Frames do Destino
2 Mudança de Cenário
Notas iniciais

2025 anos depois do Grande Colapso
A NAVE ESTREITA E CILÍNDRICA que Pamela usara finalmente atracou na Estação Arcturus Prime. O efeito dos remédios para dormir havia passado, mas ela ainda sentia a cabeça um pouco zonza e dolorida, além de uma forte pressão na bexiga e um leve enjoo.
Acordou em uma sala cinza, sem móveis, contendo apenas uma porta de vidro rotativa e uma IA de voz feminina — suave, lembrando o timbre de Margot Robbie — que a instruía a dar um passo à frente para a varredura.
Pamela respirou fundo, já pressentindo o desconforto que viria.
— Boa tarde. Seja bem-vinda à Estação Arcturus Prime. Meu nome é Harleen e serei sua guia — apresentou-se a IA.
— Boa tarde, Harleen. Sou a Pam.
— É um grande prazer, Pam. Espero que seu dia esteja sendo espetacular. Antes de permitir sua entrada, preciso confirmar sua identidade. Por favor, coloque o dedo indicador direito no meu sensor e, em seguida, aproxime o chip de identidade no seu pulso.
Pamela obedeceu, aproximando o braço direito do sensor azul.
— Um momento enquanto verifico sua identidade — pediu a IA. — Srta. Pamela Beesly. Nascida em 25 de março de 1995, depois do G.C., aqui mesmo nesta estação. Filha da Sra. Helene e do Sr. William Beesly. Nova herdeira da casa que pertenceu à Sra. Sylvia Beesly. Acesso permitido. Por favor, entre na cabine à frente assim que o sinal acima da porta ficar verde.
Observou a luz vermelha tornar-se verde e deu dois passos à frente. Aquele cômodo era bem mais gelado que o anterior.
— Não se preocupe, será apenas uma checagem rápida — informou a IA. — Vamos verificar se existe algum microrganismo patogênico no seu corpo. Se houver, ele será eliminado em menos de cinco segundos. É para a segurança dos nossos moradores. Não vai doer nada.
— Tudo bem, eu conheço bem o procedimento — murmurou Pamela, abraçando o próprio tronco.
— Por favor, braços e pernas esticados. Pronta?
Pamela assentiu, encolhida.
A luz laranja inundou o cômodo. Pamela sentiu o feixe atravessá-la: o frio penetrando os poros, os dentes, até as raízes dos cílios. Por um instante, ela soube a localização exata de cada vaso capilar em seu corpo.
— Prontinho! — disse Harleen assim que o flash desligou. — Odeio precisar fazer isso. Pela sua reação, imagino que não tenha sido nada agradável.
— Tudo bem. Dói, mas já estou acostumada. É só um desconforto rápido.
— Espero que se sinta melhor em breve, Srta. Beesly. Irei examinar sua bagagem e deixá-la na recepção. Isso pode levar alguns minutos. Há um banheiro aqui ao lado. Pode usá-lo, se quiser.
— Seria ótimo, muito obrigada — agradeceu Pamela.
Assim que a porta se abriu, ela praticamente correu para o banheiro. Um cômodo pequeno, equipado com privada e pia inteligentes. Odiava viagens longas de nave, de um canto ao outro do universo, por causa disso: sempre chegava com a bexiga mais apertada do que nunca, à beira do desespero para fazer xixi.
Quando terminou, pegou sua bagagem e olhou ao redor, impressionada com o amplo ambiente, repleto de robôs indo e vindo e alguns humanos de crachá acomodados em mesas, organizando papeladas. Pamela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, despediu-se educadamente de Harleen e caminhou até um dos balcões.
Um homem negro, alto, gordo e de barba curta e irregular, com aparência experiente, a recebeu com um sorriso.
— Boa tarde! Me chamo Chris Smith, como posso ajudá-la?
— Boa tarde! — respondeu Pamela. — Vim acertar a papelada de uma herança, quitar algumas contas e transferir a casa para o meu nome, no bairro de Scranton, distrito de Derry.
— Claro. A senhorita trouxe toda a documentação necessária?
— Sim. Conferi duas vezes antes de sair de casa — disse ela, entregando cuidadosamente a pasta que tirara de uma das malas de mão.
— Perfeito.
Ela respirou fundo.
— Haveria como ser rápido? Tenho um compromisso mais tarde, do trabalho, e não posso me atrasar ou faltar.
— Claro. Eu e Harleen faremos o nosso melhor — garantiu ele, pegando a pasta antes de desaparecer para dentro da cabine de atendimento.
— Srta. Beesly, pode esperar ali na sala de espera, se desejar — informou Harleen.
Pamela esperou alguns minutos sentada, aproveitando o ar-condicionado enquanto tentava relaxar os ombros tensos. Quando o funcionário finalmente voltou, segurando uma prancheta digital, ela se levantou automaticamente.
— Tudo pronto. Só preciso que assine alguns papéis, passe sua impressão digital aqui e escaneie o rosto e os olhos aqui — explicou ele, ajeitando os óculos na ponta do nariz.
— Ok — respondeu ela, pegando a caneta digital.
Ele a observou por alguns segundos, franzindo a testa, como se algo lhe acendesse na memória.
— Um minuto… me desculpe, mas acho que conheço a senhorita. Você era aquela garotinha do “Crescendo com a Kimberly”, não? Aquele programa que passava todos os sábados à tarde na ChronoCorp. Meu filho, Carl, era muito fã! Você interpretava uma das amigas da Kimb, não?
Pamela soltou um riso breve, surpresa.
— Eu interpretava a Maxine Williams — respondeu com um sorriso nostálgico. — Mais conhecida como Max. E, digamos, ela estava mais para inimiga do que amiga da Kimberly. Fico feliz que tenha me reconhecido.
— Ah, claro! — Ele deu uma risada calorosa, balançando a cabeça. — Aquele programa ajudou muito meu filho em um período bem difícil. Era a única coisa que o fazia rir depois de sofrer muito racismo na nossa antiga Estação. Nós assistíamos juntos. Lembro que a senhorita ganhou um Oscar em 2011, não? Por aquele filme de guerra.
— Sim — confirmou ela, ajeitando o cabelo atrás da orelha, um pouco corada. — Fui a Miranda em “Lágrimas Sobre o Campo de Cinzas”. Ganhei o Oscar de Melhor Atriz… modéstia à parte.
— Você é incrível. De verdade. Poderia autografar este boné do meu filho? — pediu ele, já puxando um boné azul da gaveta, ansioso.
Pamela sorriu, enternecida.
— Claro! — respondeu, pegando a caneta novamente. — Vai ser um prazer.
Enquanto ela escrevia, ele continuou:
— Eu soube que as protagonistas… as atrizes da Kimberly e da Sam. Uma virou cantora famosa, não? Vencedora de vários Grammy’s de Álbum do Ano. E a outra, uma super top model da Victoria's Secret. E tinha aquela garota, a que era sua melhor amiga no programa… a Marge. Ela ganhou um Oscar de melhor diretora e roteiro original, mês passado.
Pamela devolveu o boné autografado, respirando fundo.
— Sim. A Taylor, a Karlie e a Sabrina. Mas… já perdemos o contato há anos, infelizmente.
— Que pena — comentou ele. — Mas e você? O que tem feito? Uma atriz tão talentosa deve estar com a agenda lotada, apesar de estar um pouco sumida dos holofotes.
Ela riu sem humor, coçando a ponta do queixo.
— Ah, sabe como é… — murmurou. — Ando fazendo coisas novas. Investimentos no exterior. Me formei no ano passado em Belas Artes, com especialização em animação 2D e 3D. Tudo para seguir meu sonho, finalmente.
— Que incrível! — elogiou ele, admirado. — Mas me diga: o que uma mente brilhante veio fazer aqui, nessa velha estação? Veio visitar os avós, relembrar os tempos de infância, hein?
A pergunta a pegou desprevenida. Pamela sentiu a boca secar e a garganta apertar antes de conseguir responder.
— Na verdade… — começou baixando o olhar. — Minha mãe morreu anteontem. De câncer no pulmão. E ela queria ser enterrada aqui, na estação favorita dela, ao lado do meu pai. A casa em Scranton… ela usava como usufruto, era herança dos meus avós para a minha mãe.
O homem ficou em silêncio por alguns instantes, com os olhos levemente arregalados.
— Meus mais sinceros sentimentos. De verdade — respondeu, com suavidade.
Pamela forçou um sorriso frágil, respirando fundo.
— Tudo bem. Eu vou superar. É apenas mais um capítulo ruim… na vida da grande Pam Beesly.
[...]
Pamela dirigiu seu BYD pelas ruas do distrito de Derry com tranquilidade, observando pela janela as velhas lojas de conveniência, o antiquário em que sua vó adorava entrar, a farmácia do velho Sr. Keene e a famosa Ponte do Beijo — onde casais apaixonados gravavam suas iniciais na esperança de nunca se separarem. Tudo ali parecia congelado no tempo, preservando o mesmo toque da última vez em que estivera naquele lugar, ainda na adolescência.
Enquanto avançava pela estrada estreita, um aperto começou a se formar em seu peito. Fazia mais de dez anos que não visitava a mãe. Sabia que ela estava doente, claro… mas a última vez que pusera os pés ali fora no enterro do pai e a mãe a tratara com tanta dureza, chamando-a de fracasso, despejando nela toda a frustração de uma vida inteira.
Se Pamela ainda tivesse relevância, acusou Helene amarga, talvez ela estivesse vivendo em um asilo premium, cercada de conforto, e não naquele fim de mundo, gastando suas últimas economias para pagar duas enfermeiras que se revezavam dia e noite.
E o mais irônico — quase cruel — era que Pamela nunca conseguira voltar, nem quando a doença piorou. Roy, seu ex-noivo, nunca demonstrou vontade de conhecer a sogra, muito menos de viajar até aquela estação “tão ultrapassada” na sua percepção
E agora, no entanto… aqui estava ela. Dirigindo de volta como quem simplesmente dá uma passada rápida no Natal, só que desta vez, depois da morte da mãe.
Assim que entrou no bairro de Scranton, Pamela se surpreendeu com a quantidade absurda de enfeites de Natal piscando em todas as direções. Papais Noéis infláveis brilhavam pendurados nos telhados, renas luminosas saltavam dos jardins e guirlandas enormes cercavam cada porta das grandes casas familiares. Uma faixa estendida entre dois postes, na entrada do bairro, proclamava:
“Bem-vindo ao Natal Mágico de Scranton. Quem passa aqui uma vez, nunca mais quer passar o Natal em outro lugar.”
Pamela soltou um suspiro irônico.
— Não sei se estou pronta para um Natal em Scranton… mas é bom estar de volta — murmurou para si mesma, diminuindo a velocidade enquanto se aproximava da antiga casa da avó.
A residência era a única sem qualquer decoração natalina. Nada de luzes, enfeites ou guirlandas. Apenas o mato alto, as árvores e os arbustos crescidos demais, denunciando meses — talvez anos — sem qualquer cuidado.
— Claro que a grande Helene Beesley não teria tempo para coisas “fúteis” como o Natal — comentou, revirando os olhos.
Ela estacionou diante da garagem e pegou a bolsa no banco do passageiro, procurando a chave da casa e o controle do portão, respirando fundo antes de guardar adequadamente o carro.
Por dentro, a casa não estava em estado deplorável, mas era impossível negar que precisava de uma limpeza urgente. Assim que Pamela entrou, a poeira acumulada subiu no ar e a fez espirrar. Na cozinha, não havia um único copo de vidro, apenas alguns de plástico, rachados e velhos.
Na sala, dois sofás-cama estavam abertos, certamente usados pelas enfermeiras. Ao lado deles, algumas macas encostadas revelavam a rotina pesada das últimas semanas da mãe, que já não tinha forças para subir as escadas. O banheiro também denunciava descuido: sem papel higiênico, apenas um bidê quebrado ao lado do vaso sanitário, e nenhum produto de limpeza ou sabonete disponível na despensa.
Pamela suspirou e começou mentalmente uma lista de compras.
A lareira parecia ter sido usada recentemente, mas ninguém se dera ao trabalho de tirar o carvão queimado que ainda marcava o interior. Ao menos a televisão permanecia em bom estado, ironicamente, o objeto mais apresentável da casa.
— Prioridades… — murmurou, balançando a cabeça.
Foi então que um barulho alto vindo da casa ao lado chamou sua atenção.
— Quem é que tá fazendo toda essa barulheira? Já são quase oito da noite…! — resmungou, irritada.
Ela sabia, pelas informações recebidas na estação, que as luzes artificiais do “dia” acendiam às oito da manhã e se apagavam às oito da noite. E, durante o horário noturno, qualquer barulho acima de dez decibéis era estritamente proibido.
E, ainda assim, ali estava, bem à frente da casa vizinha, uma pessoa encapuzada, usando uma serra elétrica nada convencional para esculpir um anjo de neve gigantesco, com certeza, indo contra as regras.
— Ei! Você não sabe que horas são? Já tá tarde! — gritou Pamela, cruzando os braços.
A pessoa encapuzada parou imediatamente, desligou a serra e virou-se. Em seguida, puxou o capuz para trás, revelando o rosto. O cenho estava franzido… mas havia diversão brilhando nos olhos.
— Meu Deus… Pamela Beesly? É você mesmo?!
Pamela arregalou os olhos, surpresa.
— Eddie Kaspbrak! Quanto tempo, que saudade! — exclamou, abrindo os braços e indo abraçá-lo.
— Você parece que não envelheceu um dia sequer, qual seu segredo?
— Alimentação saudável, academia todo dia e procedimentos cirúrgicos. — explicou, os dois riram. — Você sabia que não pode fazer barulho acima de dez decibéis no horário noturno, não sabia? — Colocou as mãos na cintura, numa falsa braveza.
— De fato, você está certa, mas, pequeno raio de sol… Essa norma não se aplica nas semanas que antecedem o Natal. — Piscou.
— Como eu não imaginei? — Ela revirou os olhos, rindo. — Mas me diga… como vai a digníssima Sônia?
— Morreu há uns dois anos. Pneumonia agravada pelo mal de Parkinson. Nos últimos meses ela vivia trancada no quarto, assistindo TV o dia inteiro e dormindo. Tirando o Parkinson, não fugia muito da programação normal dela — Eddie explicou.
— Meus sentimentos, de verdade. É muito duro perder uma mãe, mesmo quando ela é…
— Narcisista?
— Sim… — Pam tocou seu ombro. — Olha, acho que ela nunca gostou muito de mim.
— Se te serve de consolo, acho que ela não gostava de ninguém. Principalmente do Richie. Mas, dentre todas as minhas ex-namoradas, de você era a que ela mais gostava. Vivia assistindo filmes só por sua causa e vibrou demais quando você ganhou o Oscar.
— Mas isso foi depois que ela descobriu que eu era famosa, né…
— É, você tem um ponto — ele concordou. — Aliás, meus sentimentos pela sua mãe também. Na última vez que a vi, ela estava sendo levada às pressas ao hospital de madrugada. As enfermeiras, Maggie e April, fizeram tudo que podiam por ela.
— Ela estava sofrendo muito. Descansou. Tenho certeza de que está num lugar melhor… rindo de mim.
— Sorrindo pra você.
“Não, rindo mesmo. Rindo da cara do meu fracasso, como sempre fez questão de fazer”, pensou, sentindo um peso no peito logo em seguida.
— É… isso — sorriu sem graça.
— Na verdade, eu nunca tive nada contra sua mãe. — Eddie declarou. — Nenhum de nós, na verdade. — disse, referindo-se aos antigos amigos do bairro — Só não gostávamos muito do seu pai.
— Do meu pai? — Pamela franziu o cenho. — Como assim?
— Não me leve a mal, mas ele tinha um tom passivo agressivo que era estranho. Parecia ser quieto ao mesmo tempo que era… manipulador? E isso nos dava medo, não tanto medo quanto do Palhaço Gray, mas quase lá.
— Devia ser impressão sua. Meu pai nunca fez mal a ninguém. Ele não dizia coisas que machucavam como a minha mãe.
— Nem sempre o que machuca é visível ou é dito em voz alta. Às vezes está escondido nos pequenos gestos, cheios de boa intenção.
A mulher ficou um tempo boquiaberta, sem saber o que dizer ou pensar. Apenas desviou o olhar e se esquivou:
— Enfim… Como você tem passando?
— Bem… na medida do possível. E você? — deu um sorriso torto e deu de ombros.
— Bem também, apesar do estresse diário — respondeu, guardando a serra e a escultura inacabada na garagem.
— Aquilo na sua garagem é uma Harley-Davidson? — disse, boquiaberta. A motocicleta de grande porte estava estacionada ali, num espaço do canto. O acabamento cromado refletia qualquer traço de luz. O motor V-Twin era imponente, com as aletas de resfriamento bem definidas. As rodas de disco sólido e os pneus largos lhe davam uma aparência robusta e baixa. Os escapamentos duplos e o farol frontal cromado reforçavam a estética pesada e polida. O assento de couro preto completava o visual. O veículo descansava no suporte lateral.
— A própria. Uma Fat Boy. — afirmou, orgulhoso.
— Não sabia que você curtia motos. Meu ex-noivo tinha três na garagem e ainda fazia um percurso de três horas de motocross todo domingo com os amigos, usando aquelas jaquetas e tudo.
— Também quero fazer isso, mas não faço por motivo de força maior.
— Força maior?
— Estou tentando salvar ele das ideias impulsivas geradas pela crise antecipada da meia-idade — respondeu um homem alto, de óculos grandes e remendados, usando uma camiseta laranja estampada que destacava os músculos definidos dos braços. Os cabelos grisalhos, já com algumas entradas, aumentavam ainda mais a testa. Ele mantinha os braços cruzados. — Desculpe, quem é você mesmo?
— Richie Tozier? — ela disse, olhando para Eddie de maneira sugestiva. Eddie desviou o olhar para o chão. — Sou eu, a Pam.
— Lembra da Pam? Minha namorada da adolescência? Eu a levava na sede do clube, de vez em quando.
— Ah… essa Pamela Beesly. Sua namoradinha atriz de Hollywood — Forçou um sorriso. — Um prazer te ver de volta — respondeu curto, já virando as costas.
— O que deu nele?
— Boa pergunta — Eddie murmurou.
— Tenho a impressão de que ele nunca gostou de mim.
— Ele é igual à minha mãe: odeia todo mundo — Eddie comentou.
Pamela reparou que Richie entrou de volta na casa.
— Vocês estão juntos?
— Ele é o cara que mora e divide as contas comigo.
Pamela conteve uma risada e arqueou a sobrancelha.
— Ei, não me olha assim — Eddie protestou. — É apenas amizade!
— Claro, sem julgamentos. O homem que morou na mesma casa que eu e dividia contas comigo, por anos, era meu praticamente marido… mas se você não quiser usar termos fortes assim… — Deu de ombros.
— Vai à merda!
A expressão séria não durou muito, logo, ambos caíram na gargalhada.
— Você ainda tem contato com a Kelly? — perguntou Kaspbrak.
— Kelly Kapoor? Infelizmente não. Perdi contato com ela faz anos, desde que me mudei daqui definitivamente.
— Ela ainda mora na casa que era dos pais dela. Se quiser, posso te passar o contato.
— Seria muito bom. Obrigada.
Enquanto entregava seu celular para Eddie, Pam ouviu o som distante de um carro. O veículo prateado parou na garagem de uma casa na esquina, e a porta se abriu revelando uma figura alta familiar.
Ele saiu do carro com aquela compostura descontraída de sempre — um homem de porte atlético, mas vestido casualmente com sua camisa de colarinho e calças sociais. O cabelo castanho-escuro estava penteado de forma simples, e no rosto permanecia a expressão cética e tranquila que ela conhecia tão bem. Ajustando o paletó, ele fechou a porta com um clique suave.
Logo em seguida, segurou uma pasta escura debaixo do braço e começou a caminhar pela calçada em direção a outra casa do fim da rua, com passos longos.
— Aquele é o…?
— Jim Halpert? Sim.
— Ele tá diferente.
— Ele tá é metido, isso sim. Agora que virou o novo presidente da associação de moradores. Lembra como era o seu avô, o Phill? Ele é duas vezes pior na hora de aplicar multas e criar regras sem sentido, principalmente com o mau-humorado do Dwight Schrute. — Eddie sussurrou a última parte — Aqui! Anotei o telefone da Kelly.
— Obrigada, de novo. Eu nem sabia que ainda existia esse negócio de associação de moradores.
— Para nossa infelicidade, existe sim — Eddie deu uma risada curta e irônica. — Aliás, se eu fosse você, já começava a colocar os enfeites de Natal na sua casa. Ele pode te multar por isso.
— Ah tá! Até parece! — Ela riu. Eddie ficou em silêncio, com a expressão séria. — Calma… sério?! Ele pode fazer isso?
— Ele é o presidente, ele acha que pode.
— Mas o valor é significativo, né? Tipo, eles não cobram dinheiro de verdade.
— Bom, sobre isso… Ano passado levei uma multa de US$90 por causa do quebra-nozes que o Richie comprou por ter menos de cinquenta centímetros — explicou, com as mãos no bolso. — Que, por sinal, ele ainda tá me devendo aquela grana.
Pamela apertou os olhos com força e suspirou fundo.
— Ok, estou começando a me arrepender de ter voltado pra cá justo nessa época — declarou, cruzando os braços.
— Acho que sua mãe se livrou de todos os enfeites que tinha. Mas, três quadras à esquerda, inauguraram um mercado novo que vende enfeites muito bonitos. Você deveria passar lá, se não quiser ter inconvenientes com o Jim. E o preço é realmente bom.
— Valeu, Kaspbrak. — O relógio de pulso dela apitou. — Mas tenho que ir agora; reunião importante do trabalho, sabe como é… outro fuso horário.
— Parece ser bem chato. Boa sorte. Tchau.
— Tchau. Foi bom te ver.
— Igualmente.
Ela se virou em direção à casa.
— Ah, Pam! — Eddie a chamou de volta. — Amanhã tem a Cerimônia, atrasada, da Iluminação da Árvore, começa às 19h. A presença de todos da vizinhança é obrigatória, sujeito a multa.
— Claro que é. Valeu, Scranton! — riu, acenando e entrando em casa. — Odeio esse lugar…
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