu a moça sorrindo.

As pessoas começaram a sair de suas casas um tanto curiosas e voltavam logo em seguida para sua rotina normal conforme viam a jovem interagir tão naturalmente com o recém-chegado.

¬ Nossos Senhores avisaram da chegada dele, dizendo que podemos confiar. – explicava Ryuho para todos que perguntavam, sem se afastar muito.

Falavam primeiramente das razões que levaram Milo até ali.

Discutindo tudo o que teriam que fazer e deixar de fazer para atender ao chamado do Santuário, afinal aquela família estava bastante envolvida no combate da Rebelião de Taiping — um confronto entre as forças imperiais e um grupo inspirado por um místico autoproclamado, chamado Hong Xiuquan, que se dizia cristão e também intitulava-se irmão de Jesus Cristo, seu objetivo era criar uma nova cultura, substituindo a tradição confucionista e budista por algo "novo", moldado conforme às suas ideias — e não podiam simplesmente deixar tudo para trás.

Logo, tinham que se acertar e moldar nesse sentido.

¬ Eu jamais faltaria com meus Senhores. Eu certamente irei com minha família para apoia-los. – afirmou decidida. – Pode contar comigo, Milo.

¬ Me alegra muito saber. – respondeu sorrindo.

Quando começaram a conversar de coisas mais mundanas, assim como fazer perguntas e dar respostas, as crianças começaram a se aproximar ainda cautelosas.

Porém, logo o loiro sentia as meninas trançarem e enfeitarem seus cabelos com flores, enquanto os meninos observavam-no um tanto desconfiados atrás da morena.

¬ Como sabia que eu vinha? – perguntou depois de tratarem do essencial. – Disse que me viu em sonho.

¬ Eu tenho dois dons. – explicou ainda trabalhando em sua pintura de um dragão. – O dom do toque e o dom de “Avenir”. O dom do toque me permite curar qualquer ferida ou doença apenas por tocar nas pessoas e concentrar meu cosmo. O dom de “Avenir” na verdade é uma forma de manter contato com meus Senhores, pois através dele eu recebo mensagens e sou capaz até mesmo de perceber o futuro.

Puxou o diário de Camus de sua trouxa e apanhou seu grafite, abrindo e escrevendo tudo o que a moça relatara.

Já fazia algum tempo que escrevia todas as suas descobertas no encadernado de couro e não queria perder nada.

¬ Não se importa que eu escreva certo? – perguntou sem parar o que fazia.

¬ Na verdade, até gosto que alguém relate sobre nós. – disse a moça. – Está cada vez mais difícil passar esse dever sagrado para as crianças. Espero que um dia os conhecimentos que você adquiriu e escreveu nesses papeis possam ensinar nossos filhos.

Mirou-a curioso e um tanto encabulado, ela realmente via uma utilidade maravilhosa para aquelas palavras e sentiu-se tentando a cumprir aquele desejo tão verdadeiro.

¬ E eu vi alguém além de você. – falou antes que pudesse dizer qualquer coisa. – Estava ao seu lado, como um fiel amigo e companheiro, na cultura em que vivo sua postura era a de uma esposa. Não consegui ver seu rosto e também não sei seu nome, sei apenas que os cabelos tinham a cor do sangue e suas mãos seguravam uma lança com ponta de gelo. Não sei ao certo se foram meus Senhores que me mostraram isso, mas sei que tem um guerreiro ao seu lado Milo e ele ânsia pela batalha tanto quanto deseja lhe proteger.

Assustou-se naturalmente. Camus estava cada vez mais presente, mesmo que não falasse dele, e aparentemente todos tinham algo a falar sobre ele.

Definitivamente tinha que tomar coragem e contar a verdade.

Notas finais
Eu não queria usar os personagens do Ômega (eu detesto o Ômega, assisti o bastante para saber que o odeio do fundo de minha alma), mas a falta de personagens me forçou à isso (somente a Raki é aproveitável para mim) ¬¬' Enfim, espero que tenham gostado :) Bjs. L :3