Frank - O Caçador 1ª Temporada

14 Entrevista com a Caçadora (Parte 2)


Departamento Policial de Danverous City

Carrie se levantou da cadeira de sua sala com olhos arregalados.

— Você disse Natasha?! Ma-mas... Natasha de quê, o sobrenome?

— De repente, você ficou assustadora. — afirmou Frank, olhando-a estranho. — Relaxa aí. — tentou acalmar a euforia da assistente, erguendo de leve as mãos — Olha, não nos entrosamos muito até aqui. Ela não mencionou nada sobre você, porque... me parece que você a conhece de muito tempo pra se espantar desse jeito. — fez uma pausa breve, supondo algo improvável — Não me diga que vocês duas são parentes? Que coisa engraçada, minha assistente tem uma parente caçadora e nunca falou...

— Cala a boca. Você não sabe a sorte que tem, seu grande idiota sortudo. — disse Carrie, tapando a boca de Frank com sua mão direita, mal contendo seu sorriso de felicidade, depois andando em passos desajeitados pela sala — Quem dera fôssemos da mesma família. — se virou para o amigo — Onde é que ela tá?

— Ahn... numa sala de espera. Mas ela já tá vindo daqui a... — Natasha enfim entrara no recinto — ... zero segundos. — disse o detetive, não esperando ser tão repentino. Carrie sentiu as pernas bambearem tamanha a sua emoção ao observar a caçadora dos pés à cabeça com maravilhosidade. — Respira, Carrie. — aconselhou Frank, preocupado. Ele franziu a testa, intrigado com a reação — Afinal, que diabos tá acontecendo aqui? Carrie, o que é toda essa... — mal soube explicar — ... essa coisa? Parece até que tá tietando alguém famoso.

— E eu sempre reconheço um fã quando vejo um. — disse Natasha, sorrindo com satisfação para Carrie ao constatar estar diante de uma admiradora genuína de seu trabalho como vocalista de uma banda de rock pesado. — Ah é, esqueci de falar. — disse ela, dirigindo-se à Frank — Sou a líder de uma banda chamada Darkside. É sério que nunca ouviu falar?

Frank fez que não com cabeça, perdido.

— Eu posso te tocar? — perguntou Carrie, afoita.

Natasha suavizou sua postura para deixa-la mais vontade.

— Vem cá. Quero abraça-la. — disse ela, abrindo os braços em acolhimento. A assistente foi ao encontro sem titubear, sorridente como uma criança realizando seu maior sonho.

— O momento tiete já acabou, agora podemos nos focar no caso? — questionou Frank, centrado. — Desculpa, Natasha, não ter reconhecido você logo de cara... é que meus gostos musicais são meio indefinidos, não ando muito por dentro desses assuntos. — alongou os braços rapidamente para os lados e bateu uma palma — Bem, finalmente tá na hora dos esclarecimentos.

— Está muito apressado. — disse Carrie, repreendendo-o — Essa reunião não vai acabar sem uma selfie de nós três. — ponderou ela, apontando ao detetive com o indicador. — Não aceito "não" como resposta.

— E nem eu. — disse Natasha, concordando, as mãos na cintura.

O detetive olhou para ambas de um modo apreensivo como se estivesse num beco sem saída.

— Tá legal, prometo. Muito bem, Natasha, seja bem-vinda ao DPDC. Está é Carrie, ela é a minha assistente e minha melhor amiga. Foi ela quem descobriu o lance da campanha rolando na cidade.

— Está vigorando em mais de dez cidades. Saí de onde montaram os últimos postos de coleta até o lugar que foi o gatilho pra esse plano maligno. — disse Natasha — À primeira vista, podem estar agindo ilegalmente, mas só basta uma pesquisa rápida pra saber porque nada foi feito até agora pra desmanchar com tudo. — falou, indo até o laptop, mas parou ao olhar Carrie — Posso usar?

A assistente consentiu na hora.

— Pedindo permissão pra sua maior fã? É claro, faça o que quiser, fica à vontade.

Frank inclinou-se para falar por trás do ouvido dela.

— Cuidado pra não passar dos limites. Parece até que voltou a ter 15 anos.

Carrie entortou a boca para a direita a fim de falar em tom baixo, sem tirar os olhos de Natasha.

— Não estraga o meu momento.

A busca por fatos comprobatórios da caçadora havia terminado em pouco tempo.

— Vejam. — virou o laptop para a dupla — O prefeito de Danverous City em uma rara foto com o elemento suspeito. Reparem no pingente que ele usa. — Frank e Carrie aproximaram-se para visualizar melhor o colar com um artefato similar a uma pequena pérola branca meio amarelada. — É um objeto sobrenatural, absolutamente nenhum vampiro saí de casa para curtir um bronzeado sem ele. Em outras palavras, essa pedra inibe os efeitos do sol na pele dos vampiros. Fiquei tão chocada quanto vocês na primeira vez que vi.

Frank não tinha como expressar sua perplexidade.

— Mas... Mas logo o prefeito?! — disse Carrie, atônita — Isso é inacreditável.

— Nosso prefeito... é um chupa-sangue. — disse Frank — Não sei se vou conseguir dormir direito tentando lidar com isso. — fechou os olhos por um breve instante, depois voltando-se à Natasha — Então isso significa que realmente ele autorizou esse plano? Tá conivente com a tal da Ivana?

— É minha principal teoria. — respondeu ela, firme, afastando uma mecha do cabelo no rosto — O prefeito nada mais é que um seguidor do barão vampírico, só deve ter contrato de exclusividade para se isentar das reuniões pela sua influência.

— Barão? Vampiros tem um tipo de hierarquia? — perguntou Carrie, avidamente curiosa.

— O título que se dá ao líder que vai comandar os vampiros por um século inteiro. — revelou a caçadora, as mãos apoiadas na mesa — O último foi morto por mim há exatamente 6 anos.

— O quê?! — disseram Frank e Carrie, em uníssono, partilhando a surpresa.

— Verdade. Pertencia à linhagem dos Crimson. Ele matou meu pai e sequestrou meu irmão mais novo, mas hoje ele está bem, fazendo intercâmbio em Londres.

— A Ivana fez mistério sobre esse lance de liderança geral. — disse Frank, relembrando o beijo da vampira involuntariamente — Mas não entendi porque precisam de sangue O negativo.

— O ingrediente principal para a transição. — respondeu Natasha, olhando-o — Todo vampiro que é eleito deve passar essa fase. É como um elixir poderoso. Faz duas semanas desde a última vez que Ivana e eu lutamos. Ela falou que faltava pouco para acabar a transição.

— Disse que estava a um passo. — complementou Frank, sério.

— E se for amanhã? — conjeturou Natasha, o tom duro. — Se sim, temos que impedi-la a qualquer custo.

— De preferência, amanhã logo de manhã. — considerou Frank, assentindo.

— Frank, esteve na mira dos bandidos sendo intimidado. — disse Carrie, preocupada — Checou os bolsos? Podem ter implantado um rastreador ou uma escuta.

— É uma possibilidade. — disse Natasha, chegando perto do caçador — Deixa eu ver.

— Querem que eu fique nu? — perguntou Frank com um sorrisinho de canto — Olha, posso ter ficado apagado por um bom tempo, mas... sei lá, não acho que tenham pensado nisso.

— Mas quando cheguei devem ter imaginado que eu era sua comparsa. Acertei?

— Na mosca. — confirmou ele, levantando uma sobrancelha.

— Além disso, Ivana pode ter usado o beijo como uma deixa. — especulou Natasha, focada.

Carrie quase se engasgara com a própria saliva ao escutar aquilo.

— Como é?! Disse beijo? — perguntou, voltando-se para Frank em seguida — Permitiu uma vampira roubar um beijo seu? Como pôde?

— Alô-ô, cadê o bom senso? — questionou Frank em repreensão — Eu tava amarrado pelos pulsos e pelos braços.

— Podia ter comprimido os lábios. — sugeriu a assistente, teimosa à questão.

— Digamos que ela foi mais rápida. Uma situação de vida ou morte como aquela não dava pra ficar prevendo os movimentos dos inimigos. Aquela desgraçada podia ter me mordido em vez disso. Preferiu ir na sacanagem porque acreditou que eu fosse ser moeda de barganha pra Natasha. — apontou para a caçadora — Olha, amanhã mesmo vamos dar um corretivo naquela vampiranha.

— Horário melhor não há. — disse ela, em concordância — Ela não pode completar a transição para se tornar baronesa até o meio-dia. Do contrário, o amuleto será inútil e ela será indestrutível já que é mais jovem. Barões ficam mais fracos com o passar do tempo, mas pouco depois da transição... eu nem tento imaginar o quanto de poder eles podem liberar. Se fôssemos só nós dois, hipoteticamente, nem toda a minha experiência iria nos salvar da morte.

— Então só precisamos arrancar o colar do pescoço dela e leva-la pra tomar um banho de sol antes da última bolsa de Sanguynho. — compreendeu Frank, esfregando de leve as mãos — Mal posso esperar.

— Muito menos eu. — partilhou Natasha — Acabar com a raça da Ivana será um peso a menos nas minhas costas. Ah... sim, eu quase ia me esquecendo. — disse ela, com um dedo no queixo, meio pensativa e a cabeça meio baixa. Um detalhe crucial indispensável — Cada barão que atinge o estágio máximo da transição tem por direito usufruir das dez joias do poder.

— Joias do poder? — indagou Carrie, interessada.

— Sim. O último Crimson tinha apenas nove. A décima herdei do meu pai, eu ainda não faço ideia de como ele conseguiu. É daí que vem toda a fonte de poder e o perigo de falharmos na missão.

Frank assentiu firme e seriamente à companheira.

— Tenho uma lista de contatos bem longa de colegas das antigas. Se a maioria tiver disponível... vamos ter nosso próprio exército recheado de prata e armado pra guerra.

— Ótima ideia. — disse Natasha para o detetive. Carrie estava analisando algo em seu celular.

— Frank... e deusa do rock, quero dizer...

Natasha sorriu mais abertamente.

— Tá tudo bem, pode me chamar só de Natasha, sem problema.

— Esse dia não tem como ficar cada vez melhor. — disse ela, tomada pela euforia novamente. No entanto, Frank tratou de apaziguar esse fogo com um olhar de desaprovação seguido de apontadas com as pupilas diretamente ao celular para que ela informasse o que descobriu — Ahn... Acabo de ver aqui nas notícias por minuto que o prefeito ordenou um carregamento de bolsas de sangue em oito caminhões com rotas para hospitais da área nobre. Ou seja, todo o O negativo coletado direto para a boquinha de cemitério que beijou o Frank.

— Só lamento pelas vidas que estão risco nos leitos. Maldito. — comentou Natasha, inconformada.

— Vou avisar pro pessoal. Bolar uma estratégia pra sabotar essa maracutaia. — disse Frank, determinado a seguir à risca.

— Nos vemos amanhã então? — perguntou Natasha, virando-se à ele.

— Pode ter certeza absoluta que sim. Isso ficou maior do que eu podia imaginar e como inveterado não vou ficar no banco de reserva. — disse o detetive, tocando-a no ombro — Tem o meu apoio. De caçador pra caçador.

— Caçadora. — corrigiu ela, sorrindo de leve.

— É, isso aí. — falou Frank, retribuindo com um sorriso aberto indicando cumplicidade instantânea. Carrie era apenas orgulho estampado em sua face ao ver suas duas maiores admirações fortemente unidas por uma causa em comum.

***

"O plano vai seguir exatamente assim: Carrie monitora pelo mapa digital os caminhões que forem seguindo as rotas e nos informar se vão em grupos de quatro ou dois ou se vão juntos, sabendo disso fica mais fácil determinar quanto caçadores são necessários. Cada caçador vai receber um comunicador pra saber as coordenadas e os avisos de segurança. Daí por diante, vão ter que bloquear a passagem e ordenar que deem a meia volta, se não acatarem é partir pro ataque. Enquanto isso, a Natasha e eu corremos pra localização específica onde a Ivana planeja finalizar a transição, matamos uns desgarrados... e quando a pegarmos ela é toda sua, Natasha. Nesse meio tempo, vou ficar tentando atrasar uns vampiros até que os outros cheguem. Carrie, você liga pra eles virem depressa se tiverem terminado nos pontos de bloqueio. Vamos sair as 10 em ponto."

Dessa forma o detetive elaborou o plano em definitivo. Em uma estrada ladeada por terrenos íngremes com pouquíssima vegetação, cerca de quatro caminhões aproximavam em velocidade mediana que ia reduzindo à medida que o viaduto abandonado ficava mais perto. Debaixo de um sol forte, alguns caçadores estavam munidos de detonadores em uma distância segura, usando óculos de proteção e capacetes de engenheiro. Quando os caminhões alcançassem a última faixa branca do asfalto antes de cruzar o viaduto, os explosivos armados nos dois lados de terreno e acima do viaduto seriam acionados ao mesmo tempo.

Um deles gritara em alto e bom som.

— É agora!

Os botões foram apertados simultaneamente, gerando múltiplas explosões. Bastante poeira, areia e terra se ergueram para o ar com intensidade e uma avalanche incontrolável de grandes pedras barrou completamente a passagem sem expor brechas perceptíveis. A alta concentração de pedras predizia um tempo de mais de 6 horas para remover tudo com tratores e cerca de 12 horas apenas com mãos nuas. Os bravos colegas de Frank desciam ansiosos para o confronto, sacando suas lâminas.

Já os vampiros, estes desciam casca-grossas em suas faces dos caminhões, batendo forte com as portas ao fecharem-as. Todos vestiam macacões brancos com o logo da AMDC bordado no lado esquerdo onde ficava um bolso. Os pingentes inibidores estavam dentro das vestes.

— Parece que chegaram ao seu destino. — disse o caçador que fazia frente aos outros sete, pondo a lâmina sobre o ombro direito — E aí, seus manés? Vão encarar ou fugir?

Alguns deles entreolharam-se e enfim cederam a tentação ao fazerem crescer suas presas e alterar os olhos para depois avançarem no mesmo ritmo de modo selvagem.

Uma colisão brutal entre caçadores e vampiros estava prestes a ocorrer.

***

Uma cabeça decepada de vampiro voou contra um quadro protegido com vidro que se despedaçou com o impacto, naturalmente o derrubando. Natasha e Frank entravam na ampla sala de estar da mansão de Victor Garbouder, um dos antigos vampiros mais influentes entre os todos os vampiros de Danverous City, anteriormente morto por algum caçador misterioso que não fosse da linhagem Montgrow. Avaliada em 100 milhões, a residência serviu por anos como refúgio para vampiros marcados para morrer e numa única vez, há muito tempo, Garbouder foi o anfitrião da eleição do último líder supremo... o milenar Crimson assassinado por Natasha a sangue frio na vingança que desfez o entrave pessoal da caçadora.

Frank havia chutado a porta dupla e Natasha jogava as cabeças de dois vampiros que decapitou logo na entrada como milho para atrair as galinhas — no caso, o cheiro do sangue acionaria o olfato hipersensível do grupo mais privilegiado e próximo de Ivana.

— Tem certeza que isso não vai dar merda? — perguntou Frank, incerto.

— Sem chance. Quero faze-lo experimentar meu trunfo. — disse a caçadora — Quantos mais deles vieram até nós e quanto mais perto ficarmos de destruí-los, Ivana vai sentir as perdas já que o vampiro potencial sempre está ligado aos seus súditos, com isso ela vai ter outra escolha a não se mostrar e me enfrentar.

— Olá Natasha. — disse Ivana, aparecendo no topo da escada com um sorriso cínico — Não esperava que fosse ouvir você dizer meu nome de novo, muito menos vê-la tentando estragar meu dia.

Ambos olharam no mesmo instante, surpreendidos baqueadamente.

— Vejo que fez um amigo. — disse a vampira, olhando para Frank. Soltou uma piscadela para o detetive que retribuiu com enojo na face. — Então era você fazendo baderna como um arruaceiro metido, eu devia imaginar. Já se conheciam?

— Só pra esclarecer, eu nem sabia que ele estava capturado. Não vim pra resgate, mas pra acertar as contas. — declarou Natasha, agarrando firme seu facão de prata. — E hoje isso vai acabar, Ivana.

— Tenho a estranha sensação de que frustrei suas expectativas. — disse Ivana, olhando estreitamente — Acho que vai ser divertido. Tentem me pegar, se puderem. — falou, correndo para trás em supervelocidade para um escuro corredor que levava ao salão de festividades onde aconteceu a votação do último barão.

— Vamos. — disse Natasha para Frank, andando para subir as escadas. Porém, a porta dupla dos fundos se abrira com estardalhaço que os fez se virarem no pé da escada para conferir quem chegava.

Era justamente o grupo favorecido de Ivana liderado pelo brutamontes careca que observou Frank com raiva e frieza no interrogatório. O mesmo, com as mesmas vestes da noite passada, cravou seu olhar grosseiro e ameaçador diretamente em Frank, depois baixando os olhos para as cabeças soltas envolvidas em poças de sangue.

A dupla subiu as escadas depressa sem perder nenhum segundo a mais, de dois em dois degraus, não demorando a sentirem os vampiros correrem exasperados atrás deles.

Na metade do caminho, Natasha destravou uma granada e jogou-a rápida contra os dentuços. O objeto quicou nos degraus abaixo, logo expelindo uma fumaça extremamente preta que saiu como um fantasma ou espectro de seu recipiente, cegando todo o grupo de vampiros que gritavam pelo ardor que sentiam nos olhos.

— Boa tática. — elogiou Frank, tornando a subir — É pedir demais um kit com seis dessas emprestado?

— Não fui eu quem fabriquei essa bomba de fumaça ardente, além de que não costumo compartilhar minhas armas. — disse Natasha, sincera — Duas palavras: Deep Web.

— A Carrie te ensinou a entrar?

— Eu mesma entrei. Não sou só auto-didata em artes marciais e manejamento de armas.

— Isso explica muita coisa — disse o detetive, já arfando de cansaço.

A caçadora chutou a porta dupla do salão, encontrando Ivana virada de costas.

— A brincadeira já acabou. — disse Natasha, caminhando até ela e desembainhando sua espada média com ruído característico de lâmina riscando.

— Pelo contrário, ela só tá começando. — disse a vampira, virando-se com um sorriso fechado e odiosamente confiante.

Frank fechara as portas, usando uma barra de ferro colocada entre os puxadores dourados, em seguida encostando-se para manter seguro depois que a fumaça dissipasse e os vampiros insistissem em arrombar. Generosamente, deixou que Natasha concluísse sua própria batalha, torcendo por ela.

Na luta, Ivana esquivava-se habilidosamente dos golpes da espada que Natasha manobrava. A caçadora ao menos conseguira descontar dois fios loiros de sua nêmese, a deixando mais fervorosa para revidar. Frank estava preparado para o primeiro baque contra a porta e ele não viera tarde. Suas costas sofreram uma dor lancinante. A barra usada como tranca balançava com as investidas.

Enquanto o detetive se fazia guardião, Ivana aplicava golpes físicos contra Natasha que largara a espada defendendo-se com os braços. A caçadora puxara as madeixas douradas da vampira para frente, desferindo uma joelhada esquerda contra seu rosto e em seguida um chute no queixo. Ivana teve êxito em socar a face de Natasha bem perto do nariz, seguido de um chute forte no abdômen e mais dois cruzados de direita e esquerda. Natasha barrara um outro cruzado de direita com sua mão esquerda, logo dando uma cabeçada contra a testa da vampira que a fez inclinar-se para trás subitamente, depois fazendo cambalhotas até golpeia-la certeiramente com um chute duplo bem no tórax não fazendo feio ao derruba-la e afasta-la. Tirando proveito, Natasha, com alguns filetes de sangue despontando de sua boca pelos hematomas causados pelos socos, sacou uma segunda espada de igual tamanho, apontando diretamente ao pescoço da vampira.

— Últimas palavras? — perguntou a caçadora, o tom rude e autoritário.

— A última palavra é sempre a minha... quando eu devo vencer! — retrucou Ivana, colérica, pegando a espada com as duas mãos e a afastando, logo depois chutando Natasha no queixo, levantando-se e, enfim, pegando o cabo da espada para cravar na barriga da caçadora que prontamente evitou a artimanha chutando a lâmina para longe e rebateu com outro violento chute horizontal de esquerda que a fez dar alguns passos para trás. Na porta dupla, Frank era constantemente empurrado pelos vampiros que persistentemente tentavam arrombar. Podia deduzir pelo menos uns quatro ombros batendo com grande força física. O suor descia profuso da testa do detetive que preocupava-se com o andamento da batalha principal.

— Sem querer te apressar, mas... a coisa não vai se sustentar por muito tempo aqui! — alertou ele, recebendo mais empurrões imediatos.

— Já vou dar um jeito nisso de uma vez por todas. — disse Natasha, munindo-se de socos-ingleses de prata. Ivana, aturdida, passara a mão entre os lábios e comprovou estar sangrando. Sua visão estava enturvando, não vendo mais que um borrão.

— O que está havendo comigo? Me machucou só com aquele golpe! Olha, tenho que admitir que estava até pegando leve com você, mas agora cansei de ficar me aquecendo.

— Eu acho que está enganada. Não... — Natasha a olhou de modo estreito — Está enganando a si mesma.

Ivana sentiu outra vez a visão embaçar, desta vez acompanhada de uma tontura que provocou um leve cambaleamento. Um péssimo sinal.

— Preciso de sangue... — disse a vampira, dando-se conta do estado de inanição que é evitado caso o vampiro a ser ascendido ao patamar supremo tomar hiperdoses de sangue raro, não ficando mais do que duas horas sem essa alimentação.

— Precisa de mais do que sangue. — disse Natasha, em seguida golpeando-a com o soco-inglês direito, depois o esquerdo, novamente o direito... — Talvez um band-aid? — desferiu mais outro — Ou um Mertiolate? — lacerou mais uma vez contra a pálida face da vampira fazendo-a cair.

— Tá legal, tá legal... — disse Ivana, mostrando a palma da sua mão direita enquanto se debilitava com os ferimentos no rosto antes que Natasha a socasse mais vezes — Eu me rendo. Já pode parar. — disse ela, o que, porém, não convenceu a adversária logo de cara.

— Ainda não terminei. — disse Natasha, pegando-a pelos cabelos com bastante força e arrastando-a até a varanda cuja passagem se dava por uma porta de correr quadriculada com vidros. Frank observava tudo admiração, mas ao levar um baque ainda mais forte dos vampiros lembrou-se que estava executando sua parte do plano.

— Acha que eu vim apenas pra te pôr de castigo? — disse Natasha enquanto a algoza gritava praticamente implorando. A virou pegando-a pelos ombros. As duas se encararam por um breve instante. — Esse jogo entre nós acabou. Chegamos primeiro. — a virou frente à porta e jogou-a contra ela. O impacto fizera o vidro estilhaçar por todos os lados, danificando até mesmo a madeira da porta.

Caída na varanda, Ivana cuspia uma certa quantidade de sangue, até vomitar por uns poucos segundos. "Eu... Eu merecia ser informada dos efeitos colaterais de abstinência. Aqueles... miseráveis!".

Os pensamentos da vampira foram cortados por Natasha que pressionou seu coturno do pé esquerdo contra o pescoço dela. Os lábios de Ivana estavam ressecados e sem cor.

— Se seus súditos fossem tão leais quanto pensava, não acha que teriam avisado sobre a inanição? Teriam deixado algumas bolsas de reserva até que a carga viesse. — disse a caçadora, o tom raivoso, sua estonteante beleza caucasiana sob o céu azul anil da manhã.

— Você tem razão... — disse Ivana, mal aguentando-se — Eu fui uma péssima líder. Não, melhor dizendo: Eles me subestimaram... por eu ser mulher. Me diga você, Natasha. Nunca na sua carreira perigosa você já sofreu com isso?

— Tive um leve gostinho disso com o cara que vocês pegaram e agora está impedindo seu bando de invadir a sala e salva-la. Até duvidei dele. Mas depois percebi que somos iguais. Começamos nossas vidas de caçada pelas mesmas razões. Ele tem meu respeito, ao contrário de você com seus servos. — inclinou-se para ela, arrancando o pingente protetor.

— Não, por favor, Natasha... — suplicou Ivana, sentindo a pele arder de repente.

— Tarde demais pra implorar. Vou rodar esse mundo atrás dos sucessores potenciais.

— Tente enquanto ainda está viva. — disse a vampira a encarando friamente — Sempre... haverá... um sucessor.

A caçadora a fitou com igual frieza por um instante, logo se virando para deixa-la ali para morrer.

— Nããããããaõooo!!! — vociferou Ivana, levantando-se depressa e esticando o braço direito para Natasha, mas não a ponto de ficar completamente de pé pois a rapidez da luz solar já estava atingindo seu corpo, incendiando-o até carbonizar pele, carne e ossos. O esqueleto da vampira reduzido a carvão explodiu em cinzas atrás de Natasha cuja seriedade implacável foi tão mantida quanto a sua postura que andava tranquilamente sem se importar. A explosão reverberou contra o que sobrou da porta.

Os empurrões contra a porta tinham cessado, livrando as costas de Frank que estava paralisado e cogitando verificar se era o que estava pensando. Natasha andou até ele, mas o detetive ergueu uma mão pedindo para não se aproximar.

Até que uma voz familiar para ele bateu rapidamente quatro vezes na porta.

— Hey Frank! Somos nós! Acabamos com eles!

Prontamente tirando a barra dos puxadores, Frank mal conteve a felicidade ao abrir a porta e reencontrar os colegas que contatou para a grande missão.

— Caras, vocês me deixaram preocupados. — disse ele, sorrindo meio torto.

— Estamos todos bem. — disse o líder, com os outros concordando — E a sua amiga? — se inclinou para Frank a fim de cochichar algo — Ela é solteira?

Sem jeito, Frank tentou contornar com uma resposta improvisada.

— Só preciso de um minuto com ela. OK?

— Ah, agora sei. — disse ele, abrindo um largo sorriso. Os demais do grupo riram baixinho.

— Não, não sabe, nenhum de vocês sabem, ninguém sabe... E isso não quer dizer que seja o que vocês estão pensando. — disse Frank, tratando de quebrar sinais que indicavam mais que uma amizade.

Indo ao encontro da caçadora, o detetive exalava um ar compreensivo.

— Você quase roubou a minha série. — disse ele, em tom brincalhão.

Natasha franziu as sobrancelhas, confusa.

— Sua série? Como assim?

— Pode ser loucura, mas às vezes enxergo a minha vida como se fosse uma série de TV... ou de um blogzinho qualquer que posta baboseiras. — disse, quase rindo.

— Isso não é loucura, é egocentrismo, sendo franca. — disse Natasha, logo olhando para o restou de Ivana na varanda. — Essa guerra está muito longe do fim.

— Falando sério agora: Você arrebentou. — disse Frank, amigável — Deu tudo o que ela merece.

— Obrigada. — disse Natasha. — Frank. — o olhou com genuíno senso de parceria — Fiz a Ivana engolir a minha verdade sobre você.

— Que eu não passo de um pé no saco por não estar tão acostumado a não trabalhar sozinho, ainda mais com uma mulher?

— Nada disso. — corrigiu Natasha — Que você tem meu respeito por ser um caçador forte. Além disso, não podia deixa-la morrer sem anunciar minha próxima meta. Amanhã mesmo vou pegar um voo pra Londres, um potencial deve estar lá. Quero acabar com todos.

— Então é isso que acontece com um vampiro sem protetor solar. Bem mais eficaz que decapitação. — disse Frank, analisando as cinzas. — Espera aí, você disse Londres? — perguntou, virando o rosto para ela de repente — Acho que vou pegar mais uma carona.

— Olha, eu sei que criamos um vínculo profissional... e de amigos também... mas eu posso dar conta disso sozinha. A jornada de um caçador é, em essência, solitária. — disse Natasha, educadamente — Essa cidade precisa de você, Frank. Seja o herói dela.

— Continuo tentando. Também não vou desistir. — disse o detetive, logo explicando-se — Mas a viagem não é a trabalho. É pra encontrar um amigo. Fiz uma promessa.

— Então não se atrase para o embarque. — avisou Natasha, afastando uma mecha do cabelo — As Joias do Poder podem estar no cofre de Garbourder. Mais uma razão para a cerimônia ter sido agendada na mansão dele. Vou dar uma olhada.

Um dos caçadores fez um alerta em voz alta para o grupo.

— Vem vindo mais deles. Se preparem.

O caçador líder que havia se interessado por Natasha apanhou uma das espadas da caçadora.

— Será que posso brincar com uma dessas?

— Tenho muito mais de onde veio essa. — disse Natasha, flexível — É toda sua. O caçador ofereceu uma piscadela como agradecimento embora não despertasse suspeita nela. — Vamos lutar com tudo. — afirmou, aquecendo-se para mais um round.

— Tem certeza de que não quer ir lá no cofre enquanto a gente dá cabo dos desgraçados? — perguntou Frank. No entanto, ela se desconcertou com o modo que falou — Ahn, err... Não me leva a mal, é que...

— Está bem. É a sua gangue, afinal de contas. — disse ela, com um sorriso fechado e leve. — Formamos uma boa dupla.

— Concordo. — disse Frank, feliz e orgulhoso por ter conhecido alguém com um foco de profissão limitado mas tão versátil em atributos de combate.

A caçadora virou-se para a direção de onde ficava o corredor para se chegar até o cofre em uma das portas dos fundos do salão. Contudo, estacou, lembrando de estar com o pingente de Ivana em mãos.

— Aqui. Toma. — disse ela, jogando o objeto para que Frank pegasse. — Pra sua coleção. A Carrie me disse que ela fica no seu porão junto com os arquivos do seu pai.

— Opa, valeu. — agradeceu Frank, estudando o pingente como quem ganha um presente.

A batalha só estaria ganha quando todos os vampiros que juraram servir a Ivana fossem destruídos.

***

Departamento Policial de Danverous City — 19h22

Carrie fitava Frank sentado diante de sua mesa com um olhar que dizia "está sem saída".

O detetive suspirou, sentindo-se derrotado.

— Tá, tá legal, Carrie. Vamos tirar a maldita selfie.

— Eu realmente não entendo. Por que odeia tanto tirar fotos?

— Se for ver meu álbum de quando eu era bebê não vai se surpreender que depois dos 2 anos não tem mais fotos. Foi a partir daí que peguei raiva do maldito flash piscando na cara. — disse Frank, as mãos com os dedos entrelaçados na mesa da assistente. — Por que não fizemos logo ontem à noite?

Carrie demonstrava um sorriso fechado mas instável, como se a euforia por ter conhecido um ídolo ainda estivesse latente dentro do seu âmago.

— Sabe naquela hora em que o diretor te chamou pra cruzar as espadas no banheiro, deixando eu e minha musa do rock as sós? Então... Nós dobramos o evento.

— Dobraram? — indagou Frank, sem entender muito bem. — Carrie... fala logo o que vocês duas inventaram. Não é querendo interferir nem julgar, eu estou feliz por vocês duas terem se entrosado, se dado bem, quase melhores amigas, fiquei feliz por você estar feliz...

— Você ficou me repreendendo com aquela sua cara que eu odeio. Se estivesse no meu lugar, acho que agiria exatamente igual... talvez pior.

— Idolatrar artistas pra quê, afinal? Olha, se eu tinha alguém pra venerar com certeza era o meu pai.

— Vamos mesmo criar uma discussão inútil sobre tietagem e idolatria? Me escuta, Frank. — disse, apressada, debruçando na mesa para falar mais de perto. — A selfie vai rolar, mas não aqui. — revelou ela, animada, logo sacando dois pequenos papéis de cor púrpura com branco em formato retangular e jogando-os sobre a mesa. Frank mostrou-se surpreso — Duas entradas grátis para o show de amanhã com direito a visita ao camarim dela. Estou provavelmente me antecipando para o melhor momento desse ano na minha vida.

— Espera... Dois ingressos, ótimo, você tem outros amigos, talvez um familiar pra levar... — o detetive se interrompeu, engolindo a saliva ao encarar o olhar pretensioso da assistente. — Carrie, por que eu?

— Ah, pára com isso, Frank. — disse Carrie. — Ela quer fazer algo por você se você fizer primeiro algo por ela. Se não por ela, faça por mim. Eu não teria conseguido isso se não fosse graças a você... e aos vampiros que te sequestraram também, claro. — disse, revirando os olhos — Vai ser minha primeira vez assistindo ela no palco ao vivo. Me deu a chance de conhece-la, eu nem fazia ideia que ela era uma caçadora... Me dá a chance de também experimentar a performance musical dela, por favor, mesmo que o som não seja a sua praia. Quando ela me ofereceu os ingressos, não tinha pensando em ninguém... além do meu melhor amigo. — exalou um de honestidade que sensibilizou o detetive profundamente.

— É... Acho que vale o esforço. — declarou Frank, aceitando de bom grado para a alegria incontrolável de Carrie que mal se contia por dentro — Já tenho até uma ideia de como vou retribuir antes de voarmos pra Londres...

***

Noite do dia seguinte — 23h50

A plateia do show estava a mil por hora cantando fanaticamente os versos de Nemesis, considerada uma das melhores da Darkside. Frank, ao lado de Carrie, se sentia incomodado com o jogo de luzes do palco assim como estar no meio daquela multidão barulhenta que ia à loucura a cada música. Por um momento, virou o rosto lentamente para sua amiga, vendo-a cantar alegremente segurando um bastão de Led cor verde e se entorpecendo de muito heavy metal na noite já considerada inesquecível.

Um fechado e singelo sorriso de compreensão se desenhou em Frank. Admitia que estava onde deveria estar. Por consideração e não por obrigação.

Ao fim da canção, o detetive aplaudiu junto à Carrie, assoviando com os dedos enquanto ela gritava um alto "Uhuuu!" e erguendo as duas mãos em forma de mano cornuto pra cima.

Natasha, em agradecimento ao público, fez reverência com as mãos juntos, logo se erguendo bruscamente, seu cabelo comprido "voando" para trás.

A caçadora esbanjou um sorriso largo, sentindo-se esplendorosa pela lotação de público.

Horas depois, Carrie e Frank a encontraram no camarim para realizar a foto dos sonhos.

***

The_Hunter e cia

F: Bom, nosso tempo já tá acabando né?

N: Já acabou na última meia hora. Se continuarmos aqui vamos nos atrasar pro voo.

F: Ah, é verdade. Esqueci que foi programado para as cinco horas. Ainda nem arrumei minha mala (risadinha).

N: Como é que é? Então o que você tá esperando? Adorei ser entrevistada, mas precisamos ir.

F: Não quer dar uma palavrinha final pros nossos ouvintes?

N: Ah, verdade. Err... (risos) Desculpa, é a primeira entrevista onde faço da minha carreira de caçadora um livro aberto, desse jeito a timidez toma conta de mim. Mas... Eu gostaria de incentivar o conselho do Frank sobre ser caçador. Será que alguns de vocês já se imaginaram vampiros? Já aviso que não é tão divertido quanto na TV ou nos livros. Conde Drácula é fichinha perto dos chefões que já enfrentei. Pode parecer que exagerei, mas é a verdade. Não se deixem transformar se forem um dia atacados. Do contrário, eu vou estar pronta pra caça-los.

F: Vai acabar assustando o povo (risos). Isso aí, pessoal. Pratiquem boas ações em vez de se auto-destruírem. Tipo... doar sangue.

N: Exato. Pelo menos uma vez na vida façam isso. Podemos encerrar agora?

F: Sim, vamos. Na próxima semana não terão novos áudios...

N: Vai ficar só por um semana? Só ver o seu amigo e depois tchau?

F: Tinha dito que não poderíamos ser parceiros nessa viagem, certo? Eu já sabia que eu ia partir mais cedo, seu objetivo é mais... amplo.

N: O seu amigo é importante pra você. Um objetivo não é melhor que o outro. Olha, a gente pode até se separar quando chegarmos, mas passa mais uns dias, sugiro que uns dois meses respirando os ares britânicos, eu recomendo. Afinal de contas, eu nasci e fui criada lá. Ou você é saudosista demais pra sair da sua amada cidade?

F: Não é bem saudosismo... Ahn, acho que já devia ter desligado aqui.

N: Tem razão, a entrevista acabou faz tempo. Hora de dar tchau.

F: Pois é. Muito obrigado, Natasha. Até o próximo caso. Valeu, falou, fui.

XXXXX