Frames do Destino

4 Tradição de família


Notas iniciais
Olá, amores! ❤️ Gostaria de dizer que sou muito grata à minha amiga Fayh por assistir e ser fã de The Office. Ela sempre me ajuda quando preciso deixar as personalidades dos personagens mais fiéis ao canon. E, sério, eu não esperava que o Michael fosse virar o tiozão das piadas KSKSKSKSKS. E aqueles nomes pros filhos? KSKSKSKS, eu amei! Combinou demais com o clima da história. Enfim, espero que gostem! ❤️

PAMELA SABIA QUE teria uma reunião naquela manhã, mas, depois de acordar às 5h30 por causa de um pesadelo terrível — tão confuso que mal conseguia se lembrar dos detalhes —, não conseguiu mais dormir. Forçou-se a levantar, beber um copo d’água e tentar organizar os pensamentos.

O que realmente fez sua dor de cabeça surgir, porém, foi a lembrança do prazo: faltava exatamente um mês para enviar sua animação independente à The Global Frame Awards. Era o evento com o qual sonhava participar e, quem sabe, se tivesse sorte, voltar para casa com um troféu e algum reconhecimento.

Decidiu vestir uma roupa leve de ginástica — legging rosa e uma blusa larga azul —, colocou os fones de ouvido e saiu para caminhar pelo pátio. Quase ninguém havia acordado tão cedo. Eram 6h20. Viu apenas alguns senhores e senhoras varrendo a frente de suas casas, cobertas por uma neve branca, porém artificial. O clima controlado pelos termostatos principais permanecia ameno. Mães gritando para que os filhos se levantassem e não perdessem o ônibus escolar, além de pessoas com café demais no organismo tentando reunir energia para mais um dia exaustivo de trabalho.

Escolheu uma música clássica do musical “Wicked” e deixou que ela preenchesse seus ouvidos. Respirava fundo enquanto acelerava o passo, mas o coração permanecia disparado. A pressão parecia esmagadora. Ela precisava participar do festival. Precisava ser a melhor. Só assim teria o reconhecimento de sua chefe, Bonnibel Bubblegum, e talvez conquistasse o prestígio de ajudá-la a desenvolver novas animações na Royal Candy Studios Animation. Sonhava em ser parte da equipe criativa de verdade — não apenas a secretária que trazia café e petiscos todas as manhãs.

Caminhou por quase trinta minutos consecutivos, a mente martelando, tentando elencar ideias. Nenhuma parecia realmente inovadora, muito menos revolucionária. Parou quando o sinal da faixa de pedestres ficou vermelho. Olhou à frente, além dos carros elétricos que cruzavam a rua em alta velocidade, silenciosos e luminosos, e então a viu.

Do outro lado, havia uma praça. O chão era formado por placas metálicas claras intercaladas com faixas de vidro translúcido que brilhavam suavemente, mudando de cor conforme as pessoas passavam. Árvores artificiais de troncos prateados e copas holográficas projetavam sombras geométricas, enquanto bancos flutuantes ajustavam sua altura automaticamente para quem se aproximava. No centro, uma fonte de água reciclada se movia em padrões coreografados, acompanhada por luzes azuladas e lilases. Telas discretas exibiam arte digital e anúncios culturais, e drones silenciosos pairavam acima, cuidando da limpeza e da segurança.

Pamela decidiu fazer uma pausa e sentou-se em um dos bancos assim que o sinal ficou verde. Talvez sentir um pouco de ar puro ajudasse a organizar as ideias.

— Olá de novo, senhorita Beesly. É bom vê-la outra vez — disse uma voz suave.

Pamela olhou em volta, até perceber que o som vinha de um pilar ao seu lado.

— Sou eu, a Harleen.

— Olá, Harleen. Desculpe… achei que você funcionasse apenas na área de embarque.

— Funciono lá também — respondeu a IA, com leveza. — Na verdade, existem Harleens espalhadas por toda a estação. Somos conectadas por uma mente-colmeia, como os jovens gostam de dizer. Então, basicamente, estou sempre por aqui. Para o que você precisar, quando e onde quiser.

Pamela soltou um pequeno suspiro.

— Isso é bem interessante… e um pouco assustador, se não se importar. Tudo isso ainda é muito estranho para mim. Em Marte, não tínhamos nada parecido. As IAs eram mais para o consumo individual ou familiar.

— Sem problema nenhum, querida — disse Harleen, em tom compreensivo. — É normal estranhar no começo. Mas me diga… você parece cansada e preocupada. Quer conversar sobre isso? Talvez eu consiga ajudar de alguma forma.

— Acho que estou meio sem fôlego por causa da caminhada — Pamela riu de leve. — Mas, na verdade, ando mentalmente exausta esses dias.

— Se quiser desabafar, fique à vontade — respondeu Harleen. — De acordo com nossos protocolos, as Harleens possuem bases sólidas de psicologia aplicadas em nossos códigos.

Pamela respirou fundo antes de continuar.

— Eu tenho me cobrado demais por causa do The Global Frame Awards. Não sei se você já ouviu falar, mas é uma competição de animações independentes bem renomada. Quem ganha acaba conquistando muito status.

Ela fez uma breve pausa. Umedeceu os lábios, antes de prosseguir:

— Minha chefe, a Bonnie… ela é bem neurótica. Trabalho na empresa dela há quase um ano e, pra ela, eu ainda sou só a secretária. Ela não reconhece meu diploma e acha minhas ideias clichês e sem originalidade, isso nas poucas vezes em que sequer me deu a chance de mostrar meu trabalho. Acho que, se eu ganhar alguma coisa, talvez ela finalmente me veja como parte de verdade da equipe.

Pamela apertou as mãos no colo.

— O problema é que nenhuma ideia boa apareceu até agora. Pensei que correr pelo bairro, voltar para minhas raízes, para a minha infância, pudesse ajudar. Mas tudo parece, tão sem cor agora. Não sei se você sabe, mas minha mãe morreu, o velório aconteceu ontem e eu nem ao menos consegui escrever um discurso decente pra ela. — Cobriu o rosto com as palmas das mãos.

— Sim — respondeu Harleen com cuidado. — Recebi essa informação na sessão de obituários do sistema na semana passada. Meus sentimentos.

— Obrigada. — respirou fundo, abaixando as mãos e voltando a encarar o parque. — Eu achei que, voltando pra cá, poderia me reconectar com a minha vida… com a minha família, na época em que ainda éramos uma família. Quando eu era feliz e não vivia sob tanta pressão. Mas eu estou tão perdida…

A voz dela vacilou, enquanto continuava com o monólogo:

— Eu me sinto como se não pertencesse a esse lugar, por mais que esteja aqui por apenas dois dias. Acho que é um sentimento antigo, de quando eu era criança. Na verdade, acho que nunca me senti pertencente a lugar nenhum. E, no fim das contas, qual é o objetivo da dor? Se eu não consigo transformá-la em algo produtivo, em arte para que outras pessoas se identifiquem… então pra quê? Eu me sinto inútil. E isso é horrível!

— É normal se sentir mal e perder a vontade de fazer até aquilo que você ama, Pam — disse Harleen com suavidade. — Você está passando por um momento realmente difícil. A morte é um conceito para o qual os humanos jamais estão verdadeiramente preparados, ainda que passem anos tentando se condicionar psicologicamente à sua inevitabilidade. Não precisa se pressionar tanto. Se quiser, posso te ajudar com algumas ideias.

— Acho que não — Pam respondeu, depois de um instante. — Não me leve a mal, mas eu não gostaria de usar ajuda de uma IA para isso. Sou contra o envolvimento de IAs com a arte.

— Eu entendo — disse Harleen, sem qualquer sinal de ofensa. — E não estou falando de fazer o trabalho por você. Nem quero entrar nesse tipo de critério. Acredito, de verdade, que nós, por mais treinadas que sejamos, jamais conseguiremos reproduzir a complexidade dos sentimentos humanos, muito menos transformá-los em arte.

Houve uma breve pausa antes da IA concluir seu raciocínio:

— Todos os dias, por exemplo, eu vejo aquele senhorzinho do banco à frente sentar-se nesta praça. Ele fica aqui por horas: lendo um livro, alimentando os pombos, conversando comigo sobre o passado. Ele sempre fala de como as dores que viveu o empurraram para o futuro, de como certas perdas acabaram trazendo coisas boas; coisas que ele jamais teria encontrado se não tivesse sofrido primeiro. Ele diz que a dor não é o destino, mas o caminho.

A ex-atriz manteve os olhos fixos na fonte luminosa da praça, sentindo algo apertar no peito.

— Acho que estou começando a te entender.

— A dor não precisa ser útil o tempo todo — desenvolveu Harleen. — Às vezes, ela só precisa ser sentida. Outras vezes, ela vira memória. E, em raros momentos, ela se transforma em algo que toca outras pessoas. A arte costuma nascer exatamente nesses intervalos silenciosos.

Beesly respirou fundo, como se estivesse juntando pedaços de si mesma.

— Que tal você olhar para o seu passado? — sugeriu Harleen, com delicadeza. — Pense na sua infância aqui. Quem você era antes das cobranças, antes das expectativas, antes do medo de não ser suficiente. Talvez revisitar esse lugar, enxergar o mundo com os olhos daquela garotinha que sonhava em criar desenhos animados um dia… Quem sabe a ideia que você procura não esteja fora, mas guardada aí dentro, esperando ser lembrada.

— Essa é uma excelente ideia, Harleen. De verdade. Quem te programou tinha mesmo muita vocação para a psicologia — elogiou.

— Estarei sempre à disposição, Pam — respondeu a IA, enquanto a tela exibia brevemente a animação de um olho piscando. — Estarei torcendo pelo seu sucesso.

Pam riu e, depois disso, encostou-se no banco, deixando o corpo relaxar como se finalmente tivesse permissão para simplesmente existir ali por alguns instantes.

Inspirou fundo.

A brisa gélida de dezembro passava por seu rosto, frio o bastante para arrepiar a pele, mas havia também aqueles dois sois tímidos — duas estrelas anãs amarelas —, que aqueciam na medida certa. Uma contradição agradável, como tantas outras da vida. Ela fechou os olhos por um segundo, apenas para sentir o ambiente ao redor, o murmúrio distante da cidade, o som de passos, de vozes misturadas.

Quando os abriu, percebeu algumas pessoas conversando mais adiante, perto das vitrines. Entre elas, reconheceu o senhor Stanley — o mesmo mencionado por Harleen antes. Ele se afastava devagar, com o auxílio de um andador, do seu banco costumeiro devagar, acenando para algum conhecido do outro lado da rua. Pam, quase por reflexo, levantou a mão e também lhe deu um tchau. Stanley, porém, não a viu. Talvez fosse mais uma vítima da Catarata.

Ela deixou a mão cair, sem se incomodar tanto quanto imaginava que se incomodaria.

Do outro lado da rua, reconheceu Jim atravessando a faixa de pedestres, carregando uma caixa de decorações debaixo do braço. Andava sério, com aquele ar sempre concentrado, mas ainda assim parava aqui e ali para cumprimentar as pessoas com um aceno de cabeça ou um breve “bom dia”. Ele não a notou devido a distância.

Então, seu olhar foi atraído por uma cena simples.

Uma mãe atravessava a calçada de mãos dadas com uma criança,uma menininha de cabelos dourados, onde um grande laço azul se entrelaçava nos cachos macios, e juntas entraram em uma loja de brinquedos logo à frente. Pam sentiu algo se mexer dentro do peito.

Uma memória antiga.

Lembrou-se do dia em que sua mãe lhe deu uma casinha de bonecas.

Lembrou-se também de como criara tantas histórias reconfortantes para aquela pequena família de plástico: a Barbie, o Ken, a bebê Merida e a gatinha Isobel. Eles viviam aventuras simples, tinham problemas pequenos, mas sempre encontravam um jeito de terminar o dia juntos. Às vezes, Pam imaginava aquilo como um desenho animado, episódio após episódio, sempre com finais felizes.

Houve um tempo em que aquela inocência parecia infinita.

E agora, sentada naquele banco, observando o mundo seguir em frente, percebeu o quanto a sua inocência havia sido… brilhante.

[...]

Pam sentiu vontade de socar o despertador naquela manhã. Havia tirado um rápido cochilo depois que voltara da caminhada. Levantou-se e se arrumou a contragosto. Tomou um café rápido e, bem agasalhada, saiu de casa. O termostato havia voltado ao comando “geada”. Franziu o cenho ao abrir a porta e ver Jim parado em frente à sua porta.

— Bom dia, pequeno raio de sol. — cumprimentou. A ruiva admirou que ele ainda se lembrasse daquele velho apelido.

— Bom dia. Por favor, não diga que veio aqui só para me dar mais uma multa.

— Não — Jim riu. — Hoje resolvi te dar uma trégua. Vim mostrar um pouco de hospitalidade e te levar até o local da reunião.

— Ah, isso seria ótimo. Obrigada.

— Disponha.

Pam trancou a porta com cuidado, conferindo tudo antes de se virar para ele.

— Onde vai ser a reunião mesmo? — perguntou.

— Na residência dos Schrute.

— Não seria na sua casa?

— É, mas tivemos um imprevisto com o aquecedor. Ele pifou no meio da noite e tudo ali está simplesmente parecendo uma geladeira. E nenhum técnico parece trabalhar antes das nove, então…

— Essa não… — Lamentou em voz baixa. — Não sei se minha paciência para aguentar os Schrute está positiva hoje.

Jim caiu na risada.

— Olha, até que o Dwight melhorou bastante. Antes ele era bem mais cabeça-quente, mas depois que começou a fazer aulas de ioga com a Kelly, ficou mais equilibrado… eu acho. Pena que não posso dizer o mesmo da mãe dele…

Jim explicava enquanto entrava no carro. Pam fez o mesmo, balançando a cabeça. Não se surpreendeu ao encontrar o interior do veículo repleto de pequenos enfeites de Natal pendurados no retrovisor e espalhados pelo painel, além de alguns adesivos coloridos colados na lataria.

— O que foi? — Jim perguntou ao perceber o sorriso dela.

— Nada, é só que… esses enfeites são tão…

— Bregas? — Jim levou a mão ao peito, fingindo drama. — Meu Deus, Pamela, isso foi direto no coração!

— Não, não é isso, seu bobo — Ela riu. — É só que eu queria ter essa mesma energia natalina que você tem. É… tão bonito.

Jim sorriu de lado, satisfeito, e ligou o carro.

— Esse é o melhor elogio que já recebi em meus 30 anos de vida. Muito obrigado. De verdade.

— Seu bobo! — ela desviou o olhar, sorrindo. — Sabe… me surpreende como tudo mudou e, ao mesmo tempo, nada mudou por aqui. As casas estão mais modernas, as crianças cresceram e formaram suas próprias famílias. Pessoas morreram, estranhos nasceram, e desconhecidos tiveram destinos que os trouxeram até este lugar. Mas a Hedda continua a mesma rabugenta, você continua sendo o mesmo porta-voz do Natal de sempre, e o Stanley Hudson continua fazendo palavras cruzadas e odiando o pobre do Michael.

Jim riu de lado.

— Você se lembra de como aquela briga começou?

— Lembro, sim. A decoração do Michael caiu bem em cima do carro novo dele. O Stanley tinha acabado de tirar o carro da concessionária.

— Exatamente. E tudo ficou ainda pior depois que o Stanley foi diagnosticado com escoliose, fez a cirurgia e precisou ser substituído como Papai Noel pelo Michael, no ano passado.

Pamela abriu a boca para responder, mas não conseguiu. Em vez disso, caiu na gargalhada. Jim a acompanhou.

— De fato, existem vantagens em morar em Scranton. Tem coisas que vivemos aqui, que jamais viveríamos na mesma intensidade, em outro lugar.

— Concordo totalmente, mesmo não sendo tão aventurado quanto você. Nasci e vivi a vida inteira nessa estação, mas sei que é o único lugar do universo que gostaria de estar agora.

Quando estacionaram em frente à residência dos Schrute, Jim foi atingido em cheio no rosto por uma bolada vinda da casa ao lado. Pam levou um susto e deu um pulinho. O responsável era um garotinho miúdo, de cabelos loiros, que ria sem parar, acompanhado de uma garotinha igualmente loira e de Mari.

— Você está muito lento, tio Jimbo! — exclamou o menino.

— Parece que me pegou distraído. Bom trabalho, Chebonshur! — elogiou Jim, forçando um riso. Pam pegou um lencinho na bolsa, para ajudá-lo a se secar.

Pam riu. As crianças se recolheram logo em seguida, entrando correndo na casa.

— Que tipo de nome é esse? — perguntou Pam.

— É porque você não viu o nome da irmã dele: Lowshebin.

— Meu. Deus!!! — disse ela, pausadamente. — Dá onde inventaram esses nomes?

— Eu não sei. É um verdadeiro trava-língua. Pergunte ao Michael e à Holly… foram eles que colocaram aquele casal de pestinhas no mundo.

— Oi tio Jimbo, oi tia Pam! — Agora foi a vez de Mari cumprimentar.

— Oi! — Ambos acenaram.

— Boa reunião pra vocês!

— Obrigada, boa diversão! — Beesly agradeceu.

— Pode deixar capitã! — Halpert bateu continência.

Ao entrarem na casa, todos já estavam reunidos na sala de estar. Um data show estava montado, e sobre a mesa de centro havia uma jarra de suco de laranja acompanhada de biscoitos. Havia três sofás: um de frente para a projeção e os outros dois posicionados nas laterais.

Pam sentou-se no sofá do meio, entre Barbara Halpert e Holly Scott. Jim ficou à frente, segurando o controle, pronto para começar a apresentação. Além deles, estavam presentes Dwight e Hedda, Kelly e Michael.

— Muito bem, equipe — começou Jim. — Como podem ver, temos apenas seis dias até o Natal e ainda há muita diversão pela frente. Quero só garantir que nossos gerentes de evento estejam alinhados com o que precisam fazer, tudo bem? Primeiro evento — disse, mudando o slide —: concurso de biscoitos natalinos, hoje à tarde.

— Tudo certo — afirmou Barbara, piscando e fazendo joinha.

— Obrigado, mãe — agradeceu Jim. — E quanto aos preparativos do chocolate quente para os visitantes?

— Deixa comigo! — exclamou Holly.

— E o troféu para o vencedor?

— Tá na mão. Pronto na minha garagem desde setembro — respondeu Dwight. — Mas não sei por que a gente não entrega o troféu logo pra minha mãe. Ela ganha todo ano mesmo.

— Não se apresse — rebateu Kelly, quase se levantando do sofá. — Ano passado fiquei em segundo lugar, por muito pouco atrás da Hedda. Este ano eu vou com tudo. Então…

— Se eu fosse você, não contaria com a vitória antes da hora, Kapoor. Os clássicos nunca saem de moda — provocou Hedda.

— Por favor, pessoal, acalmem os ânimos — pediu Jim. — Foco na reunião. A Missão Natal 2025 já precisa ser colocada em prática.

Depois de alguns minutos de burburinho, a sala voltou ao silêncio. Pam se encolheu um pouco diante da agitação e aproveitou o momento para observar melhor a sala de estar. Notou que não havia televisão, que a lareira tinha poucos enfeites, mas muitas fotografias de família e pequenas esculturas de argila pelo ambiente. Os Schrute prezavam claramente pela tradição e pela memória.

No topo da estante, destacava-se a fotografia do falecido patriarca da família, Dwight Schrute II, pai de Dwight. De expressão severa, o rosto do filho lhe era estranhamente parecido demais.

— Bom, voltando à programação — retomou Jim, após pigarrear de leve. — Por último, temos o ilustre desfile de bonecos de neves, que por muitos anos foi responsabilidade de Phil e Sylvia. Enquanto estiveram vivos, deixaram um legado lindo. Depois, esse papel fora passado para Helene e William, que Deus os tenha, que também fizeram um excelente trabalho.

Helene… — Pam captou o murmúrio de Hedda ao se inclinar em direção ao filho, a risada baixa escapando entre as palavras. — Ela fazia tudo reclamando, tudo ficava nas costas do pobre Bill.

Teve que se esforçar muito para não revirar os olhos.

— Então — Jim continuava a dizer. —, acho mais do que justo encontrarmos alguém a altura para substituí-los.

Ele fez uma breve pausa, então sorriu.

— Que tal pedirmos à Pam para assumir essa tarefa? Assim, a tradição continua… e fica na família.

— Essa é uma ideia maravilhosa! — exclamou Barbara. Holly e Kelly concordaram imediatamente.

— Que absurdo… deixar o segundo principal evento do nosso Natal nas mãos dela. A casa dela nem está arrumada ainda! — murmurou Dwight, em tom crítico.

— Calma, pessoal. Vamos ouvir o que a Pam tem a dizer. Pamela, o que você acha? — perguntou Michael.

— É… o que você acha? — reforçou Jim, encarando-a diretamente.

— Não, desculpa, mas eu não posso — disse Pam, sem rodeios.

— Por quê? — questionou Kelly, com um quê de decepção na voz.

— Eu só estou um pouco confusa.

— É uma exibição de pessoas quase congelando numa nevasca no final de Dezembro, seguida por uma luta de bolas de neve, sem regras. O que mais você precisa saber? — rebateu Dwight, de braços cruzados.

— Eu estou ciente do que o evento envolve, Dwight, obrigada. Eu também cresci aqui, caso tenha esquecido — rebateu ela. — Aliás, ainda tenho uma leve perda auditiva desde a vez em que levei um “tiro” de impacto, em 2007.

— Ei, você disse que tinha me perdoado — retrucou Dwight. — Nós ainda éramos crianças.

— Fala mais alto, querido — interveio Hedda. — Esse ouvido, o direito, pode ter sido o atingido.

— Você disse que tinha me perdoado! Nós só tínhamos doze anos! — repetiu Dwight, agora gritando.

Michael, mesmo sentado no sofá oposto, precisou tapar discretamente os ouvidos antes de soltar um riso nasalado.

— O que foi, Michael? — questionou Hedda. — O que é tão engraçado?

— Nada, é só que o Dwightzinho aqui, mandou tão forte que a Pam não aguentou e quase teve que apelar, indo parar no hospital. Aprendeu certinho com o mestre aqui. — Vangloriou-se, estufando o peito.

Todos ficaram em silêncio, lançando-lhe olhares de julgamento. Holly abaixou a cabeça, em negação, apertando a glabela.

A ruiva fez uma careta e respirou fundo, tentando manter a calma.

— Michael, por favor… mais respeito. — Mandou Jim, sério.

— Desculpe, me passei. Por favor, me ignorem. — disse, dando um longo gole no suco de laranja.

— Me desculpe por isso, Pam — pediu Holly. — Tem horas que ele não pensa antes de falar.

— Tá tudo bem, não precisa se desculpar. — Pam tocou a mão dela. — Olha, voltando ao assunto… O que me deixa confusa é por que meus pais não encontraram alguém para assumir isso enquanto ainda estavam vivos, alguém mais competente — confessou Pam. — Faz mais de quinze anos que não pisava nesta estação. Eu construí minha vida fora daqui. Tenho certeza de que eles devem ter tido aprendizes mais preparados do que eu.

— É… bom, então… — Jim deu de ombros, claramente procurando as palavras certas para responder àquela dúvida.

— É que eles sempre confiaram no seu potencial, amiga, desde o começo — arriscou Kelly.

— Olha, Pam, eu, assim como eles, sei que você consegue — disse Jim. — Não é pessoal, certo?

Todos concordaram com a cabeça, exceto Dwight e Hedda.

— E, aliás, você ainda tem bastante tempo.

— Quanto tempo?

— Trinta e seis horas…

— Bastante tempo?! — questionou, irônica, afundando as costas no sofá branco e macio. — Acho que isso é um leve exagero.

— Bom, você ainda precisa entrar no concurso de biscoitos, e sua casa precisa ser decorada de acordo com as regras — completou Jim. — Então, sim… talvez você esteja certa.

— Na verdade, eu não teria que fazer nada disso. Não me levem a mal, mas eu literalmente acabei de chegar depois de muito tempo, sob circunstâncias bastante complicadas. Eu acabei de perder a minha mãe… e… o Natal é apenas mais um dia comum do ano para mim.

O choque foi imediato. Todos ficaram estupefatos — principalmente Hedda, que levou uma mão ao peito e a outra à boca, como se tivesse acabado de testemunhar uma tamanha blasfêmia.

— Eu só quero ficar em casa, assistindo a filmes de Natal e comendo biscoitos, enquanto penso em estratégias para colocar a minha vida de volta aos eixos em 2026 — explicou Pam, a voz mais baixa. — Por favor…

— Sou só eu ou a situação ficou muito quente aqui? — soltou Michael, fingindo se abanar dentro do terno.

— Pam, querida — Barbara virou-se para ela e segurou sua mão. — Não queremos que você perca nenhuma diversão.

— Espera um minuto — interveio Holly, tocando o ombro da ex-atriz. — Por que a Hedda e a Pamela não gerenciam o evento juntas?

— O quê?! — Hedda quase se engasgou com o copo de leite que bebia. Dwight correu para ajudá-la, limpando o vestido com alguns lencinhos descartáveis que estavam sobre a mesa.

— Algum problema com essa ideia, Hedda? — perguntou Michael.

— Todos! — respondeu ela, deixando o copo sujo sobre a mesinha de centro. — Querem saber? Eu posso fazer sozinha. Seria muito mais fácil.

— Eu estou totalmente de acordo. É uma excelente ideia. — comentou Beesly.

— Não, Pam! — rebateu Kelly. — Mas aí você não teria a satisfação de participar… e ainda quebraria uma tradição de anos da sua família. Não podemos deixar isso acontecer. Você veio para relaxar, lembrar dos velhos tempos e recuperar seu espírito natalino….

— Mais ou menos isso… — murmurou Pam.

— Então, você vai ajudar sim!

— Concordo. Acho que a cogestão é uma ótima ideia — afirmou Barbara.

— É uma ótima ideia mesmo — reforçou Jim. — Por favor, Pam. Faça isso por mim… ou pelos seus pais e avós. É isso que eles gostariam, de onde estiverem.

Todos a encararam com olhares suplicantes.

— Tá bom… eu aceito.

— Vocês duas vão curtir demais! — exclamou Kelly, abraçando a primeira pessoa ao seu lado, que por azar era Michael, que pediu calmamente para ela se conter.

— Certo — Jim sorriu. — Ótimo! Agora só precisamos discutir, os últimos catorze tópicos restantes.

Pamela inspirou fundo e quis se afundar no sofá até sumir.

— Então… começaremos o tópico um, com a grande pergunta: quem vai ser o Papai Noel deste ano? — pergunta Jim. — Claramente o Stanley Hudson não pode mais, por causa da escoliose.

— Bom, acho que eu tenho uma ótima sugestão. — Holly levantou a mão, pensativa. — Afinal, ele se apresentou como alguém digno para o cargo o ano passado, surpreendendo a todos.

Jim inclinou a cabeça, concordando.

— Acho que estamos na mesma linha de raciocínio.

— Sério? Quem, querida? — perguntou Michael.

Todos — menos Pam, que encontrava-se perdida — na sala olharam para Michael ao mesmo tempo, em silêncio, com expressões sugestivas.

— Ah, não! Por favor, não! Eu de novo?! — Ele apontou para si mesmo, incrédulo.

— Tem alguém melhor para sugerir? — rebateu Holly.

— O Dwight? — Arriscou.

— Não, o meu bebê não! — Hedda foi rápida em protestar. — Toda aquela roupa faz mal pra ele. E a Mari o reconheceria na hora, acabaria com a magia da menina!

— Sei lá… a Pam? — sugeriu Michael.

— A Pam é mulher, Michael — Jim suspirou. — As crianças querem um Papai Noel, não uma Mamãe Noel. Por favor, mulheres, não levem pro pessoal. — Levantou as mãos num gesto de paz.

— Ele só… não pode ser um papai ausente? — Michael arriscou de novo.

Holly o fuzilou com o olhar.

— Tá, tá, tudo bem. Era brincadeira. Eu aceito. Vai ser uma honra para mim. — Forçou um sorriso.

— Que maravilha! — comemorou Holly, Barbara a acompanhou nos aplausos.

— Ano passado foi bem divertido… tenho que admitir — Michael sorriu, nostálgico. — Com aquele monte de garotas lindas da fraternidade Phi Iota Mu, da filha mais nova da Palmer, fazendo fila pra sentar no colo do bom velhinho. Elas eram… bem levadas.

O silêncio que se seguiu foi constrangedor.

Holly o encarava como se, se tivesse visão a laser, o marido já tivesse virado pó. Pam e Jim trocaram um olhar igualmente desconfortável.

— É… ok. Me desculpem. Acho que me empolguei um pouco — Michael pigarreou. — Vou pegar um chocolate quente.

E saiu da sala.

Pamela preferia mil vezes as reuniões onlines entediantes e desnecessariamente longas da Royal Candy.

Notas finais
Capítulo cheio de emoções, eu sei. Dedos cruzados para a Pam conseguir realizar seu sonho e se destacar na área de animações! ❤️ Nossa garota, não mais tão garota assim, merece ksksksksks Beijos ❤️ Até amanhã!