Fragmentos De Um Futuro Passado
1 A Garota da Cabine Telefônica
Dentro da cabine telefônico, consigo escutar o som da sua respiração sob o barulho de chuva. Ela tenta não mostrar a falta de fôlego, a cabeça baixa e escondida sob a longa franja loira. Tão pequena, encolhida em seu canto com um corpo trêmulo de frio enquanto faço o mesmo, mantenho-me distante de seu pouco calor. Em oposição, sou grande demais em um espaço tão apertado como aquele. Meus braços se apoiam nas laterais, evitando que eu caia sobre ela.
Me movo e sinto o roçar das minhas roupas molhadas. Pingo tanto resquício de chuva quanto suor. Logo, meus braços não suportam meu próprio peso, a força de me manter distante dela.
— Não encoste em mim.
Ela ergue a cabeça. Olhos azuis, gelados como sua voz. Seu trêmulo corpo recosta na parede atrás, enfim a revelação do vermelho que marca suas mãos. Ela leva os dedos manchados de sangue para perto do rosto para simplesmente coçar a bochecha.
Vendo-a, só consigo sentir...
Uma batida, seguida por outra. Abro meus olhos, vejo o chão. Está perto, colado no meu rosto como o resto do meu corpo, em uma posição que não consigo reconhecer. Já deveria ter se transformado num costume a esse ponto.
Ergo minha cabeça, descolando o rosto do piso. Então noto a presença parada na porta do quarto. Seu olhar sonolento está focado em mim. Esse é um costume que já percebi em meu irmão mais novo. Mesmo vestido para a escola, Eren demonstra toda sua indisposição com a simples feição.
— Frieda pediu pra te chamar — ele diz, bocejando. — É pro café da manhã.
— Ah... — falo, levantando-me com grande esforço. — Já vou.
Antes de ficar de pé, Eren já tem desaparecido da porta. Escuto seus passos ecoarem pela escada, como também escuto a voz feminina de Frieda.
— Que carinha é essa? Bom dia!
Não consigo entender o resmungo de Eren; nem mesmo se ele tivesse ao meu lado, eu entenderia. Jogo meu lençol do chão na cama. De repente, minha atenção é completamente desviada, puxada para a cabine telefônica. O som da chuva me rodeia, mas o calor abraça meu corpo.
Eu tropeço para trás, voltando a minha realidade. É tão fácil me prender nas visões, principalmente nessa visão. Eu esfrego minha testa, esfrego até esquentar minha pele para servir de lembrete. Supere, Bertholdt. Supere.
Então arrumo a cama, troco de roupa, penteio o cabelo, escovo os dentes, vejo qual sapato usar e mais etapas pequenas e insignificantes, mas que servem pra ocupar minha mente. Eu sei que é um grande esforço pela forma que Frieda me olha quando chego na cozinha. Ela me observa, analisando minha expressão.
— O quê?
— Você tá fazendo aquela cara de quando ver algo. — Ela aponta no meio do meu rosto. — Você teve uma visão?!
Eu me afasto de Frieda, juntando-me a Eren na mesa.
— Não tive. Foi um pesadelo, só isso.
Eren solta uma risadinha por trás do seu cereal. Eu o olho e ele me olha, percebendo que eu percebi.
— Você é péssimo mentindo. Sempre que fala que foi um pesadelo é porque você viu alguma coisa.
Eu me encolho, o que soa ridículo para uma pessoa com mais de 1,90 de altura. Frieda se junta à mesa, a curiosidade ainda brilhando em seus olhos.
— O que você viu? Conte para a gente!
Eu pego um pedaço de pão e mastigo. Com a boca ocupada, não tenho a necessidade de responder aos meus irmãos. Embora Frieda seja a irmã mais velha, tem vezes que ela age como a mais nova. Eu entendo como a responsabilidade pode ser chata.
— É a mesma visão de sempre — eu resmungo.
Mas eles ouvem.
— A gente poderia te ajudar se contasse sobre essa visão — sugeriu Eren.
Nego com a cabeça.
— Não é como se vocês pudessem fazer algo pra impedir ou mudar.
— Mas mataria nossa curiosidade — diz Frieda, me cutucando no braço.
Por 21 anos, eu tenho a mesma visão, sem nenhuma razão aparente. E por 21 anos, a visão não mudou. Frieda e Eren têm noção desse evento inexplicável, mas nunca tive coragem de contar muitos detalhes. Apenas digo que tem chuva e que estou dentro de uma cabine telefônica, nada além disso para causar perguntas curiosas como essas agora. Se eu não sei quem é a garota da visão, isso provavelmente provocaria uma curiosidade irritante em meus irmãos.
Eu pretendo não descobrir quem é. Eu quero saber, mas sinto que se manter no caminho da ignorância seja o melhor para mim; e para ela.
— Melhor não — eu respondo, levantando-me. — E gosto de seguir as regras. Se você não tá na visão, eu não te conto.
— Mas e se você tiver sozinho?
Raramente estou sozinho nas visões. Solto um suspiro, deixando a mesa para buscar minha mochila. Eren faz o mesmo, porém em uma velocidade menor; ele não é a pessoa mais animada que conheço, inclusive para se locomover.
— Eu já vou, Armin e a Mikasa devem tá me esperando na escola — comenta Eren por um sussurro arrastado.
Eu acompanho meu irmão até o lado de fora. Giro o chaveiro na mão em direção ao carro. Quando abro a porta, percebo Eren parado no mesmo lugar. Ele segura sua mochila por uma alça, sua postura inclinada como se carregasse todo o peso do mundo. Eu me aproximo dele, o que chama sua atenção.
— Tudo bem?
Ele balança a cabeça vagarosamente, confirmando.
— Eu... — Ele começa a falar, pausa, pensando se deveria continuar, então prossegue. — Se alguma das suas visões for minha morte, você me contaria?
Eu sinto o frio da manhã passar através de mim. A pergunta é tão repentina quanto um soco no estômago. Eren me olha, esperando pela resposta que eu nunca conseguiria dizer.
— Por que tá perguntando isso? — É tudo que tenho a falar.
— Curiosidade.
— Bem... — Coço a nuca. — Eu te contaria, obviamente. Faz parte da regra.
Eu não sei se é alívio ou aceitação no olhar de Eren, mas é algo, e só consigo me sentir péssimo por não saber distinguir. Antes que eu pergunte, Eren segue seu caminho; passos arrastados e cabeça baixa.
Não tenho tempo para me prender a dúvidas. Entro no carro e sigo meu caminho.
***
Meu dia não começou bem, percebo isso dentro do carro. Todos os dias que tenho a mesma visão costumam ser assim, quebradas e só pioram ao decorrer do dia. Não sei se isso é uma consequência da visão ou pela forma como penso todas as vezes, o que gera uma cadeia de eventos ruins.
Embora nada tenha acontecido, eu sei que vai acontecer. Sou um imã de negatividade. Ao sair do carro e entrar no campus da faculdade, sinto essa estranheza no ar, como se a qualquer momento pudesse—
Eu esbarro em uma garota e minha imediata sensação é o calor escaldante do seu café caindo em mim.
— Ah—Desculpa! — ela pede.
O calor diminui, mas a mancha na camisa e calça permanece. Um péssimo dia para usar roupa clara. Um péssimo dia para sair da cama.
— Tudo bem — eu falo depois das milhares de desculpas da garota.
Não são desculpas que aliviariam a queimadura da minha barriga, nem tirariam a mancha do tecido. Eu sei que eu deveria me desesperar por isso, mas o costume de algo dar errado após ver a mesma visão por anos é um certo conforto, que me anestesia de qualquer surpresa; mas não anestesia da ardência de minha pele.
Eu chego na minha sala, sento-me na mesa e apenas me foco em tentar diminuir a mancha de café na minha calça. Esfrego um papel molhado, porém de nada adianta.
Com isso, surge a risada. Não olho, sei que é Reiner se sentando ao meu lado e prestando atenção na minha tentativa ridícula de me limpar.
— Péssimo dia para usar a calça bege — ele fala.
Minha risada é fraca. É, péssimo.
— Não está ajudando, Reiner.
— Ótimo, essa é a intenção.
Eu desisto de tentar limpar. Pressiono minhas mãos contra meu rosto, cansado por saber que o dia tinha começado há pouco tempo.
— Então, seu mau humor é só por causa da calça cagada ou porque você teve uma visão?
Afasto as mãos do rosto. Aparentemente, é muito fácil perceber que eu tive uma visão.
— A mesma de sempre.
— Não estou surpreso. E sabe o que é mais incrível disso?
— O quê?
— Você não procura por essa garota!
E lá vamos nós. Eu me arrependo de ter contado tudo que vi na visão. Reiner é diferente do Eren e Frieda, ele sempre me ajuda a entender visões confusas. O problema está quando ele não está ajudando, o que seria 80% do tempo, e durante esse tempo, ele está sendo o Reiner. O complicado Reiner.
Apenas suspiro.
— Berth, pense comigo. — Reiner me segura pelo ombro, balançando-me a cada palavra. — Você ver essa garota desde criança. Isso pode ser o destino falando pra você ir atrás dela. Já parou pra pensar que ela pode ser a mãe dos seus filhos?!
— Ok, você tá indo muito longe com isso.
— Ela pode ser sua alma gêmea! A metade da laranja... — Ele pensa, procurando por mais comparações dramáticas. Eu aguardo calado. — O sol dos seus dias de inverno.
— Você inventou esse último.
— Não, um grande poeta falou isso uma vez.
Eu rio.
— É? E qual é o nome dele?
— Reiner Braun.
Não existe possibilidade de levar Reiner a sério quando o assunto é a visão dessa garota. Não é como se eu pudesse largar tudo na minha vida para encontrar essa estranha. Eu sei como ela é fisicamente, mas informações necessárias, como nome, não são passadas na visão, o que me resta ficar na dúvida.
Ela é como Reiner. Ambos brancos, loiros e de olhos azuis. Suas diferenças começam no corpo. Os músculos de Reiner se destacam mesmo usando um casaco enquanto a desconhecida é baixa, pequena como...
Eu olho para trás, algumas mesas atrás de mim. Observo Historia, a garota baixinha, loira e de olhos claros como a desconhecida da visão. Ela ri ao conversar com Ymir, a jovem de sardas na cara e cabelo escuro com corte curto. Historia nota meu olhar e eu me viro imediatamente para a frente.
— Ok, você não quer saber dessa garota. Entendo — fala Reiner, enfim desistindo. — E se você se distraísse um pouco?
— Me distrair...?
— Vai ter uma festa nesse final de semana...
— Entendi.
Reiner acerta cotoveladas em mim, insistindo com seu silêncio. Não estou para festas. Na verdade, nunca estou com vontade para ir em festas, mas a pedido, que são muitos, de Reiner, acabo cedendo.
— A Historia vai ir. — Ele se vira, acenando para ela. — Nos vemos no sábado, Hisu.
Historia acena, sorridente. Quando ela vai responder, Ymir entra na sua frente.
— Ei, Reiner! Já foi tomar no cu hoje?!
Eu seguro uma risada com a reação emburrada de Reiner. Como eu, Ymir tem um dom: tirar o Reiner do sério. É um dom que poucos, poucos mesmo, possuem. Fico grato por uma pessoa com tal dom estudar da mesma turma que eu.
— Você tem que ir comigo — Reiner enfatiza, sério. — Eu não vou conseguir aguentar aquela ali na festa.
Ele aponta para Ymir sem qualquer sutileza e ela devolve com o dedo do meio.
Eu preciso de um pouco de descanso, algo para me distrair. Acompanhar Reiner numa festa será bom para mim. Qualquer coisa para tirar a garota da visão da minha cabeça.
***
— Passa a chave do carro.
Reiner estende a mão aberta para mim.
— Por quê?
Enquanto seguimos em direção a casa da festa, Reiner tenta tirar as chaves de mim.
— Você vai querer sair mais cedo da festa e vai me deixar, então... — ele balança a mão.
Por mais que seja verdade, eu me nego a dar as chaves. Em um movimento rápido, Reiner arrancas as chaves da minha mão e enfia no bolso da calça. É como se tivéssemos 8 anos de novo.
— Você vai me agradecer mais tarde.
— É bom você não perder as minhas chaves.
E quando falo isso, é sério. No momento que entramos na festa, cumprimentamos os conhecidos e começamos a beber, meus olhos não desviam de Reiner e seu dom de perder coisas em um piscar. Ele chega no décimo segundo copo de bebida e uma ligeira preocupação me atingi, percebendo que eu teria que ficar com aquela versão irritante e risonha do meu amigo até o fim da festa.
O tempo passa. Ainda estou no terceiro copo, sentado num sofá, escutando as risadas altas de Reiner. Não o vejo, mas já estou cansado demais para ser a babá dele. Não me movo. O sofá é o lugar mais confortável do mundo e nada conseguiria me tirar daqui.
Vejo algumas pessoas em volta da mesinha de centro organizarem carreiras de pó sobre o vidro. É um tipo de cena que me faz desviar o olhar. Entretanto, continuo a olhar, atento a chegada de mais uma pessoa. Ela se ajoelha com um canudo em mão e cheira toda sua carreira, jogando a cabeça para trás com uma expressão de completa paz.
Levo o copo a minha boca, sem tirar os olhos da jovem. Enfim, peças se encaixam na minha cabeça. O som de chuva me rodeia, porém a desconhecida está ali, próxima da mesinha de centro. Os olhos azuis frios se focam em mim, uma seriedade que soa natural.
Ah.
É ela.
Caramba, é ela.
Eu viro o copo e toda a bebida cai em minha camisa. É um estalo pra minha realidade. Eu pulo do sofá, coberto de vergonha e medo; a pior combinação possível em meio a tantas pessoas.
E ela continua a me observar. Sem nenhuma expressão, não faço ideia do que se passa em sua mente. Ela me reconhece também? Ou apenas olha um cara derramar a própria bebida em si mesmo como um idiota?
Eu não quero saber a resposta. Saio do lugar, esbarro nas pessoas e entro na cozinha. Sei que água apenas deixará a mancha de bebida mais explícita, mas passo mesmo assim.
— Derramando mais bebidas em você?
Eu me assusto com Historia sentada no balcão ao lado da pia. Não tinha a visto, nem Ymir de pé do seu lado.
— Deveria fazer um exame, Bertholdt — diz Ymir, risonha. — A burrice do Reiner deve está afetando sua coordenação motora.
Uso o balcão de apoio. Estou distante da festa, de me importar com a preocupação de Historia ou do deboche de Ymir. Meus braços tremem, suor se acumula nas minhas palmas. Se essa é uma sensação de ataque de pânico, estou tendo um.
— Tudo bem, Bertholdt? — A preocupação de Historia fica mais visível.
— Estou, só é... — engulo a saliva que se acumulou em minha boca. Eu queria colocar pra fora tudo que estava dentro de mim. — Estou bem. Viram o Reiner?
— Serve aquele cabeça-oca?
Ymir aponta e encontro Reiner passar pela multidão. Corro atrás dele, puxando-o pelo braço. Ele se vira para mim, seu fedor de álcool ardendo minhas narinas.
— Eu não vou te dar a chave do carro — ele fala sobriamente. Que surpresa.
— Não é a chave.
Fico mais próximo de Reiner ao contornar meu braço por seu pescoço.
— Tá vendo a garota loira perto do sofá?
Com olhos vermelhos e apertados, Reiner olha sobre meu ombro.
— A nariguda?
Eu também olho. Ela está conversando com alguém. Seu nariz peculiarmente grande se destaca quando está de lado. É uma coisa que não consegui perceber na visão.
— Então, é ela.
— Ela? Ela quem?
Eu não consigo pôr em palavras. Apenas olho para Reiner, esperando que isso seja o suficiente para ele entender.
Então, ele arregala os olhos lentamente.
— É ela — eu enfatizo.
— Não brinca!
Reiner consegue ficar mais agitado que eu com a revelação. Ele me balança pelos braços, uma felicidade duvidosa, que desconfio ser gerada pela pouca sobriedade que lhe resta.
— É a garota dos seus sonhos!
Reiner aponta e eu abaixo sua mão. Consigo sentir o olhar da garota sobre a gente, provavelmente se perguntando sobre o que conversávamos.
— O que você tá esperando? Vai lá! Conversa com ela — Reiner me incentiva.
— N-não, tá louco? Ela não sabe quem eu sou.
— Ainda. É só você ir lá e conversar.
Por mais absurdo que isso pareça, faz um pouco de sentido. Resolveria o mistério sobre sua identidade, faria essa visão parar de uma vez por todas. Muitos pontos positivos.
Mas eu não consigo ter coragem. Eu suo frio, perco o controle das minhas mãos geladas.
— Vai dizer um oi pra ela e depois me conta, ok?
Reiner acerta um tapa amigável no meu braço e se vai, desaparecendo no meio da multidão. Fico sozinho. É como se não tivesse mais ninguém na festa além de mim e a garota. Olho em sua direção mais uma vez, mais como uma confirmação. Ela ainda está ali. Nesse meio tempo, ela me percebe.
Meu coração pulou batidas. Saio do lugar, andando sem rumo pela casa. Subo a escada para o segundo andar, um completo silêncio pela ausência das pessoas. Continuo a andar, entro em um quarto e sigo para o banheiro.
Sinto a batida do som enquanto molho meu rosto. A música segue abafada, o que me tranquiliza.
Por todo esse tempo, eu nunca acreditei que esse momento chegaria. Mas chegou. A visão da garota dentro da cabine telefônica sempre pareceu mais como um sonho febril do que um acontecimento do futuro. Talvez por uma parte de mim ter desejado isso.
Agora é uma questão de tempo para essa visão se concretizar. Pode ser hoje, pode ser amanhã ou daqui a um ano; não sei quando, só sei que acontecerá.
Mais calmo, embora minhas mãos continuem trêmulas, seco meu rosto. Tenho controle da minha respiração, como tenho das minhas pernas. Sigo para fora do banheiro com uma confiança que eu desconfiava ser minha. Eu estava mais disposto a fazer isso pelo Reiner do que por mim.
— Você é bem tímido.
Lá está ela. Parada na porta do quarto, bloqueando a única saída. Toda minha confiança e controle evaporam.
Ela se move em minha direção e minha reação imediata é recuar, batendo contra a parede. Eu não sei por que fiz isso, é a primeira vez que vejo ela sob uma iluminação adequada. Enxergo cada detalhe, cada sombra que preenche sua feição confusa. Ela é real, cada passo seu mexendo com meu subconsciente.
— Pra um cara do seu tamanho, bastava apenas falar.
Ela continua a se aproximar. Eu me arrasto pela parede, esbarro na cabeceira de cama e caio sentado sobre o colchão.
Ela para na minha frente. Os olhos claros quase se fecham, as pálpebras pesadas.
— Ficar me encarando não vai adiantar de nada.
— Eu não estava te encarando.
— Estava sim.
Ela me via através da mentira. Eu tentava me esconder, mas estava completamente exposto. Eu me movo, procurando por alguma brecha para sair dessa situação, e sinto o peso dos seu olhar sobre mim. Uma minúscula movimentação e ela consegue perceber.
— Não vai falar mais nada? — ela pergunta.
Minha garganta está fechada. Não consigo falar, nem mesmo pensar. Minha mente é um mar bagunçado de ideias, nada se forma e só consigo ouvir a palavra “corra” se repetir várias vezes, cada vez mais alta.
Eu olho para ela quando dá mais um passo para perto de mim. Sua mão me alcança e pesa sobre meu ombro. Com um leve aperto, ela fala:
— Isso deve te ajudar a relaxar.
Ela se ajoelha diante mim. A mão que repousa em meu ombro desce por meu corpo, parando sobre minha perna. Eu não entendo o que ela está fazendo, não consigo completar uma simples linha de pensamento para poder sair daqui.
É quando sinto o desbotoar da minha calça. O calor do meu nervosismo some, sendo substituído por um frio que sobe por meu corpo. A garota puxa o zíper da minha calça.
Eu solto um grito engasgado e seguro os pulsos dela.
— N-não, não! Espera!
— O que foi? — ela me olha com preguiça.
— Você entendeu errado, eu não... Não é bem isso...
O tremor de minhas mãos se intensifica, e por sua reação, ela percebe também. É um nervosismo que começa a me ganhar.
Ela suspira e se solta de mim.
— Que seja então.
Ela usa minhas pernas de apoio, levantando-se contra mim. É rápida, eu não tenho tempo de reagir ou recuar. Seus lábios pressionam contra os meus. Lábios quentes que começam a derreter na minha boca, a transbordar e puxar meu corpo, que se derrete como uma vela.
Eu abro os olhos. Estou de pé em uma casa que nunca entrei antes. Pisco e noto a imagem da garota caída no chão, encolhida em volta da barriga. Sob a franja bagunçada, seus olhos não desviam de mim enquanto lágrimas escorrem. Sinto sua dor, principalmente ao perceber a mancha de sangue que cresce em sua barriga. Ela pressiona as mãos sobre a ferida, mais sangue vazando dos vãos dos seus dedos.
Dói. Dói o peso da faca que seguro. A solto, mas já estou com as mãos sujas de sangue quente.
Quente como seu corpo pressionado contra o meu. Em susto, a empurro. Ela tropeça para trás, um semblante confuso que muda gradativamente. É apenas com o silêncio que nos entendemos.
— Você... — ela sussurra.
Uma lágrima escorre de meu olho, e a seco no mesmo instante. Então me levanto da cama, enfim tomo uma atitude para fora do quarto.
Abro a porta. Não quero estar ali, não quero ouvir ao que ela tem a dizer. Mas a maçaneta escorrega de minha mão e a porta se fecha.
— Você é que nem eu.
Eu me viro. A garota está com a mão erguida.
— Você e eu somos iguais.
— Eu... não sei do que você tá falando.
Eu tenho que ir embora. Agora.
Ela anda em minha direção, a postura diferente; é uma outra pessoa. Entre minha tentativa de fugir e não parecer desesperado, busco por meu celular no bolso.
— Meu amigo tá ligando, ele tá—
Tiro o celular do bolso, que escorrega da minha mão e cai no chão. Eu me surpreendo com minha tamanha estupidez em momentos como esse.
Me abaixo para pegar o celular. Meus dedos encostam na tela, porém se distanciam quando o aparelho voa para longe de mim. O tempo de minha reação se prolonga ao eterno, preso naquele instante, agachado no chão com o braço esticado. Luto para me mexer, erguer-se e ver meu celular na mão da garota. Ainda distante
— Você também tem um dom — ela conclui.
Mas eu não fico para ouvir o restante. Dessa vez, a porta não se fecha, saio do quarto correndo e sigo no mesmo ritmo para as escadas.
O calor e o barulho da festa me fazem sentir uma certa segurança. As pessoas a minha volta servem de barreira, mas sei que é temporário, por isso me apresso pela procura de Reiner. O encontro na cozinha, sentado no chão; totalmente apagado.
— Reiner, acorda! Reiner! — eu o balanço.
Historia e Ymir estão do lado, mais como babás do meu amigo bêbado.
— Aconteceu algo, Bertholdt? — Historia pergunta.
— N-nada! Eu só preciso ir embora—Reiner! Acorda!
— E por que sua calça tá aberta? — debocha Ymir.
Estou tão desesperado para sair da festa que não tenho tempo para ficar envergonhado com um detalhe desse. Eu fecho minha calça e chuto Reiner ao mesmo tempo.
— Acorda, eu preciso das minhas chaves!
— Ah, o Reiner perdeu — diz Historia.
A sensação de estar certo é péssima. Eu previ isso vindo.
— Mas a gente encontrou.
Historia tira o chaveiro de dentro da bolsa. Eu arranco as chaves de sua mão e corro. Escuto o grito de Ymir ao fundo, mas já saio da casa sem nenhuma pretensão de voltar atrás.
O caminho do gramado até o meu carro é longo. Ele se estende, como uma esteira que me puxa quanto mais tento me distanciar. No momento que encosto na porta do carro, o tempo volta ao normal.
Olho para trás uma última vez. Lá está ela, parada na entrada da casa. Sua distância dificulta reconhecer sua expressão, o que agradeço. Entro no carro e piso no acelerador.
***
Já faz mais de trinta minutos que encaro a porta da minha casa. Eu não solto o volante, não quero soltar. Sinto que se eu afastar as mãos, terei que sair do carro e ter que encarar tudo que aconteceu.
Eu digo isso para mim mesmo, mas já estou preso em toda a situação passada. De volta ao quarto, os lábios da garota estão colados nos meus e tudo que consigo sentir é medo. A visão da mesma caída, sangrando por um uma faca que eu segurava, se repete dentro de mim.
A batida na janela me desperta com um susto. Frieda me olha do outro lado do vidro com uma sacola de compras.
— O que você tá fazendo aí?
Enfim solto o volante.
— E-eu tava pensando.
Ela me olha, desconfiada, então faz um gesto pra eu sair. Eu saio do carro, recebendo as bolsas de compra.
— Achei que fosse chegar mais tarde — ela fala. — Festa chata?
Seguimos para dentro de casa. A voz de Frieda consegue me distrair dos pensamentos persistentes. É uma boa sensação de segurança que ela transmite apenas estando presente.
— Basicamente. Aliás, eu perdi o celular.
Coloco as sacolas sobre a mesa da cozinha, logo notando a surpresa de Frieda.
— Você perdeu? Uau, nunca achei que você conseguisse fazer uma coisa tão irresponsável assim.
— Eu sou irresponsável, às vezes.
A risada fraca de Eren alcança a cozinha. A sala está coberta pelo breu da noite, a única fonte de luz vindo da tv ligada. A iluminação artificial do aparelho reflete no rosto do meu irmão no sofá.
— Não, Frieda e eu somos irresponsáveis.
— Sim, sim — concorda Frieda. — Você não está permitido disso. Alguém tem que ser o responsável da casa.
Eu encaro como um elogio. Frieda passa por mim, para e me observa dos pés à cabeça.
— Você tá fedendo a álcool. Vai tomar um banho.
Minha irmã deixa a cozinha para seu quarto. Eu vou para a sala, procurando por outra distração. Apoio-me na beira do sofá, assistindo à tv com Eren. O silêncio picotado pelos sons do filme consegue ocupar minha mente, porém sinto minha atenção escorregar para o quarto com a garota da visão.
Eu coço os olhos furiosamente.
— Por que chegou cedo da festa?
Afasto as mãos do rosto, grato pela pergunta.
— Tenho coisa pra fazer e a festa estava chata. E você? Por que tá acordado? Você costuma dormir cedo.
Eren pende a cabeça pro lado. Toquei em um assunto que o incomoda.
— Tenho dever para fazer também, mas vou fazer segunda. Trabalho em dupla.
Não é preciso conhecer Eren para sentir o desgosto de suas palavras finais. Eu sorrio de lado, dando leves batidas na cabeça dele.
— Não gosta do seu parceiro de trabalho?
— Não, odeio. Odeio!
De certa forma, entendo a frustração de Eren. Compartilho do sentimento de estar sendo forçado a fazer um trabalho com alguém que não deseja. A diferença é que a vida quem está me dando a ordem e a garota da minha visão é minha parceira.
Essa não vai ser a última vez que a vejo; temo pelo nosso próximo encontro.
***
Eu não fiz nada no domingo. Não faço nada na segunda também.
Eu desperto e permaneço na cama, colado ao colchão. Toda a indisposição do mundo pesava sobre meu corpo e eu não tinha muitas forças para lutar contra. Frieda já veio no meu quarto perguntar se estou doente. Eu devo estar. Pensar paranoicamente sobre uma garota que eu vou matar no futuro pode ser considerado uma doença mental.
Eu poderia seguir pelo restante do dia assim, imóvel como um cacto, porém existia a necessidade de, pelo menos, levantar e tomar alguma água. Eu me esforço para ficar de pé, mas consigo. Passo a passo, vou para a cozinha.
Frieda não está em casa. O silêncio não existe na sua presença. É no instante que encho um copo d’água que sinto essa outra presença.
— Eren?
Paro no começo da sala. A garota da visão está sentada sobre o apoio do sofá. Ela me nota, então abre um sorriso que faz o copo deslizar da minha mão. Ele se quebra aos meus pés, cacos de vidro se espalhando por todo o piso. Porém não tiro os olhos dela.
— O que...
Ela se levanta do sofá, vindo em minha direção. Quando recuo, piso em um caco de vidro. Eu engulo o grito, sem desviar o olhar dela.
— O que você faz aqui? — Minha pergunta sai como um assobio.
Ela não se aproxima mais, porém não deixa de sorrir. Me ver é uma piada de mau gosto que só ela consegue entender.
No instante que a garota vai falar, a voz vem do andar de cima:
— Annie, eu falei pra você não tocar em nada!
Medo me atingi quando vejo Eren descer do segundo andar. Eu me preparo para dar todas explicações do mundo, mas ele segue em passos nervosos até a gente.
Toda a ira de meu irmão é direcionada à garota.
— Que droga você quebrou agora?!
Ela leva as mãos aos bolsos de seu casaco grande.
— Eu não toquei em nada.
Com o silêncio da casa, sem nenhuma festa ou música por perto, escuto melhor a entonação de sua voz. Ela é grave, mas consegue ser afiada com seu tom desdenhoso.
Eren me olha em confirmação.
— Fui eu que deixei o copo cair — respondo.
— Ah. — Ele encara a garota. — Menos mau pra você.
Eren salta sobre os cacos, indo até a cozinha por uma vassoura. Quando ele volta, ainda mantenho meu olhar preso a garota.
— Ah é. Essa daqui é minha parceira do trabalho. — Ele aponta com o polegar. — Annie.
Annie esboça um sorriso longo, seguido pelo estender da mão.
— Annie, esse aqui é o Bertholdt, meu irmão. Fique longe dele, ok?
É um pouco engraçado como o aviso de Eren se torna vazio enquanto nos encaramos. Eu aperto a mão de Annie, que retribui com um forte aperto.
— Prazer, Bertholdt.
Notas finais
* Todo comentário ou favorit irá ajudar imensamente à fic continuar.
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