Fragmentos De Papel.
5 Capítulo 5.
Notas iniciais
20 de fevereiro de 2012...
― Odeio a cidade. ― Disse Maia observando o céu noturno. ― Há tanta luz que somos incapazes de olhar as luzes que vem do espaço.
― As estrelas você quer dizer? ― Indagou Thomas olhando para o mesmo lugar. ― São bonitas...
― Bonitas são as de onde minha tia mora. O céu é tão cheio de estrelas que dá até agonia de olhar, mas é tão lindo. ― Maia olhando para o céu parecia sonhadora, enigmática e ao mesmo tempo linda.
― Sabe quem é mais bonita que essas estrelas? ― Diz Thomas virando-se para Maia.
― Quem? ― Perguntou a menina com a mais pura inocência que existia.
― Você. ― Thomas sorri a encarando. Maia cora no mesmo instante e abaixa a cabeça. ― Você não devia falar essas coisas para mim, Luana não vai gostar nem um pouco.
Thomas pegou uma mecha do cabelo castanho claro de Maia e o enrolou delicadamente em seus dedos, fazendo cachos que logo se desfaziam.
― Maia, eu sei que você gosta de mim, não precisa esconder isso só porque Luana é sua melhor amiga. ― Thomas se debruça na grade da varanda da casa de sua tia e suspira. ― Eu já não penso nela da mesma forma.
― Pare com isso Thomas... Eu jamais trairia minha melhor amiga. ― Dos olhos de Maia começaram a escorrer lágrimas que logo a menina secava. ― Eu te amo. Sim eu te amo, mas ela te ama mais ainda. Demoraria muito para eu chegar até onde ela está. Ela devota todo seu tempo a você...
― Maia... ― Thomas bufa a jogando contra a parede. O menino prende os braços da menina e a encara com seriedade. ― Luana está me traindo nesse momento. ― Diz sem cerimônia. Dando um sorriso sarcástico logo em seguida. ― Se ela me ama por que faria isso? Se ela me ama ela estaria nesse momento comigo, te afastando de mim. É tudo um jogo Maia. E nesse tabuleiro nós somos as peças... Ela te inveja. ― Thomas a solta vendo-a abaixar a cabeça. ― Te inveja em todos os quesitos.
― Mas ela é linda! ― Grita Maia em defesa da amiga.
― E apenas isso. Do que importa a beleza exterior Maia? Se quem a pessoa realmente é vem de dentro? Luana não quer ser fútil, ser apenas vista como bonita, ela quer inteligência, carisma, ela quer personalidade. E isso é o que você tem. E a melhor forma de conseguir é roubando tudo o que é seu, você acha mesmo que ela me ama? Ela só me quer porque sabe que pra você eu sou importante. ― Thomas leva a mão à testa, passando-a pelo rosto. ― Há quanto tempo estamos juntos? Há mais de cinco anos, e é só por que nós dois usamos um ao outro. Uso ela por ser bonita, e ela me usa para afetar você. Simples assim. Nunca tivemos um relacionamento real.
― Mas... Mas... ― Maia começou a chorar com soluços. ― Vocês faziam sexo e se beijavam, davam presentes um ao outro, mas você nem ao menos gostava dela...
― Isso não são coisas que devemos fazer necessariamente com alguém que amamos. Isso é para nossa própria satisfação. E, além disso, nunca fomos fieis um ao outro. ― Confessou Thomas.
― Você me enoja falando assim Thomas. ― Maia cobre o rosto com as mãos.
― Desculpe...
― Faça comigo o que você faz com ela, então. ― Diz Maia decidida. ― Quero que me trate da mesma forma.
― Jamais vou te tratar da mesma forma. Não fale besteiras...
― Não te entendo... Eu... Eu... ― Maia olha para todos os lados sem saber ao certo onde fixar seu olhar. ― Vou falar com a Luana. ― Diz Maia saindo correndo para procurar pela amiga. Thomas arregala os olhos, e corre atrás dela para impedi-la de ver algo que talvez a afete.
Maia subiu escadas, e entrou em quartos aleatórios procurando por Luana sempre atenta aos passos de Thomas, pois não queria que ele se aproximasse nesse momento. A menina resolve subir mais um lance de escadas e quando chega ao último andar da casa que para ela mais parecia um castelo, começa a ouvir sons abafados vindo de um quarto. Sem pensar Maia abre a porta do quarto e se depara com sua amiga nua na cama com um rapaz que ela conhecia bem. Seu irmão.
†
6 de outubro de 2012...
― Rodrigo... ― Jurema disse sem emoção na voz enquanto segurava um pano nas mãos. ― O que faz aqui?
― Vim ver meu filho. ― Diz o homem alto e forte adentrando a casa da senhora.
― O que? ― A mulher começa a rir entretida com a frase que seu ex-marido havia falado. ― Você quer ver seu filho? Você não vem vê-lo desde que nos separamos.
― Pois agora eu quero vê-lo e não tente me impedir, eu tenho esse direito. ― O homem parecia impaciente.
― Pois então eu irei impedir. ― A mulher se põe diante do ex-marido de cabeça erguida para enfrentá-lo se fosse preciso. Como uma mãe sempre faz para defender seu amado filho. ― Você não tem porra nenhuma de direito de ver ou saber do meu filho. Quem criou esse menino, quem deu educação, amor e carinho fui eu! Nem mesmo quando éramos casados você se importava com ele. Quando ele adoeceu você se virou contra nós. Que pai nesse mundo faz isso?
― Olha aqui Jurema. ― Rodrigo a pega nos braços, apertando-os fortemente.
― Olha aqui digo eu. ― Diz Thomas descendo as escadas. ― Tira essas suas mãos nojentas da minha mãe agora, e vaza daqui. Antes que eu te tire a força.
― Veja só. ― Diz o homem abrindo um sorriso sarcástico e soltando a ex-mulher. ― Meu filho está tão... ― Rodrigo para de sorrir fechando a cara. ― Parecido com essa mulher, quanto desgosto.
― Velho suma daqui, por favor. Aproveite que estou sendo educado. ― Thomas abaixa a cabeça suspirando.
― Que deplorável... ― Rodrigo cerra os dentes. ― É assim que criou meu filho? Vadia. ― Sem tempo para que Jurema recuasse Rodrigo a acerta com um soco no nariz, fazendo-a cair.
O coração de Thomas palpitou tão forte ao ver aquela cena que até doeu. Simplesmente cerrou os dentes e as sobrancelhas, fechando o punho para bater em seu pai, mas antes que pudesse fazer isso, só bastou um soco de Rodrigo em seu crânio para que perdesse a consciência.
†
8 de outubro de 2012...
― Ele está reagindo bem. ― Disse uma bela doutora de jaleco e uma franjinha bagunçada tampando um pouco seus olhos. ― Até agora ele não perguntou de ninguém, nem mesmo da senhora, isso pode ser um problema, mas é melhor que ele a veja.
― Sim, deixe-me vê-lo.
Jurema e a doutora caminharam pelo corredor branco do hospital até uma sala onde Thomas se encontrava deitado em uma maca olhando para o teto.
― Como está se sentindo Thomas? ― Pergunta a doutora abrindo espaço para que a mãe do menino entrasse.
― Quero bater no meu pai. ― Responde o garoto sem emoção alguma. ― Ele está me culpando por algo que eu não fiz...
Jurema se aproxima da maca e o olha com um olhar solidário. Na cabeça de Thomas alguns fragmentos de memória passaram como vento, fazendo-o se recordar do rosto dessa senhora, mas ele não se lembrava dos momentos em que passara com ela, nem o que ela era dele.
― Você está bem meu filho? ― Indaga Jurema quase chorando ao ver a cabeça do filho enfaixada. Logo Thomas a associou como sua mãe.
― Estou bem mãe... ― Respondeu hesitante, sem saber ao certo se ela tinha esse grau de parentesco com ele.
Jurema pôs-se a chorar de felicidade, segurando forte na mão do filho.
― Uma pessoa virá te ver. ― Disse ela fungando. ― Maia.
Thomas tentou se recordar do nome, tentou puxar em sua memória algo relacionado a esse nome, mas nada vinha. A única coisa que Thomas conseguia se lembrar era de seu pai e sua vontade incessante de batê-lo e do rosto de Jurema. Mais nada, absolutamente nada ele se lembrava.
― Quem é Maia? ― Pergunta Thomas olhando para Jurema.
― Como assim querido, você não lembra da Maia? ― Jurema olha desesperadamente para a doutora que vai correndo até a maca.
― Talvez tenha sido a pancada. ― Diz a doutora examinando Thomas. ― Foi forte e num ponto peculiar que causou concussão cerebral.
― O que seria isso? ― Jurema já estava com o coração preste a sair pela boca, como toda mãe estaria ao receber noticias como essa do filho.
― É um movimento brusco do cérebro dentro do crânio, o que causa amnésia. Pergunte a ele sobre outras coisas.
― Filho, você se lembra da Luana? Do Pedrinho? Ou do dia em que te ensinei a ler? Você nunca se esquece... ― Indagou Jurema a pedido da doutora.
― Não me lembro de nada disso. ― Respondeu o garoto mais uma vez sem emoção alguma.
Atrás da porta estava Maia ouvido tudo. A menina apreensiva com tudo isso, olhou para o teto e jogou seu corpo contra a parede.
― Ele... ― Suspirou ― Não se lembra de mim...
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