Fragmentos De Um Futuro Passado

3 Visões e seus problemas


A floresta se expande a minha frente. Eu procuro por seu fim, mas não consigo encontrar. Eu sei que existe, eu sei que se eu entrar, passar pelas árvores de longo tronco, eu vou achar o seu fim.

Mas eu não consigo. Meu corpo congelado persiste em me desobedecer, a ficar imóvel. O frio da manhã é responsável por isso. A brisa gelada passa por meu rosto e deixa um rastro quente por minhas bochechas.

Quando consigo me mover, o calor segura minha mão. É Annie. Seu rosto corado pelo frio está voltado para frente. Séria, ou tentando parecer.

Eu retribuo o aperto.

— Vocês dois!

A voz grave nos assusta. Annie solta minha mão e se vira em direção à voz. Eu também me viro e...

Abro os olhos. Outra visão. Afundo meu rosto no travesseiro. Outra visão com Annie. Não tenho a visto desde o nosso último encontro na lanchonete. Isso tinha sido na segunda. Mesmo assim, eu tive outra visão com ela nessa semana e, com toda honestidade, não me lembro do que tinha sido. Visões rápidas costumam ser assim.

Eu tiro meu rosto do travesseiro. Preparo-me para ficar de pé até perceber algo de estranho. Desacreditado, viro meu rosto lentamente.

— Você fala enquanto dorme.

Annie está sentada sobre a cômoda. Um pé sobre o móvel, as mãos ocupadas com o livro que li antes de dormir.

— Annie...? — minha voz sai rouca.

— Não fala exatamente, é mais um sussurro. — Ela tira os olhos desinteressados do livro e se foca em mim. Com mais desinteresse. — Era uma visão?

— O-o que você tá fazendo aqui?

— Você consegue diferenciar uma visão de um sonho?

— Annie, o que você faz aqui? — Eu me sento. — Como você entrou?

Ela revira os olhos.

— Seu irmão me chamou pra continuar o trabalho. — Eu continuo a olhar. — É sábado.

— Eu sei que é sábado, o que não explica você no meu quarto!

— Eren saiu para comprar o material do trabalho. Fiquei sozinha e entediada.

Invadir meu quarto conseguiu trazer algum entretenimento para ela? Pela forma como Annie passava as páginas do livro, eu diria que não. Ela joga o livro de lado, em seguida puxa outro da estante. A mão estendida, o livro voa para sua palma.

Ainda não me acostumei com seu dom.

— Não sei por que da surpresa — diz Annie. — Você teria uma visão desse momento.

— Eu já disse — arrasto a voz —, minhas visões não funcionam assim. Meu dom não é como o seu.

— Deveria treinar então. Seria ótimo ter a visão quando quisesse, do que quisesse.

Annie tentava não transparecer seu interesse por meu dom. Por toda sua vida, ela apenas viu o próprio dom; ver um diferente devia a encantar, deixar curiosa, no mínimo.

— Você treinou o seu?

Ela fecha o livro e joga no chão.

— Eu tive alguém para me ensinar.

— E quem foi?

Annie desce da cômoda e vai à porta, virando-se preguiçosamente para mim.

— Estou morrendo de fome. Seria muito rude da minha parte abrir sua geladeira e pegar comida, então que tal você fritar alguns ovos e fazer uma torrada? — Ela força um sorriso. — Que gentileza a sua.

Annie deixa o quarto.

Eu continuo na cama, pensando se devo me levantar e obedecer à ordem. Mas é da Annie que estamos falando, tenho certeza que ela voltará e me puxará com sua mente até a cozinha.

Logo desço e, com a base do silêncio, começo a fritar alguns ovos. Agora Annie está sentada na bancada, comendo a torrada. Mais de perto, eu consigo perceber um corte no seu lábio inferior. Poderia ser um machucado que alguém faria por acidente, mas por se tratar de Annie, creio que isso tenha sido intencional. Uma reação de sua ação.

Ela percebe meu olhar. Volto para os ovos.

— Uma pergunta — ela fala. — Só você da família tem isso? Ou alguém mais, como...

— O Eren não tem nada — eu respondo imediatamente. — Minha mãe tinha o dom das visões.

— Seu pai?

— Não que eu saiba.

Sinto a atenção de Annie desvia para o silêncio da casa.

— E onde eles estão agora?

Eu esfrego a espátula no fundo da frigideira, arrancando o queimado dos ovos.

— Eles... — eu esfrego com mais força. Meu pulso encosta na lateral da frigideira. Muito quente. Isso me faz largar tudo. — Eles não estão mais aqui.

É um pouco gentil o silêncio que Annie prolonga. Eu forço a me virar, ver o entendimento em seus olhos. Ela não parece se importar muito, mas assente vagamente.

— Minhas condolências.

São apenas palavras vazias. Depois de escuta-las por todos esses anos, todo seu significado se perdeu. Annie apenas as usou para quebrar a estranheza do ar. Não a julgo por isso.

— Valeu.

Sem esperar um segundo, ela estende a mão. A frigideira passa voando por mim e para em sua mão. Annie puxa um garfo da pia e começa a comer. Não é o meu melhor prato, mas ela devora em grandes porções. A fome é mesmo o melhor tempero.

Um incomodo desperta e não consigo negar que Annie seja o motivo. Não ela em si, e sim seu estado. Quase comendo a frigideira pelas garfadas violentas e, principalmente, o corte em seu lábio.

Eu levo a mão ao seu rosto.

— O que foi isso?

Encosto em sua face, tendo imediatamente a mão jogada para o lado. O puxão veio do além, quase me derrubando no chão. Eu olho assustado para Annie. Ela lança um olhar irritado, que logo me ignora e volta a comer.

Quando reúno coragem para questionar, a porta da frente se abre. A voz radiante de Frieda faz meu estômago virar.

— Oh, já tá de pé! — Ela fala com surpresa, que se torna genuína ao perceber a jovem desconhecida comendo ovos direto da frigideira. Frieda reforça o sorriso. — Olá.

Minha irmã carrega diversas pastas, todas vindo do seu trabalho. Ela joga nos meus braços e se foca totalmente em Annie.

— Amiga sua, Berth?

— Ah não, não é amiga — eu respondo enquanto luta para não derrubar nenhuma pasta. — É a parceira de trabalho do Eren.

Annie termina a frigideira, pondo-a de lado. Então, estende a mão com um sorriso surpreendentemente agradável.

— Annie.

Frieda aperta sua mão.

— Frieda, irmã mais velha. Onde está o seu parceiro de trabalho? Não diga que ele deixou todo o trabalho pra você.

— Não, ele saiu para comprar o material. Já deve tá voltando.

Eu vejo a frustração exalar do suspiro de minha irmã. Ela tem um comentário pronto na ponta da língua, porém, guarda para si ao ouvir a porta da frente se abrir.

Eren entra com duas sacolas grande de material. Sua primeira reação é olhar emburrado para Annie, intensificado com toda a situação. Não o culpo. Frieda é muito amigável e provavelmente o puxaria para uma conversa que envolvesse ambos. Portanto, ele foi direto para a sala antes de dar a chance de ser envolvido.

— Peço desculpas pela péssima educação do meu irmãozinho — diz Frieda. — Uma pena ter tirado ele como parceiro.

— Eren é um ótimo parceiro. Tive sorte de ter ele.

As habilidades de atuação de Annie me surpreendem bastante ao ponto de sentir medo dela. Como se me escutasse, ela olha de relance para mim, esboçando uma feição debochada que evapora ao se voltar para Frieda. Tão rápida, tão natural.

Outro dom de Annie.

— Bem, vou trabalhar com meu parceiro agora — avisa Annie, descendo da bancada. — Com licença.

Eren está arrumando o material sobre a mesa quando Annie se junta com uma cotovelada. Ela tem uma nova distração.

— Espero que você não tenha se esquecido de hoje — fala Frieda.

As pastas são tiradas das minhas mãos em troca de um olhar ansioso. Eu demoro a responder, mas já é tarde.

— Eu sabia!

— Eu não esqueci! E-eu ia lembrar.

Ela bufa.

— Eren, você esqueceu também?

— Me esqueci do quê?

Mais uma bufada, levantando sua franja.

— Pelos menos estejam preparados de noite para a hora do jantar. Os ternos estão limpos, então usem. — Frieda me encara. — Você precisa sair pra comprar o presente.

É algo tão típico de minha irmã soltar um pedido, com mais tom de ordem, e partir. Tive que para-la no meio da escada.

— Presente? Você disse que compraria.

— Ah, sim. Eu esqueci.

E por isso eu costumava ser o mais responsável de nós três.

— O que eu deveria comprar?

Frieda me dá um tapinha no ombro.

— Seja criativo.

Ela me deixa. Por estar ocupada com o trabalho, eu não a impeço.

Era sábado, dia de folga. Nenhum trabalho da faculdade, mas eu gastaria a mesma quantidade de esforço na compra de um presente para meus tios. Não estava com vontade de ir a esse jantar, mas era uma tradição da família, portanto me esforçaria um pouco por isso.

Não imediatamente.

Eu tomei mais tempo do que o preciso pare reunir forças e coragem. Enquanto Eren e Annie discutiam pelo trabalho, eu pesquisava por alguma coisa que servisse de presente. Como eu tinha previsto, não estou me saindo tão bem.

Era momento como esses que eu gostaria de receber uma visão do futuro. A visão perfeita do presente perfeito que eu entregaria. Contudo, eu não faço esforço para ter uma. Depois de tantas visões com Annie, eu tinha quase absoluta certeza que seria mais uma com ela.

Eu me deito no sofá. A voz de Annie ocupa todo o espaço, apesar de baixa. Não importava o que eu tentasse, ela sempre estaria ligada a mim, sempre prenderia minha atenção com seu menor gesto. Estamos destinados.

Estou destinado a matá-la.

— Eren, o tonto do seu irmão tá dormindo no sofá.

Eu abro os olhos, as pálpebras tão pesadas de sono. Annie me olha detrás do móvel.

— Você tem uma cama enorme no seu quarto, mas prefere dormir no sofá que — ela gesticula para meus pés para fora — nem tem seu tamanho.

Coço os olhos.

— Eu tô com problema pra dormir, esses dias — respondo arrastadamente. — Ontem eu tive uma boa noite de sono, até você me acordar cedo.

— Agora a culpa é minha?

Eu opto por não responder. Pego meu celular, a tela cheia de mensagens do Reiner. Desligo a tela e volto a fechar os olhos.

— Eu sou a responsável por você não dormir direito?

Continuo com os olhos fechados.

— Eu tenho muitos problemas, Annie.

— Sendo que você pode resolver todos com seu dom. Nossa, quanto desperdício de potencial.

— É, esse é o meu lema.

Consigo sentir o revirar de olhos de Annie. É compreensível seu incomodo pela minha falta de habilidade com o dom, até porque, ela é muito dependente do próprio. É isso que evito. Sem abusar, tento me manter o mais distante das visões.

Embora seja difícil em certos momentos.

Eu abro os olhos. Annie ainda me observa.

— Você não tem um trabalho para fazer?

— Eu acabei minha parte, falta o idiota do seu irmão terminar a dele.

Eu me sento. Eren desce do segundo andar, visivelmente estressado, então volta para seu lugar à mesa e continua a colar as pequenas peças da maquete.

Annie se debruça no apoio do sofá.

— Já é a terceira vez que ele cola os dedos — ela sussurra. — A burrice é algum tipo de dom da sua família?

Eu apenas tenho tempo de encara-la antes do chamado de Frieda. Ela desce do segundo andar, nervosa ao me ver ainda em casa.

— Você não foi comprar o presente?!

— Eu já vou ir — fala, ficando de pé. — Sem pressa.

— São três horas e o jantar é às sete, Berth! Vai! Logo! E Eren. — Frieda bate com as duas mãos na mesa. Algumas peças da maquete caem. Eren tem um grito engasgado. — Você já confirmou se o Armin vai? Porque você prometeu—

— Ele não vai, tem coisa pra fazer.

Eu procuro por meus sapatos, escutando à conversa. Annie apenas observa. Ela está sempre observando.

— Você disse que levaria um amigo — continua Frieda, nervosa.

— É, que pena, não vou levar.

Frieda toma aquela conversa como terminada e a deixa como uma derrotada. Não tem o que eu possa fazer, é uma decisão do Eren. Não gosto de vê-lo se fechar assim, cada dia mais distante dos amigos e família, mas sinto que esse não seja o momento certo para tocar no assunto.

— Vai sair de carro? — Annie pergunta.

Eu estou com as chaves na mão. Não preciso dar uma resposta. Ela pega sua mochila.

— Me dá uma carona então.

Não é um pedido, é uma ordem bem direta. Antes de ir, Annie acerta um tapa nas costas da cabeça de Eren, que se encolhe de dor.

— Não fode com isso, hein.

Annie vai para a saída e eu apenas a acompanho.

***

Não gosto do silêncio entre nós.

Conheço Annie faz alguns dias, mas sinto que a conheço por anos. Não é um mero resquício de sensação que as visões deixam, é algo bem diferente. Provavelmente pessoal.

Ela está sentada no banco ao lado, pernas encolhidas e rosto colado ao vidro da janela. Sua linguagem corporal é bem simples e direta: “não quero conversar”. Mas um instante ou outro, ela vira o rosto em minha direção, fingindo ver algo do lado de fora. É um pedido silencioso para eu tocar em algum assunto.

Eu coço minha bochecha.

Nada falo, incapaz de puxar alguma conversa. Paro o carro diante uma casa. O bairro onde Annie vive é longe do meu, principalmente mais simples e com casas de menor elegância.

Annie pega sua mochila, mas não se move. Sua mão permanece na maçaneta da porta, paralisada.

Tenho uma súbita vontade de segurar sua mão. Como na visão, este seria um gesto que poderia tranquiliza-la, de alguma forma. No entanto, mantenho minha mão distante da dela. Não somos amigos, no máximo conhecidos que tinham um assunto em comum.

— É aqui sua casa? — eu pergunto.

— É... é aqui.

Ela a passa a mão no lábio cortado.

— Tudo bem?

— Tô. Só tô pensando.

Pensando no que a aguardava quando saísse do carro. Eu não sei o que a impede, logo uma pessoa debochada como Annie. Eu seguro com força o volante. Não sei qual decisão eu tomaria se eu nunca tivesse tido visões com ela, mas eu sei qual tomar agora.

— Eu... — falo, o que puxa o interesse de Annie imediatamente. — Eu tenho que comprar um presente para meus tios. Não sei o que escolher, então seria bom uma ajuda.

A postura de Annie muda. É estranho ver o suavizar de sua expressão, dando abertura ao sorriso debochado. Eu consigo sentir o alívio tomar conta de seu corpo ao tirar a mão da maçaneta.

— Que tipo de presente? — ela pergunta.

— Eu não sei, os dois são um pouco velhos.

— Hum, eu não sei muito sobre velhos, mas acho que podemos encontrar algo.

Eu sorrio. A retribuição do sorriso de Annie, tão cheio da sua personalidade que havia se apagado horas atrás, desperta meu bom humor. Ter sua presença tem me feito bem, apesar dos pesares.

Eu não quero me apegar a Annie. Eu sei que se eu me permiti isso, apenas tornará difícil futuramente. Eu já passei por situações parecidas várias vezes e o arrependimento ainda bate.

Mas enquanto não descobrir o que me levará ao futuro das visões, eu aproveito o presente. Piso no acelerador, Annie cruza os pés sobre o painel.

Será um longo dia.

***

Annie segura um ursinho de pelúcia. Eu rejeito com o olhar.

— Eu não vou dar um ursinho para os meus tios.

— Melhor que nada.

— Nesse caso, eu prefiro nada.

Sigo pela loja. Annie dá de ombros, deixando o ursinho de lado. Tantas opções, e nenhuma parecia ser o bastante para servir de presente. Estou completamente perdido, podendo dizer o mesmo de Annie. Ela apenas aceitou vir para fugir do que estivesse a incomodando. Não a culpo.

— O que é esse jantar que sua irmã tava falando?

— É um jantar de aniversário de casamento dos meus tios. Tem todo ano. A gente usa roupa formal e vai para um restaurante caro. — Paro e observo um jogo de panelas. O preço afasta meu olhar. — Nossos tios amam gastar com isso.

Annie me observa de braços cruzados.

— E precisa mesmo levar um presente?

— É só por educação — minha resposta sai sem firmeza. — Não precisa ser caro. Já pensou em alguma coisa?

Annie leva a mão à testa. Dramática.

— Eu tô esperando a inspiração chegar. Eu aviso quando tiver algo em mente.

Eu solto uma risada falsa. Andando pelos corredores, escuto a risada baixa de Annie no corredor ao lado. A loja está tão vazia, uma pessoa ou outra por perto, que consigo ouvir os passos ao lado. Forço-me a focar no dever de achar um presente para meus tios. Não é fácil, e sinto que manter a atenção em Annie seja o principal motivo para isso.

Eu sinto um leve arrependimento bater. Quero ajuda-la, mas também mantê-la distante. É um conflito que está constantemente colidindo. Sinto que explodirei a qualquer momento.

Não encontro um possível presente para meus tios. Todo produto que pegava, eu imaginava entregando para eles e via suas reações de rejeição. Uma parte de mim quer ser cuidadoso na escolha do presente enquanto outra parte, a mesma que desperta quando pego meu celular e vejo a hora gasta na loja, quer que eu simplesmente escolha algo e vá embora.

— Annie, eu espero que sua inspiração tenha chegado, porque eu não aguento ma—

Quando a encontro em outro corredor, vejo que sua postura mudou novamente. A sessão de brinquedos não combinava consigo, principalmente a caixa que ela olhava. Era apenas uma família de bonecos. Não vejo como isso possa ser um presente para os meus tios.

— Achei um presente — diz Annie, empurrando contra meu peito.

Eu seguro a caixa. Arqueio as sobrancelhas.

— É um porta-retrato eletrônico. Pode colocar várias fotos em display, eles vão adorar.

— Parece simples demais.

Annie me encara.

— Só porque é simples, não quer dizer que seja ruim. São velhos, eles gostam de coisas tecnológicas.

Eu não tinha argumento para ir contra. Era uma coisa que me imaginava entregando nas mãos da minha tia. Ela reagiria positivamente.

Fim de missão, mas sinto um desconforto ao perceber que deixaria Annie. Seu humor pesado de anteriormente voltou ao ter entregado o presente para mim. Ela leva as mãos aos bolsos do casaco, que era tão grande, desproporcional ao seu tamanho, escondendo-se das próprias emoções.

Eu odeio isso. O peso em meu peito. A pena de vê-la assim.

— Você tem algum compromisso à noite?

Annie arqueia a sobrancelha.

— Deixa eu ver na minha agenda — ela diz. Olha para frente, segura o silêncio por cinco segundos, então se volta para mim. — Não, estou livre.

— Então venha ao jantar comigo.

Sua outra sobrancelha se arqueia.

— Quê?

— Assim, nossos tios pedem para a gente levar algum acompanhante. Eu vou tá levando um amigo, mas o Eren não tem ninguém.

Annie pisca, sem estar convencida.

— E por que... eu?

— Bem — eu gaguejo um pouco —, você não tem nada para fazer e tem uma vaga livre para o jantar, então por que não?

Nem mesmo eu consigo me convencer disso. É estúpido demais. Annie pensa o mesmo, negando com a cabeça e seguindo pelo corredor.

— Leve outra pessoa, eu não presto pra essas coisas chiques.

— Você vai recusar comida grátis?

— Vou recusar uma chance de passar mais tempo com você, isso sim.

O tom ácido de Annie não me impede de me aproximar. O corte em seu lábio me incomoda muito mais.

— Faça isso pelo Eren, então.

Eu disse sem pensar, com um tom de humor. No entanto, parece efetivo pela atenção súbita de Annie. Eu toquei em algo pessoal, mais como um esbarrão sem querer e tudo que tenho a fazer é olha-la, perdido. Logo sua face se vira, tenta fingir a falta de interesse.

— Por aquele idiota? — ela pergunta.

— Vocês se dão bem. De um jeito... especial.

— Derrubar ele com uma rasteira é especial?

— Podemos dizer que sim. O Eren não age tão abertamente com outras pessoas. Maior parte do tempo ele tá calado, mas com você, ele tá sempre falando.

É uma mentira, mas uma pequena parte é verdade. Eren é pouco sociável. Armin e Mikasa são seus amigos mais próximos, porém nunca conseguiram extrair muitas palavras de meu irmão. Eren veste uma carapaça impermeável, apenas Annie sendo capaz de atravessar com ataques curtos que eram suas provocações. Ironicamente, eles se dão muito bem; por métodos alternativos.

Vejo como Eren significa algo para Annie enquanto ela pensa. Eu dou o tempo necessário. Então, ela me olha, decidida.

***

— Reiner, vou ser bem direto: fica com essa boca fechada.

A risada de Reiner ecoa pelo banheiro. Aguardo por uma confirmação. O silêncio seguido me faz olhar para o celular sobre a pia, checar se a ligação não caiu.

— Reiner?

— O quê? — ele pergunta com um resquício da risada. — Berth, eu não sou tão idiota, acredite.

— Não, você é bem idiota, sim. Na primeira oportunidade que você tiver, vai ir contar para a Annie sobre as minhas visões.

Quando eu chamei Annie para o jantar, eu não tinha pensado muito sobre os problemas externos que isso atrairia. Reiner era um deles. Inocente da minha parte ter esquecido algo tão importante.

Mas outro problema batia na porta do banheiro, e era no sentido literal.

— Berth, temos que conversar.

Eu me olho no espelho e solto um suspiro. Preparo para desligar a ligação, antes me despedindo brevemente de Reiner.

Eu destranco a porta do banheiro. Eren entra e fecha a porta com as costas. Ele cruza os braços, destacando o terno que usava. A falta de uma gravata o suaviza, como a mim. Frieda escolheu nossas roupas perfeitamente.

— Seja sincero comigo, Berth. O que você viu?

— Vi o quê?

As grossas sobrancelhas de Eren se mexem furiosamente.

— Suas visões. Você viu alguma coisa, não viu?!

O banheiro ficou muito pequeno de repente. Eren percebe minha hesitação.

— O que você viu? Porque é a única explicação para você ter chamado a louca da Annie para esse jantar.

— Eren...

— É sério! — ele desencosta da porta, mais perto de mim. — Por que você chamou ela?

Grande parte do tempo, Eren se mantém calado, alguém que parece não se incomodar com a sua volta, mas ele usa dessa imagem distraída para observar o comportamento das pessoas. Por vivermos sob o mesmo teto, eu já me tornei estudo de seus olhares silenciosos. Ele sabe como eu ajo, sabe como parece fora de minha pessoa chamar Annie para um jantar em família.

— Fala logo!

— Não foi por causa de uma visão — eu falo, com uma certa honestidade. — Não é nada demais. Eu achei que você fosse gostar da companhia dela.

— Companhia?! Da Annie?!

— Vocês parecem bons amigos.

Eu sei quão absurdo isso parece ser. A reação de Eren é como esperado, uma coçada rápida na cabeça.

— Desde quando? Ela prendeu o braço no meu pescoço até eu apagar. Você estava nessa hora! Onde isso é amizade?

— Ok, uma amizade não-tradicional.

Eren coça mais uma vez a cabeça. Eu consigo entender sua situação, como a presença de Annie possa estragar todo o jantar. Também sou uma vítima. Mas enxergo isso como uma obra de caridade, não para Annie em si, mas para alguém no futuro; possa ser eu ou a própria Annie.

— Não pegue pesado com ela — eu peço. — Só tô querendo ser legal.

— Se você quer ser legal, você compra um presente pra mim — disse Eren, deixando o banheiro. — E não chama a Annie para um jantar comigo.

Eu não esperava menos da atitude de meu irmão. Mas não deixa de me incomodar, sabendo que eu precisava mentir para manter minhas visões da Annie longe do conhecimento de Eren. Não existia motivo para ele saber.

Encaro meu reflexo no espelho. Apenas sinto raiva do que vejo.

Acerto um tapa no interruptor. Eu me apresso para pôr os sapatos quando o chamado de Frieda ecoa pela casa. A ironia de me vestir depois da minha irmã vaidosa.

Quando desço para a sala, encontro Eren em um canto e Annie no outro. A cena de paz causa uma certa estranheza.

— Uau — fala Annie, analisando minha vestimenta formal. — Você tá tão ridículo quanto o Eren.

Eren a encara, mas bufa, contendo-se.

— É mesmo obrigatório o terno?

— Se eu não for assim, minha tia tem um surto.

— Eu vou adorar ver a reação da sua tia quando me ver então.

A vestimenta casual de Annie se destacava bastante, o que ficou mais aparente com a chegada de Frieda e sua formalidade chamativa. Vestido muito brilhante, maquiagem igualmente.

Então ela me olha, incrédula.

— Berth, cadê a sua gravata? E a do Eren também!

— Eu preciso mesmo colocar?

A resposta de Frieda é um rugido preguiçoso. Ela larga sua bolsa na mesa e sobe as escadas. Ao voltar, carrega uma gravata em cada mão. Uma é entregue a mim, a outra é contornada no pescoço de Eren que tanta lutar contra. Vendo o sofrimento de meu irmãozinho, apresso-me a fazer o nó na minha, por vontade própria.

— Pronto! — diz Frieda ao terminar o nó. — Nem ouse tirar.

O que Eren tem a dizer, ele não consegue pela garganta fechada. Nada como um tratamento gentil de Frieda. Sinto que devo me preocupar quando sua atenção se volta para a Annie. Toda sua hostilidade desaparece como seu tom de voz mais suave.

— Annie, tem certeza que não quer um vestido meu? Deve ter algum que fique bem em você.

— Estou bem assim — Annie responde na mesma calma. — Só espero não ser um problema.

— Ah não, não vai ser. Sinta-se confortável.

Mulheres são assustadoras. Frieda acerta uma cotovelada na minha barriga como se fosse um gesto brincalhão. Eu não consigo rir igual a ela.

— Vamos. Você dirige.

Frieda pega Eren pelo braço e deixa a casa. Eu me recomponho enquanto busco pelas chaves e o presente de meus tios.

— Posso perguntar algo? — Annie pergunta, mas não aguarda por uma resposta minha. — Você teve alguma visão desse jantar?

Eu paro na saída da casa. Frieda e Eren esperam perto do carro, Annie me observa de perto, bloqueando meu caminho.

— Hã?

— Eu acho que você teve uma visão e pelo que tenha visto, me chamou pra ir junto. Só quero entender o porquê.

Eu não me movo, inclusive não respiro. É uma sensação tão estranha ser acusado por algo que você é inocente. O problema estar no acusador, a forma como Annie espera pela resposta certa.

— Eu não tive nenhuma visão.

Não há reação da parte dela. Annie se afasta, finalizando a conversa com um estranho clima. Eu não ouso entender o que aconteceu.

***

Eu não consigo deixar de me sentir desconfortável na recepção do restaurante. A sacola do presente pesa com o passar do tempo. Eu tento me focar em outras coisas, o que fosse para não parar de olhar Annie, parada na frente do aquário. Para minha surpresa, ela não falou durante a viagem ou provocou Eren, que apesar de calmo, estava distante de todos nós. Essa era a forma de lidar com suas frustações, fechando-se.

Eu me encho de alívio quando vejo a entrada de Reiner. Ele se aproxima com um longo sorriso, dando pesados tapas em meu ombro.

— É sempre engraçado te ver de terno — ele diz. — Parece que você tá indo para um enterro com essa cara. Um sorriso te faria bem.

— O que eu faria sem os seus comentários, não é mesmo?

Reiner me dá mais duas batidas no ombro antes de ir cumprimentar Frieda e Eren. Annie nos olha sobre o ombro. Não sei se ela reconhece Reiner da festa ou apenas acha suspeito. De qualquer forma, ela não desfaz a feição rígida quando vou apresenta-la ao meu amigo.

Eu não digo nada, mas Reiner sabe que é ela. Ele estende a mão, ansioso como nunca o vi antes.

— Annie, né? Sou Reiner.

Annie mantém os braços cruzados.

— A gente já se conheceu? — ela pergunta.

Reiner continua com a mão estendida.

— Não, mas acho que já nos vimos em algum lugar. Cidade pequena, não é mesmo?

É uma sensação indescritível de ter o apoio genuíno de Reiner. Por todos esses dias imaginei todos os tipos de cenários possíveis e todos se resumiam com o segredo da minha visão com Annie sendo revelado a ela.

— A mesa tá pronta, vamos — anuncia Frieda.

Annie a acompanha, deixando Reiner em vão. Ele solta uma risada baixa, falando baixo apenas para mim.

— Um pouco rude sua futura esposa.

Eu acerto Reiner com meu cotovelo. Nossa pequena luta infantil acaba ao chegar na mesa. Eu tomo a postura de adulto diante meus tios. Contudo, minha tia me puxa pela gravata para dar um beijo em meu rosto; o mesmo para Eren que resmunga algumas palavras gentis a ela.

— Você tá ficando muito grande — fala minha tia, apertando o rosto de Eren. — Daqui a pouco chega no Bertholdt.

Eren se encolhe com a risada sem graça. Minha tia o solta e cumprimenta Annie com a mesma intensidade. Vejo o desconforto em seus olhos arregalados, pedindo por ajuda. Não ouso me intrometer.

Sento em meu lugar. É desconfortável, não o assento, mas todo o lugar. Eu não encaixo nesse ambiente, e percebo o compartilhar do sentimento quando Annie se senta ao meu lado. Ela parece uma intrusa com suas roupas casuais, mas me esforço para não transparecer. Seus olhos se voltam para mim e eu sorrio nervosamente.

Annie retribui com um sutil sorriso.

— O Eren finalmente trouxe uma amiga para o jantar — comenta meu tio. — Achei que nunca estaria vivo para esse dia.

— Annie é só uma colega — corrigi Eren.

— Achei que fossem namorados — diz Reiner.

Eren devolve a piada com um olhar sério. Eu me sinto mais desconfortável. Annie não responde da mesma forma, pelo contrário, age com gestos suaves e educados. É como ver outra pessoa.

— Eren e eu estamos juntos para um trabalho importante do colégio. Mas já nos conhecemos faz um tempo. — Ela termina sem realmente terminar. Com a atenção de todos sobre ela, continuou num tom mais baixo. — Somos apenas... amigos.

Eu continuo a me questionar por que Annie veio ao jantar. Não querendo que ela recusasse, eu só tente entender o que a motivou de verdade para entrar numa situação não habitual. O corte em seu lábio quase não se percebe mais pela mesma. Totalmente esquecido. Fico feliz por isso.

Mas no fundo eu sei que não fui a principal razão. Annie está aqui por outra coisa e tento encontra-la durante a conversa da mesa. Logo pedimos nossos pratos, o cardápio em mãos parecendo tão familiar depois de tantos anos o segurando. Noto o mesmo em Annie. Ela escolhe seu prato sem aparentar incerteza.

— Já veio a um restaurante?

— Nesse? Não. — Não é uma resposta que eu procurava ouvir. — Depois você vai entender.

Não sei se ela espera que eu tenha uma visão como explicação, mas concordo, tomando um grande gole do vinho. Doce demais. Isso não vai dar certo; a bebida e Annie do meu lado.

— Você é mesmo um bobo, Reiner — diz minha tia. Eu me distraí, percebo quando bebo a segunda taça de vinho. — Eu acho que você pode conseguir uma garota. Você tem um charme.

— Eu?! Não, não tenho metade do charme do nosso querido Berth. Ele sim é o charme da nossa turma.

Eu mantenho a taça próxima dos lábios, caso Reiner solte mais um comentário sem noção e eu tenha que ocupar minha boca com algo.

— Inclusive as professoras o amam.

Eu viro a taça.

— E por acaso tem alguma garota que o interesse atualmente, Bertholdt? — questiona meu tio.

O tempo na mesa de jantar é distorcido como uma visão. Meu prato servido já está vazio, como a terceira taça de vinho. Eu coço a bochecha. Essa era mesmo a terceira taça ou a quarta?

— Ele tem interesse numa garota atualmente — Reiner responde por mim. Como sempre. — Ele não para de falar dela.

— Sério? — Frieda parece surpresa. — Quem é? Eu quero conhece-la.

— Não é ninguém especial. A gente não conversa muito.

Eu não consigo descrever o tamanho do desconforto que tenho ao sentir a atenção de Annie desviar do Eren para mim. Finjo que ela não existe. Tento, na verdade.

— Ah, é outra garota — diz meu tio. — Achei que fosse aquela outra. Qual era o nome dela mesmo?

— Eu e a Ymir não chegamos a namorar. Não foi nada demais.

Eu não sei por que isso me afeta tanto? Possa ser efeito do álcool com um pouco do nervosismo.

Frieda me cutuca no braço.

— Fala sobre a nova garota!

— Não tem o que falar dela. Ela só...

Todos estão prestando atenção, incluindo Eren que raramente demonstra interesse em alguma conversa de família. Eu esfrego a nuca, como se fosse ajudar a diminuir o peso de minha consciência. Reiner parece ser o único a entender minha reação, porém não me interrompe, também esperando pelo que eu diria.

— Ela não sai da minha cabeça. É só isso. É mais uma garota normal e eu não sei por que eu tô pensando tanto nela. — Eu pego o copo d’água. — Não tem nada de especial.

Eu não quero ouvir comentários, mas o silêncio de minha família consegue ser pior. Consigo apenas sentir gratidão quando ouço a risada de Frieda.

— É, isso se chama... — ela cutuca minha bochecha — amor!

Eu não debato sobre isso, sem forças para discutir. Já tenho Reiner para fazer esse trabalho por toda a minha vida.

— Já teve alguma visão com ela? — Frieda sussurra a pergunta.

Eu deixo de ser o foco de atenção da mesa, mas sinto um revirar na barriga. É uma pergunta tão simples e mesmo assim não consigo responder. Sinto minha pressão cair enquanto meu cérebro acelera. É difícil respirar.

— Eu... — levanto-me desajeitadamente. — Vou no banheiro, já volto.

Eu nunca quis ter nascido com as visões. Não são todos da minha família que sabem, mas aqueles que sim, também não entendem a verdadeira razão. Acho que nunca falei para alguém além do Reiner. É um fardo muito grande para ser compartilhado com as pessoas do mesmo sangue. É uma sensação de desperdício, desdenhando do meu privilégio de ter herdado um dom da família.

Eu jogo água no meu rosto. Pelo reflexo do espelho do banheiro, vejo meus pensamentos afetarem meu comportamento. Jogo mais água no rosto.

— Tudo bem?

Reiner entra no banheiro. Ninguém por perto, eu deixo meu nervosismo aparecer.

— É difícil ficar naquela mesa.

— Por causa da Annie?

Eu não quero concordar de imediato, mas acabo assentindo.

— Não é ela o problema. É toda a conversa das visões, eu...

O chão sob meus pés começa a amolecer. Eu me movo, procurando por um foco que me fixasse na realidade atual.

— Você ainda não me falou o que aconteceu naquele dia — fala Reiner. — Quando você a encontrou na festa. Você apenas tinha dito que foi um encontro estranho e nada mais. Só que, parece que tem algo a mais nisso.

— É, tem mais coisa.

Reiner arqueia as sobrancelhas, exigindo que eu conte pelo gesto da mão. Eu cruzo os braços e viro as costas para o espelho. Não sei se posso contar. Reiner é a única pessoa que posso contar sobre minhas visões, mas até essa?

— A gente se beijou.

Reiner abre a boca.

— Quê?!

— Foi apenas uma confusão! Nada demais.

Reiner não consegue esconder a surpresa.

— Isso não importa, o que importa—

— Se isso não importa, o que importa então? Antes que responda — Reiner pausa, recuperando-se —, como isso aconteceu?

Eu tinha me desapegado do fato de Annie ter me beijado por causa das visões. Era como um pequeno detalhe do nosso encontro, sem muita importância. Agora com a questão de Reiner, eu consigo ver um pouco da bizarrice do acontecimento.

Eu coço a cabeça.

— Ela achou que eu tava dando em cima dela, sei lá. Aí ela me beijou. Mas isso não importa!

— Importa! A sua alma gêmea te beijou no primeiro encontro.

Eu suspiro.

— É o destino falando para vocês se casarem!

Eu vou rebater, mas me calo com a entrada de uma pessoa. A empolgação da conversa morre enquanto o homem para diante o espelho, para ver o que esteja nos seus dentes.

O chão começa a afundar. Eu não bebi muito, mas foi o suficiente para me deixar disposto a ter visões. Nunca entendi muito bem a ciência por trás disso, o que também não me importo muito de saber. Tudo que preciso fazer é me manter são, lutar contra a vontade de ser levado para uma memória futura.

Lutando contra a maré, eu fico preso nas visões de Annie. Eu não quero lembrar do seu sangue em minhas mãos, mas é inevitável a sensação quente em minhas palmas. É tão pesado, essa sensação de culpa. Ela não me pertence. Não agora.

O homem do espelho se vai. Reiner se prepara para falar.

— Eu vou matar a Annie futuramente.

O sorriso de Reiner desaparece aos poucos.

— O quê?

— Eu tive uma visão. Eu vou matar ela. Não pergunte por quê.

Eu deveria ter contado de uma forma mais sutil, vendo que Reiner tem dificuldade para ingerir tudo.

— Tem certeza que essa não é uma das suas visões interpretativas?

— Não tem muito o que interpretar de uma visão com uma pessoa sangrando no chão enquanto eu seguro uma faca. — Eu fecho os olhos por alguns segundos, tirando a imagem da cabeça. — O que eu tô fazendo, Reiner?

Ele não responde, sem saber ao que eu me referia.

— Eu chamei ela pra esse jantar porque senti pena, eu só queria ser legal. Agora eu tô lembrando dessa visão e tudo isso parece tão horrível.

— Você tá se precipitando.

Reiner segura meu ombro e eu me afasto. Eu não quero me sentir confortável.

— Eu sou muito idiota! Eu vou matar ela em breve e o que eu faço? Eu chamo ela pra um jantar!

Minha mente gira num turbilhão de pensamentos negativos. Eu não consigo pausar o fluxo, eu sou levado a um lugar que não há volta.

Ando de um lado para o outro, passos apressados como toda agitação do meu corpo. Minhas mãos não se afastam do rosto. Sinto que vou perder o controle de tudo.

— Berth, respira. Calma, ok?

— Não tem como ficar calmo — minha voz treme. — Eu sou um babaca por tá fingindo ser amigo dela.

Eu sei que pareço louco. Eu vejo isso pela reação de Reiner, até mesmo quando passo pelo espelho e vejo meu reflexo. A ansiedade consegue transformar as pessoas.

Eu encosto na parede, pressiono minhas costas como se estivesse à beira de um precipício.

— Eu não posso sair daqui. Se eu sair, eu vou acabar matando a Annie.

Reiner suspira.

— Você não pode ficar aqui para sempre, Berth.

— Eu posso, tenho tudo que preciso aqui. Banheiro, água e quando eu tiver com fome, eu peço um prato.

Reiner se aproxima de mim, dando um pouco de espaço para eu não me afastar. Não é a primeira vez que ele me ver surtar por uma visão; acho que isso já se tornou um costume da parte dele. Odeio ser um incomodo para ele em uma ocasião tão importante, mas eu não consigo evitar ou conter minha reação.

— Berth — ele fala baixo. — Você não pode surtar por algo que não aconteceu ainda.

— Esse é o problema, vai acontecer e eu não posso impedir.

Lentamente, eu escorrego pela parede até sentar no chão. Encolho as pernas, abraçando-as.

Eren entra no banheiro falando, mas se interrompe ao nos ver.

— Você tá bem, Berth?

— A comida não caiu direito — Reiner responde por mim. — Só dá um tempo pra ele.

— Ok... — Eren responde, levemente desconfiado. — A gente vai pedir a sobremesa, Frieda pediu pra te chamar.

— Eu vou quando tiver melhor.

Forço um sorriso, que soa tão falso que nem eu mesmo acredito. Felizmente, Eren aceita e deixa o banheiro. Reiner aguarda por alguma ação minha.

— Vai ficar aí?

Eu repito, destacando cada palavra:

— Eu vou quando tiver melhor.

Reiner não se move, talvez pensando se valesse a pena entrar em uma discussão comigo nesse estado. Não valia. Ele me dá uma batida no ombro e se vai.

Eu não me movo. Permaneço sentado no canto do banheiro, esperando meu corpo voltar a responder normalmente.

***

Eu me escondi dentro da cabine do banheiro. Sentei sobre a tampa do vaso, então me ocupei com o celular. Frieda me mandava mensagens a cada minuto, uma mais urgente que a outra. Eu não tive forças para responder, nem mesmo mentir. No fundo, eu sabia que Reiner estava cobrindo minha ausência à mesa.

Não sei quanto tempo fiquei escondido no banheiro, apenas tive noção quando outra mensagem de Frieda foi enviada.

“Estamos indo embora”

É constrangedor pensar como meus tios estão. Eu afundo meu rosto nas mãos, querendo ser levado pela descarga. É quando escuto a porta do banheiro se abrir e alguém entrar. Presto atenção nos passos aleatórios, de um lado para o outro, até pararem na frente da minha cabine.

— Você tá tendo uma diarreia aí dentro?

Eu me preparo para entrar em pânico, porém não tenho energias para isso. Estou cansado demais para afastar Annie.

— Eu tô bem.

— Ah. — Uma constrangedora pausa. — Tá com a calça vestida?

— Annie, o que você quer?

Ela bate na porta.

— Abre.

— Eu não vou abrir.

O trinco da fechadura gira sozinho. A porta se abre, dando entrada a Annie que não faz questão de usar suas as mãos para fecha-la atrás de si. O nervosismo bate. O espaço é muito pequeno para nós dois.

— Eren e sua família já se foi.

— Eu sei. Por que você não foi junto?

— Eu disse que você tinha prometido de me levar em casa.

Eu não sei o que responder a isso. Passo maior parte do jantar me escondendo da Annie e, no fim, ela dá um jeito de ficar ao meu lado por mais tempo. É minha culpa por convidá-la para o jantar, por aproxima-la da minha vida. Afasta-la para longe seria impossível atualmente.

— Você tá mesmo passando mal?

Não é preocupação em seu tom, é o que falo para mim mesmo para ser indiferente à pergunta.

— Eu tô bem.

— Não teve nenhuma visão?

Eu tive que olhar para ela. Havia uma expectativa na expressão de Annie pela resposta. O que ela esperava que eu dissesse?

— Não, eu não tive. Por quê?

Antes que eu possa ver sua reação, o trinco da porta gira. Ela sai da cabine.

— Nada, só checando. Agora vamos, seu amigo tá lá fora esperando.

Eu não me sinto pronto para sair. Deixar o banheiro é enfrentar o que minhas visões aguardam. Talvez eu precise de mais tempo para reunir coragem.

No entanto, algo se prende em minha gravata e me puxa para fora da cabine. Eu saio aos tropeços. Annie tem sua mão erguida, que logo se abaixa.

— Vamos — ela repete, mais séria.

Sem muita escolha, além de ser puxado como um cachorro na coleira, eu obedeço. Desafrouxo a gravata, ainda sentindo o aperto em volta da minha garganta.

O restaurante está quase vazio quando deixo o banheiro. Na mesa onde todos estava apenas restou Reiner. Ele sorri quando me ver, apontando com a taça de vinho.

— Eu disse que você conseguia tirar ele de lá.

— Não foi difícil — diz Annie, arrancando a taça de Reiner. — Meu charme convence qualquer um a fazer o que eu quero.

Ela toma o vinho em um gole. Reiner rir de um jeito particular. Tanto tempo com ele, é fácil entender que essa é uma risada de admiração. Ele gosta genuinamente da Annie. Isso é um problema.

— Consegue ir para casa sozinho? — pergunta Reiner. — Ou ainda tá meio afetado?

— Eu tô bem, ok? Não me trate como criança.

Eu digo isso apesar da cena no banheiro.

— Mas não sei se vou conseguir levar a Annie para casa, então...

— Hã? — Ela olha ofendida.

— Reiner pode te levar.

Reiner rir; outro tipo de risada. A típica risada arrastada de alguém que está perdendo a sobriedade.

— Foi mal, mas eu vou ficar mais um pouco aqui.

A desculpa coberta por segunda intenção. Eu não consigo olhar Annie por mais de dez segundos, mas vou ser forçado a passar mais tempo ao seu lado, dentro de um espaço pequeno do carro.

Eu não tenho uma desculpa para dar. Annie me olha torto, pronta para desconfiar de algo. Eu pareço muito suspeito, não a culpo.

— Eu só achei que você tivesse melhor que eu. Mas deixa, eu a levo.

Reiner está mais que satisfeito. Eu me despeço antes de ouvir algum comentário relacionado a isso. Eu só quero que essa noite acabe.

***

A casa de Annie parece estar mais distante do que antes. Eu dirijo pelas ruas sem fim, esperando que essa tortura silenciosa acabe de uma vez. Annie está encolhida no seu canto. Parece cansada.

— O que você e o Reiner ficaram conversando enquanto eu tava no banheiro?

Annie se remexe.

— Sobre a sua mania de se esconder no banheiro pra chorar.

— Eu não tava chorando...

— Então o que você tava fazendo?

Eu me vejo preso na questão. Ser honesto está fora de questão, prefiro deixar o silêncio constrangedor responder por mim.

— Reiner estava falando sobre seu fracasso com as mulheres — fala Annie.

Eu paro o carro no sinal vermelho. O nervosismo transpira de mim quando me viro para ela. Embora pareça ser uma mentira dela, essa é uma coisa que Reiner faria.

— Por que ele falou isso?

Annie sorri, entretida.

— Ele disse isso para caso eu seja sua próxima pretendente, ter paciência com você.

Meu rosto está queimando, ironicamente vermelho pela iluminação do sinal. É um misto de vergonha e raiva. Tudo que faço é afundar minha cara no volante.

— Para complementar — continua Annie —, ele falou da sua ex. Bem vagamente.

Eu quero morrer. Aqui mesmo. Pode cair um meteoro.

— Essa sua ex é a mesma garota que falaram na mesa?

Eu desencosto o rosto do volante. O sinal está verde. Sigo o caminho.

— Não é bem ex — eu sussurro. — A Ymir não foi nada sério. A gente só ficou por algumas semanas.

Enfim a casa de Annie se aproxima. Eu paro na frente, aliviado pelo fim da viagem. Mas Annie não se move, ela demonstra interesse pelo o que eu dizia.

— E o que aconteceu pra não ter dado certo?

Eu suspiro, recostando no assento. Eu não tenho uma resposta imediata, nunca parei para pensar o motivo de ter dado errado. O único motivo que me vem em mente é um só.

— Eu estraguei tudo. A gente se entendia bem, na verdade, a gente se entende ainda. Mas nessa época, as coisas estavam certas até...

Eu coço a cabeça. É um incomodo que eu não deveria sentir, mas eu sinto e não a nada que eu possa fazer sobre isso.

— Tudo mudou quando eu tive uma visão. Era uma visão de eu terminando com ela. Depois disso, eu não consegui levar nosso relacionamento a sério porque eu sabia que terminaria em breve.

Eu me sinto idiota. Não por falar para Annie, mas por perceber o real problema do acontecimento.

— As visões nunca mudam? — ela pergunta.

— Não. Bem, eu nunca consegui alterar um futuro, então eu acredito que seja imutável.

— Então por causa de uma visão sua terminando com ela, você acabou terminando?

— Não tinha o que fazer, se eu tentasse continuar, eu só taria mentindo pra mim. Era difícil fingir que não vi o que acontecia. Muito difícil.

Eu aguardo por compreensão de Annie. Ela é uma das poucas pessoas que pode entender o fardo que eu carrego. E como eu espero, ela apenas assente, inexpressiva.

— O mesmo vale para a garota nova?

— Quê? — olho confuso.

— A garota que você falou na mesa. Já teve alguma visão dela?

Tecnicamente, a garota mencionada não existe. Reiner puxou o assunto relacionado a Annie, porém eu tinha usado de referência uma garota que não existia. Annie foi quem eu vi na visão, o que não significava que eu tinha sentimentos por ela.

É o que eu penso até o momento. Eu a olho e só consigo ver a garota que matarei em breve. Se existia algum sentimento por ela, era pena.

— Eu já tive — respondo, um tom incerto. — Mas ela não importa.

— Por quê?

Eu encaro o volante.

— Eu só quero o bem dela. Longe de mim.

Escuto o sorriso de Annie se formar através do breve “hum”.

— Você parece apaixonado.

Solto uma risada arrastada.

— Talvez eu esteja.

Sinto um aperto no pescoço. Eu sou puxado, e quando percebo, Annie tem seus lábios próximos aos meus. Eu não me movo, sua mão segurando minha gravata com mais força.

Eu não tenho sentimentos por Annie. Mas eu sinto uma atração, e eu não sei como responder a isso. É uma atração que me força a ficar ao seu lado, é uma atração que me faz me preocupar por seu bem estar, é uma atração que me faz ter vontade de beija-la toda vez que a vejo.

Eu não tenho sentimentos por Annie. Sinto um sorriso se formar em seus lábios. Ela se afasta um pouco, mas não me solta.

— Eu achei que você me beijaria se eu fosse a garota da visão.

— Eu com certeza beijaria a garota da visão.

Annie me solta.

— Foi o que eu pensei. Espero poder conhecer essa garota em breve.

Annie pega sua mochila, pronta para sair do carro. Eu sinto um nervosismo com sua confiança do que foi dito. É apenas imaginação minha?

— Bem, valeu pelo jantar. Foi delicioso. Agora tenho que ir, nos vemos em breve — ela abre a porta, porém se vira com um sorriso. — Mas tenho certeza que você já viu isso.

Eu perco o ritmo da respiração. Annie sai do carro, acenando pela janela enquanto se vai. Eu apenas consigo observar, movendo-me ao vê-la entrar em casa.

Meu corpo dói de tensão. Embora eu tenho reforçado a ideia de nunca ter tido uma visão de Annie para ela, percebo que não foi o bastante para ela não desconfiar. Também acredito que Reiner não ousou abrir a boca na minha ausência.

Annie não é idiota e não levará muito tempo para ela ter certeza absoluta de que é a garota da visão, então me fazer perguntas que não conseguirei mentir por muito tempo.

Eu afundo no banco. Mais difícil que matar Annie, será contar a ela sobre isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.