Fragmentos de uma Obsessão
1 Prólogo
Notas iniciais
SÃO PAULO, 25 DE AGOSTO
DIAS ATUAIS
No topo da grande escadaria colonial, Carmem Forest encarava todos os convidados com brilho no olhar. Os convidados, escolhidos a dedo – pessoas importantes, amigos e familiares – por Jorge Santigo, seu agente e confidente. Carmem não escondera o desejo pela noite de hoje, afinal de contas, não era todo dia que completara 40 anos – ainda mais Carmem, que ainda tinha traços de sua juventude no olhar, ou em seus seios fartos e perfeitamente em pé, resultado de algumas plásticas que fizera ao longo da vida luxuosa que vivera ao lado de seu marido Carlos Forest, um homem imponente e de grande influencia no ramo de tecidos no país e no exterior. Carmem era uma bela mulher, que apesar da idade, ainda tinha traços delicados de sua adolescência, como seu nariz arrebitado, ou suas covinhas que eram expostas sempre que esboçara um sorriso. Apesar de todas essas características delicadas, Carmem sempre fora uma mulher sensual, que esbanjara uma beleza quase que sexual. Tinha olhos de um verde tentador, que provocara qualquer homem a toma-la nos braços. Seu longo cabelo era de um louro quase angelical, as luzes recentemente feitas, trazia mais vida para seu rosto. Que naquela noite em especial estava esbanjando alegria.
Os olhos de Carmem percorreram todos ali presentes, passou os olhos rapidamente pelo Buffet da festa, estava tudo perfeito. Pensou satisfeita. Jorge ainda sabia como dar uma boa festa, e aquela sem duvidas apareceria na capa das melhores colunas do país: Carmem Forest, socialite paulista da uma festa memorável em sua mansão nos jardins, apenas convidados mais íntimos na comemoração de seus 40 anos. Os olhos de Carmem se iluminaram a pensar em tal manchete.
Carmem não demonstrará, mas adorava estar em evidencia, mesmo com a vida discreta que Carlos gostara de levar, Carmem nunca escondera o desejo por ser aclamada e adorada por todos. E aquela festa seria sua chance, todos estavam ali para vê-la, e Carmem faria o possível que para cada um dos presentes convidados não esquecesse sua luxuosa festa.
Lá de cima, Carmem pode observar alguns dos convidados, Heitor Mazzon estava lá, com sua jovem e bela mulher Helena.
Heitor era sócio de Carlos na empresa FLOREST TECIDO, era um homem baixo e de poucas palavras, tinha um olhar sempre duvidoso, e lábios fino – quase como um risco – Heitor não escondera sua admiração por cavalos, abriu seu próprio aras para se divertir aos fins de semana. Tinha 50 e poucos anos, cabelo grisalho e uma coleção de amantes.
Helena por outro lado, era doçura em mulher, cabelos ondulados de forma sutil, olhos de um mel tão intenso que chegara a hipnotizar quem se atravesse olhar por muito tempo. Helena era a irmã mais nova de uma família simples de sete irmãos. Viera ainda nova do interior de São Paulo, Bauru para ganhar a vida na capital, mas não tivera sorte. Acabou voltando para cidade natal no ano seguinte. Fora quando conheceu Heitor, em um café aonde arranjara um emprego como garçonete. Dali em diante, fora amor à primeira vista, Heitor se apaixonara pela simples garota de olhos hipnotizantes e sorriso fácil. Casaram-se no ano seguinte. Helena viera de vez para grande cidade, largando todos seus familiares em Bauru. Aos 22 anos a jovem levara uma boa vida ao lado do marido, mas não escondia a tristeza que trazia no peito por deixar toda a sua família Bauru.
Helena pode avistar a grande anfitriã no topo da escadaria, ela usara um lindo vestido azul turquesa, que combinara perfeitamente com sua pele levemente corada, repleta de joias e o cabelo loiro preso em um coque clássico, trazia um sorriso nos lábios.
Carmem sempre elegante, pensou a jovem moça enquanto acenara para mulher que a encarava com um meio sorriso.
Carmem percebera o aceno e retribuiu erguendo a taça de champanhe que trazia em uma das mãos. Aquela era a forma mais discreta para desejar que o casal se divertisse em sua festa.
– Elegante como sempre.
A voz firme e masculina era de Jorge Santigo, seu agente e melhor amigo. Jorge era um jovem cheio de ambições e de origem humilde que tivera a vida mudada ao conhecer Carmem. A mulher se apaixonara pelo jeito espirituoso do homem, ainda em sua juventude logo quando o encarou. Carmem sabia que era perigoso confiar sua vida em um mero estranho e ainda por cima jovem. Mas mesmo assim resolveu arriscar, ofereceu um emprego para o rapaz que aceitara sem hesitar. Jorge aos 19 anos largou a faculdade de administração e passou a dedicar os anos seguintes de sua vida a Carmem. Agora, onze anos depois de dedicação e confiança, Jorge não se arrependera da escolha que fez, conseguira construir uma casa para mãe – viúva e idosa – e tinha seu próprio apartamento em um bairro de classe media no alto da Lapa, que dividira com seu companheiro Oscar. Jorge era alto e esguio, sempre com uma postura elegante causava boa impressão, tinha boa comunicação – e talvez por isso tenha despertado tanto a atenção de Carmem – tinha olhos castanhos e cabelo cacheado, era ambicioso.
E isso, era o que Carmem mais admirava nele.
– Parabéns, meu caro. Está exatamente como pensei. – Carmem tocara a mão do amigo – Você foi perfeito.
Jorge encarou a patroa e amiga de longa data, ele admirava Carmem não só por toda a importância e segurança que exalava, mas também pela vitalidade que trazia no olhar. Em todos esses anos, aprendeu a admirar suas conquistas, apoiava em absolutamente tudo. Jorge sabia dos segredos de Carmem, e aquilo o tornara ainda mais próximo dela.
– Hoje é seu dia, Car. – Chamou-a pelo apelido carinhoso.
Meu dia. Repetiu a mulher mentalmente.
Carmem voltara o olhar para os convidados, em torno de cem pessoas ocupavam o grande saguão de sua mansão luxuoso, amigos de Carlos e alguns amigos seus estavam entre os convidados, e como não poderá faltar, alguns reportes de celebridades, para registrar o que prometera ser a melhor festa do ano.
O barulho da faca no cristal silenciou o saguão e todos os convidados agora olhara para o topo da escada. Carmem desvio sua atenção para a figura esguia e elegante ao seu lado.
– Eu queria a atenção de todos. Estamos todos aqui hoje reunidos para celebrar o grande aniversário da majestosa, Carmem Forest!
Aplausos.
Por um instante Carmem sentiu-se corada, ela nunca se importara com os holofotes apontados em sua direção, mas naquele dia especial se sentiu como nos seus 15 anos, quando seu pai dançou a valsa com ela, e todos ali presentes mantivera atenção na garota encantadora que dançara timidamente.
Mesmo com a lembrança agradável de sua adolescência, a mulher não gostara de lembrar-se de sua juventude.
– Peço a atenção de todos – Jorge sorriu, ele adorara estar em evidencia – Carmem Forest adoraria dizer algumas palavras.
Por um momento Carmem quis jogar Jorge escadaria a baixo, odiara falar em publico, mesmo com todo o dinheiro que possuíra naquela altura de sua vida, alguns medos nunca a abandou. E naquele instante, enfrentar aqueles convidados com sorriso robotizados era um deles.
– Seu filho da puta. – Murmurou Carmem para Jorge antes de voltar à atenção para os convidados.
Pigarreou e então começou:
– Primeiramente queria agradecer a presença de todos vocês – Clichê, pensou ao terminar a frase — Quero que todos divirtam-se essa noite, e que aproveitem essa noite em minha companhia. Um brinde aos meus 40 anos!
Carmem ergueu sua taça e todos os convidados fizera o mesmo.
Aplausos. Euforia.
Todos pareciam realmente ansiosos para a melhor festa do ano. Ou pelo menos, a mais esperada.
Carmem sorria.
Aquele era um dos momentos mais felizes de sua vida, lá de cima avistou o marido sorridente para ela.
Carmem amara sua vida.
Nada poderia estragar aquele momento. Pensou enquanto bebericava seu champanhe importado.
Houvera um forte disparo.
Silencio.
Carmem sente um forte impacto em seu corpo, fazendo-a cambalear para trás, e no segundo seguinte tudo se torna turvo ao seu redor, os convidados até então falantes e animados se tornam quietos e incrédulos com a cena que acontecera diante de seus olhos.
Carmem encostou sua mão direita no ombro de Jorge, que naquele momento estava apavorado.
– Carmem!! Fala comigo! Alguém! Uma ambulância!!
Carmem olhou ao redor, um aglomerado de pessoas estava em sua volta, ela notou a imagem turva do seu marido e dos seus filhos. Tulipa, a filha mais jovem do casal chorava em prantos gritando pelo nome da mãe.
Cambaleando lentamente de um lado para o outro, Carmem toca o ombro de um dos rapazes ali presente disposto a ajudar. Pode notar a camisa branca do rapaz alto, manchar de vermelho. Só então percebera que seu vestido da Prada estava completamente lavado de sangue.
Sangue. Pensou Carmem transtornada.
Naquele instante em meio à dor que começará a latejar a região do abdome e tontura que tornara cada vez constante, a lembrança viera como um novo golpe.
“Eu te odeio, Carmem! Eu vou acabar com sua vida.”
A promessa tinha se concretizado. Pensara Carmem antes de cair contra o chão frio de porcelana que comprara em Paris.
As vozes em sua volta passara a ficar mais distantes, a imagem dos presentes ali, agora, não passará de borrões. Não demorou muito até tudo escurecer de vez.
Com seu ultimo suspiro, o sangue escorre pelo canto dos seus lábios.
Carmem morre, em seu glorioso dia memorável.
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