Frank - O Caçador 1ª Temporada
13 Entrevista com a Caçadora (Parte 1)
Confessionário:
The_Hunter e Cia:
Esse é um novo quadro do canal, voltado para entrevistas com... personalidades não lá muitos famosas. Aliás, totalmente desconhecidas. Além de eu não saber se isso pode ser a primeira e última vez que arrisco essa empreitada, eu não sei se levo jeito pra coisa, mas vamos que vamos, eu já dei a ideia, ela já tá aqui comigo, pronta pra estrear essa variada que esse espaço precisava. Ficar só no confessionário e nas enciclopédias e tutoriais, ao meu ver, poderia cansar vocês. Vambora começar? Tá pronta? OK então... Ahn, só vou fazer uma pequena introdução aqui sobre minha ilustre convidada especial antes de fazer as perguntas.
Ela é natural do Leste Europeu, está só de passagem aqui em Danverous City e, não menos importante, partilha comigo o mesmo gosto por caçar monstruosidades por aí. Na verdade, a especialidade dela é bem limitada, sem ofensas... Tudo bem mesmo? Sem problemas? OK... Vampiros! Essa é a praga que ela adora matar nas horas vagas. Estou aqui com Natasha, ela carrega uma história tocante, uma trajetória repleta de sangue, dores e muita, mas muita luta.
Como eu disse uma vez antes: Tem que ter uma boa razão para seguir esse ramo. Perder alguém que você ama já é um primeiro passo bem suficiente. Nós dois descobrimos muito em comum durante o caso que investigamos na semana passada.
Quer se apresentar para o público? Está bem, pode falar...
N: Olá para vocês que acompanham essa voz assustadora. A primeira pergunta é minha: Por que não recebo sintetizador?
F: Compartilhar hobbys até vai, mas esse aparelho eu não sei... Ter que ficar trocando o tempo todo, ia dar trabalho, é, você sabe... Mas não tem nada não, os inscritos merecem ouvir essa sua bela voz de mulherão da porra.
N: Muito galanteador da sua parte. Será que sua assistente é uma inscrita?
F: Minha assistente é só minha assistente. Tá legal? De novo com essa, tá cansando já... Vamos começar de vez?
N: Já estou pronta desde que recebi sua ligação. Achei que vivesse mais enfurnado em um porão estudando o sobrenatural do que morando nessa casa.
F: Acesso o porão só pra conferir os arquivos do meu pai. Nada mais e nada menos. Bem, lá vai a primeira: Com quantos anos você começou a mergulhar nesse negócio de caçar monstros?
N: Aos 8 eu tive certeza que eles existiam. Aos 10 fiz pesquisas para me aprofundar. Aos 13 comprei meu primeiro arsenal de lâminas usando uma identidade falsa. Aos 16 saí para minha primeira caçada noturna, mas só falhei inúmeras vezes chegando a quase morrer. Aos 18 matei meu primeiro vampiro, lembro até do nome e do rosto dele, da cabeça dele sendo decepada pra ser exata... ele se chamava Aleister e chefiava um tráfico de bolsas de sangue retiradas de um banco de doação. Há poucos dias, o Hunter e eu enfrentamos uma situação bem parecida... só que em circunstâncias piores.
***
Danverous City — Hospital Municipal de Doação Sanguínea
A coleta havia encerrado com sucesso. O médico que acompanhava a doadora — uma jovem adulta com cabelos pretos não muito lisos e vestindo calça jeans e uma blusa verde azulado de tecido fino — virara-se lançando um sorriso fechado à ela, levando suas mãos a retiraram a agulha no braço esquerdo. O homem tinha aparência jovem com rosto meio barbudo e cabelo castanho e liso penteado para o lado.
— Muito bem... finalmente terminamos. — disse ele, removendo a agulha cautelosamente. — Garota forte você hein. — falou, tentando puxar conversa.
— Um litro e meio não significa muito, mas é o mínimo. — disse ela, levantando-se sorridente da cadeira inclinada após o médico pôr o curativo no local da agulha — Meu marido está esperando no carro para a vez dele. Posso chama-lo? — perguntou, olhando-o e pegando sua bolsa.
Um bipe de som baixíssimo apitou do celular do médico. Verificou o que se tratava: Uma mensagem de caráter aparentemente urgente:
"TÁ PERTO DE ACABAR? ANDA LOGO! SE ELA NÃO VER COR DE SANGUE HUMANO AINDA ESSA NOITE, A GENTE É QUE VAI PAGAR O PATO!"
O rapaz aparentou insegurança movendo rapidamente as pupilas.
— Ahn... O horário de coleta infelizmente encerrou. Poderiam ter vindo mais cedo, não é?
Frustrada, a mulher suspirou com a boca, aceitando.
— Poxa vida... Bom, a gente volta na semana que vem, vou estar aqui acompanhando ele. Ele vai dar saltos de alegria quando souber. — disse ela, soltando uma risadinha breve em seguida, pondo a alça da bolsa no ombro. O médico relanceou a bolsa de sangue, intencionando pega-la depressa, mas, disfarçante, voltou as atenções à moça ao vê-la prolongar a conversa — Posso desabafar uma coisa? Foi uma luta pra arrastar esse meu esposo medroso, se acovarda com um pinguinho de sangue, não pode levar um corte leve que é motivo pra escândalo. Daí eu tentei convence-lo que é por uma boa causa, mas sabe como são os homens... imaturos por natureza. Sem querer ofender, é claro.
— Eu entendo. — disse o médico, sentindo as mãos suarem. — Tudo bem. — sorriu.
A mulher desfazia o sorriso aos poucos ao notar algo.
— Está se sentindo bem? Não parece confortável.
— Sim, eu... — afrouxou a gravata, pigarreando com uma expressão contida de incômodo — Apenas me sinto exausto. O dia foi longo.
— Imagino. — disse ela, pronta para sair — Pois então está certo. Trago ele semana que vem, sem falta. — andara até a porta — Até mais, boa noite, doutor.
— Boa noite. — disse o médico, sorrindo rápido. Assim que a voluntária da campanha de doação fechara a porta, olhou para a bolsa de sangue com os olhos castanhos mudando para um azul safira, as íris aumentadas e as pupilas reduzidas. — Vamos, controle-se... — falou a si mesmo, cerrando os dentes que por pouco não ficaram pontiagudos, levando as mãos à bolsa para retira-la do apoio.
O rapaz, já sem vestes costumeiras de médico, saíra a paisana — jaqueta de couro marrom claro por baixo de camisa xadrez amarela, calças jeans e botas masculinas — de uma passagem alternativa dos fundos do hospital por meio de uma porta enferrujada. Carregava um pacote retangular e médio, andando pelo beco mergulhado em um odor de poças d'água.
A segunda passagem, desta vez para entrar, ficava à algumas quadras dali, especificamente em uma área residencial onde existia uma casa habitada por cupins e baratas. O sério falso médico abriu com um pé de forma bruta a porta dupla de um abrigo contra furacões pelo qual se dava o acesso a um cômodo subterrâneo. Descera a escada após fechar a porta para enfim seguir com uma lanterna ao seu destino principal. O tipo sanguíneo das bolsas furtadas era o raríssimo O-.
Ao alcançar a porta, desligou a lanterna e bateu cerca de quatro vezes bem forte. Um ferrolho que deixava uma abertura retangular pequena foi aberto e um par de olhos penetrantes surgiu. As trancas foram tiradas rapidamente e enfim as boas vindas ao membro do clã foram dadas.
— Olha só quem trouxe o jantar. — disse Edward, um vampiro de jeito infame — careca, branquelo e barbudo -, visualizando o pacote com ar sacana. — Opa, será que tô vendo um buraquinho aí embaixo? Ah, então não resistiu né?
— Cai fora, Eddie. — retrucou o falso médico, seguindo em frente — Não sou nem louco o bastante pra roubar umas gotinhas. Ela foi sensata em mandar logo eu a cuidar disso. Você é quem ferraria com tudo, na certa.
— Pensando bem, acho que sim. — assumiu Edward, dando de ombros, seguindo o companheiro — Negar os impulsos é que seria tarefa de louco. — fez uma pausa, voltando a olhar o pacote com interesse — O negativo, cara... — passou a língua entre os lábios — Quantas tem aí, Mike? A demanda continua alta, essa garota é dura de satisfazer. É bom que o dia tenha sido rendoso.
— Lá vem ela. — disse Mike, olhando fixamente para frente mantendo a expressão séria. Ajoelhou-se numa só perna, erguendo os braços para entregar o pacote à pessoa que se aproximava. — Aqui está, superiora. Mais dez novas bolsas do tipo mais raro que existe na Terra.
— Só dez?! — disse uma voz feminina pertencente a uma mulher jovem de cabelos compridos loiros meio alisados vestindo uma larga túnica negra. Seu rosto pálido com lábios carnudos e olhos azuis mordazes se destacou à luz azulada instalada naquele recinto. Um leve sorriso de satisfação se fez de repente. De sua boca movendo viam-se suas presas afiadas — Estou brincando, não precisar tremer. Por mim é o suficiente pra hoje. A futura baronesa deve ser paciente. — falou, com altivez nítida.
***
Departamento Policial de Danverous City
Carrie, com um sobretudo feminino cinza, saia da mesma cor indo até seus torneados joelhos e sapatos de médio salto, entrara na sala de Frank trazendo um folheto informativo a respeito de uma empreitada da AMDC — Associação Médica de Danverous City — para fomentar a doação de sangue pelo alto número de leitos em riscos. O detetive demorou um pouco a erguer o olhar para a assistente, estando concentrando na leitura de uns papéis.
— Você é saudável e pesa mais de 50 quilos. Confere? — perguntou ela, aproximando-se da mesa, deixando o panfleto escondida atrás de si.
— Por que tá perguntando? — quis saber Frank, olhando-a com atenção.
— Nada demais, só queria descobrir se você foi voluntário da mais nova e suspeita campanha — exibiu o folheto — de doação de sangue. Como nós sabemos, a verba das clínicas está em migalhas, nem ferrando que iam tirar do dinheiro público para investir em postos de coleta. Além de que não há tantos casos com vítimas que precisem disso. Quem está comprando esse peixe anda muito mal-informado. — opinou com sinceridade, pondo as mãos na mesa do amigo que olhava o folheto — E você? Também passou em um deles?
— Respondendo a sua primeira pergunta: Sim. — disse Frank, ainda de olho no anúncio — Mas não entendo uma coisa: Por que campanha suspeita? Me parece oficial. Tem até a logomarca da associação. Bem eu não pisei em nenhum posto de coleta. Isso foi emitido há uma semana. Quantas notícias de acidentes fatais você viu na TV nesse meio tempo? Acho que alguém aqui precisa ler mais jornais. E você sabe, ninguém mais hoje compra jornais. — formou um sorriso de canto.
— O lance é que isso não é tudo. — disse Carrie, a fala rápida — Rastreei os mais de 20 postos espalhados pela cidade. Pelo Street View pude notar que todos eles tem fachadas muito discretas, o que dá a impressão de serem... clandestinos. Se fosse um projeto do governo ou da verdadeira AMDC... — apontou para o panfleto — ... acho que fariam uma divulgação mais ampla. Não acha?
— Isso não cheira bem... — disse Frank, ficando meio pensativo — Melhor eu dar uma passada em um posto e ver se posso confirmar a autenticidade ou desmascarar a picaretagem na hora. — levantou-se da cadeira, pegando o folheto no qual constavam os endereços de todos as instalações para colher material.
— Espera aí um segundo aí. — disse Carrie, barrando a passagem do detetive com a palma direita — Tá achando que isso aqui é caso comum do nível moleza? Nada de teoria passou pela sua cabeça?
— Depende do sentido de caso comum dirigido a mim. — disse Frank, tornando-se impaciente.
— Quis dizer investigação normal... para pessoas normais. — disse a assistente, gesticulando com as duas mãos abertas.
— Ah sim. — disse Frank, assentindo positivamente comprimindo os lábios como se dissesse "nada mal" — Mas a essa altura nem dá pra saber. Por isso devo ir até lá.
— Você tá fingindo. — disse Carrie, intuitiva — Tem um palpite, não é? Tô sentindo uma atmosfera de "está pensando o mesmo que eu?".
— Tá, você venceu. — disse Frank, deixando os ombros caírem em rendição e revirando os olhos. Carrie o deixara passar ao vê-lo ceder. — A pulguinha atrás da minha orelha tá me dizendo que tem certos chupadores de sangue envolvidos nesse angu cheio de caroço.
— Há, eu sabia. Estava óbvio. — disse Carrie, estalando os dedos e sorrindo. — Lembro de ouvir você dizer uma vez que odeia ir atrás de vampiros sozinho.
— Quando essas pragas estão alvejadas numa caçada, trabalho em equipe sempre é uma boa pedida. — declarou Frank, guardando o panfleto num bolso do sobretudo e abrindo a porta para rumar à mais um caso. — Nunca cacei ninhadas de vampiros sozinho. É imprudente e perigoso. — parou um pouco para recordar velhos momentos. Deu um risada rápida e baixa — Eu, o Morris e o Jack... nós combinávamos às vezes de cortarmos uma cabeças de vampiros nas áreas pouco povoadas da cidade.
— São seus colegas de trabalho que foram parar no sanatório, certo? — perguntou Carrie, os braços cruzados.
— Sim, são eles. — respondeu Frank, o tom suave — Eles me mostraram que cuidar disso sozinho seria egoísmo. E, acima de tudo, idiotice.
— Bem, sobre o nível de perigo, eu entendo e concordo, afinal eles não fazem o tipo solitário como os lobisomens, logo quanto mais deles pior. É, vai lá, se não for o que pensamos, tá ótimo. Vou ficar aqui pesquisando mais a fundo sobre a tal campanha. — disse Carrie, dando uns passos adiante à mesa. — Ah, só um instante, Frank. — soltou ela, andando apressada. O detetive ia fechando a porta. A assistente falou pela brecha — O diretor recebeu uma ligação hoje cedo de alguém não identificado dizendo estar a par desse assunto e querendo informações das autoridades sobre uma investigação.
— Não disse se era homem ou mulher? — indagou Frank, franzindo o cenho.
— De acordo com o diretor... uma voz de mulherão. — disse Carrie, fazendo o detetive pensar. — Alguma agente do Serviço Secreto?
— Considerando nossa teoria, eu duvido. — disse Frank. — Te ligo assim que achar algo relevante.
— Tá legal. — disse Carrie, fechando a porta.
***
Em um sala espaçosa e com iluminação azulada, a promissora baronesa, que tediosamente aguardava o final de sua transição para finalmente ser declarada como tal, sentada em seu trono com a perna esquerda cruzada, esvaziava uma bolsa de sangue até não restar mais nenhuma gota, como se estivesse ingerindo suco de caixinha. Suas roupas eram diferentes: jaqueta de couro preto azulado de mangas longas por cima de uma blusinha cinza que deixava o umbigo com piercing à mostra, além de saia jeans curta, meia arrastão e coturnos.
Virou a bolsa amassada de ponta à cabeça para uma gotinha cair em sua língua. Os demais vampiros observavam bastante quietos demais, mas por dentro sentiam-se pouco à vontade mediante às exigências e caprichos da superiora que tirava um proveito abusivo do poder sem nem antes de fato alcançar a liderança suprema entre todos os vampiros existente no mundo. Um ideal que revira e mexe o psicológico por se tratar unicamente de poder e em se tratando de vampiros a impulsividade era amplificada tais como outras emoções.
Jogando fora a bolsa esgotada, ela voltou os olhos para seus servos.
— Você aí! — apontou para um vampiro aleatório, direcionando o indicador à bolsa recém-consumida — Apanhe isto e jogue no lixo. — o subordinado hesitou com uma cara fechada, mas fora intimidado com um olhar ferrenho da garota loira e arrogante, logo obedecendo. — Isso, muito bem. Gosto de ver assim. — sorriu satisfatoriamente, mas logo emanou um breve desânimo — Por favor, não me digam que aquela foi a última.
— A senhora não mandou o Mike buscar mais. — disse um dos vampiros, um homem caucasiano com dreadlocks no cabelo e vestindo um casaco de tecido grosso com pelos na gola e nas mangas. — Pode ser eu dessa vez? Posso detectar O negativo não fazendo mordidas muito profundas. Se eu confirmar que é, extraio com uma seringa e se não for... — deu um sorriso malicioso — ... é todo meu.
— Em primeiro lugar: Mike é insubstituível, ele tem um elemento essencial para esse tipo de coisa: a discrição. — disse ela, severa no tom — E em segundo lugar: Isso significa que o plano vai continuar seguindo exatamente como começou. — estreitou os olhos — Não fique se achando, você até pode ser bom, mas isso aqui não é uma competição. Disse uma vez e vou repetir: O plano deve seguir sem ataques. E não me chamem de senhora! — reclamou, assustando alguns.
— Quem escolheu essa vadia? — perguntou um, de estatura mediana e usando camisa de flanela, cochichando com outro ao seu lado ao pé do ouvido.
O insulto não escapou à audição extremamente apurada da líder.
Em supervelocidade, a vampira se aproximou daquele que se manifestou ousadamente, pegando-o rapidamente pelo pescoço com a mão direita de modo a tira-lo do chão.
— Se o incomoda o fato do novo líder dos vampiros ser uma mulher... eu só lamento. — disse ela, apertando com força. O vampiro emitia gemidos entrecortados com a boca aberta, sentindo-se sufocado. — Presumindo que não tenha comparecido à votação... — canalizou mais força no aperto, deixando o restante da ninhada com os nervos frágeis — O que estava fazendo de tão importante?
— Me alimentando. — disse o vampiro, esforçoso, as marcas das unhas da opressora ficando no pescoço. — Abstinência forçada é uma droga. Você também é. — disparou, arregalando os olhos sem medo de uma resposta.
— Sério? — indagou ela, franzindo o cenho com um sorriso infame — Sinceramente, isso não justifica sua integração ao grupo subordinado. Acho que você também merece ser descartado. — disse, logo arremessando-o violentamente. O corpo do vampiro voara e chocou-se contra uma parede brutalmente logo caindo ao chão. A líder virou-se ao amedrontado grupo que representava a parcela dos mais próximos do Barão. — Por que estão me olhando desse jeito? É só não serem idiotas como ele. — apontou com o polegar esquerdo para trás — Se eu tivesse as joias do poder, teria sido pior. Muito pior. — disse em tom ameaçador, logo em seguida voltando-se para retornar ao trono. Ergueu de leve as mãos, movendo os dedos — Muito em breve aquelas belezinhas serão usadas com sabedoria quando finalmente tocarem esses dedos maravilhosos.
— Daí não vai ter pra ninguém. — disse um dos súditos, erguendo um punho fechado, animado.
— É verdade. — respondeu ela, retribuindo uma piscadela sedutora.
— Puxa-saco. — murmurou em tom baixo o que estava ao lado do apoiador, incomodado.
Um dos servos colocado na categoria "garoto de recados" entrara de surpresa, fazendo-a se virar.
— Grande líder. — disse o vampiro, um homem negro, careca e de jaqueta de couro cinza com zíper fechado no meio — Parece que a iniciativa chamou a atenção de um não-voluntário.
— Seja mais claro. — exigiu ela, fria na voz.
— Um homem com aparência de detetive particular entrou com intenções de trabalho. Quer saber tudo sobre a organização, da primeira raiz até a última folha. — deu mais passos à frente, exibindo seriedade em seus grandes olhos — E o mais interessante: Sentiram um odor de... prata pura.
A loira o encarou por vários segundos. O significado daquilo a excitava de um modo avivador.
— Mande-os trazerem ele pra mim. Sabem como fazer. — ordenou ela, esboçando um sorriso torto, fechado e malevolente.
***
Frank averiguava com cuidado algumas pastas com dados pessoas de voluntários e pendentes relatórios de coleta com diversas informações de material a serem entregues a sede da AMDC.
O médico responsável por acompanhar os doadores saía de sua salinha particular, fechando a porta atrás de si, escondendo algo na mão esquerda ao observar o detetive realizar seu trabalho. Resolveu perguntar para manter-se mais próximo.
— Algum progresso?
— É, parece que está tudo OK por aqui. — disse Frank, suspirando e deixando as pastas em seus devidos lugares — São credenciados pelo governo há dois anos. — virou-se — Tudo limpo. — sorriu fechadamente.
— Perdoe meu jeito estranho de dar boas-vindas, não quis parecer mal-educado. — disse ele, desculpando-se desnecessariamente. — Tem certeza de que já terminou? Tenho muito respeito por agentes federais, sobretudo vindos do DPDC, portanto eu cedo todo o meu espaço na maior boa vontade, eu admiro muito o trabalho de vocês.
— Err... — Frank mostrou-se desconcertado — Obrigado. — sorriu nervoso — Só tem uma coisa que não entendo... é essa papelada toda aí... — disse ele, virando-se para destacar os relatórios empilhados — Isso tudo já não devia estar nas mãos dos idealizadores?
— É, devia. — disse o homem, erguendo uma grande chave inglesa que segurava com a mão esquerda coberta por um luva de algodão preta. — Mas não queremos entregar.
Covardemente, batera com a chave contra o lado esquerdo da cabeça de Frank. O detetive caiu no mesmo instante, perdendo a consciência instantaneamente.
Nas mandíbulas da ferramenta continha um pouco de sangue devido ao impacto violento do golpe.
Obedecendo o instinto, o falso médico largara a chave e transformara-se, alongando as presas e alterando os olhos para o azul safira penetrante. Abriu a boca seguido de um rosnado, suas presas indo de encontro ao pescoço vulnerável e desprotegido de Frank. Logo ao se agachar, antes que pudesse morder, o celular interrompeu com seu toque alto.
"Merda!", pensou ele, sacando o aparelho e atendendo a chamada, voltando a "humanidade" ao mesmo tempo. Ele levantou-se, raivoso.
— O que é? — perguntou ele, ríspido.
A voz do outro lado estava em viva-voz.
— Esqueci de avisar que não é para morde-lo.
— Adivinhou o futuro. Eu ia dar de presente um caçador com dois pontinhos bem profundos na jugular.
— A nossa líder quer ele vivo, são e, principalmente, humano. Já vou até aí busca-lo.
— Conduzir interrogatório com uma presa fácil?! No que ela tá pensando?
— As ordens dela são inquestionáveis. — ressaltou o vampiro noticiador.
— Palavras dela ou suas? — insistiu o vampiro falso médico.
— Palavras dela que eu concordo. — retrucou ele. — Quando eu chegar aí, quero vê-lo de pescoço limpo. Ouviu bem?
— Eu vou me esforçar. Você sabe que é difícil pra qualquer um de nós resistir... — ele olhara para o detetive caído — ... a uma deixa tão exposta desse jeito. — sorriu sacanamente, indicando que não garantiria nada a respeito de sua parte do plano.
***
Uma quantidade média de água gelada fora jogada no rosto de Frank para desperta-lo.
Acordando subitamente com o som das risadas zombeteiras dos vampiros, o detetive estremeceu assustado, sentindo um frio de bater o queixo. O que de longe não era pior do que a dor lancinante que percebeu segundos depois torturar o lado esquerdo da cabeça, fazendo-o apertar os olhos. Logo sentiu as cordas apertando-o.
— Belo adormecido finalmente acordou. — disse a vampira líder, de braços cruzados com outros quatro vampiros atrás dela exibindo facetas de pura infâmia — Vamos, quero que olhe pra mim, sou a estrela desse espetáculo...
Frank seguiu a origem do som da voz ainda de olhos fechados. Ao abrir, algumas gotas caindo de seus cílios, deparou-se com a gangue e dando-se conta da cilada em que se meteu. O ambiente fedia a mofo e tinha paredes brancas com um cinza que indicava sujeira. Poucos metros acima, havia uma lâmpada econômica de luminosidade amarela com alguns mosquitos voando em torno.
— Deixa eu adivinhar... — disse Frank, tentando se reorientar — Vampiros?
— Da mais alta classe, pra ser exata. — disse a líder, levantando uma sobrancelha — E você o caçador não muito esperto para um coroa. Não pressentiu o perigo atrás de você?
— Estava ocupado demais... — falou o detetive, relanceando os outros vampiros que o encaravam — ... facilitando o meu plano. Eu consegui.
A informação deixou-a surpreendida.
— Então já tinha previsto os movimentos dos meus lacaios...
Um vampiro — um homem parrudo, musculoso e careca de jaqueta preta — manifestou seu contra.
— Sabe, eu acho ofensivo quando nos chamam de lacaios...
— Cala a boca. — disse ela, em tom rude, sem tirar os olhos de Frank. Sorriu. — Já que chegou aonde queria, posso lhe fazer uma proposta, é minha bandeira branca.
Frank rira.
— Parece que esses fios loiros aí estão afetando você. — zombou ele — Qual é a sua? Promover a paz entre os caçadores e vampiros pra sair ilesa? Já saquei que você é a comandante da facção.
— Não comando uma, mas todas... do mundo inteiro. — disse ela, enfática, aproximando-se dele — Na verdade — passou a mão direita pelo ombro do caçador em um movimento seduzente -, estou a um passo de alcançar o meu potencial máximo. Só mais umas bolsas de O negativo... e esse mundo vira o céu pra mim.
— E o inferno pra nós. — disparou um vampiro, baixinho. O grandalhão escutou, virando o robusto rosto para ele a fim de intimida-lo com um olhar rígido.
— Deixa eu ver se entendi: Quer se tornar a rainha dos vampiros a base do tipo sanguíneo mais raro? Tá faltando um pouco de lógica nessa parada aí.
— Eu até iria me explicar, mas estamos meio que sem tempo. — disse ela, cada vez mais próxima do detetive — Me chamo Ivana. E nada vai me impedir de conquistar meu grande sonho. — pousou a longa unha do indicador esquerdo no lábio inferior de Frank — Quero fazer um acordo. Do jeito fácil.
— Sai de perto... — disse Frank, não gostando dos avanços de Ivana — Não quero nada vindo de você.
— Você vai gostar. Escuta. — disse ela, sorrindo tortamente — Em troca de você riscar vampiros da sua agenda de caçador... eu e todo o meu bando nos mudamos para a Europa, o lugar onde o primeiro líder reinou em absoluto por um século inteiro. É pegar ou largar.
— Não me vem com essa, sua...
Um distante som de motocicleta cortou o clima da conversa, chamando a atenção de Ivana e seus vampiros que se empertigaram de repente.
— Estão ouvindo? — disse o grandão, altamente desconfiado, logo olhando para Frank.
— Vindo diretamente à nós, tenho certeza. — constatou outro, a audição maximizada.
Ivana voltou-se para Frank, agarrando-o pelo queixo.
— Ao que tudo indica, isso pode mudar o rumo das coisas entre nós.
— Peraí, o que tá acontecendo? — perguntou Frank, desesperando-se.
— Seu plano também era trazer um resgate, não é desgraçado? — perguntou um dos vampiros, chegando perto e estralando os dedos para querer socar Frank. Ivana o impediu erguendo a mão esquerda aberta.
— Não é verdade, eu tô numa missão solo. — defendeu-se Frank, com veemência. — Melhor você me largar, sua vampiranha. Se liga com quem você tá lidando... Meu nome é Frank Montgrow e sou um herói solitário no campo de batalha. Eu juro.
— É o que veremos. — disse Ivana, soltando tirando sua violenta mão.
— O que vão fazer comigo agora? — perguntou o detetive, sentindo as amarras nos pulsos afrouxarem — Já levei um banho gelado. Mordida pra finalizar? Vão me transformar, me matar...
— Vamos mante-lo vivo. — disse Ivana para a surpresa de todos. — Se seu amigo desconhecido quiser colaborar, vamos negociar a sua liberdade. Caso contrário... vou eu mesma transforma-lo. E se for assim... — dera um beijo rápido na boca do detetive. — ... mal posso esperar para nossa noite quente.
Com uma última alisada no ombro de Frank, Ivana despediu-se sorrindo maliciosamente. Seu subordinado de quase 1,90 de altura e de aspecto carrancudo resolveu segui-la, mas parou para fitar o detetive com seriedade antipática. Frank só o encarou de volta como se não entendesse.
— Quer me dar um selinho também? — perguntou ele, tirando sarro da postura do vampiro que saiu mantendo o semblante de casca grossa.
***
Alguns vampiros instintivamente curiosos se reuniam perto da entrada do grande galpão abandonado para se certificarem do que estaria se avizinhando com grande barulho. A motocicleta cor preta e de design ultra-moderno cantando pneus com estardalhaço para chamar atenção e levantando fumaça.
— Avisem aos outros, o idiota com certeza quer treta com a gente. — disse um deles, estando à frente do grupo. — Vão, rápido! — mandou, impaciente. Logo pulara a cerca de arame losangular em um pulo selvagem e eficaz em um arco amplo até o outro lado. Transformara-se, abrindo a boca com as presas afiadas à mostra e os olhos alterados, logo correndo em fúria contra o misterioso motoqueiro.
O mesmo parou de levantar fumaça para disparar uma lâmina de prata limpa e brilhante que pegou logo na testa do vampiro, o qual caiu imediatamente para trás. A arma saíra de um bracelete que continha um pequeno número de lâminas úteis para bandos menores. O disparo era acionado com o fechar do punho. A parcela da ninhada que havia sido solicitada irrompeu das portas alternativas do galpão em uma horda de aproximadamente 22 vampiros com sangue nos olhos.
Cantando pneus por uma última vez, o matador oculto enfim saciou a curiosidade dos inimigos ao retirar o capacete com elegância...
— É uma garota! Pra cima dela com tudo! — bradou um vampiro, com uma tatuagem de um pentagrama na testa, que parecia um daqueles bad-boys de bares com sinuca, cerveja clandestina e meretrizes. Todos pulavam a cerca em saltos espantosos.
A mulher, vagarosamente, balançou a cabeça de um lado para o outro, deixando as longas madeixas meio onduladas lhe caírem aos ombros logo ao tirar o capacete. Seu rosto era de um branco tão alvo quanto a neve que parecia esculpido em porcelana e exalava o ar maduro que se esperaria de uma mulher aparentando estar na plenitude de seus trinta e poucos anos. De um olhar azul cortante, ela fitou o exército á sua frente, logo em seguida descendo da moto sacando de seu cinto de apetrechos duas facas com lâminas de prata, andando e erguendo-as e fazendo-as executar giros verticais no ar até caírem de volta nas palmas para firma-las em golpes precisos e letais.
Acertou os dois primeiros que vieram, cortando-lhes com brutalidade e fazendo sangue espirrar. Um outro pulou para agarra-la e derruba-la, mas a moça fora rápida para desembainhar com o clássico ruído uma espada média que decapitara-o ainda com ele estando em pleno ar — poucos antes de chegar perto de toca-la com seus dentes. A cabeça separou-se do corpo num piscar de olhos.
Depois virou-se e decapitou mais outro. Logo seguiu em frente, girando a espada com desenvoltura, passando a chutar e socar em ritmo acelerado e desferir cortes velozes em um show de experiência contra os dentuços que tentavam bloquear a passagem e iam tornando-se numerosos.
***
As cordas estavam cada vez menos firmes.
— Tá na hora de você vir conosco, valentão. — disse um dos vampiros que ficara de vigília.
— Acho melhor vocês chegarem um pouco pra trás. — disse Frank, com uma expressão enigmática. O segundo vampiro percebeu poucos segundos depois, expressando cólera.
— Ele se libertou! — exclamou, aproximando-se com ameaça.
O detetive desatara o último nó nos pulsos, de repente se desvencilhando completamente da corda e usando-a para "laçar" o pescoço do vampiro que tinha decidido leva-lo a outro ponto. Com isso, o jogou com toda a força pela lateral diretamente contra o que notou Frank se desfazendo das amarras, ambos colidindo à parede em grande impacto.
O terceiro vampiro o atacou em um salto feroz já transformado.
Frank rapidamente já havia sacado seu facão dentado ao ser derrubado, logo forçando para que ficasse por cima do vampiro que esforçava-se para cravar as presas no pescoço do detetive.
Com a arma firmemente segurada com as duas mãos — a esquerda pressionando a lâmina e a direita no cabo -, Frank apostou em um movimento arriscado para decapita-lo de forma vagarosa.
O vampiro se debatia, levando suas mãos abertas ao rosto de Frank, logo seus polegares alcançando os olhos do detetive intencionando perfura-los na carúncula lacrimal.
Em um último esforço, o detetive grunhiu, empurrando a lâmina dentada ao pescoço do vampiro.
Por fim, ela desceu, consequentemente fazendo salpicar sangue contra a face de Frank. As mãos que tentavam violenta-lo caíram no mesmo instante.
No entanto, a mão do vampiro que jogou contra parede o agarrou subitamente pelo pescoço, fazendo inclinar sua cabeça para o lado direito. Frank sentiu um hálito rascante e abafado próximo à nuca.
— Dessa você não escapa, miserável. — disse ele, aproximando seus presas pontudas à veia carótida. Frank sentia-se preso e sem aberturas para atacar. Como única opção, socou o vampiro no abdômen, de uma só vez o afastando em alguns centímetros. Depois virando-se para lhe aplicar um chute no peitoral que o derrubou. Pegara a cadeira com firmeza, golpeando-o — e quebrando-a — três vezes na cabeça até que se reduzisse em meros pedaços soltos de madeira. Por sorte, ele desmaiara.
Frank sentiu novamente o peso da verdade sobre o quão trabalhoso e exaustivo era enfrentar sugadores de sangue monstruosos sem que a união faça a força.
Aproveitando o curto tempo que o vampiro estava apagado, o detetive o pegou pelo cabelo, erguendo-o quase o sentando, para enfim decapita-lo em um corte horizontal bem direcionado da esquerda para a direita.
***
Tentando escapar por um dos corredores, o detetive ouvia o alarido do lado de fora com quase inaudíveis sons de lâminas rasgando gargantas. Havia uma outra sala de um dos lados do corredor, cuja porta fora aberta e dela saíra um dos vampiros que Ivana considerava de menor patente.
Logo ao ver Frank estacar ante a sua presença, o mesmo exibiu as presas e supervelozmente avançou contra ele, derrubando-o com violência.
— Acho que é o fim da linha pra você. — disse ele, agarrando-o com força bruta. A faca suja de sangue voou longe devido ao ataque imediato. Frank sempre lidou problematicamente com a dificuldade em não assimilar a velocidade e agilidade de seus oponentes dentuços para esquivar-se com melhor performance. De todas as criaturas que já enfrentara, Frank, de fato, se saía menos profissional com vampiros e nunca antes encontrou oportunidades viáveis para contatar especialistas que lhe entregassem materiais profundos que não se encontrava fácil em resultados de pesquisa online.
Antes que a saliva do vampiro gotejasse sobre o rosto do caçador, uma mão pegara-o pelo cabelo e o detetive surpreendeu-se ao assistir a cabeça de seu agressor ser cortada de forma tão exímia quanto a sua. Talvez até mais. O detetive protegeu o rosto com as mãos contra o sangue que respingou rápido.
A mulher que o salvara chutou o corpo para longe dele, jogando a cabeça em um canto depois.
— Quem é você? — perguntou Frank, franzindo o cenho, as palmas das mãos sujas de sangue.
— A caçadora mais temida entre todos os vampiros. Prazer. Natasha. — disse ela, estendendo a mão direita para levanta-la — Não esperava encontrar vítimas. Sei que não é o covil deles, se o levaram até aqui foi por uma razão bem especial. Estou errada?
— Não está não. — disse Frank, reerguendo-se e limpando as mãos no sobretudo. — Obrigado — fez uma pausa para olha-la com estranheza — Peraí... Você disse caçadora?!
— Você é o primeiro federal que salvo e fica surpreso com minha profissão. Isso é normal. — disse Natasha, limpando sua faca com uma flanela laranja. — Anda, temos que dar o fora rápido. — puxou-o pela manga do sobretudo. Ambos caminharam a passos largos e firmes.
— Não sou apenas um federal. — disse Frank.
— Vai me dizer que está aqui por fazer o mesmo que eu? — perguntou Natasha, incrédula.
— Exatamente. Os desgraçados me raptaram. — explicou ele, querendo ser reconhecido. — Costumo caçar esses e uma porrada de outros ainda piores.
— Desculpa, sem querer julgar o livro pela capa, mas... — ela o olhou por cima do ombro — ... você tem o perfil de um amador.
Frank arqueou as sobrancelhas para ela como se não acreditasse no que ouviu.
***
Ao correram em direção a moto, Frank observou a pilha de cabeças de cortadas com sangue esparramado por todas as proximidades, imaginando que sua salvadora seja a especialista com a qual aprenderia várias táticas efetivas de combate a vampiros, dada a precisão que foi necessária para que apenas um lidasse com um exército que passava dos 30.
— Você é rápida no gatilho hein. — disse Frank, impressionado. — Confesso que agora me sinto um amador. — falou, com um sorrisinho de canto.
Viraram-se de súbito para a entrada do galpão. Pelas quatro portas saía uma nova enxurrada de vampiros furiosos, uma horda que Natasha reconheceu de modo certeiro olhando com urgência.
— Vem, vem, temos que ir. — disse ela, correndo à moto, mas parou ao não sentir Frank acompanha-la. — O que tá esperando? — perguntou ela, em tom alto. — Olha, desculpa pelo que falei de você, não precisa provar que pode ser tão bom quanto eu. Eu vi a faca no corredor. Era sua, certo?
— Sim, era. E agora tô com munição zerada. — disse Frank, relanceando a moto e dando olhadelas na direção de onde o feroz exército vinha — Mas esse não é o problema.
— Então qual é? — questionou Natasha, ora olhando para Frank ora olhando para o bando de vampiros sedentos. — Diz logo, não temos tempo!
— Essa sua moto aí... Ela é segura?
— Então é isso? É sério? — indagou ela, voltando-se à moto para tirar a rede elástica que prendia o capacete da garupa. — Pega! — disse, jogando-o para o detetive que pegou por reflexo — Vem, sobe. — pegara seu capacete e preparou-se para acionar o motor. — Tudo tem sua primeira vez.- prendeu o cabelo para por o capacete preto.
Rendido, Frank subira na moto por uma questão de sobrevivência.
— Por que você arregou logo agora? — perguntou Frank, afivelando o capacete. — Detonou com uns 30, esses parecem estar um pouco em maior número mas se disse ser tão temida pode dar conta deles.
— De jeito nenhum. — retrucou Natasha, apertando os guidões da moto, dando a partida. — Eles são o último recurso. Ivana é a líder deles, já nos enfrentamos algumas vezes. Sei como ela joga. Sempre mandando seu bando mais experiente como a cereja do bolo. Se segura. — por fim, a moto saíra em alta velocidade, distanciando-se rapidamente e levantando poeira contra a multidão vampírica que corria em polvorosa para tentar pega-los, mas sabiam que àquela altura era inútil.
A moto rasgava o ar em sua quilometragem alta demais para o limite permitido daquela via expressa. Quem passava pelas calçadas ou passarelas podia vislumbrar um facho acelerado vermelho da luz do farol traseiro, executando ultrapassagens arriscadas. Frank, enrubescido, segurava-se na cintura de Natasha pouquíssimo a vontade em meio ao meio de transporte que considerava menos seguro, o vento fazendo seu sobretudo esvoaçar, o que pediria no dia seguinte uma boa passada de ferro.
— Que mal pergunte, mas... Pra onde exatamente você tá nos levando? — perguntou ele.
— Como só vim de passagem, fiz reserva num hotel barato. É pra lá que nós vamos. — determinou Natasha.
— Sugiro que a gente vá para o DPDC. Sou agente específico de lá, digamos que é meu emprego de fachada. Tenho distintivo aqui comigo se não acredita. Conheço essa cidade como a palma da minha mão, não estamos muito longe. Dá pra considerar? Preciso voltar já que passei horas apagado num ninho de vampiros. Devem estar preocupados.
— É, tem razão. Eu baixei o mapa da cidade antes de cruzar a última fronteira. No decoreba, claro, pouco tempo pra me organizar pra uma investigação que levou dois meses.
— Dois meses!? Então... — o detetive não conseguia sequer esconder a surpresa — Soube do plano deles, da campanha de araque, e seguiu as melhores pistas antes de mim.
— Podemos falar disso quando chegarmos? Prometo te contar tudo. — assegurou a caçadora, impaciente.
— OK. — concordou Frank, que, após uma curta pausa, deu uma risadinha que soou curiosa aos ouvidos de Natasha.
— Qual é a graça?
— O herói foi salvo pela heroína mais experiente que ele em matéria de chupadores de sangue. E sabe o que é mais hilário?
— O quê? — indagou ela, atenta.
— Perdi meu BV com uma vampira. — disparou Frank. O comentário fizera Natasha franzir o cenho, fazendo-a imaginar inúmeras coisas sobre aquele homem que mal tinha acabado de conhecer.
CONTINUA...
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