Fragmentos De Um Futuro Passado

2 Você e eu, somos iguais


Notas iniciais
Essa nota inicial é dedicada a Mira, que exigiu ter notas iniciais para essa fic. Boa leitura!

As pegadas vermelhas de sangue veem desde à cozinha até a mesa de jantar, no centro disso, Annie está de pé. Suas mãos nos bolsos do longo casaco, ela me observa com um sutil sorriso. Eu desvio meu olhar, mas meu foco permanece nela.

É quando sinto o caco de vidro ser movido dentro do meu pé. Eu grito, a dor puxando minha completa atenção para ela.

— Eu tô quase tirando, calma — diz Eren enquanto segura meu pé.

Eu me remexo na cadeira, vendo meu irmão usar uma pinça para tirar o caco de vidro. Ele tenta mais uma vez, fazendo-me gritar mais alto.

— Você não sabe fazer isso — eu digo, puxando meu pé das mãos dele.

— Se você ficar choramingando, eu não vou conseguir.

— Não precisa. Eu resolvo isso, vai fazer seu trabalho.

Eren parece relutante.

— Eu cuido disso.

Eu consigo apenas sentir medo com a aproximação de Annie. Ela puxa Eren para fora da cadeira e se senta no seu lugar. Com um sorriso falso, ela balança as mãos para mim.

— Prometo ser rápida.

— Não precisa se preocupar, eu tiro.

Ela mantém as mãos abertas. Eu rio, mas apenas faço meu nervosismo transparecer mais. Só eu estou sentindo essa tensão no ar? Eren parece não se importar, voltando para a cozinha para terminar de limpar os cacos de vidro.

Em meio a minha distração, Annie puxa meu pé pelo calcanhar. Um puxão forte que me tira da cadeira, me faz cair no chão e afundar. Eu pisco e estou sentado novamente. É outra cadeira, outro lugar. A mesa na minha frente está coberta por guardanapos usados e embalagens de lanche. Do outro lado dessa bagunça, os olhos arregalados azuis de Annie me fitam.

Ela não consegue esconder a surpresa. Suas mãos erguidas caem, parando sobre a mesa. Com uma voz abafada, ela fala:

— É... maçã.

Eu sou puxado para fora dessa visão.

— Você tem um pé gelado.

Annie arrasta as pontas dos seus dedos sob meu pé. Eu quase caio para trás pela mistura de cócegas e dor despertada por seu leve contato.

— Sério, eu...

Tento me soltar, mas meu pé não se move do lugar. Annie não parecia exercer forçar alguma em volta do meu calcanhar. Essa força vinha de outro lugar. Algo não físico.

Ela sorri pra mim quando percebe meu entendimento sobre seu dom.

— Vou puxar o caco bem rápido, ok? Na contagem de três.

Annie posiciona a mão aberta próxima do caco.

— Ei, ei, ei! Eu faço isso—

— Três.

O caco voa do meu pé para a palma da sua mão. A velocidade faz a dor levar tempo para surgir, como minha reação. Meus olhos se enchem de lágrimas. A sensação de ter um caco de vidro retirado do seu pé é de mais cacos de vidro enfiados no lugar da ferida.

Eu consigo me soltar de Annie. Sangue pinga da minha sola do pé, sujando o chão que Frieda teve orgulho de limpar mais cedo. Minha maior preocupação está mais na mancha que ficaria no piso de madeira do que minha ferida.

De certa forma, não quero olhar diretamente para o sangue que sai de mim. Sinto que se eu olhar por mais tempo, isso me leve para algum lugar obscuro das minhas memórias do futuro.

— Então.

Um pouco difícil evitar as visões enquanto tivesse uma, de forma física, sentada a minha frente. Ela se inclina para me olhar melhor.

— Vai pôr um curativo nisso ou vai ficar pensando?

— Eu vou fazer. Sozinho.

Meu pé continua a pingar sangue enquanto Annie me olha, imóvel, esperando por minha quebra de olhar. É uma luta silenciosa entre nós. Não temos nada a ganhar com isso, mas permanecemos até a voz do Eren interrompermos.

— Berth, você consegue fazer um curativo sozinho?

— Eu consigo, sem problema.

Annie se levanta da cadeira.

— Seu irmão é um grande bobão, Eren, sabia disso?

Ela se afasta enquanto fala, o que não diminui o impacto de suas palavras.

— É uma coisa de família, pelo visto.

— Você não consegue abrir a boca sem falar merda? — pergunta Eren, bravo como um cachorro nervoso. — E vamos começar aquele trabalho logo. Não quero prolongar essa tortura.

Annie tem uma risada agradável, mesmo de escárnio. Ela pega sua mochila no sofá e segue Eren para a escada. Mas não sobe. Escuto meu irmão continuar a reclamação no andar de cima, sem ter percebido a ausência da jovem.

Annie se aproxima de mim. Eu me levanto, forçando-a a erguer a cabeça para me olhar.

— Como você sabia que eu morava aqui? — eu pergunto baixo.

— Presunção sua achar que eu me daria ao trabalho de procurar onde você mora.

Eu não deixo de desconfiar. Annie ri, indo para a escada.

— Eu só vim fazer trabalho com o Eren. Isso aqui — ela aponta para baixo, para o que acontecia — é uma mera coincidência.

Não sei se devo acreditar. Ela sobe a escada, logo escuto a voz ríspida de Eren ao recebe-la no quarto. Estando sozinho, eu deveria me sentir mais calmo, um pouco de segurança por estar longe dela, mas é impossível enquanto Annie souber de mim. Coincidência? Parecia tão estúpido da parte do destino fazer nosso reencontro ser uma coincidência causada pelo trabalho de escola do Eren.

Seguro minha cabeça. Não quero mais pensar sobre o assunto, principalmente quando pingo sangue a cada passo. A dor em meu pé em relação à dor das minhas visões não tem comparação; além do mais, não existe um sequer remédio que possa me anestesiar dessa sensação.

Ocupo minha mente com meu pé. Faço um curativo, desfaço ao ver que ficou horrível para andar, faço mais um e decido limpar meu sangue do chão. Entre os sons do pano sendo esfregado no piso, escuto as vozes de Eren e Annie. Parecem discutir, o que, por um instante, parece ser apenas a forma casual de se comunicarem. Agora entendia o nervosismo de meu irmão naquela noite.

Ao torcer o pano dentro do balde d’água, o sangue permanece manchado em minhas mãos. Pisco, mais sangue surgindo em minha palma. Não entro em pânico, porém sinto o acelerar de meu coração ao confundir um resquício de visão com a realidade. Acontece raramente.

Sinceramente, muitas coisas raras acontecem comigo. Ter sido o único filho a ter herdado um dom de ver o futuro já dizia muito de minha pessoa. Mas eu também era o único filho a rejeitar essa peculiaridade da família; isso também dizia muito sobre minha pessoa. Não sei se minha rejeição se dá por eu saber o fardo de carregar tamanha responsabilidade ou por eu ter previsto em algum momento da vida.

Às vezes, penso como seria meu presente sem saber do futuro.

Passo o restante do tempo ignorando essa ideia. É tentador. Termino de limpar o chão, mas me ocupo de assistir à televisão. Tenho muitos motivos que me impedem de subir aquela escada, o primeiro deles sendo o meu pé. Logo precisaria trocar de curativo. Logo precisaria olhar Annie nos olhos.

— Berth.

Eu sinto o tempo voltar a sua forma habitual. Eren está parado na cozinha, olhando-me como se aquele não fosse o primeiro chamado.

— Disse algo?

— É, Annie e eu acabamos o trabalho por hoje. Perdeu muito sangue? Parece distante daqui.

Eu desvio da preocupação de meu irmão com uma risada. Deixo o sofá, forçando ao meu pé enfaixado a andar normal. No segundo passo, sinto um leve arrependimento de tentar parecer bem diante de Eren.

Então Annie surge descendo a escada. Eu paro de andar.

— Você sabe que vai descer sangue se ficar andando, né?

Eu a encaro, mas me foco no Eren.

— Já acabaram o trabalho?

— Acabamos o planejamento — ele fala com um bocejo. — Outro dia continuamos a outra parte. É um trabalho longo, ok? Não me olha assim.

Eu não olho Eren assim porque ele é a pessoa mais preguiçosa que eu conheço, eu olho assim por causa de Annie e seu sorriso presunçoso.

— Você vai continuar de pé? — ela pergunta. — Recomendo pôr um absorvente aí, mocinha.

Annie faz a visão de sua morte parecer mais fácil.

— Ela já tá indo embora?

— Já — diz Eren, que acerta um chute leve nas costas dela. — Não perde esse caderno.

Annie segura sua perna e puxa. Meu irmão desaba em desequilíbrio.

— Quanta delicadeza dessa família — ela soa dramática, principalmente ao me olhar. — Vou embora agora, mas tem um problema. Eu moro um pouco longe, sem falar dos perigos dessa cidade. Eu sou uma garota muito delicada, entende?

— O caralho!

Eren se levanta, pronto para rebater o ataque sofrido. Annie consegue ser mais rápida ao segura-lo pelo pescoço sob o braço. Eren se contorce, tentando se soltar da imensa força que ela exercia, porém que não parecia ter.

— Aquele carro lá fora é seu? — continua Annie. — Seria muito gentil da sua parte me dar uma carona até a minha casa.

— E... o pé... dele?

O braço de Annie flexiona em volta do pescoço de Eren. Seu rosto começa a ficar vermelho; ou de raiva, ou de falta de ar, ou dos dois.

— Então? Não vai deixar uma jovem indefesa andar por essas ruas perigosas, vai?

Eu seguro minha respiração, achando que isso vai evitar de dar minha resposta. De nada adiantaria. Ao ter feito a pergunta, Annie já tinha conseguido me convencer.

Eren se debate mais uma vez. O braço solta seu pescoço e ele cai para trás.

Annie não tira os olhos de mim. Enfim, eu solto minha respiração.

***

Se essa situação tivesse sido uma visão, eu me perguntaria como cheguei nela. Estar dirigindo meu carro acompanhado por Annie, sentada com as pernas encolhidas no banco. Nosso silêncio é tanto que consigo escutar o roçar de seus sapatos contra o tecido do assento. Eu não sei o que dizer para quebrar a estranheza no ar. Provavelmente ela saiba, mas mantém para si. Uma provocação direcionada a mim; muito efetiva.

— Por que você fugiu de mim na festa?

Eu gostaria que o silêncio tivesse sido rompido com uma pergunta menos afiada. Eu bato com os dedos no volante.

— O que você fazia na festa? — questiono. — Era uma festa de universitário e você ainda tá no colégio.

— Ah, te incomoda saber que uma menor de idade te beijou?

Seguro com mais força o volante. Annie ri.

— Relaxa, tô zoando. Tenho idade o suficiente para responsabilizar por mim mesma.

— O que não explica o que fazia na festa.

Ela joga a cabeça para trás com um rugido.

— Você tá fugindo do principal assunto aqui — diz Annie. — Você e eu, somos iguais. Temos esse dom especial.

— Eu não chamaria de especial.

— Ótimo, você confirma então que tem um dom.

Apenas consigo suspirar, uma forma de não me deixar levar pela conversa. É tão estranho falar sobre minha peculiaridade com alguém que entende exatamente o que é ter isso.

— Eu senti isso quando te beijei — ela continua. — Parecia que eu tinha encostado num poste. Não sei, foi como uma descarga elétrica.

— Isso foi um elogio?

Eu sinto o olhar sério me fuzilar.

— Você nem beijou, só ficou parado.

Rio nervosamente. Annie estica pernas, cruzando os pés sobre o painel do carro. Minha risada morre.

— Foi por isso que você saiu correndo? — ela pergunta. — Medo de eu te atacar?

— Não, não foi isso.

Ela aguarda pela resposta. É mais que óbvio que não contarei sobre as duas visões que tive sobre ela. Não tenho coragem para isso, mesmo se quisesse.

— Eu só... entrei em pânico — falo, assentindo para mim. — Foi a primeira vez que encontrei alguém assim.

Nenhum comentário de Annie. Ela parece analisar minha resposta, e por continuar e silêncio, acredito que ela tenha acreditado.

— Então você tem um dom diferente do meu.

O ar volta a ficar esquisito de novo. O cinto de segurança pressiona meu peito, puxando-me contra o banco. Tudo isso parecia ser feito pelo dom de Annie, mas era apenas minha imaginação, algo mais potente.

— Não importa se eu tenho outro poder. Sabe o que importa? Meu celular! Poderia me devolver, por favor?!

— E por que eu estaria com o seu celular?

— Você pegou ele com sua mente antes de eu sair correndo da casa.

Sinto um sorriso se formar em seu rosto.

— Pegar com a mente — ela escarneia. — Soa tão ridículo falando assim.

— É o que você faz. — Abro a mão. — Meu celular.

— Não sei do que você tá—ah! — Annie tira o celular do bolso, fingindo a surpresa. — É esse?

Tento pegar de sua mão, ela desvia na mesma velocidade.

— Você ainda não disse qual é o seu dom.

— Não é tão interessante como você acha.

Annie não se move, mas mantém a feição desinteressada voltada para mim. Eu olho de volta, não conseguindo manter a mesma intensidade que ela.

Movo minha mão novamente. Annie arremessa meu celular pela janela. Eu piso no freio com meu pé ferido.

— Ficou louca?!

Eu desço do carro, mancando pela rua da vizinhança até encontrar as migalhas de meu celular espalhadas pelo asfalto. Agacho no chão e pego uma parte da tela.

— Ah, que fome!

Annie para ao meu lado. Mãos nos bolsos do casaco, uma postura que eu já me habituava a ver na mesma.

— Que tal pagar um lanche para mim? Podemos continuar a conversa num lugar mais tranquilo.

Inacreditável. Essa era uma palavra que poderia ser usada para definir Annie, mas não totalmente; ela merecia uma palavra unicamente dela.

***

Por um instante, vi sangue escorrer das mãos de Annie, mas era apenas o ketchup do hamburguer que comia. Ela dá uma grande mordida, sujando-se na bochecha. Eu tento não me incomodar com isso.

— Então... — eu falo, limpando a garganta. — Como funciona seu dom?

Annie devolve o hamburguer à bandeja, lambendo seus dedos sujos de molho.

— Eu movo objetos, resumidamente.

— Qualquer objeto?

— Qualquer objeto.

Ela mexe a mão. Meu copo de refrigerante flutua e eu coloco minha mão por cima. A lanchonete não está cheia, mas possui muitos olhares para achar estranho um copo voar.

— Não tem medo que as pessoas descubram isso?

Annie coloca o último pedaço do hamburguer na boca. Ela toma um longo tempo mastigando, o que me faz perguntar se ela está pensando em alguma resposta.

— Eu não me importo. Bem... eu me importo, mas não é uma preocupação.

Meu copo de refrigerante voa para sua mão. Ela bebe ruidosamente.

— Se alguém ver, ela só vai tentar entender o que viu. Não é como se ela tivesse alguma prova que eu tenho poderes. — Annie ri. — Ninguém acreditaria num maluco que dissesse isso.

Eu não concordo nem discordo. Não há surpresa nenhuma descobrir sobre a falta de cuidado de Annie em relação ao seu dom. Pelo meu ser discreto, imperceptível aos olhos alheios, eu não sei como é esconder uma peculiaridade tão chamativa.

Mas minha preocupação não se dá a Annie.

— O Eren, ele...

— Não sabe. Sinta-se especial, você é o único que sabe.

Ela abre um sorriso, tão genuíno que quase acredito. Mas consigo me sentir envergonhado, um certo calor nas bochechas. Me sinto um idiota por isso.

— Quando você descobriu sobre seu dom?

— Hum. — Ela se recosta no apoio da cadeira e se balança para trás. — Acho que aos cinco anos, por aí. Eu achava estranho, porque eu era a única a ter... poderes. Mas descobri que não era a única a ser assim.

Eu lembro da primeira vez que tive contato com meu dom. Era muito novo para entender, mas, felizmente, minha família tinha conhecimento disso. Algumas vezes, eu me sentia uma aberração, outras, me sentia especial. O processo mais difícil foi aprender a lidar com essa mudança de humor.

Annie parece ser uma pessoa que se habituou rápido com seu dom.

— Então — ela se apoia na mesa —, o que você faz?

— Faculdade.

— Não, idiota! Seu dom.

Meus lábios se encolhem. Eu não queria chegar nessa parte da conversa.

— Eu já disse, não é interessante.

— Pare de fugir do assunto e responda logo.

A sensação de contar sobre meu dom é estranha. Sinto-me despindo no meio da lanchonete, diante os olhares de desconhecidos e, principalmente, de Annie. Ela aguarda com os cotovelos apoiados na mesa.

— Eu vejo o futuro.

O sorriso de Annie é uma mistura de deboche e descrença. Eu não desvio meus olhos dela, enfatizado minhas palavras. Aos poucos, ela entende minha seriedade e começa a piscar, surpresa.

— Espera, você... você ver o futuro de verdade?!

Eu me encolho pela atenção temporária que é chamada para nossa mesa.

— Você não tá zoando?

— É verdade.

— E como funciona isso? Tipo... — Annie coloca as mãos na cabeça, então as devolve à mesa. — Ok, ok, ok. Você ver o futuro, então veja isso.

O suspiro que solto já estava preparado para ser solto. A reação de Annie é a mesma reação que Reiner teve quando contei pela primeira.

Annie limpa o ketchup da bochecha.

— Eu vou falar uma fruta que estou pensando agora — ela aponta para a própria cabeça.

— Não funciona assim, Annie.

— Qual é a fruta que estou pensando?

É uma grande perda de tempo. Contudo, enquanto observo Annie com os dedos apontados para si, eu volto para mais cedo desse dia. Eu vi esse momento na visão de quando nos tocamos em casa.

— Maçã — eu falo. — Você vai falar maçã.

Os olhos de Annie arregalam quando suas mãos caem. É essa feição que se torna familiar.

— É... maçã — ela assente.

Já estou acostumado à surpresa das pessoas. Às vezes, também fico surpreso comigo mesmo.

— Eu vi isso hoje de manhã. Minhas visões são aleatórias, eu não escolho quando vou ter ou sobre o que vou ter. Não é tão incrível quanto parece.

— Você ver o futuro, isso é incrível.

— Vejo fragmentos. É bem diferente.

Eu consigo diminuir a animação de Annie em relação ao meu dom. Ela deixa de estar surpresa e volta ao seu estado habitual de seriedade. É uma mudança natural de humor. É assustador sua facilidade para trocar de faceta.

— Eu não sabia que existia alguém com um poder assim — ela comenta enquanto mexe no sachê de ketchup. — Por acaso...

Eu já sei o que perguntará quando nossos olhos se encontram.

— Você já me viu em alguma visão?

Meu coração bate violentamente dentro de meu peito. Não tenho ar, estou me afogando em meus pensamentos. Se eu contar sobre minha visão da cabine, levará Annie a fazer mais perguntas. Há um grande risco de contar sobre a visão de sua morte também.

Eu não quero contar. Eu não tenho coragem. Esfrego minhas mãos suadas na calça. Caramba, eu não consigo parar de tremer.

— Não.

Eu consigo escutar as batidas de meu coração. Annie ergue uma das sobrancelhas.

— Na festa, você parecia me conhecer.

— Eu parecia?

— Você não parava de me olhar com aquela cara de assustado.

Ela tem um ponto.

— E também saiu correndo da festa...

Annie tinha muitos pontos válidos. Eu apenas consigo balançar a mão em negação.

— N-Não é bem isso! Eu estava te olhando por outra razão.

Não tem questionamento da sua parte, mas tem silêncio. Ela espera pela explicação. Eu engulo seco, esfregando novamente as mãos na calça. É com tamanha tensão que sinto o fluxo sanguíneo crescer em meu pé ferido, pronto para sangrar mais uma vez.

Eu inspiro fundo.

— Eu te achei bonita.

O silêncio se prolonga. A pressão desaparece, ao mesmo tempo, os olhos de Annie se arregalam. Ela percebe a própria reação e disfarça com sua risada debochada.

— Você é idiota?

— Estou falando sério. Eu t-te achei bonita.

Sua risada desaparece no ar gradativamente. Ela continua a mexer no sachê de ketchup, forçando um desinteresse que eu consigo perceber.

— Valeu.

— E quanto a você? Por que me seguiu?

— Sinceramente?

Eu assinto. Annie abre o sachê de ketchup e coloca na boca. Ela come o ketchup como se fosse um doce.

— Eu achei que você tivesse dando em cima de mim. Não deve estar acostumado a ficar com garotas desconhecidas, dada a sua reação.

Eu sinto mais calor em minhas bochechas.

— Você não me deixou falar, foi muito rápida.

— Ah. — Com o dedo sujo de ketchup, ela lambe de forma provocativa. — Prometo ser mais lenta da próxima vez.

Ainda escuto as batidas do meu coração. Tenho medo de descobrir que a causa de meu nervosismo seja as palavras de Annie. Ela sabe me afetar, e eu sou um idiota por cair nos seus truques.

Eu me levanto da cadeira.

— Estou zoando — ela diz. — Não se preocupe, tenho interesse em outra pessoa.

— Eu não preciso saber da sua vida. Eu já vou indo, vai ficar aí?

Annie pega seu refrigerante, tomando o que sobrou de forma barulhenta.

— Eu posso ir pra casa daqui, não precisa se preocupar comigo.

É óbvio que ela poderia ter ido embora sozinha desde o começo. Apesar de ter a oportunidade de deixa-la, eu não me movo para longe. Annie me olha.

— O que foi?

— Poderia, por favor, não contar ao Eren sobre isso? Eu não quero ver ele envolvido.

— Claro, me conte a visão que você teve comigo e eu deixo ele em paz.

Annie sorri, temporariamente vitoriosa. O nervosismo volta a me abalar e eu tenho que lutar contra isso para não deixar transparecer.

Eu deixo a lanchonete. É uma forma de deixar nossa conversa em um impasse; é no que eu acredito. Antes que eu pudesse me afastar, escuto Annie falar:

— Nos vemos em breve, Bertholdt.

Infelizmente, sei que isso acontecerá e não preciso de uma visão para isso.