Frames do Destino
7 Urgência Natalina
Notas iniciais

PAMELA ESTAVA se sentindo mais elétrica do que nunca quando Harleen a deixou na porta de casa. Sua mente fervilhava de questionamentos sobre todos os aspectos da própria vida. Sentia-se frágil, inútil, como se tudo estivesse fora do lugar. Caminhou até o sofá e desabou em lágrimas; depois, foi para o quarto, tentando dormir.
Mas sua mente estava inquieta demais. Após algum tempo rolando na cama, encarou a escrivaninha, o tablet esquecido ao lado e, então, algo pareceu se acender no fundo de sua consciência.
Era loucura — ela sabia —, mas começou a rabiscar os primeiros esboços de sua animação para o The Global Frame Awards. Tudo fluiu com uma naturalidade quase assustadora, como se estivesse despejando seus sentimentos na tela. Simplesmente não conseguia parar.
Eram 1h30 da madrugada quando começou; quando fez uma pausa rápida para beber água, já passava das três. Continuou desenhando sem perceber o tempo escorrer pelos dedos, até que, às seis da manhã, o toque do celular quebrou o silêncio.
Pamela franziu o cenho.
Quem poderia ligar tão cedo?
Torcia desesperadamente para que não fosse Jim. Ainda não estava pronta para conversar com ele, para dizer tudo o que precisava ser dito. Sabia que tinha sido uma completa babaca, e tinha quase certeza de que ele a odiava naquele momento.
Olhou para o visor.
Angela Martin.
— Ah, droga! A reunião na casa dela! — murmurou, suspirando fundo antes de atender. — Bom dia, Angela.
— Bom dia, Beesly.
— Então, sobre a reunião…
— Sobre isso. Não vai dar pra mim hoje. — Angela a interrompeu —, estou ligando para te pedir desculpas. Não vou poder me encontrar com você hoje para os preparativos do desfile. Houve um imprevisto aqui na minha empresa. Vou ficar o dia inteiro comprometida. Sei que vai ficar tudo muito em cima da hora, mas podemos nos reunir amanhã para fazer tudo às pressas.
— Não, por mim está tudo bem. Não se preocupe.
— Sério?
— Sim. Se for preciso, posso tentar adiantar alguma coisa hoje. Mas vai dar tudo certo. No fim das contas, é só um desfile de bonecos… o que poderia haver demais por trás disso?
— Eu até lhe passaria uma lista de coisas, mas realmente preciso resolver a bagunça que a estagiária causou aqui na Dunder Mifflin Paper Company. Se precisar de qualquer coisa, por favor, fale com o Dwight.
— Claro.
— Te vejo amanhã, “lá pelas oito”?
— Combinado.
— Combinado, Srta “Até lá pelas oito” — Angela foi discreta, mas Pam podia jurar que ela havia dito aquilo em tom de piada e dado uma baixa risada — E obrigada pela compreensão, Pamela.
— Imagina, imprevistos acontecem. Até mais!
— Até mais.
Pamela desligou o celular e voltou a analisar os storyboards.
O curta começaria com uma mãe e sua filha, ambas pintadas de azul — assim como todo o cenário. Nada era totalmente colorido: apenas traços, linhas cruas. A cena se iniciava com as duas tocando piano, enquanto a câmera girava lentamente ao redor delas. Borboletas e elementos natalinos flutuavam no ar, rodopiando ao som de “Silent Night, Holy Night”.
À medida que a melodia avançava, algo se rompia no final. A mãe se desfazia: seus traços transformavam-se em borboletas, que se espalhavam e desapareciam. O fundo, antes branco, tornava-se um azul profundo. Restava apenas a criança — cabelos presos em um rabo de cavalo alto, adornado por um enorme laço vermelho, a única cor viva em todo o seu traço.
Triste, ela encarava as teclas do piano. Lágrimas em forma de estrelas escorriam por seu rosto, decorando o instrumento e manchando levemente o vestido.
Pamela suspirou, fitando os flips.
— Gostaria que tivéssemos tido uma relação melhor, mãe. Eu realmente queria que tivesse sido diferente… Acho que é isso que mais está me doendo… — Pegou a taça de vinho cheia que havia deixado ao seu lado e deu um gole. — As memórias se misturaram com minhas ilusões e desejos… Mas agora é tarde demais. Você se foi para sempre, e seu fantasma ainda me assombra. Pelo menos… ainda temos o nosso piano.
Ela respirou fundo e começou a roer as unhas, lembrando-se de uma antiga conversa que tivera com sua chefe, Bonnie, no dia em que ela recusara seu sketchbook.
— Então… — disse a mulher de cabelos longos e rosados, usando óculos redondos e brancos, enquanto os retirava com cuidado. — Veja bem: você é muito talentosa, ok? Mas… não vejo alma nos seus desenhos nem nas suas ideias. Eles parecem vazios, sem vida… quase como se tivessem sido feitos por uma IA! Sem ofensas, Cinnamon — completou, referindo-se à inteligência artificial.
— Me é ofensa nenhuma, senhora. — respondeu a voz robótica masculina, de forma calma.
— E esta já é a terceira vez que você me apresenta algo, e eu lhe dou a mesma resposta. — Bonnie disse, com a mão na testa. Beesly se encolheu.
— Me desculpe por continuar incomodando. Eu vou embora. — A ruiva fez menção de recolher seu sketchbook.
— Não, espere — pediu Bonnie. — Olha, Pam, eu vejo futuro em você, ok? E acredite, eu já estive no seu lugar um dia. Eu tinha ideias horríveis, e meus superiores nunca me deixavam entrar para a equipe criativa. Mas houve um dia, numa virada de ano, conversando com o meu namorado, em que percebi que estava sempre presa ao mesmo lugar. Eu me sentia exatamente como quando me formei no ensino médio… uma garota que sofria bullying constantemente, aliás.
Bonnie respirou fundo antes de continuar.
— Pamela, eu sei que viemos de realidades diferentes. E sei que, na sua idade, você provavelmente conhece muito mais do mundo do show business do que eu conhecia quando tinha a sua idade. Mas, aos 24 anos… você ainda é uma criança.
As duas riram.
— Sabe — continuou Bonnie — Nós erramos, garota. O tempo todo. E, na maioria das vezes, sentimos muita vergonha dos nossos erros. Talvez porque sejamos tão apegados à perfeição que esquecemos que somos humanos. Mas, no fim das contas, não devemos ter vergonha daquilo que é melhor para nós, mesmo que errar seja o melhor caminho. Afinal, como dizia meu irmão, Neddy: “A vida é apenas uma longa história de como você morre.” Não precisa ter medo, querida.
— E… o que você fez? — perguntou Pamela.
— Usei toda a minha dor. Tudo aquilo que me colocava para baixo, transformei em arte. Isso me ajudou a superar a depressão. Ela ainda está aqui, é claro, assim como minha bagagem de traumas de infância, mas eu a usei para criar algo bom. Algo que ajudasse outras pessoas, mesmo que indiretamente. Algo que deixasse a minha marca no mundo. Eu não vou morrer e ser esquecida, porque minha voz continuará reverberando pelo universo. Acho que amadurecer é sobre isso. Ficou estranho pra você?
— Não. Acho que entendi perfeitamente.
— Obrigada. — Bonnie disse, recolocando o óculos e ajeitando o laptop na mesma. — Agora… tenho uma reunião e… você poderia trazer um cappuccino e alguns whoopie pies para mim, por favor?
— Oh, sim. Claro. — A ruiva finalmente se levantou.
Pamela caminhou até a porta.
— Pam?
— Sim?
— Não tenha medo de ser você mesma. E não tenha medo de enfrentar seus próprios monstros. Seus traumas não são maiores do que você.
De volta ao quarto, Pamela segurava a caneta touch, fazendo-a dançar entre os dedos. Após alguns segundos, largou-a sobre a mesa e pegou o celular. Abriu o aplicativo de mensagens e ficou encarando o perfil de Jim Halpert: expressão séria, camisa social azul, gravata preta. Fundo, o escritório onde trabalhava.
Observou a foto por um longo tempo, sentindo o coração doer como nunca antes — nem mesmo na época do divórcio.
Ele parecia alguém tão certo… mas, ainda assim, ela temia afastá-lo sem querer. Temia acrescentar mais um relacionamento horrível à sua lista. Temia que ele se tornasse apenas mais um estranho, cuja risada ela reconheceria em qualquer lugar. Temia estragar tudo. Porque, no fundo, sempre sentia que a culpa era sua — que as pessoas não suportavam sua personalidade espontânea e excêntrica e, por isso, acabavam indo embora.
Com um gesto rápido, bloqueou o celular e o deixou virado para baixo sobre a mesa. Em seguida, voltou a anotar as novas ideias que surgiam, fazendo rabiscos que, a princípio, pareciam sem sentido, mas que aos poucos começavam a se construir.
E assim passou o dia inteiro, até que o sono a venceu e ela foi dormir pouco antes das oito da noite. Ignorou complementarmente o celular, incluindo as mensagens de Kelly, na qual quase a matou de preocupação.
Mas no fim, refletindo sozinha, se sentia patética e riu. Sua avó Ruth, se ainda estivesse viva, sentiria orgulho dela naquele momento.
[...]
Havia nevado praticamente a noite inteira. Quando Pamela acordou, fez sua higiene matinal e preparou um café bem quentinho. Enquanto bebia, deu uma risada baixa. Aquela caneca era uma herança de seu avô, Phil.
Era uma caneca natalina de cerâmica, em formato de Papai Noel, nas cores vermelha e branca, com acabamento brilhante e um design fofo e estilizado. Tinha uma tampa que imitava o gorro, com um pom-pom branco no topo, detalhes em relevo no corpo que lembravam o casaco e um rosto sorridente, de bochechas rosadas. Acompanhava uma colher dourada e um detalhe em forma de bengala de Natal.
Quando criança, Pamela achava aquela caneca a coisa mais tendência do mundo.
De repente, alguém tocou a campainha. Ela caminhou até a porta.
— Angela, bom dia! Eu já estava me preparando para ir à sua casa, só estava terminando de me arrumar.
— Bom dia. Desculpa a pressa, mas estou muito ansiosa por causa do desfile. Ele foi adiado para amanhã e ainda temos tanta coisa para organizar… Você se importaria de terminar logo esse café para começarmos?
— Ah, sim, claro. Só um momento. — Pamela voltou para dentro, pegou o casaco e o cachecol e os colocou às pressas.
— Seus quebra-nozes precisam ser maiores — observou Angela, olhando para a escada. — Eles estão cerca de cinco centímetros abaixo do que exige o regulamento.
— Ah, sim… Estou ciente disso — respondeu Pam, forçando um sorriso. Assim que Angela se virou, revirou os olhos. — E a sua sogra, como está? — perguntou, correndo ao seu encalço.
— Até que ela está se recuperando bem, apesar de ainda reclamar com as enfermeiras e com os médicos que a comida do hospital não tem sal, alegando que ser hipertensa não é sinônimo de nunca mais poder comer meia grama de sal na vida — Angela bufou, puxando a manga da blusa para as mãos, a fim de as proteger. — Eu diria que essas reclamações são um ótimo sinal. Talvez ela consiga ter alta até o Natal. Ainda bem, porque a Mari queria passar o Natal no hospital com ela.
As duas começaram a caminhar pela rua e viram máquinas grandes empilhando a neve em pontos específicos.
— O que essas escavadeiras estão fazendo? — perguntou Pamela.
— Deixando a neve no lugar ideal, sem atrapalhar a rua, e bem aglomerada para o pessoal usar a imaginação na competição — explicou Angela. — Admito que estou com dor de cabeça, e não é por causa da temperatura negativa — fungou. — É porque ainda temos muita coisa para fiscalizar antes de colocarmos os enfeites.
— Imagino… mas vai dar tempo.
— Ainda bem que é só na rua principal — suspirou Angela. — Seu otimismo é contagiante. Sem ironia. Vamos começar analisando as esculturas da casa do Kaspbrak?
— Tudo bem, mas Eddie e Richie ainda não estão fora?
— Estão, mas o Eddie deixou tudo preparado, antes de sair. E nos deu acesso a chave da garagem dele.
— Mas podemos fazer isso? Tipo… como vamos colocar essas estátuas na rua?
— Querida, existe algo que a gente não consiga fazer com a tecnologia hoje em dia?
— É… você tem um ponto.
Elas abriram a porta da garagem. Todas as estátuas estavam dispostas próximas à entrada. Pamela notou que a Harley-Davidson não estava ali.
— Parece que eles saíram de moto. Aposto que com jaqueta e tudo — comentou a ex-atriz.
— Me admira como ele conseguiu convencer o Richard a subir naquela coisa — reparou Angela. — Vou mandar mensagem para a Harleen, pedir uma mãozinha.
— Ok.
— Temos vinte e cinco esculturas e vinte e cinco casas na rua — continuou Angela, anotando. — Doze de cada lado e uma no centro, que é a sua. Vai ser uma estátua por casa. Sua família sempre foi extremamente estratégica quando o assunto é chamar atenção e se destacar.
— Obrigada.
— Oh, não, querida. Isso não foi um elogio — respondeu Angela, ríspida.
Pam se encolheu levemente.
— Pelo menos, não pelo que a Hedda me conta. E ela mora aqui a vida toda e…
— A Hedda sempre foi resmungona e amargurada com a vida! — rebateu Pamela. — Se você realmente conhecesse a minha família, especialmente meus avós, desejaria morder a própria língua antes de dizer isso de novo. Se o espírito de Natal ainda vive aqui em Scranton, é graças aos Beeslys!
— Se você diz… — Angela deu de ombros. — Mas eu não ligo. A Harleen já está mandando ajuda.
Enquanto os pequenos robôs escavadeiras, operadas com extremo cuidado, recolocavam as esculturas — nove renas, um Papai Noel, uma Mamãe Noel, dez elfos, um quebra-nozes, um biscoito de gengibre e dois mascotes, um husky e um gato malhado usando gorro de Natal — ao longo das calçadas, o Papai Noel foi posicionado de frente para o jardim de residência Beesly.
Pamela havia sido encarregada de buscar placas, martelos, parafusos e um kit completo de ferramentas, tudo solicitado por Angela. Achou estranho, mas decidiu não questionar por enquanto.
Elas se encontraram no porão da residência dos Schrute, onde as caixas eram pesadas demais. Pamela sentia como se não tivesse mais braços de tanta dor quando finalmente as colocou em frente à casa. Angela, por sua vez, supervisionava os robôs, certificando-se de que tudo estivesse no lugar.
— Perfeito. Primeiro item da lista riscado — disse a loira, tocando na tela do tablet.
— Trouxe o que me pediu.
— Demorou um pouco, mas que bom.
— Me diga — pediu Pamela, apoiando as mãos nos joelhos. — Pra que precisamos dessas placas?
— Para segurança. — respondeu Angela, seca. — Vamos escrever algo bem claro: “Cuidado. Estátuas de gelo. Não toque com nenhuma parte do corpo.” Quanto menos espaço para interpretação, melhor.
— Mas… por quê?
Angela suspirou, como se a pergunta fosse exaustivamente óbvia.
— Porque é perigoso. Alguma criança desavisada pode muito bem colar a língua em uma dessas esculturas. E eu não vou lidar com pais histéricos nem com ambulâncias bloqueando a rua principal.
Pamela franziu o cenho.
— Pelas estrelas, Angela! Que tipo de criança colocaria a língua numa escultura dessas?
— Pamela — Angela a encarou, séria —, nunca subestime a capacidade do ser humano de tomar decisões completamente idiotas.
Nesse momento, ouviram o som agudo da buzina de uma bicicleta. Uma menininha de longos cabelos cacheados vinha pedalando rapidamente em direção a elas. Com muito cuidado e habilidade, conseguiu estacionar a bicicleta sem escorregar no gelo, bem perto das duas mulheres.
— Mamãe! — exclamou a menina, descendo da bicicleta, apoiando-a com o pezinho e correndo para abraçar a loira.
Para a surpresa de Pamela, Angela retribuiu o abraço com evidente boa vontade, embora de forma contida.
— Meu amor… o que foi que eu disse sobre pedalar desse jeito? — advertiu, em tom baixo, mas firme.
— Pode deixar que estou tomando cuidado, mamãe. — A menina sorriu. Angela a encarou com seriedade por um instante, antes de beijar sua testa.
— Olá, tia Pam! — A menina acenou ao se afastar de Angela.
— Olá, Mari — respondeu Pamela, surpresa quando recebeu um abraço forte e inesperado.
— Vocês estão organizando tudo para a competição de bonecos de neve, né? — perguntou Mari, animada.
— Sim — respondeu Angela —, e depois vamos precisar da sua ajuda para encher os balões e de alguém para montar as guirlandas de pipoca.
— Vai ser um prazer! — exclamou a menina, exibindo um sorriso com a falta dos dois dentes da frente. — As estátuas que o tio Eddie fez ficaram lindas.
— Realmente, são verdadeiras obras de arte — concordou Pamela.
— Eu sei o nome de todas elas, sabia, tia Pam?
— Sério?
— Ela sabe mesmo, acredite — confirmou Angela.
— Então me conta, meu anjo. Como elas se chamam?
— As renas são… — começou Mari, apontando para cada uma com o indicador direito, enquanto contava nos dedos da outra mão. — Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão, Relâmpago e Rudolph. Aquela outra, na frente da nossa casa, é o Olaf, o boneco de neve de um antigo filme terrestre, Frozen. Na casa do tio Michael tem um Quebra-Nozes, e na do tio Ryan tem um Biscoitão de Gengibre.
Deu uma paradinha rápida, para recuperar o fôlego, mas logo continuou:
— Já a da sua casa é o Papai Noel. Na casa dos tios Richie e Eddie fica a Mamãe Noel. E agora vêm os dez elfos: Alabaster Snowball, Bushy Evergreen, Minstrel Lepstich, Sugarpine Sizzle, Shiny Upatree, Wunorse Openslae, Pepper Minstix, Sugarplum Mary, Zippy Elf e Sparky Elf. Depois vêm os mascotes: o gatinho Pinguim e o Husky… que é um cachorro husky — concluiu, dando de ombros.
— Uau! Você é realmente muito inteligente! — elogiou Pamela.
— Eu disse — Angela sorriu, orgulhosa. — Ela é tão inteligente quanto a mamãe e a vovó, e talvez um pouco do Dwight.
— Me desculpa, mas eu não sabia que você e o Dwight tinham filhos — perguntou Pam, um pouco sem jeito.
— Na verdade, não tínhamos… até cerca de um ano atrás — respondeu Angela. — Fui visitar um dos orfanatos da região de Hawkins, mais ao norte. Ela estava lá. Sempre sozinha. Nunca teve contato com os pais biológicos. Foi deixada ainda recém-nascida numa caixa de bebês instalada no corpo de bombeiros. É um berço especial, seguro e anônimo. Ali, a mãe pode deixar a criança ali sem se identificar. Mas sabiam quem era, pela identificação que todos nós temos no pulso. Achavam que ela voltaria atrás na decisão em dentro de três meses, mas nunca voltou. Então, ela foi enviada para o orfanato.
Mari assentiu com a cabeça, meio cabisbaixa, com as mãos nos bolsos da blusa de frio cor de rosa e raspando as pontas das botas marrons no chão.
— No dia em que a conheci, ela estava desenhando. Tímida e analista. No fim da visita, me entregou um desenho. Era eu. — O canto de sua boca se moveu minimamente. — Era do estilo realista e capturou até as minhas rugas. Ela é muito talentosa. Depois disso, voltei outras vezes ao orfanato. Ela acabou se tornando minha protegida. Hedda a adorou imediatamente. Dwight também… do jeito dele.
Angela puxou a menina para perto, num abraço firme e protetor.
— Quando fomos embora naquele dia, sabíamos que não conseguiríamos mais viver sem ela. Hoje, ela é oficialmente nossa filha.
— Te amo, mamãe! — disse a menina, apertando-a forte.
Angela fechou os olhos por um segundo, beijou-lhe o topo da cabeça e respondeu, em tom baixo e seguro:
— Eu sei, meu amor.
Mari então arregalou os olhos.
— Aquele ali é o Papai Noel! — exclamou, apontando para o telhado da residência dos Scott.
— Ah, não! — exclamou Angela, arregalando os olhos. — Michael, por favor, não me diga que você está ignorando o equipamento de segurança de novo.
— Aquele é o Michael? — sussurrou Pamela.
— Sim — respondeu Angela, visivelmente contrariada. — Como dá para perceber, a casa dele e da Holly é a mais decorada deste ano. Eles estão tirando a foto anual no trenó que, inexplicavelmente, fica no telhado. Todos. Os. Anos. E sim — aproximou-se do ouvido de Pamela e sussurrou, apontando discretamente para o homem fantasiado. —, como você sabe, é ele quem vai se vestir de Papai Noel. Nada discreto, eu sei. Mas, por favor, não conte nada para a Mari.
— Oi, garotas! Oi, Mari! — gritou Michael, acenando animado do telhado.
— Papai Noel! Você chegou mais cedo esse ano! — gritou Mari, empolgada.
— Ah, sim, querida! — respondeu Michael, abrindo os braços. — A Mamãe Noel me fez cair mais cedo do Polo Norte porque temos um compromisso importante com… nossos pinguinzinhos mais tarde.
— Mas os pinguins não foram extintos por causa do aquecimento global da Terra? — questionou Mari, séria. — Ainda existe Polo Norte?
— Querida… — Michael riu nervoso. — Isso se chama magia do Natal. Não pense tanto, ok? Pensar demais espanta o espírito natalino.
— Ah, não! Mãe! — gritou uma voz feminina infantil ao lado.
Todos se viraram ao mesmo tempo.
— Chebonshur grudou a língua na escultura do Quebra-Nozes! — anunciou Lowshebin, correndo em direção à casa.
Pamela ficou boquiaberta. Mari se aproximou rapidamente para tentar acalmar o menino. Angela encarou Pamela com um olhar firme.
— Eu não te disse? — falou, já sacando o celular. — Nunca. Duvide. Da. Capacidade. Do. Ser. Humano.
— Já odeio quando ela fala pausadamente assim.. — murmurou Pamela, revirando os olhos.
— Fica calmo, Chebonshur! Seu herói aqui já está indo te salvar — berrou Michael, andando com dificuldade, devido às botas largas e o chapéu da fantasia.
O homem tentou descer do telhado, mas escorregou na neve e caiu com tudo, sendo amortecido por um arbusto. Uma das decorações despencou logo em seguida, atingindo-o.
— Minha nossa! Que desastre! — exclamou Pam, levando as mãos à boca.
Angela suspirou fundo.
— Correção — disse, digitando. — Vou chamar duas ambulâncias.
— Papai! — gritou Lowshebin, surgindo com Holly, que correu desesperada até o marido.
Mari observava tudo com os olhos brilhando.
— Seu pai trabalha pro Papai Noel de verdade? — comentou, impressionada, para Chebonshur. — Que irado!
[...]
Angela suspirou fundo e abraçou Mari com firmeza, mantendo-a junto ao peito enquanto ela e Pamela acompanhavam, em silêncio, os paramédicos levarem Michael para a ambulância. Haviam conseguido libertar a língua de Chebonshur sem grandes consequências — além de alguns dias restrito a alimentos líquidos, por causa da ferida redonda no meio da língua. Michael, porém, não tivera a mesma sorte: quebrara a perna direita, o antebraço esquerdo e reclamava de fortes dores na lombar.
Holly seguiu para o hospital com o marido e o filho, enquanto Lowshebin ficou sob os cuidados de Barbara Halpert.
As duas mulheres observaram a ambulância se afastar, ao som distante da sirene, enquanto os vizinhos voltavam lentamente para suas casas, murmurando comentários.
— E lá se foi o nosso Papai Noel… — comentou Pamela, em voz baixa.
— Pamela! — repreendeu Angela de imediato, num tom seco.
— Tá tudo bem, mamãe — disse Mari, tranquilamente. — Eu sei que o tio Michael não é o Papai Noel. E que nenhum Papai Noel daqui da estação é o Papai Noel de verdade.
Angela piscou, surpresa.
— Sério, querida?
— Sim. Eu sou grandinha o suficiente pra saber a verdade — respondeu Mari, com naturalidade. — O Papai Noel de verdade fica o ano inteiro fazendo presentes e depois entregando pelo universo todo, principalmente em locais habitados por humanos. Não tem como ele estar em todos os lugares ao mesmo tempo. A vovó me contou porque o bisô contou pra ela. E ele conheceu o Papai Noel de verdade! Então, ele contrata pessoas, tipo o tio Michael, pra fazer o papel dele e manter o espírito e a crença das crianças.
Angela ajeitou a postura, pigarreou discretamente.
— Sim… claro. Faz sentido. Muito… lógico, inclusive.
— E agora que o tio Michael está sedado — continuou Mari — Quem vai mandar o recado pro Papai Noel?
— Talvez ele já saiba, querida — arriscou Pamela. — O bom velhinho sempre sabe de tudo.
Angela franziu o cenho, pensativa.
— Não podemos contar com talvez quando se trata de Natal — disse, categórica.
— Acho que vou escrever uma cartinha urgente pro Papai Noel! — exclamou Mari. — Com urgência mesmo. Pedindo que ele envie um substituto imediatamente. Um estagiário, talvez. Não podemos ficar sem Papai Noel em Scranton. Isso seria… inaceitável.
— Oh… sim, querida — concordou Pamela, sorrindo. — Acho que é uma ótima ideia.
— É mais do que ótima — corrigiu Angela. — É responsável.
— Vou escrever uma agora.
— Você pode ir lá para casa escrever a carta enquanto o papai prepara alguns biscoitos. Eu e a tia Pamela vamos conversar sobre assuntos de adultos.
— Claro! — Mari sorriu e saiu correndo em direção à casa. Antes de entrar, porém, virou-se. — Não se preocupem! Eu vou salvar o nosso Natal!
E então desapareceu porta adentro.
— Essa criança não é mesmo realmente sua filha? — perguntou Pam, rindo.
Angela tentou fazer careta, mas acabou cedendo e rindo baixinho.
— Não, infelizmente… eu jamais a deixaria sete anos naquele orfanato caindo aos pedaços, mas sem julgamentos com a família biológica… mas já julgando… Sabe o que é mais triste nisso tudo, Pam? Crianças que têm uma rara chance de desenvolver um segundo gênero, como alfa, beta ou ômega, devido a mutações genéticas em laboratório ao misturarem sua genética com a dos Czarnianos, como é o caso de Mari, são as que têm menos chance de serem adotadas. Isso sugere que um ou ambos os seus pais biológicos podem ter sido criados em laboratório. A maioria diz que isso acontece porque as diferenças significativas demais para serem simplesmente ignoradas. Puro preconceito, eu sei.
Ficaram um pouco em silêncio, analisando os enfeites destruídos da residência dos Scott.
— Enfim… Parece que a bruxa está mesmo à solta nessa vizinhança, hein! Bem que a Hedda disse que energias ruins vêm com certas… — Parou bruscamente a frase, engolindo em seco.
— Certas, o quê? — questionou Pam.
— Nada, pensamentos altos… inúteis. Enfim, não temos tempo para isso. — Angela cruzou os braços, observando-a. — A pergunta de um milhão de dólares é: quem vai ser o Papai Noel agora? Pensei no meu Dwight, mas ele está muito fora de forma para isso. E, francamente, não inspira confiança. O Ryan é magro demais, parece um graveto com ansiedade. Richie e Eddie não estão na cidade. O velho Hopper, do posto, mora longe demais… Eu poderia até tentar alguém do trabalho, como o Creed Bratton, embora isso levante questões éticas sérias, porque ele está perto da casa dos 80, digamos, é um pouco velho demais para isso, sem querer ser etarista ou algo assim… ou poderíamos tentar com o Stanley Hudson, mas ele se recusaria. Com razão…
Enquanto Angela tagarelava — ou melhor, pensava em voz alta, no seu tom meticulosamente crítico — Pamela deixou o olhar vagar pela vizinhança.
Seus olhos cor de avelã encontraram outros da mesma cor: Jim acabara de sair de casa, adequadamente agasalhado até o pescoço, e se juntara a Barbara, que tentava construir um boneco de neve improvisado e torto com a pequena Lowshebin. A menina loira chorava copiosamente, e Barbara tentava acalmá-la com gestos pacientes.
Por um instante, o mundo pareceu desacelerar.
As bochechas de ambos esquentaram. Um silêncio carregado de tudo o que ainda não fora dito. Jim ergueu a mão e acenou, tímido. Pamela retribuiu o gesto, sorrindo. Ele sorriu de volta.
— Angela? — chamou Pamela, sem tirar os olhos da cena.
— Sim?
— Acho que tive uma ideia de quem seria o Papai Noel perfeito.
Angela estreitou os olhos.
— Quem?
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