Fragmentos de um Despertar
3 O Amanhecer
Olhava o teto com sombras causadas pela iluminação da qual atravessava a porta de seu quarto. Mãos cruzadas sobre o peito e as pernas cruzadas, ainda deitado na cama, encarando um ponto específico. Sua respiração suave fazia sua barriga expandir e contrair naturalmente. Sua mente estava dócil, um mar com ondas quebrando na orla da praia, o cheiro do sal, o céu límpido e azul, brisa leve brincando com os cabelos de uma criança contente. Apesar disso, estava apático. Apático em relação a si mesmo, ao ambiente e à vida.
Embora ainda estivesse cansado, com a cabeça doendo, ponderou o quão melhor estava em relação ao dia anterior. Quão distante estava do seu eu de ontem, mas mantinha contato via tentáculos de carne. Via-o acenando de uma janela de um trem, cada vez mais distante. Também conseguia se enxergar na perspectiva dele. Isso o fez sentir-se mais aliviado por estar conseguindo transcender, manter a sua própria evolução, porém também sentia o princípio do terror por pensar em sua atual exaustão e o que viria a seguir.
Suas moléculas estavam desprendendo-se umas das outras, pendendo no ar de seu quarto, enquanto o presente transformava-se em passado e o futuro em presente. Flutuava e dividia-se mais e mais. Nada mais importava naquele instante, pois estava vivo. Conseguiu proteger-se de quaisquer problemas, de quaisquer distrações. Conseguiu libertar-se de seu estado emocional angustiante e sentiu-se livre como o vento em pradarias, vales e montanhas. Olhou-se de cima e viu-se estático na tranquilidade e na contemplação.
Achou engraçado o significado da palavra opinião enquanto sobrevoava em sua mente. Repentinamente apareceu. Algo único, subjetivo e volátil. Uma mesma espécie pode encontrar diversos caminhos para se desenvolver, dependendo completamente de seu fulcro. Depende de coisas das quais existem antes de sua própria existência e continua dependendo delas para crescer e ganhar forma, seja qual for, despretensioso, mas ambicioso, querendo mais para atingir uma outra forma, ou o contrário, pensa que atingiu a sua totalidade e estaciona. Sensível a forças externas e de outros iguais a si. Sua volatilidade faz a sua existência ser multifacetada.
Todavia, pessoas morriam, sofriam física e emocionalmente por ela. Como poderiam tratá-la como verdade universal, desrespeitando a sua individualidade e significado? Maculam com orgulho e vulnerabilidade externos à sua existência e sobrepõe às demais, dificultam sua criatividade e perspectiva. Ah, humanos vis e mesquinhos! Ah, humanos degradantes e infelizes! Desalinham a harmonia da vivência por ignorância às próprias natureza, complexidade e origem.
Entristeceu-se pelo modo de como era complicado. Voltou-se a si. Muitos conceitos, muitos fatos impediam a sua própria capacidade de encontrar um lugar do qual podia ser si mesmo. Seu cérebro moribundo fisgou-se como repreensão pela excedência de sua capacidade de manter-se funcionando naturalmente, uma vez que estava se recuperando. Suspirou. Virou na cama. Seu esforço para viver valia a pena?
— Você se lembra que sempre quando estava em crise, você se preguntava isso? – João indagou.
— Sim. É uma pergunta frequente quando estou nesse estado.
— Exatamente. Você se lembra se quando a crise passava você permanecia com o mesmo questionamento?
— Dificilmente.
— Por quê?
— Porque eu estava melhor. Equilibrado.
— Consegue desenvolver a resposta?
— Ahã – suspirou e olhou para o teto novamente. – Estava revigorado. Minhas forças para ser resiliente e superar as adversidades estavam recarregadas. Na verdade, quase inteiramente. Nem sempre estavam 100% carregadas. – Inspirou profundamente. – Eu tinha um propósito.
— Você consegue se lembrar qual era?
— Envolvia a ideia de deixar uma marca na humanidade, dentro das minhas habilidades e alcance. Consistia em influenciar positivamente a evolução da humanidade realizando aquilo que eu considerara necessário e benéfico. Tornar-me imortal para humanidade, manter-me relevante para futuras gerações.
— E o que mudou?
— Tudo – fechou os olhos -, tudo se modificou. A minha opinião mudou perante o meu estresse. Permiti-me cassar os meus propósitos e valores, o que estava sob o meu controle, em prol das ações e eventos dos quais eu não podia influenciar, ou imaginei ser impotente.
— E qual foi o seu estímulo para esse fim?
— O processo árduo para alcançar o objetivo fez-me estressado. Estava muito submerso em meus sentimentos e concluí que sempre sofrerei e, mesmo se tivesse um propósito, não dependia de mim o atingir, pois o que eu fizesse não me faria o alcançar, obviamente vivemos em um mundo vivo, sempre em alteração. Além disso, outros problemas que nasceram nessa mesma época tiveram um impacto nesta decisão. Senti-me sem saída – suspirou -, até que optei por aguardar ter a coragem para morrer.
— Você tinha a sensibilidade de uma carne viva machucada. Isso te impediu de raciocinar livremente e aumentar a sua perspectiva.
— Porém tive uma escolha consciente de não agir racionalmente, pois queria sofrer, eu queria me matar.
— Você se sente culpado por isso?
— Não. – Mudou de posição. – Tenho consciência que é imprudente e nada saudável. Quando decidi isso, soube dos caminhos que me levariam ao meu... “novo” objetivo. Portanto, almejei o mais rápido. Ainda não executei por falta de opção de uma morte indolor.
— Isso significa que conseguiu reunir coragem suficiente?
— Teoricamente, sim. Não sei como será na situação da qual estarei poucos segundos de exercer algo definitivo e conclusivo para mim.
— Antigamente você era movido pela curiosidade de saber como seria o seu futuro. E agora? Essa curiosidade não é mais válida?
— Lembro-me de quando essa curiosidade movia minha vida. Durante os anos sequentes de quando a formulei e tornou a ocupar um lugar essencial em mim, divagava na possibilidade de ter um futuro do qual justificaria todos os percalços e justificar-se-ia como o meu grande galardão. Entretanto, desgastou ao passar do tempo. Tornou-se obsoleta.
— E o que ocupa esse lugar agora?
— Essa parte está indefinida e em constante mudança. Sempre que encontro algo para me mover, um evento externo o desmorona. Sofri novamente. Desisti de estabelecer algo. – Sorriu, envergonhado. – Não gosto de ser tão sensível assim. Nunca encontrarei a concordância de tudo e de todos para alcançar aquilo que quero.
— Sua sensibilidade não é um traço ruim do qual te limita a gozar da vida. Dependendo de como você a compreende, poderá ser uma vulnerabilidade ou uma força. Graças a ela você tem capacidade de mergulhar em si mesmo, de te conhecer profundamente, sendo uma fonte de autodescoberta e crescimento pessoal. Definitivamente, você sentirá profundamente as emoções intensas e desafios psicológicos, mas eu acredito que você conseguirá lidar com eles futuramente. – João sorriu. – Em relação a concordância de tudo e de todos, o que você quis dizer?
— Aceitação externa.
— Consegue ser mais específico?
— Aceitação de minha mãe. Quando escolhi ter o suficiente para a minha subsistência para desfrutar a minha vida e ganhar experiências, ela foi categoricamente contra. Ela sempre disse, desde quando eu era pequeno, que eu deveria almejar um estilo de vida alto para conseguir usufruir de viagens internacionais, carro e casa confortáveis e gerir a minha família. Apesar disso, eu quero um padrão mais simples. Um trabalho do qual seja condizente com os meus interesses e realização pessoal, um carro que seja suficiente para minhas atividades e uma casa confortável para mim.
— Parece que ela exerce um grande impacto em sua vida. No entanto, você é o responsável por si mesmo e o autor de sua história. Você compreende que a sua mãe fez isso pensando em você?
— Sim, é claro. Por que ela tem essa influência sobre mim?
— Ela é a sua mãe, vocês tiveram muitas experiências juntos, têm uma relação íntima e complexa. Ela ocupa um lugar especial em sua existência, portanto suas palavras possuem um peso único e um efeito abrangente. Se ela houvesse aceitado, você sentiria que transcorreria um caminho mais seguro.
— Eu poderia ter mais autoconfiança.
— Sim. Contudo, como você comentou, não teremos sempre todos do nosso lado e precisamos confiar em nós mesmos para continuar. Temos uma vida para aproveitar e sempre teremos de enfrentar consequências positivas e negativas.
Fechou novamente os olhos. Sentiu-se mais aliviado, mas havia tantas perguntas e questões para solucionar. Desejou aproveitar aquele sentimento e o momento. Aquela era uma maneira mais eficaz de começar o dia.
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