Frames do Destino
3 O Comitê da Associação dos Moradores
Notas iniciais

PAMELA ESTAVA PERFEITAMENTE aninhada em seus cobertores. A reunião do dia anterior parecia interminável, quase dormiu em cima do teclado do laptop, mas pelo menos, agora estava oficialmente de férias. Quando, de repente, ouviu o som agudo da campainha, atravessando o silêncio da madrugada e latejando no fundo da sua mente. Ergueu a cabeça, sonolenta, mas logo voltou a afundar o rosto no travesseiro.
— Quem será que está tocando a essa hora? Ninguém dorme nesse bairro, não?
Levantou-se a contragosto, calçou as pantufas de unicórnio — as mesmas que usava quando era criança, embora agora estivessem um pouco apertadas — e caminhou até a porta da frente. Antes, porém, tentou domar os fios espetados do cabelo e colocou na boca uma bala de Dentibôs, que escovariam seus dentes em segundos.
Mais uma vez, a campainha tocou. Pamela massageou a têmpora, sentindo a pontada de uma leve dor de cabeça.
— Já vai… — murmurou, cuspindo a bala na pia da cozinha antes de abrir a porta, ainda vestindo o pijama rosa estampado com orquídeas e rosas. — Já disse que já vai! Jim?! — exclamou, surpresa ao ver o homem alto, de sobretudo marrom, examinando as flores de sua varanda com um tablet em mãos.
— Desculpe, quem é você mesmo? — Ele perguntou, guardando o tablet debaixo do sobretudo.
— É sério que não tá me reconhecendo, sou eu, a Pam, Pam Beesly. Eu era a criança número um da sua mãe na sorveteria, comprava muitos milk-shakes.
— Não, impossível, a Pam Beesly que conheci era uma garotinha ruiva de 1,30 de altura e tinha uma voz fininha parecida com a do Kermit dos Muppets. “Não é fácil ser verde. Hi-ho!”
Pam se esforçou para não revirar os olhos diante aquela imitação barata, mas no fim, riu.
— Ok, ok, já entendi qual é a sua engraçadinho. Mas tenho quase certeza que esse “Ho-ho!” é do Mickey!
— São timbres parecidos, porém ainda são risadas diferentes, minha cara.
— Olha, eu não iria falar nada, mas… você também é muito diferente do Jim que eu conheci. Ele era baixinho e loirinho igual ao Kevin McCallister e incrivelmente petulante e irritante também. E a voz dele soava mais como… o Pica-Pau quando ficava gripado. Acho que devo ter me confundido.
— Tá bom, tá bom! Você me pegou, eu me rendo. Pior que eu quase fui deixado para trás nas férias de Natal uma vez, minha família estava toda reunida e como você bem disse, eu era bem baixinho, me camuflava nas bagagens.
Os dois riram.
— Vem cá, Jim, quanta saudade! — Pam admitiu, o puxando para um forte abraço.
— Quanta saudade, Pam! E meus mais sinceros sentimentos pela sua mãe, ela era uma ótima pessoa. — disse, se afastando.
— É, ela era — Pam desviou o olhar para o chão e comprimiu os lábios. — Obrigada pelas condolências.
— Apesar das razões, fico feliz que tenha voltado. Você fez falta.
— Por favor, entre. Está muito frio lá fora. — Pamela abriu um espaço com o corpo e fez um gesto acolhedor com a mão. Quando ele entrou, ela fechou a porta com cuidado, protegendo-se do vento gelado que ainda cortava o corredor. — Quer um chá, biscoitos ou alguma coisa?
Eles se sentaram no sofá branco; Pamela alisou a manta jogada sobre o encosto, nervosa, enquanto o homem apoiava o tablet no colo e pousava as mãos sobre ele, mantendo uma postura impecável.
— Na verdade, não precisa. Vim apenas fazer uma rápida visita, mas agradeço a gentileza. Vim também confirmar a presença minha e da minha mãe no velório, e estaremos à disposição para ajudar no que você precisar. Sua mãe foi uma verdadeira guerreira.
— Ela foi mesmo, lutou quase sete anos contra aquela doença terrível — Suspirou.
— Hoje é a iluminação da árvore e também, infelizmente, o enterro da sua mãe. Então, por consideração, gostaria de saber se você prefere que adiemos a iluminação por mais alguns dias. Acredito que ninguém vai se importar se for muito pra você...
— Não, tudo bem, de verdade. — Assentiu com a cabeça. — Pode acender hoje mesmo. Sabe, acho que a iluminação da árvore, se não me falha a memória, era uma das poucas coisas de que minha mãe ainda gostava neste lugar. Era uma das poucas vezes que a via largar o cigarro e sorrir, sem falsidade. Seria uma boa última homenagem ao espírito dela.
— Concordo com seu ponto de vista.
— Ah! Soube pelo Eddie que você é o novo presidente da associação dos moradores. — Pamela cruzou as pernas, inclinando-se um pouco para frente. — O vovô Phillip ficaria orgulhoso de saber disso.
O homem sorriu de lado, passando o polegar pela borda do tablet, pensativo.
— Seu avô era simplesmente uma lenda. Aprendi muita coisa com ele.
Pamela apertou as mãos uma contra a outra.
— Olha… sei que não é a melhor pergunta — Ela começou, apoiando o cotovelo no braço do sofá — Mas como você aguenta toda a comoção de Scranton no Natal? Tipo, eu amava muito tudo isso quando era criança, mas… a vida adulta é tão chata e sem esperanças, e quando não se tem filhos pequenos ou… família… não fica um pouco triste comemorar o Natal?
— O Natal sempre foi algo mágico para mim. E, apesar das adversidades, acho que é o único momento do ano em que realmente me sinto vivo, com o mesmo brilho de antes. — Seus olhos se suavizaram. — É quando posso focar em algo que não seja trabalho, contas e problemas. E, Pam… — Tocou de leve no braço dela. — Você tem a nós. Nós, da vizinhança, somos sua família também.
— Acho que essa é a magia das cidades do interior… — Refletiu, sorrindo com ternura. — Eu morei na capital de Marte por anos, e todo mundo era tão focado apenas no próprio umbigo… A maioria nem comemora o Natal ou o Ano-Novo, ainda mais depois do novo calendário. Dizem que “é uma tradição antiga, da antiga civilização terráquea”.
Ele franziu o cenho, recostando-se.
— É triste ver tantos seres humanos abandonando o valor das próprias origens e prestigiando apenas a cultura de outras espécies. — Afirmou Jim. — Por que não preservamos nossa identidade?
— É que sempre fomos tão desunidos… Nosso avanço para o espaço só aconteceu quando Musk e companhia levaram todas as matérias-primas e fugiram para Marte. Depois outra tropa saiu em naves enormes, anos depois… e os mais pobres foram deixados para trás, para morrer. Os Aandriskanos só nos encontraram vagando no espaço e nos integraram à sociedade intergaláctica por pura gentileza, eu acho… Eles não nos veem como iguais, e sim como seres inferiores e acabamos colocando isso na nossa própria cabeça.
Jim assentiu devagar.
— Infelizmente. Mas você é uma celebridade em toda a comunidade humana, Pam, independentemente do lugar. — Sorriu, inclinando a cabeça. — A maioria das pessoas cresceu assistindo “Crescendo com a Kimberly”, e aquele seu filme que ganhou o Oscar é demais. Eu trabalhava em um cinema na época, e as sessões estavam sempre lotadas.
Pamela soltou um riso fraco.
— A memória popular é bem curta, sabe? Um dia você está no topo, dá tudo de si para os fãs, e no outro… você é apenas mais um rosto apático na rua. — Ela mexeu nos próprios cabelos, inquieta. — Ninguém lembra que você existe. Queria ter tido a mesma sorte que a Taylor e a Sabrina tiveram… até a Karlie ainda é supercomentada. Mas eu não quis migrar para o mundo pop, fazendo músicas genéricas sobre ser jovem, sexy e fazer sexo. Tipo… não me leve a mal, não sou conservadora nem nada, mas definitivamente não era minha praia. E ser modelo… — Suspirou. — A Karlie teve que abrir mão de muita coisa para continuar magra daquele jeito; ela até desenvolveu anorexia. Por causa do peso de ser sempre perfeitinha.
Encostou-se no sofá e afundou as costas, antes de continuar:
— É só que… sei lá. Sei que as pessoas tinham grandes expectativas em mim, mas… eu queria ser livre, não queria morrer por elas, acho…
— Você não decepcionou ninguém e nem está atrasada se seguiu seu coração. — Jim afirmou, tocando novamente seu braço. — E tenho certeza que você se tornou uma animadora incrível, e criatividade e paixão você sempre teve de sobra.
— Valeu pelo apoio, meu velho amigo. — Sorriu. — Mas então. — Ajeitou a postura. — O que te trouxe aqui?
— Bom… você tem e-mail ou número de telefone?
— Que direto! — Sorriu, ladina.
— Não é isso. — Ele corou levemente, desviando o olhar. — É só para confirmar sua identidade no comitê.
— Ah, entendi. — Pamela riu, corando também. — Meu número é (515) 014-9832 e meu e-mail é pamelabeeslyactressofficial@gmail.com.
— Obrigado.
— Então… mais alguma coisa?
Ele respirou fundo.
— É… sobre isso. Tenho algumas péssimas notícias. — disse, desbloqueando o tablet.
— Péssimas notícias? — Pam arqueou uma sobrancelha, tensa.
— O Natal é daqui a duas semanas, como você sabe. E é impossível não notar que sua casa está completamente sem enfeites. Além disso… você não colocou um quebra-nozes na porta, não montou nenhuma árvore de Natal aqui dentro, e ninguém da sua família se voluntariou para nenhum cargo na organização do evento. — Ele consultou a tela. — Também não houve pagamento da caixinha de contribuição para o aluguel do salão. E, como nos primeiros sete dias de dezembro ninguém apresentou uma justificativa plausível para a ausência desses itens… o comitê não teve escolha a não ser aplicar multas a você.
— Multa?
— Multas. — Ele corrigiu. — Acabei de enviá-las para o seu contato particular.
Pamela pegou o celular imediatamente. Seus olhos se arregalaram assim que abriu a mensagem.
— Quinhentos e cinquenta dólares?! Isso é sério! Eu… todo mundo sabe que eu acabei de me mudar, e que minha mãe morreu. Isso não me parece nem um pouco justo, Jim! Eu não tenho todo esse dinheiro e eu não posso ficar com o nome sujo logo agora, entende?
— Me desculpe, Pam. De verdade. Eu entendo sua situação, respeito, e se dependesse só de mim… — Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Mas, embora eu seja o presidente, o Dwight ainda é o responsável pela contabilidade e pelas multas. E aquele cara é impossível. Ano passado ele multou a própria mãe porque ela queimou os biscoitos de gengibre.
— Tudo bem… — A ruiva cobriu o rosto com as palmas das mãos. — Eu sei que não é culpa sua. Mas… não tem algum jeito de eu recorrer disso? — Ajeitou o cabelo para trás, trêmula.
— Existem alternativas. A pena pode ser convertida em vinte e quatro horas de prestação de serviços à comunidade, para quitar suas multas. No caso, ajudar na organização do nosso evento. Como auxiliar a Kelly na competição de biscoitos ou o Michael na competição de bonecos de neve. A qual, aliás, estou invicto há sete anos consecutivos. — Deu um sorriso convencido. — É simples. Além de, claro, comparecer à reunião de hoje à noite, onde tudo vai ser explicado direitinho.
— Ok, isso parece bem melhor.
— Agradeça a mim — informou, erguendo o indicado. — Fui eu quem sugeriu isso ao Dwight.
— Valeu, Jim. Você está salvando a minha pele mais uma vez. Nem sei como te agradecer.
— Te ver reacendendo seu espírito natalino já vai ser o maior presente que o Papai Noel poderia me dar.
Seus olhares se perderam um sorriso do outro por alguns segundos, até que o som da campainha rompeu o encanto.
— Desculpe.
— Tudo bem.
— Você está esperando alguma visita?
— Sim, a Kelly. Ela vai me ajudar hoje com as coisas do velório e tudo.
— Ah… a Kelly. Sim, entendo. — Jim ajeitou-se no sofá.
— Um minuto, por favor.
Pam caminhou até a porta, abaixou mais os fios ruivos teimosos, e a abriu.
Kelly Kapoor surgiu à porta com uma blusa roxa em tom vivo, tão característica quanto sua energia sempre efervescente. O tecido tinha detalhes femininos — babados discretos, um laço delicado e mangas levemente bufantes — ressaltando seu estilo ousado e impecável. A calça jeans preta, justa e moderna, completava o visual com uma elegância despretensiosa.
Nas mãos, ela trazia uma tigela de bolo red velvet, equilibrando-a como se fosse um presente precioso.
— Meninaaa, quanto tempo! — exclamou Kelly assim que viu Pam, já avançando para um abraço.
Pam deu uma risada surpresa, mas abriu os braços, recebendo o abraço apertado e cheio de saudade.
— Kelly! Meu Deus, que saudade de você — disse Pam, rindo enquanto a amiga ainda a apertava.
Kelly se afastou só o suficiente para encará-la de perto.
— Você tá cada vez mais gata, sério. Eu odeio como você fica naturalmente bonita… é irritante — disse Kelly, dramatizando com as mãos. — Deve ser alguma loção que passam em Hollywood.
Pam riu.
— Você que sempre chega brilhando igual um letreiro de neon — brincou ela. — E ainda trazendo bolo… eu já sabia que era você só pelo cheiro.
Kelly ergueu a tigela como se revelasse uma obra-prima.
— Amiga, eu nunca chego de mãos vazias. Meu amor é medido em carboidratos.
A ruiva balançou a cabeça, sorrindo.
— E eu aceito todos eles. Entre, por favor.
— Acho uma boa ideia, vai que o Dwight apareça e tente “inspecionar” o bolo. — Kelly entrou rindo alto. Era exatamente como Beesly lembrava de sua infância. — Pera aí. Jim?! — Ela olhou para Jim depois para Pam e depois para Jim de novo.
— Não é nada disso que sua cabecinha fértil está imaginando, ok?
Kelly arqueou uma sobrancelha, sorrindo de forma sugestiva.
— Quais são suas reais intenções com a minha melhor amiga, Jim? — perguntou Kelly, semicerrando os olhos com desconfiança e cruzando os braços.
— Kelly, por favor. Ele está ficando envergonhado… — pediu Pam, lançando um olhar de advertência à amiga.
— Tudo bem, já estou acostumado, — explicou Jim com um sorriso tímido, passando a mão pela nuca.
— Ele apenas veio me convidar para fazer parte do comitê de Natal de Scranton, não é? — justificou Pam, arqueando uma sobrancelha na direção dele.
— Sim, isso mesmo, — concordou Jim prontamente. — Eu estava comentando o quanto vai ser bom ter uma artista tão criativa e vivida como ela na equipe. — Ele sorriu de forma sincera, os olhos brilhando um pouco mais do que o necessário.
— Hm… tá bom, acho que acredito. E sim, apoio a ideia. Mas tô de olho! — disse Kelly, apontando o indicador e o médio para os próprios olhos antes de mirá-los para os dois.
Pam revirou os olhos e murmurou:
— Quanta maturidade…
— É… ok. Eu… vou deixá-las a sós agora. — Jim anunciou, um pouco atrapalhado, dando alguns passos para trás. — Te vejo mais tarde, Pam.
— Até mais tarde, Jim! — disse ela com um sorriso amplo enquanto o acompanhava até a porta. Os dois trocaram um último olhar intenso, carregado de expectativa, e sorrisos bobos escaparam sem controle.
Assim que ela voltou para a sala, Kelly a encarou com um sorrisinho vitorioso:
— Garota, você não me engana!
— Kelly, por favor. — pediu, indo em direção ao sofá, a amiga a acompanhou.
— Pra mim, vocês sempre tiveram uma quedinha escondida um pelo outro, mas nunca conseguiram verbalizar — comentou Kelly, erguendo as sobrancelhas com ar sabiamente provocador. — E tinha todo aquele lance: você, atriz renomada; o seu relacionamento com o Eddie; ele com a Katy, que era praticamente uma cópia sua, convenhamos. Mas agora vocês não têm mais essas amarras. Não são mais adolescentes com sentimentos à flor da pele.. Devia investir. Vocês ainda têm conexão.
Pam suspirou profundamente, afundando no sofá.
— Não sei, não… Acabei de sair de um noivado conturbado. A única coisa que quero agora é relaxar.
— Ok, se você insiste… — disse Kelly, dando de ombros de forma exagerada, claramente não convencida.
Após um breve silêncio, Pam mordeu o lábio inferior.
— Mas, me diga. E… o Jim… ele está saindo com alguém? Já é casado?
— Que eu saiba, está solteiro no momento. — respondeu Kelly, apoiando as mãos no quadril. — Já foi casado com a Karen Filippelli, uma metida de nariz empinado, mas o casamento não durou mais que cinco anos. E eles não tiveram filhos. Enfim, ele tá soltinho na pista, prontíssimo pra ser reivindicado por você.
— Você é impossível! — Pam resmungou e revirou os olhos, mas um sorriso involuntário escapou.
— Querida, ele até já te viu com esse pijama horrendo — disse Kelly, apontando o dedo para o conjunto confortável de Beesly. — Isso eu chamo de intimidade instantânea.
Pam arregalou os olhos.
— Falando nisso, tenho que me trocar urgente. Vou usar meu melhor vestido preto. — disse, levantando-se apressada. Indo em direção a escada. — Volto num instante e já podemos ir para a funerária. Se quiser café da manhã, fique à vontade. Tem biscoitos na geladeira e o café é só colocar na cafeteira.
— Sim, capitã. — Kelly fez uma saudação brincalhona. — Tenho certeza de que seus biscoitos devem estar deliciosos. E mais uma vez, meus sentimentos pela sua mãe.
— Eu não os fiz — Pam respondeu rindo. — Comprei numa loja de conveniências enquanto dirigia pra cá. E obrigada!
— Se você puxou o dom da sua avó, vamos arrasar na competição de biscoitos! — declarou Kelly, já seguindo-a até o corrimão da escada. — Estou há sete anos sendo vice-campeã invicta graças às receitas da sua vó. Falta pouco para eu ultrapassar a Hedda. E você vai ser minha dupla, sim. Não aceito “não” como resposta.
Pam apenas balançou a cabeça, sorrindo com resignação, antes de terminar de subir os degraus e desaparecer no corredor rumo ao quarto.
[...]
A cerimônia do velório de Helene Beesly foi pequena, com o caixão fechado e quase todo o bairro de Scranton presente: os Kapoor, os Schrute, os Halpert, os Scott, Eddie e Richie, e alguns amigos de Helene de outros bairros, como os Wheeler e os Harrington.
Pamela se sentiu mal por não conseguir escrever um discurso emocionante para o velório da mãe. Teve de pedir à Harleen que criasse algo genérico e improvisar por cima enquanto falava e isso doeu mais do que ela gostaria de admitir, como se sangrasse por dentro. Seus pais se odiavam, mas ainda assim ela se lembrava da mãe triste no enterro do pai, não por amor, mas porque as coisas jamais seriam como antes. E agora Pamela sentia esse gosto amargo do luto e do “que poderia ter sido”, do que poderiam ter dito e resolvido, mas não disseram. Era tarde demais. O tempo não dava segundas chances, nem espaço para decisões mais bem pensadas. E tudo parecia uma grande merda.
E, pela primeira vez desde que recebeu a notícia, Pamela conseguiu chorar.
No final do discurso improvisado, foi consolada por Kelly. Depois a deixaram sentada num cantinho. Barbara Halpert foi buscar um copo de água com açúcar quando uma menininha de longos cabelos encaracolados e negros, e grandes olhos verdes cor de esmeralda, se aproximou.
— Meus sentimentos pela sua mãe. Eu a via algumas vezes na igreja. Ela era sempre sorridente e legal comigo.
— Obrigada pela gentileza… como você se chama?
— Mari.
— Oi, Mari. Eu sou a Pam.
— Eu sei. Sua mãe sempre falava de você com muito orgulho e que sentia a sua falta. — declarou, inocentemente. — Sempre que minha vó me levava para rezar na casa dela. Sei como deve estar sendo difícil e deve se sentir sozinha agora, mas tudo vai passar, tenho certeza.
Pamela sorriu, com os olhos ainda marejados.
— Você parece ser alguém bem inteligente para a sua idade, querida.
Mari hesitou por um instante, depois perguntou, com a voz tímida:
— Ela está num lugar muito melhor agora, em paz, sem dor, num campo verde cheio de lírios roxos.
— Lírios roxos?
— Sim, na última vez que a vi, ela me disse que eram os favoritos dela.
— Ahh! Agora tá explicado porque todos os convidados vieram com essas flores aqui hoje. — Kelly comentou, talvez pensando alto demais.
— Você… você quer um abraço? — perguntou Mari.
— Um bem apertado, por favor. — Assentiu, ajoelhando-se para envolver a menina num abraço apertado e sincero.
— Mari, por favor, pare de perturbar a Srta. Beesly. — pediu Hedda. — É o velório da mãe dela. Agora ela não tem mais ninguém.
Não tem mais ninguém…
— Não, que isso! Está tudo bem. — Pamela protestou. — Ela estava me ajudando e sendo gentil. Deixa ela.
Hedda apenas acenou com a cabeça, fazendo careta e voltou para perto de Dwight.
— Onde está a sua mãe? — questionou Pamela.
— Em outra estação, a serviço da empresa, se tudo der certo, ela volta antes do Natal.
— Tenho certeza que ela conseguirá vir.
— Que São Nicolau te ouça! — Mari afirmou, rindo.
Meia hora depois, o corpo foi enterrado. No jazigo da família, que ficava no centro do Cemitério. Enquanto todos se retiravam em silêncio, trocando murmúrios baixos, Pam decidiu ficar mais um pouco, encarando a sepultura. Após suspirar fundo, virou-se e saiu, encontrando Kelly à sua espera no portão principal.
No caminho de volta para casa, com Kelly dirigindo seu BYD, o porta-malas e o banco de trás estavam cheios de lírios. Lírios roxos. As flores favoritas de sua mãe, que ela não sabia até uma hora, antes de Mari lhe contar.
Beesly respirou fundo e abaixou o vidro, encarando as casas e árvores “correndo” para si, deixando a mente vagar longe.
[...]
Já era noite quando Pam e Kelly saíram de casa e seguiram até o centro da rua — a área interditada do bairro onde a reunião aconteceria. Assim que chegaram, alguns vizinhos voltaram o olhar para a ruiva e começaram a murmurar entre si, fazendo-a encolher os ombros, desconfortável.
— Pamela, que surpresa agradável! — exclamou uma senhora de óculos, Hedda Schrute. — Não imaginei que conseguiria vir para cá hoje
— Pois é… parece que a nossa superestrela, mesmo depois de enfrentar vários cinturões de meteoros, finalmente voltou para a constelação de onde veio. — comentou Barbara Halpert, uma mulher de longos cabelos castanhos, alguns anos mais jovem.
Pam respirou fundo e sorriu, educada.
— Bom… é sempre bom voltar para as raízes.
— Principalmente quando Hollywood te dispensa pela porta da frente, eu presumo. — Hedda comentou, ácida.
Kelly abriu a boca algumas vezes, pronta para responder à altura, mas Pam a conteve com um leve toque no ombro. Não valia a pena. Hedda Schrute não era — e nunca seria — a primeira, muito menos a última, a dizer coisas desagradáveis daquele jeito.
— Por favor, façam silêncio. — pediu Dwight, erguendo a mão. — A cerimônia já vai começar.
— Oi tia Kelly, oi tia Pam! — comentou Mari, se aproximando, vindo abraçar as duas.
— Oi florzinha. — respondeu Kelly.
— Oi querida. — respondeu Pam.
— Você está se sentindo melhor?
— Sim, um pouco. Obrigada por perguntar. — declarou a ruiva e a garotinha apenas sorriu em resposta.
Enquanto todos se preparam para ficar em silêncio, Pamela ao longe viu Kaspbrak na multidão, acompanhado de um homem alto de óculos. Ele sorriu e acenou com a mão assim que a viu.
— Oi, Pam!
— Oi! — Ela acenou de volta. Viu o homem de óculos revirar os olhos, mas não ligou. Voltando a atenção para o palco improvisado no centro de todos.
Com uma chuva de aplausos, Jim subiu ao palco, cumprimentando a plateia enquanto sorria.
— Esse é o meu bebê! — comentou Barbara, orgulhosa.
— Boa noite, senhoras e senhores. Sejam bem-vindos. — Ele começou a discursar assim que o burburinho diminuiu. — É dezembro, e, como todos sabem, nos reunimos hoje para acender a árvore do bairro e dar início às nossas competições natalinas. E eu sinto muito em dizer que estamos um pouco atrasados este ano…
— Um pouco? Duas semanas — interrompeu Dwight, o tom ligeiramente irritado.
— Já falamos sobre isso, Dwight. Foi o melhor momento para todos… então, prosseguindo. — Jim tentou manter a voz firme.
— Eu estive livre nas últimas duas semanas — resmungou Hedda, com os braços cruzados.
— Você está à toa há trinta anos! — retrucou uma loira alta, Hollis Partridge Scott, esposa de Michael Gary Scott. — Prossiga, Jim, por favor.
— Enfim… — Jim ajeitou a postura e passou o cachecol vermelho em volta do pescoço. — Quero agradecer a todos pelo esforço e pela energia deste ano. Sei que estão ansiosos para esse momento, mas preciso fazer um anúncio. É a primeira vez, em trinta anos de história da associação, que não veremos Helene Beesly aqui conosco. Ela, infelizmente, nos deixou após lutar por anos contra o câncer e seu enterro foi realizado hoje. Gostaria de pedir um minuto de silêncio, não só por ela, mas por todos os Beesly que ajudaram a construir este comitê no passado e que, infelizmente, já não estão mais entre nós. Eles devem estar nos observando, junto dos anjos, lá de cima agora.
O murmúrio cessou, e todos se recolheram em silêncio. Pamela sentiu o coração disparar e as mãos começarem a suar enquanto a lembrança dos pais e dos avós a atravessavam como um raio frio.
— Muito obrigado. — Jim retomou, com a voz calma. — Mas também temos boas notícias. A filha dela, Pamela, voltou para as nossas festas. Digam oi para a nossa superestrela, Pam!
Todos olharam para a ruiva, levantando as mãos, sorrindo e cumprimentando. Bem… nem todos. Mas a maioria foi calorosa o suficiente para que Pamela se sentisse, de repente, acolhida.
— Lembrei de um recado rápido: a reunião da associação será às oito horas. Você pode representar sua família? — Jim perguntou, olhando diretamente para ela.
— Eu? — Ela apontou para si mesma, sem jeito. Virou-se para Kelly, que apenas deu de ombros, sorrindo em aprovação.
— Isso. Nos reuniremos na minha casa às 7h45.
— Sim, eu posso — respondeu, ainda corada.
— Perfeito. Pamela Beesly, senhoras e senhores! — anunciou, com bom humor. — Por favor, fila única para os autógrafos depois do evento.
Kelly inclinou-se ao lado dela e sussurrou, tentando segurar o riso:
— Pelo visto, já era pra você ficar dormindo até as dez horas… de novo.
— Nem me fale, já desisti de ter um dia tranquilo neste bairro…
— Muito bem, pessoal. Vocês sabem porque vieram até aqui, não? — Jim tirou o tablet do bolso e o ergueu, apontando para a árvore. A plateia respondeu com um coro animado, preparados para a contagem. — Sem mais delongas… cinco, quatro, três, dois, um… vamos lá!
Os vizinhos se aproximaram, as crianças com brilhos nos olhos. Jim pressionou o botão digital com grandiosidade. Mas, em vez de luzes brilhando…
Nada aconteceu.
Os enfeites simplesmente… continuaram apagados.
Todos murcharam.
— Eita… parece que tá quebrado — Jim riu sem graça, dando vários toques desesperados na tela. — Dwight, você disse que estava funcionando!
— E estava, quando eu acendi — Dwight rebateu, já subindo no palco improvisado com a expressão de quem diz “eu avisei”.
— Vai ficar tudo bem, gente. — Jim ergueu as mãos, tentando parecer tranquilo. — Apenas alguns problemas técnicos. Acontece nas melhores famílias…
Hedda se aproximou de Pamela como um abutre com o peito estufado. Aproximou-se tanto que Pam pôde sentir o perfume enjoativo de lavanda artificial.
— Isso nunca aconteceu quando seus avós estavam no comando — Hedda murmurou, com aquele tom de superioridade. — Sua mãe, como sempre, querendo chamar atenção… Tinha que morrer justo no Natal, o que nos fez perder duas semanas de preparação. E agora, fazendo tudo às pressas, deu no que deu. Até a árvore falhou. O que vai ser do nosso espírito natalino? Não quero te culpar, mas estou culpando, porque você é a única Beesly em carne e osso que sobrou.
Pam sentiu o estômago embrulhar. Os dedos dela tremeram levemente.
Antes que respondesse, Kelly entrou na frente dela como um escudo humano.
— Olha aqui, Hedda — Kelly disse, cruzando os braços e erguendo o queixo — Dobre a sua língua para falar assim com a minha amiga, tá? A mãe dela… era uma mala, mas isso não te dá o direito de usar isso de munição pra fazer drama barato. Que feio, viu? Até pro seu padrão. E outra: se você está tão preocupada com a árvore, por que não acendeu ela você mesma com a sua energia negativa? Deve iluminar o quarteirão inteiro.
Alguns vizinhos ao redor prenderam o riso. Hedda arregalou os olhos, ofendida, e recuou com um fungado indignado.
Enquanto isso, no palco, a cena piorava.
Dwight e Jim agora lutavam pelo controle como dois Gollums brigando pelo O Anel: braços esticados, tablet indo de um lado para o outro, quase caindo no chão.
— Me dá aqui! — Dwight exigiu, tentando puxar.
— Não! Eu sou o presidente da associação, eu tenho que resolver isso! — Jim rebateu, tentando esconder o tablet atrás das costas.
— Como, se você não faz nada direito, Jim?! — Dwight gritou, arrancando o cachecol dele no processo.
A plateia assistia, horrorizada e muito entretida ao mesmo tempo.
De repente, como por um milagre de São Nicolau, as luzes da árvore se acenderam de forma ofuscante.
— Isso! — Jim comemorou, dando um pequeno salto. — Feliz Natal, Scranton!É! Isso! Eu disse que daria um jeito! — Ele piscou para Dwight, que apenas respirou fundo e revirou os olhos antes de descer do palco.
— Vai ser um Natal e tanto… — resmungou Dwight.
— Nem me fale… — murmurou sua mãe, Hedda, com a habitual desaprovação. — Que São Nicolau nos proteja!
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