Fragmentos de uma vida

1 Conto 1 - Fragmentos de Memórias Esquecidas


Notas iniciais
Música: Radiohead - Nude

A porta do quarto sempre teve um poder estranho sobre ela. Não precisava estar trancada para sufocar. Apenas fechada, bastava. Ela nunca entendeu por que o simples ato de girar a maçaneta e sentir o peso do silêncio por trás da madeira maciça trazia uma sensação amarga, como se houvesse algo do outro lado. Algo do qual ela fugia há anos.

Ela não lembrava, mas sua pele, seu corpo e seus pensamentos eram repletos de cicatrizes invisíveis. Fragmentos de uma história que ela jamais contaria para ninguém — nem mesmo para si própria. Ao longo dos anos, as peças foram surgindo, pequenas e traiçoeiras, insinuando-se entre sonhos e conversas perdidas, entre o medo de ficar sozinha e o desconforto de estar acompanhada.

Preferências estranhas. Era assim que ela chamava. Aquilo que a envergonhava em segredo, aquilo que surgia nas páginas de livros que ela lia no escuro, onde ninguém pudesse ver seus olhos percorrerem as linhas que despertavam algo indizível dentro dela. Não eram histórias de romance ou finais felizes. Eram sombras, sempre sombras.

Quando era criança, ouvia conversas ao longe. Palavras desconexas, sussurradas entre adultos que nunca a encaravam nos olhos. Palavras que, sozinhas, eram inofensivas, mas que, juntas, formavam uma narrativa perturbadora. Ela tentava costurá-las, tentava dar-lhes sentido. E, com o tempo, começou a acreditar que sabia o que havia acontecido. Ou talvez soubesse o tempo todo, desde sempre.

Era uma certeza que não tinha forma, um monstro invisível que habitava os recantos da memória. Algo que moldava quem ela era sem permissão. Algo que bloqueava a intimidade, que tornava o toque de outro ser humano quase insuportável, que transformava o desejo em medo. Ela não podia se relacionar. Não podia se soltar. Cada gesto parecia um risco, cada aproximação, uma ameaça.

E, em algum lugar profundo, ela se perguntava: era real? Ou era apenas o reflexo de uma mente cansada, que aprendeu a temer antes mesmo de entender o que era medo? A única coisa de que tinha certeza era que o passado, real ou imaginado, continuava a viver nela, enterrado em um terreno baldio onde memórias mortas e sonhos nunca plantados se entrelaçavam.

Ela observava sua vida à distância, como se estivesse vendo uma estranha. Alguém que fugia de portas fechadas, que se afogava em rotina, que sorria nos momentos errados e chorava quando ninguém estava por perto. Ela sentia a dor daquela estranha. Queria abraçá-la, dizer-lhe que estava tudo bem. Mas não conseguia. Porque, de alguma forma, ela sabia que o monstro ainda estava ali. E nunca a deixaria em paz.

Notas finais
"Não sou eu que grita; são meus ossos que gritam a verdade do que aconteceu." — Rupi Kaur