Fragmentos de uma vida
2 Conto 2 - O Eco da Vulnerabilidade
Notas iniciais
Ela observa as pessoas ao seu redor, suas risadas ecoando como música distante em um salão ao qual não foi convidada. Elas caminham com uma leveza que lhe escapa, trocam olhares cúmplices, como se compartilhassem segredos de uma felicidade a que ela não tem acesso. Há uma distância entre ela e elas, uma barreira invisível que ela não consegue atravessar. Ela não sabe se foi ela quem ergueu esse muro ou se ele sempre esteve ali, crescendo em silêncio enquanto ela se encolhia.
Eles parecem tão completos. Avançam sem esforço, como se a vida não fosse uma sucessão de golpes, como se o cansaço não estivesse cravado em seus ossos. Ela os vê sorrindo, vivendo, e a comparação é cruel. Ela olha para si mesma, um ser estranho, de humor inconstante, sempre à deriva em mares de tristeza e raiva. Ela é uma contradição viva – dura por fora, mas por dentro uma ferida aberta. E sente raiva... Raiva de si mesma, por não ser como eles. Por não conseguir fingir, por não ser fria o suficiente para blindar o coração.
Quanto mais ela se sente assim, mais as pessoas se afastam. Ela as empurra para longe, às vezes sem querer, outras vezes com a firme intenção de se proteger. Mas, no fundo, lhe dói vê-las partir, perceber que está se isolando em uma fortaleza que construiu com suas próprias mãos. Ao mesmo tempo, ela sabe que é responsável por cada tijolo colocado, por cada porta que fechou.
A pior parte é a vulnerabilidade. Ela se odeia por ela, por cada vez que deixou escapar uma lágrima ou uma palavra sincera demais. Gostaria de ser impenetrável, como um rochedo que o tempo e a maré não podem tocar. Mas não é. Sua pele é fina, sua alma, exposta. Cada dia é uma batalha entre ser dura o suficiente para sobreviver e ser verdadeira o suficiente para não se perder completamente.
No espelho, ela vê uma mulher dividida. Um reflexo que a acusa de ser fraca por sentir tanto, por não ser capaz de calar essa angústia que grita dentro dela. O rosto que encara parece cansado, envelhecido por pensamentos que ninguém vê. Ela tenta, tenta ser outra pessoa. Mas não consegue. E essa incapacidade a enfurece ainda mais.
Talvez um dia ela aprenda a conviver com quem é, a aceitar que a sensibilidade não é um erro, e que não ser como eles não a faz menos humana, apenas diferente. Mas hoje... hoje ela luta contra si mesma. E, nesse campo de batalha, ainda não sabe quem vai vencer.
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