Fragmentos de uma Obsessão

2 A solitária detetive


Notas iniciais
Verônica é uma das principais personagens. A todos uma boa leitura.

Se existia algo que a detetive Verônica Miller odiara, era ser acordada, principalmente, em seu domingo de folga. Ainda sonolenta, ela arrastou o braço até a escrivaninha ao lado de sua cama derrubando algo que causara um barulho estridente ao chocar-se contra o chão. Depois de alguns segundos o celular de Verônica encontrava-se posto em suas mãos, ainda com os olhos fechados deslizo o botão do teclado touch do seu smartphone.

Posicionando o celular no ouvido, falou quase em um gemido cheio de sono:

– Alô...

A voz do outro lado surgiu ríspida e impaciente.

– Pensei que fosse mais fácil falar com o papa do que com vossa senhoria!

A dona da voz era a detetive Caroline Rubens, — uma mulher que não sabia respeitar o sono do próximo, pensou Verônica emburrada – e também chefe de Verônica.

– Pensei que hoje fosse a minha folga – Verônica enfatizando a palavra “folga.”

– Aposto que ainda está deitada com ressaca pela fará. Mas o assunto é sério, então por favor. Preciso de você aqui no máximo uma hora.

– Mas... – Antes mesmo que Verônica pudesse questiona-la o telefone havia ficado mudo.

Droga! Pensou Verônica jogando o celular de volta na escrivaninha.

Mas no fundo, Verônica conhecera a detive Rubens há muito tempo, e sabia que ela jamais a procuraria em um dia de folga se o assunto não fosse de extrema importância.

Mesmo contra gosto resolveu se levantar.

Só então se deu conta que não estava sozinha na cama, enquanto afastara o lençol do seu corpo nu, observara a figura sensual adormecida ao seu lado.

Beatriz. Será esse o seu nome? Questionou-se.

Contemplara aquela jovem de cabelos negros e cacheados, nariz fino, sobrancelhas grossas e bem desenhadas que lhe causava um ar de sexy descuidada. Tinha um belo corpo – isso Verônica lembrava-se muito bem, a noite de sexo lhe rendeu um bom orgasmo – seios miúdos, mas perfeitamente desenhados, seu quadril largo o que a deixava ainda mais sexy, e seus lábios eram avermelhados, como se acabara de morder um morango.

Verônica não gostara de passar a noite com uma desconhecida, mas aquela garota pareceu gentil à primeira vista, o que rendeu uma noite inteira, de bebida e sexo selvagem.

Mas agora, enquanto encarara aquela bela desconhecida, um vazio preencheu seu peito. Era como se nada daquilo fizesse sentido.

Nada fazia. Pensou Verônica amargurada.

Sem tempo para lamentações, Verônica levantou-se caminhando apressada para o banheiro do pequeno apartamento que habitara no centro da cidade.

Verônica Miller era a filha mais velha de três irmãs, era uma mulher atraente, tinha olhos de um castanho singelo, cabelo negro como a escuridão da noite e curto – algumas pessoas costumavam dizer que era curto demais para uma mulher, mas Verônica ignorava os comentários machistas, pois adorara seu corte ao melhor estilo “Joãozinho” — seu sorriso torto sempre deixara no ar um mistério, suas bochechas levemente corada dava-lhe o ar de menina mulher. Mas com seus 27 anos, Verônica era determinada e solitária, deixara a família ainda jovem por não aceitarem sua orientação sexual. Aos 16 anos deixara o Sul, para aventurar-se na grande São Paulo, os primeiros anos fora difíceis na grande cidade, só Verônica sabia do sufoco que passou nas ruas frias e violentas. Mas agora, nada daquilo importa, Verônica tinha uma boa profissão, tornara-se detetive criminal. Mesmo com a pouca remuneração, Verônica era feliz em sua profissão. O mesmo não pudera falar de sua vida particular, Verônica era o tipo solitário, que vivia a base de comidas industrializadas em uma quitinete pouco iluminada e com infiltração no teto – causada pela banheira da vizinha do andar de cima.

Pensara varias vezes em mudar-se daquele lugar, mas todas as vezes que a ideia a ocorria se dava conta que às vezes até mesmo aquela minúscula quitinete xexelenta parecia imensa para sua solidão.

Dez minutos depois Verônica deixou o minúsculo Box do pequeno banheiro, apertou-se entre o vaso e o lavabo para vestisse o mais rápido possível. Normalmente, gostara de trocar-se em seu quarto – sala – mas hoje estava com visita, e ela não queria acordar a moça com quem tivera relação sexual à noite toda.

Encarou-se em um espelho cumprido que pegara toda a parede, vestia uma camisa regata preta, calça jeans de lavagem escura e um coturno surrado.

Nada novo. Pensou a mulher enquanto penteara o cabelo curto para trás.

Ao deixar o banheiro, surpreendeu com o cheiro bom que exalara em seu pequeno apartamento, quando cruzou o minúsculo corredor e se deparou com o quarto, percebendo que sua cama estava devidamente arrumada e vazia, a suposta Beatriz não dormira mais. Girou os calcanhares e caminhando mais alguns passos até a pequena cozinha do conjugado e só então percebera que o cheiro bom vinha de lá.

Ao se deparar com a garota seminua desfilando pela sua pequena cozinha ao preparo do seu desjejum. Verônica sentiu-se incomodada, não era sempre que alguém dormira em sua cama. Mas invadir a sua cozinha, isso fora a primeira vez.

Pigarreando, anunciou sua chegada.

A garota pareceu assustar-se com a chegada sorrateira de Verônica, mas deu de ombros abrindo um largo sorriso.

E naquele momento, Verônica percebeu que aquele sorriso havia a seduzido na noite passada.

– Bom dia – Anunciou a jovem alegremente.

Verônica já havia se deitado com muitas mulheres durante a vida, mas poucas foram às ousadas assim como a suposta Bianca.

– Bom dia. – Anunciou Verônica secamente.

Ela não queria parecer grosseira, mas aquela estranha já estava indo longe demais.

Tivemos uma boa transa. Refletiu Verônica. Mas isso não lhe da o direito de invadir minha cozinha, não temos intimidade. Concluiu.

– Beatriz, eu sei que... – Começou Verônica, mas logo fora interrompida pela garota.

– Beatriz? Sério mesmo? – Questionou em um tom zombeteiro – Meu nome é Ellena, ou Ellen, como você costumava me chamar ontem.

Naquele instante, Verônica sentiu-se uma idiota. Mas no fundo, era assim que se sentira o tempo todo. Deitou-se com tantas mulheres ao longo da vida que se tornara incapaz de recordasse o nome delas. Havia se tornado tão suja quanto seu pai.

Naquele momento sentiu-se arrependida e resolveu apenas sentar-se e aceitar o desjejum que a bela jovem prepara com uma dedicação visível.

Fora o melhor desjejum de muito tempo, havia ovos mexidos com bacon, deliciosas torradas com requeijão e um café preto que caíra perfeitamente bem. Há muito tempo Verônica não desfrutará de uma boa companhia em um café da manhã, normalmente suas refeições eram solitárias, ou as fizera em qualquer botequim que servisse comida por quilo. Mas naquela manhã, Verônica sentiu-se leve. Tão leve que quase se esquecera da reunião com a detetive Rubens.

– Eu realmente preciso ir. – Anunciou Verônica ao notar o quanto estava atrasada – Por favor, deixa a chave na portaria quando sair. Foi bom te conhecer. Adeus, Ellen. E obrigada pelo café.

Levantou-se e depositou um beijo frio e sem intimidade no rosto da garota, que ficou ali, parada em sua frente sem qualquer reação.

Aquele era o fim. Concluiu Verônica.

Sempre suas historias de amores durara uma noite. Verônica não gostava de compromissos, e com aquela jovem garota não seria diferente.

Verônica sabia que paciência não era o forte de sua chefe, e se soubesse que o motivo do seu atraso fora novamente mulher – mesmo que dessa vez por um motivo fora do habitual – sua premiação no fim do ano seria a demissão.

– Até logo. – Verônica ouviu a voz distante da garota enquanto batera a porta atrás de si.

Notas finais
Então, o que acharam? Até o próximo capitulo.