Fragmentos De Papel.
6 Capítulo 6
Notas iniciais
‘’Eu sinto muito’’.
‘’Ela era uma boa pessoa, sinto muito’’.
‘’ Vamos sentir saudades, sinto muito’’.
Não. Ninguém sentia muito por ela. Ninguém ao menos estava afetado por sua morte. Nem mesmo sua irmã que a vira morrer estava se importando com sua morte. Foi tudo no momento, o susto, o desespero, mas agora, quem era Luana? E porque me cobravam tanto para escrever textos fúnebres sendo que nem seu sobrenome eu sabia. A única que coisa que eu podia fazer era desejar meus pêsames a família, como respeito. No entanto, até minha mãe estava me cobrando textos fúnebres.
Nem Bruno e nem Rafael vieram ao velório e eu não entendia o porquê que eu tinha que estar aqui. Decidi então me aproximar do caixão onde estava seu corpo. A imagem dela sendo devorada passou pela minha mente, e eu não conseguia entender como a encontraram e como havia algum pedaço de seu corpo ali, sendo que a vi sendo devorada por inteiro.
Assim que chego perto o suficiente do caixão, lá estava ela completa, sem nenhum arranhão, sem nenhuma parte faltando, gelei no mesmo momento. Como então aquilo tudo aconteceu?
― São eles... ― Disse uma senhora que chegou sorrateiramente ao meu lado. Seus cabelos eram longos e brancos, sua fisionomia era tão magra que parecia ter apenas ossos e uma camada de um pano fino para cobri-los; a pele. ― Estão por todos os lados. Perturbando a mente de quem conversa com um deles. Fazendo-te ver coisas que para você é mais do que real, para no final você ser o louco e se juntar a eles. Tem um do seu lado, um no fundo da sala, um do lado da mãe dessa menina, como eu disse estão por todos os lados, mas só eu os vejo, mas ninguém acredita em mim... NINGUÉM! ― Gritou a mulher encarando-me. ― Há uma garota que eu quero ajudar... ― Abaixou a cabeça deixando uma lágrima cair. ― Minha sobrinha. Mas ela não fala comigo! Ela não pede ajuda a mim! E se os pais dela não acreditam no que eu falo como vou ajudá-la? Nunca devia ter deixado-a sozinha naquele lugar...
― Oh velha, aqui é para ser um lugar de respeito aos mortos, silêncio é bem vindo. ― Disse um homem de terno preto cruzando os braços.
― Mundanos! Hipócritas! Não querem acreditar na verdade e me chamam de louca! Vocês vão ver a louca quando as pessoas que mais amam morrerem. Essa menina morreu porque era ligada demais a minha sobrinha! Tudo está se desequilibrando quando se comunicam com ela! Todos vocês verão seus mundinhos se desabarem e eu irei rir de tudo isso. ― Disse a senhora apontando para pessoas aleatórias. Eu não estava entendendo mais nada.
†
Assim que cheguei a minha casa, tirei meu blazer preto e o joguei no sofá. Havia dezessete ligações perdida de Rafael, então resolvi retornar.
‘’Alô? ‘’
‘’Mano, se não sabe! ‘’
‘’ Fala logo’’
‘’ Enquanto você estava ai não atendendo minhas ligações, Bruno descobriu o que é H7 e Magnesia. ‘’
Aquela noticia me gelou. Meu coração começou a palpitar forte.
‘’O que é?’’
‘’Um hospital. No interior os hospitais são chamados de H mais seu número. No caso H7. Magnesia é nada mais do que uma cidade, na verdade é Magnesia das Dores, talvez você ainda receba alguma cartinha com o resto. ‘’
‘’ Isso é bom, mas o que realmente quer dizer tudo isso? ‘’
‘’ Cara, a mina ta de dando endereço de algum lugar, não perca essa oportunidade’’
Logo Rafael desliga e meu coração se aperta. Corro para meu quarto retirando da gaveta da escrivaninha meu caderno, assim anotando tudo o que ele havia me falado por telefone. Algo me dizia que eu estava desvendando tudo. Mas então comecei a pensar...
Porque raios eu estava correndo atrás de uma menina que nunca vi na vida? Porque estava me preocupando tanto em encontrá-la? Eram coisas que eu queria muito saber, por que não fazia sentido. Eu ao menos deveria conhecê-la para sentir o que estou sentindo, mas nem conhecê-la eu conheço, no entanto, meu coração se enche com uma sensação boa quando penso nela.
― Filho, uma carta para você... ― Diz minha mãe segurando em mãos uma carta. Ela parecia tão exausta de tudo, do trabalho, da casa, de mim, da vida. Isso me pegava de surpresa por que eu não queria ver minha mãe assim, com essa postura cansada e esse olhar desesperado por sossego, eu tinha medo do que isso poderia se tornar. Uma depressão ou até mesmo a morte...
― Obrigado mãe. ― Digo pegando a carta de sua mão. ― Mãe...
― Sim?
― Eu logo vou sair dessa casa... ― Suspiro fundo. ― Não vou mais perturbar a senhora, por que... Eu sei que já está na hora de eu partir, formar minha própria vida, arrumar uma esposa, um emprego bom, netos para a senhora.
― Por que está dizendo isso Thomas? ― Diz minha mãe abaixando a cabeça. ― E eu lá quero que você se precipite dessa maneira, longe de mim isso... Primeiro se estabilize na vida meu filho, antes de pensar nisso, de esposa e... ― Dona Jurema pôs-se a chorar. ― Eu... Eu queria tanto que ela estivesse aqui...
― Quem mãe? ― Pergunto acolhendo-a em um abraço apertado.
― Ela sempre sorria, cantava, brincava... Era uma moça tão educada. ― Minha mãe aperta minha blusa, deixando as lágrimas molharem a mesma. ― Se afastou de mim por causa de você, ela não queria ser uma estranha quando carregava em seu peito um lindo sentimento, mas agora ela sumiu, não dá sinais, nem mesmo seus pais falam onde ela está... Ela nem apareceu no velório de sua melhor amiga... Já não entendo mais...
Eu não sabia de quem minha mãe falava, logo pensei que estava cansada demais, por isso falava besteiras, então simplesmente a apertei forte contra meu corpo, ficando dessa maneira por longos minutos.
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