Fracos

19 Capítulo 19: Adeus Greengrass


Notas iniciais
Oi! Gente, eu estou bem decepcionada com a falta de reviwes, eles me estimulam a continuar com a história, pq sei que as pessoas estão gostando e ela não perdeu a qualidade, então por favor, eu peço encarecidamente que vocês deixem um comentário, não só favoritem, por que eu não quero estar sozinha aqui. Tabom? Aproveitam a leitura!

Visão de Astoria Greengrass

Desço as escadas um degrau de cada vez, com consciência que estou sendo observada pelos sonserinos da Sala comunal. Eu não levanto os olhos para encará-los, eu não posso, é doloroso demais ver suas expressões interessadas no que está acontecendo, curiosos e absolutamente alheios à dor que eu estou sentindo.

Meus olhos estão fundos, a pele pálida, tão mais pálida que o natural que aparento estar doente, mas eu não estou preocupada em como estou parecendo, mas quero desviar os comentários maldosos, por isso ponho um chapéu grande na cabeça, propositalmente sombreando e atrapalhando a visão que os outros têm do meu rosto.

Draco Malfoy, meu “noivo” espera por mim no fim da escada, trajado em um terno negro, sem gravata e uma expressão sombria em seus olhos cinza, ninguém ousa olhá-lo por muito tempo, a impressão que dá é que ele pode explodir a qualquer minuto com alguém que possa fazer uma pergunta estúpida sobre o velório.

Nós entrelaçamos nossos braços e seguimos os quatro – sim, Blásio Zabini e Pansy Parkinson também – para a sala da diretora e depois via pó de flu para a mansão dos Greengrass e por fim o cemitério onde minha irmã será enterrada.

Não há nuvens no céu, o dia esta agradável, ensolarado, mas não o bastante para me fazer soar, não há nenhum sinal de chuva e isso honestamente cai bem para o momento, este não é um enterro fúnebre e cheio de lágrimas sinceras, por todos os lados vejo homens e mulheres que não se importavam com Dafne Greengrass chorando lágrimas de crocodilo e não tem razão para estar aqui a não ser manter aparências, o tempo não lamenta a morte de minha irmã e nem 90% dos presentes também.

Dafne Greengrass era a abelha rainha da Sonserina, uma das garotas mais populares de Hogwarts, vencedora de inúmeros concursos de beleza, futura advogada de sucesso, mas não era amada, em vida Dafne era temida, invejada, odiada pelas mesmas pessoas que irão prestar homenagem a ela após sua morte. Isso me enoja, eu estou cansada de tudo isso.

Eu estou sofrendo a perda dessa grande vaca, apesar de não termos um laço de companheirismo, no fim das contas Dafne é minha irmã e se ela não tinha um bom caráter, isso é culpa total e inteiramente de Carlisle e Rebeca Greengrass. Dafne merecia uma chance de redenção, nem tudo nela era ódio, ela sofria muito, sua alma era torturada pelas inseguranças de ser uma Greengrass e do seu jeito doentio me amava.

“Filha e irmã amada. Jamais a esqueceremos” é o que sua lápide diz, onde seu caixão descansa como em sua vida — com muita beleza -, a riqueza dos Greengrass esta estampada até mesmo em sua morte.

Draco e Pansy se afastaram de mim para deixar suas flores na lápide, mas eu permaneci afastada com Blásio, o único de nós que realmente parecia sincero e confortável com toda a hipocrisia a nossa volta e meu sofrimento (coisa que os outros dois não sabem lidar), Draco e Pansy odiavam minha irmã, ao contrário de Blásio que apesar de Dafne já ter tido suas implicâncias com ele sobre sua sexualidade não guardava sobre ela qualquer sentimento negativo, aliás, sentimento nenhum, Blásio é uma ilha, ninguém consegue atingi-lo, às vezes acho sua habilidade de não sentir uma qualidade e admiro que mesmo assim ele tenha respeito pela morte da minha irmã.

Ainda estou chorando, eu estou impressionada com a quantidade que posso produzir lágrimas, desde o momento que fui avisada da morte estou chorando, chorando de verdade, por que dentro de mim achava que ainda havia chance de redenção, apesar de toda a raiva inicial por achar que ela seria Crudelis, pois eu estaria mentindo se dissesse que não sei o que ela sentia, nós viemos de um mesmo principio, Dafne apenas lidava com a dor diferente de mim, poderia ser eu naquele caixão.

—Srta. Greengrass, eu sinto muitíssimo, — um homem se aproxima com papel e uma pena na mão, um maldito repórter, mais a frente vejo meus pais sendo entrevistados por outro homem, a mídia esta enlouquecendo que a nova vítima na Ilha de Pégaso seja a riquíssima Dafne Greengrass, a sua morte não foi ligada as outras, pela falta do padrão, mas é óbvio que se trata de um assassinato e é um prato cheio para a mídia – você tem suspeitas do assassino de sua irmã?

As minhas lágrimas aceleram no meu rosto e eu soluço involuntariamente, atordoada com a falta de respeito e impaciência para refutar.

—Isso não é trabalho dela, é da polícia – Blásio respondeu grosseiramente.

O homem não voltou a falar, apenas se afastou timidamente de nós.

—Obrigado, você não precisava fazer isso.

—Não me agradeça, eu estou satisfeito em afastar esse câncer de mentiras que eles chamam de jornal, o trabalho deles se resume a atrapalhar investigações em andamento.

—Obrigado mesmo assim – eu dou um meio sorriso enxugando as lágrimas

—Eu li o relatório inicial do legista. – ele dirigiu os olhos pra mim, mas continuou sério — Quer saber o que eu li? Assassinada por um Avada Kedrava, mas curiosamente descobriram algumas marcas em seu corpo que eram transfiguradas diariamente para não se tornarem visíveis, eram quadrangulares com uma cruz central.

—Sei, — eu baixei a manga esquerda do meu vestido e expus um hematoma recente para Blásio – é esse?

—Sim.

Eu olho para meu pai, o impecável burocrata a alguns metros de distancia abraçando sua esposa chorosa enquanto da uma entrevista e foco os olhos na fivela do seu cinto, Blásio acompanha meu olhar e bufa, entendo o que se passa, Dafne apanhava do papai quando saia da linha, assim como eu.

—Esconda isso, — Blásio ordenou e eu levantei a manga rapidamente – seu hematoma é recente, três semanas, eu acho, as marcas da sua irmã eram mais profundas, antigas.

—Faz sentido, — eu concordei lembrando o que ela havia me dito e mais lágrimas desceram pelo meu resto – poderia ser eu nesse caixão.

Outros responderiam algo como “eu lamento”, mas Blásio não, ele não lamenta e não vai mentir sobre isso.

—Você é a primeira pessoa que eu conheço que não esta brava comigo por que eu deveria estar agindo como os outros daqui.

Ele olhou com nojo e descrença para o homem gordinho e loiro que esta lagrimando enquanto faz seu discurso prestando homenagem à garota morta, eu fixo meus olhos nele por um tempo e demoro em lembrar que é um dos amigos do papai do Ministério, nem me lembro de se um dia já teve uma conversa amigável com Dafne. Ridículo, isso me dá raiva.

—Você não é sentimental, você é diferente, como eu. – eu explico — Eu respeito isso.

Blásio é de uma família rica de uma médica cirurgiã e um detetive particular, é sonserino, amigo de Draco Malfoy e um homem negro, alto, inteligente e muito atraente, mesmo assim é um antissocial, sociopata, estranho, é diferente, assim como eu sou para a minha família.

Meus pais caminham em minha direção, de mãos dadas, poderosamente. Mamãe uma mulher de quarenta anos com um corpo invejável para muitas meninas da minha idade, de olhos azuis e um cabelo loiro dourado, cheio de cachos que caem perfeitamente em suas costas, um retrato futurista do que minha irmã seria se estivesse viva nessa idade.

—O que disse ao repórter? – meu pai é direto – Seu comportamento é essencial agora.

—Não fiz nada, ele respondeu por mim, — eu me defendi enxugando as lágrimas e olhando para o meu lado, mas Blásio não esta comigo, ele caminha com as mãos no bolso indo em direção a Isabel Zabini, sua mãe, a médica da nossa família – Blásio foi educado e ele entendeu que seria melhor fazer perguntas depois.

—Por que esta usando esse vestido? – minha mãe me olhou de cima abaixo, chocada, referindo-se ao delicado vestido de mangas compridas, preto e saia rodada que era da minha irmã.

—Eu queria vestir algo dela.

—Não lhe cai bem, Dafne tinha um corpo mais desenhado.

Poderia ser pior, pelo menos eu cresci nas férias e não sou mais tão esquelética quanto costumava ser, se fosse ela estaria dizendo coisas bem mais maldosas.

—Os preparativos para a festa de noivado estão todos prontos? – papai pergunta

—Não devíamos estar falando da minha irmã? Ela morreu.

—Não fale como se eu não lamentasse, — mamãe se sente ofendida enxugando suas lágrimas, ela também lamenta a morte de Dafne, mas via nela as qualidades erradas – eu amava minha filha, ela era linda, forte e segura de si, mas agora nós só temos você para exercer o legado da família.

—Exatamente, não cometa suicídio social.

“Suicídio social” é como ele chama o balé.

—Estão errados, — eu discordei secamente – vocês não me tem.

Dou as costas, sem olhar para trás, puxo o chapéu na minha cabeça mais para baixo e ando a passos apressados pelo cemitério, não sei exatamente para onde devo ir, mas preciso chegar lá rápido. Preciso de Rony. Preciso jogar tudo que eu estou sentindo para fora.

—Ei, aonde você vai? – Draco esta correndo atrás de mim, me ultrapassa e fica na minha frente atrapalhando a passagem.

—Quando você a encontrou no quarto, você ia mata-la, não é? – eu jogo para fora meus pensamentos através de palavras.

—Dafne esta morta, mas não foi eu que fiz isso.

—É, e você agradece quem fez, — eu sou irônica – poupou seus esforços.

—Você não está bem, — ele me olhou estranhamente – esta fora do seu normal desde ontem, precisa descansar...

—Cala boca, Draco – eu o interrompi com raiva, ele se calou imediatamente surpreso comigo – você é muito falso e eu estou cansada de fingir que não estou vendo. Você foi lá para matar minha irmã, quando eu disse claramente para não fazer isso, você estava certo, quando você conseguiu a sala de espelhos para mim você disse uma coisa que eu não acreditei, mas agora eu entendo, você não é bom, você só é legal com alguém quando isso traz benefícios para você, casar comigo traz benefícios para você. Cansei de ser trouxa.

Merlin... Como eu pude me apaixonar por alguém tão idiota?

—Não, — ele discordou, seus olhos cinza vidrados nos meus, implorando para que eu mude de ideia, mas eu estou com raiva demais para se quer pensar nessa possibilidade, ele fecha e abre a boca algumas vezes procurando por palavras, o empurro da minha frente e ele me segura – ei, eu amo você.

—Fingido. Vai embora Draco!

Suas mãos suavizam o aperto no meu pulso e eu o empurro com força para longe de mim, de cabeça baixa, sigo meu caminho sem olhar para trás, ele não merece isso, Draco não merece nada de mim.

Visão de Hermione Granger

—Então você vai ficar mais tempo? – eu sorri, dividindo minha atenção ao rapaz na minha frente e o balcão onde eu despejo todos os meus livros.

—Sim, — Viktor respondeu com um sorriso singelo — eu vou trancar a faculdade.

—E você não vai perder os treinos de Quadribol?

—Não, eles só começam no próximo mês, — o moreno despejou os últimos livros — o meu Relações públicas acha que é uma boa ideia eu dar aulas para alguns jogadores amadores do primeiro ano, é publicidade positiva e eu gosto de ensinar, isso também vai me dar mais tempo para eu ajudar com a Gina com seus treinos finais antes de conhecer a equipe dela.

—Você esta ajudando muito ela, obrigado, — eu toquei seu ombro amigavelmente e sorri – eu não entendo nada sobre isso e fico feliz em saber que ela tem alguém experiente.

—Srta. Granger... — a bibliotecária diz meu nome de forma carismática, arruma os óculos no rosto e observa todos os livros em cima do balcão.

São apenas 14h da tarde, o horário vespertino de funcionamento da biblioteca do castelo acabara de começar e há poucas pessoas a nossa volta, natural já que as aulas começarão oficialmente apenas na próxima semana e por isso poucos tem frequentado aqui, o que facilita para Sra. Margaret decorar meu nome, afinal tenho estado aqui todos os dias.

—Você esta entregando todos os seus livros hoje?

—Sim, menos o de Defesa contra Artes das trevas, eu quero revisar essa noite.

—Tudo bem – a mulher concordou

—Sua prova é amanhã, ansiosa?

—Sim, muito – eu sorri nervosamente segurando o colar que Letícia me presenteou – eu estou estudando muito, vou virar hoje à noite fazendo a revisão, é a minha chance. Sabia que a tacha de nascidos trouxas passarem é muito pequena? Eu sei que eu vou passar e quando isso acontecer minha vida toda vai mudar, eu estou animada com a faculdade.

—E você já sabe o que fazer? – Viktor segurou minha mão e começamos andar para fora da biblioteca

—Não, — eu respondo insegura, olhando disfarçadamente nossas mãos entrelaçadas e sentindo que havia algo errado nisso, não é a primeira vez que andamos de mãos dadas em público, mas sinto que essa vez é diferente – eu andei pensando em Políticas da bruxaria, direito, medicina mágica, são muitas possibilidades.

—Você vai ser incrível no que escolher, — Viktor balançou nossas mãos e me fez girar simulando uma dança, eu ri divertidamente e parei encostada em seu peito – em Políticas da bruxaria você poderia voltar a lutar pelos direitos dos elfos.

—Eu sei, é isso que me interessa, — eu concordei com a cabeça positivamente e continuei sorrindo bobamente, ignorando a aproximação dos nossos rostos e corpos – eu posso trabalhar para erradicar a diferença entre puros e mestiços, realizaria meu sonho fazendo um mundo melhor.

O rapaz me olhou docemente e aproximou nossos lábios, colando-os por alguns segundos em um beijo casto e romântico, infelizmente não o bastante para fazer com o que eu me apaixone por ele.

Viktor me faz bem, me faz pensar menos em Draco, menos.

—Seu sonho é fazer o mundo melhor... – ele suspirou, beijou o alto da minha cabeça carinhosamente e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha — Hermione, como eu consegui ficar tanto tempo afastado de uma pessoa como você?

—Vem, eu preciso ir a um lugar, — eu estou corada, desvio o olhar, o puxo para a escada e descemos os degraus de mãos dadas – Lilá Brown esta organizando o show de talentos, Gina fez eu me inscrever como cantora.

—Nossa! E por que não disse isso antes?

—Não sei, — eu admiti parando na frente de uma porta, sons misturados vêm do interior da sala, ela deve estar cheia de gente – eu estou feliz, é a minha forma de dizer que eu tenho controle sobre tudo. Eu vou entrar, nos vemos depois?

—Claro

Nós nos abraçamos, então por cima dos ombros dele vejo Draco Malfoy virando o corredor em nossa direção, mas ao nos ver, ele parou o passo, com uma expressão fechada girou e seguiu por outro corredor, isso me incomodou.

—Até depois – Viktor se despediu me dando um beijo rápido nos lábios e saiu subindo a escada novamente

Respirei fundo profundamente uma vez e coloquei a mão na maçaneta da porta com pensamentos adversos. Draco não parece bem, ele estava vestido um terno preto, provavelmente chegou do velório há pouco tempo, será que ele precisa de mim? E se eu fosse, Crudelis veria isso como um envolvimento nosso?

Eu me sentiria incomodada se o visse abraçando outra garota, ele se sente quando me vê com Viktor? Ou simplesmente prefere não manter contato depois do presentinho que ele me viu receber de Crudelis e descobrir que eu sou uma assassina? Provavelmente a segunda opção, não posso me iludir sobre os sentimentos dele e mesmo que ele tenha algum por mim, seria burrice achar que estar com ele pode acontecer em um momento como esse.

Girei a maçaneta e entrei na sala, música, gritaria e barulhos estranhos se misturam, todos estão trabalhando duro para os últimos preparativos para a festa de encerramento que será no jardim, Lilá Brown esta com uma prancheta, em volta de muitas alunas que anotam atentamente suas ordens, ela esta focada no trabalho, enquanto ao fundo vejo Gina e Luna em uma mesa conversando com outra equipe sobre o que parecia ser a montagem do palco.

Alguns instrumentos musicais estão espalhados pela sala e muitas portas transparentes e isolantes de som estão espalhados na parede a minha direita, em cada uma delas pela parede de vidro vejo algumas pessoas ensaiando seus números de dança e música.

—Não parem de trabalhar, tudo tem que estar perfeito até o ensaio geral com a iluminação e o som na sexta, — Lilá esta conversando com a equipe — não se esqueçam que teremos de tudo, de números de dança a humoristas, tem que estar em ordem. Por favor, não me deixem mais maluca do que já estou, podem ir. Oi Hermione! Do que vai precisar para sábado?

Lilá me recebe com um sorriso iluminado, animada com tudo a sua volta e eu forço um sorriso tão bom quanto ela, é difícil olhá-la desde que Blásio contou sobre seu caso com o detetive do Ministério.

—Eu vim hoje testar notas em alguns instrumentos...

Eu paro a frase no ar ao ouvir uma música muito familiar. A casa da família Zabini tem um piano branco de cauda, ele esta na sala de estar, debaixo da janela principal, Joseph Zabini, papai, costumava tocar essa mesma música repetidas vezes quando estava entediado pela falta de casos interessantes.

Blásio esta tocando essa mesma música em um piano preto na lateral da sala, tão bem quanto papai, ele é um excelente pianista e um péssimo cantor.

[https://www.youtube.com/watch?v=vQuaUR7nX8U]

—Ele é muito bom, não é? – Lilá suspira pressionando a prancheta no peito – Ele está ali faz meia hora.

—Sim...

—Se precisar, me chame. Ei Penélope, volta aqui com essa guitarra! – Lilá gritou a última parte correndo atrás de uma garota loira.

Andei devagar até o piano e me encostei ao instrumento para assistir ao meu irmão, suas mãos voam pelas teclas em uma melodia difícil até mesmo para estudantes de música, aposto que ele ainda pratica diariamente na mansão.

Eu percebo que muitas pessoas estão observando Blásio, impressionadas e maravilhadas com o seu talento, mas estão acovardados para chegar mais perto, Blásio é um pouco intimidador quando não se conhece, ele tem mania de fazer outras pessoas se sentirem burras na sua presença.

Blásio me ignorou e os outros olhares até o fim da música, quando finalmente dirigiu me deu atenção e ergueu uma sobrancelha que eu encarei como um “o que você quer?”.

—Como foi o velório? – o que eu realmente quero perguntar é como Draco está, mas acho que isso só complicaria as coisas, Crudelis foi bem claro.

—Mamãe estava lá, — ele respondeu despreocupadamente folheando seu caderno de músicas – ela vem nos visitar amanhã, você vai estar aqui para o almoço?

—Sim, — eu sorri – ela esta bem?

—Sim, preocupada com você.

—Tudo bem, eu vou conversar com ela amanhã com calma. – eu me sentei ao seu lado no banco — Você vai tocar no show?

—Não, — ele continuou sério — mas eu não vejo um piano há muito tempo e eu estava com essa música na cabeça.

—Eu sei, às vezes eu fico cantarolando, — eu ri balançando as pernas suspensas no banco – papai era um bom músico e tinha habilidade para tocar os clássicos, ele era tão sentimental quanto você consegue ser, mas eu sinto falta dele e você?

—Você não estaria aqui se não tivesse se inscrito para o show, o que vai cantar? – Blásio ignorou completamente minha pergunta como sempre faz quando falamos sobre o papai, sinto que ainda é um assunto difícil para ele, os dois eram muito ligados.

—Uma composição minha, — eu decido responder sua pergunta para evitar conflito – me assista, você vai gostar.

Blásio assentiu positivamente, mas continuou com uma expressão séria no rosto, algo o está perturbando muito desde antes de eu ter mencionado o papai, ele folheou o caderno procurando algo especifico e quando achou se posicionou para tocar.

[https://www.youtube.com/watch?v=EoaPhxNubL0]

Durante as primeiras notas reconheci a música e o olhei sorrindo, mas ele não correspondeu, seus olhos estavam baixos nas teclas brancas do piano. Isso normalmente deixaria outra pessoa chateada, mas o conheço a tempo o bastante para estar acostumada com sua indiferença.

Esta música é um dueto, uma das primeiras músicas que nós aprendemos juntos. Aceitei isso como um convite para tocar com ele, portanto esperei pelo momento certo e comecei a tocar.

Na medida em que pressiono as teclas com os dedos, sinto minha alma se intensificar. As notas do piano deslizam pelo tecido do tempo e me guiam para outra época, Blásio não é mais um homem, mas um menino magricelo, criança, da mesma idade que eu, mas menor em estatura, asmático e metido a inteligente, uma ótima pessoa para competir.

Aos oito anos nós estamos sentados tocando piano, tão bem quanto dois adultos, discutindo sobre qual seria melhor pianista, é o Blásio, é claro, mas me recuso a aceitar o fato, por isso me vanglorio sobre o quão bonito papai acha que minha voz é.

No presente Blásio e eu nos entreolhamos, eu ofereço um grande sorriso e ele retribui com sua boca curvando em um quase sorriso de dentes, é a minha vez de tocar a melodia principal.

Em minha lembrança mamãe está no sofá lendo seu livro novo sobre medicina, ela está concentrada demais para ligar para as duas crianças competitivas ao piano, é quando papai chega do trabalho, nós corremos para abraça-lo, ele beija o alto de nossas duas cabeças, se senta ao piano e começa a dizer quais movimentos estamos errando, mamãe sorri nos observando atentamente e esperando seu momento de receber um beijo, eles são um bonito casal, apesar de não serem um dos mais tradicionais.

Papai era frio sobre quase tudo a maior parte do tempo, um detetive analista, mestre em dedução, o melhor que já conheci, só duas coisas o faziam demonstrar aspectos humanos em sua personalidade pouco afetiva, essas coisas eram a mamãe e o piano, Blásio o idolatrava.

E como se isso fosse possível, Blásio e eu tocamos o dueto muito melhor do que na nossa infância, não sei em que momentos os outros sons pararam, mas pararam e nós somos os únicos a soar, todos estão olhando para nós.

Harry já sabe a verdade, mas isso não significa que eu vou espalhá-la por aí, por isso ninguém sabe da nossa história e devem se perguntar o que nós fazemos tocando juntos.

Nós continuamos tocando a música perfeitamente, trocando olhares cumplices, cheios de histórias de criancices petulantes e inteligentíssimas que ninguém jamais acreditaria, Blásio e eu sempre brigamos, discordamos de ideias simples do dia a dia, gritamos e dizemos coisas grosseiras um para o outro, então esquecemos magicamente, nunca sofremos em um clima tenso e terminamos um dia tocando no piano.

Enfim terminamos a música e Blásio sorriu para mim enquanto desliza os dedos pelas teclas no pino para um grande final.

—Eu ainda sou melhor que você.

Somos pegos de surpresa por uma salva de palmas, olho sorrindo agradecida por todos, enquanto Blásio ostenta um meio sorriso convencido e depois ignora a todos folheando seu caderno, garoto egocêntrico.

—Eu sou fantástico – ele suspirou para si mesmo folheando o caderno

—Seja humilde pelo menos uma vez – eu revirei os olhos

—Por quê? Eu sou mesmo fantástico.

—Bobo, — eu ri – admita, você sentiu falta de tocar comigo, inclusive quando cheguei a Ilha você disse pra mim que sentiu a minha falta – eu dei um soquinho de leve em seu ombro direto e ele me olhou como se eu o tivesse nocauteado, exagerado e frágil como sempre.

—Você esta delirando, Hermione.

—Gina esta certa, — ao dizer o nome de Gina, Blásio pareceu finalmente prestar atenção no que eu dizia – você realmente se importa comigo, esta fingindo.

—Pare de ouvi-la, — o negro olhou para a ruiva do outro lado da sala e depois voltou a me olhar — ela gosta de sonhar com coisas que jamais acontecerão.

—Sabe Blásio, você realmente nunca foi sociável, mamãe gritava com você para ser mais gentil com as visitas, mas você não era tão indiferente com a nossa família, todos sofremos com a morte do papai, mas você mudou.

—É coisa da sua cabeça, – ele fechou a cara e desviou o olhar para seu caderno – eu não mudei, você só achava que me conhecia.

—Você é igual ao papai, — meu tom se torna mais sério – e não estou só falando de personalidade. Merlin, Blásio! – eu exclamei baixinho – Quando eu olho para você e vejo o quanto você cresceu, juro que parece que estou olhando para o papai.

Blásio enrijeceu o corpo, continuou encarando o caderno, fingindo estar lendo a escala musical, quando eu sei que ele só esta fingindo.

—Mas papai amava a mamãe, — eu continuei – me amava e amava você também, eu não sei por que insiste com essa ideia de que sentimentos nos deixam fracos.

—Talvez eu só saiba de coisas que você não sabe – ele me olhou sério, seus olhos escuros me encaram profundamente e eu estremeci, ele não estava sendo enfático, Blásio sabia mais do que dizia.

—Granger? – ouço uma voz familiar me chamar – Hermione, eu quero falar com você.

—Tudo bem, — eu respondo sem olhar para a pessoa – o que deseja?

Ao perceber a hesitação em continuar a falar, eu me viro e me levanto para encará-la, é Pansy Parkinson, milhões de coisas se passam na minha cabeça do que poderia ser o assunto, mas sou pega de surpresa por suas palavras.

—Procure Draco, ele precisa de você – Parkinson diz quando nos afastamos de Blásio.

—Hum... Parkinson...

—Pansy – ela me interrompeu para me corrigir.

—Tudo bem, Pansy. – eu afirmei – Não sei se é uma boa ideia, não sei se Draco ti falou sobre nossa situação.

—Você gosta dele? – ela é direta

—Nossa. Você é mesmo muito direta.

—É que eu não gosto de rodeios, – ela sorriu maliciosamente – gosta ou não?

—Por que ele quer falar comigo? – eu corto o assunto, não quero falar abertamente sobre isso com alguém tão cedo, já basta o constrangimento com Harry.

—Ele não pediu, mas eu seria cega se não percebesse, Astoria e ele brigaram, acho que ela pensa que Draco matou a Dafne, — Pansy continuou séria – as coisas não estão fáceis e penso que você o deixaria feliz.

—Feliz? – eu emudeci, surpreendida pela escolha de palavras da Sonserina, como eu Hermione Granger faria Draco Malfoy feliz? Nem sei o que eu diria, esta certo que ele me disse muitas coisas profundas sobre sua família, mas não acho que eu esteja mais qualificada para ajuda-lo nesse momento que Pansy.

—É, — ela rolou os olhos nitidamente sem paciência – não me importo se você vai falar ou tranzar com ele, mas pelo amor de Merlin, anima o coração daquele garoto, a vida dele já é horrível.

—Tudo bem – eu corei ao ouvir “tranzar”, um flash sensual surgiu na minha cabeça e eu senti meu corpo inteiro esquentar ao pensar na possibilidade.

—Perfeito. Viu a Brown? Tenho assuntos sobre o show.

—Esta ali, – eu gesticulei com a cabeça para Lilá que esta surtada – você vai dançar?

—Dançar? – ela riu – Não sei dançar – a garota se distanciou

—Dançar? – Blásio riu quando eu me aproximei, ele devia estar ouvindo a conversa a distancia – Você desceu de nível com seu senso de percepção.

—Errei tão mal assim?

—Os dedos dela e o queixo, as respostas estão lá, amadora.

—Cala boca – bufei

Visão de Rony Weasley

—Então ela disse a verdade, – eu concluí após o fim da sua narrativa, acariciando a palma de sua mão pequena e pálida na minha, tão frágil – eu sinto muitos por vocês, Asty. Você devia denunciar o que ele fazia com vocês.

—É tarde demais, esta tudo bem, eu vou me casar e com sorte ser aceita na escola de balé, mas muito obrigado. – a loira suspirou fechando os olhos e apertando sua mão macia a minha grande e áspera – Sabe, isso muda tudo, eu sinto que tudo o que eu compreendia sobre por que continuar dançando mudou, era sobre mim, como eu me sinto ao dançar, mas agora é sobre nós duas, sobre quem eu sou e o que eu vou me tornar se eu parar de dançar. Isso me dá forças, eu enfrentei meus pais pela primeira vez.

—Então, você vai para o teste na sexta?

Eu inclinei meu corpo para trás e me apoiei no espelho, Astoria se inclinou e deitou no meu peito, ela esta sentada no chão comigo na sala de espelhos, acomodada confortavelmente entre minhas pernas.

—Sim, eu preciso fazer isso, eu quero mudar, ter coragem para fazer o que eu quero fazer.

Astoria sempre vê o melhor em tudo, não estou surpreso em ela ter transformado a morte da irmã que ela detestava para algo construtivo e belo.

—Ai! — eu gemi quando ela se mexeu e tocou meu ombro, ela se afastou rapidamente de mim, assustada.

—Desculpe! Eu machuquei você?

—Não, — eu ri, como se uma garota tão pequena e magra pudesse me machucar – eu só estou treinando muito, Mestre Solomon é muito exigente.

Eu mexi meu ombro devagar, acostumando-me com a dor e por reflexo olhei minha bolsa jogada ao meu lado, a tentação era devastadora, as pílulas do crescimento são viciantes, por que seu efeito lhe traz sensação de poder.

Bastaria tomar uma pílula e minha dor sumiria, então eu estaria em um estado elevado de uma sensação de poder, glória, muito forte fisicamente, meus músculos cresceriam com mais facilidade, eu me sentiria invencível, exatamente como eu queria me sentir agora, mas o efeito duraria pouco e a dor voltaria, então eu teria que tomar uma pílula novamente.

Eu sei que não é saudável, eu sei que é perigoso, mas todos querem se sentir invencíveis e depois que se toma uma primeira vez é difícil parar.

—E como sãos os treinos?

—Puxados, ele tem me ensinado técnica e estratégia, eu não tinha nada disso.

—Que bom, — ela sorriu – em qualquer dia quero ver você lutando.

Astoria levantou-se e eu pude notar sua vestimenta, um par de sapatilhas com ponta, uma calça comprida de um tecido confortável e uma blusa folgada azul escura, tão grande que seu ombro fica a mostra às vezes, mas não vejo uma alça de sutiã, ela deve estar usando um top, ela sempre se veste assim desleixadamente quando vem dançar, é preciso prestar atenção para ver que a garota tem sim curvas.

A loira tirou os óculos um segundo e limpou o vidro na blusa antes de coloca-los outra vez no rosto, por alguns segundos posso ver seu rosto limpo, sem a armação para atrapalhar, ela é bonita.

—Draco e eu brigamos, — ela declarou, respirou fundo e continuou encarando o próprio reflexo no espelho – não nos falamos desde então, ele não matou a Dafne, mas queria e teria matado, mesmo sabendo que eu não queria isso, o que ele queria era mais importante, ele é um idiota, eu o amo.

Meu coração dispara, desvio os olhos da garota para o piso e me pergunto se devo dizer algo, Astoria deveria saber sobre o envolvimento do Malfoy e Hermione, sendo por motivos que não são o amor ou não eles vão se casar e Astoria é apaixonada por ele, mas ela já esta triste e me pergunto se o que eu vou dizer só vai piorar as coisas.

—Ele sempre foi tão gentil e protetor comigo, parecia ser um bom homem no fundo e eu me apaixonei por isso, — ela continua triste – eu acho que me apaixonei por uma coisa sobre ele que eu inventei. O próprio Draco já me avisava que não era bom.

—Você vai esquecê-lo.

—Você esqueceu a Hermione?

Nossos olhares se cruzam e eu engulo em seco.

—Não, — eu admito – mas preciso lidar com o fato de que ela não me ama do jeito que eu quero.

Silêncio.

—Você ainda vai mesmo se casar?

—Eu queria dizer que só quero me casar pela tia Narcisa... – ela bufou – mas não é verdade, eu gosto mesmo dele.

Astoria mexeu a cabeça afastando pensamentos e começou a dançar, sem música, apenas fazendo alguns passos aleatórios de balé, ela parecia voar no assoalho.

Em um movimento ela levantou as duas mãos e girou na ponta dos pés, com isso sua blusa moveu do lugar e eu pude ver um pedaço da sua barriga lisa uma cicatriz estranha.

—Ei, o que é isso? – eu me levantei e me aproximei da garota que parecia assustada – Na sua barriga, tem uma coisa.

—Não é nada – ela respondeu nervosa

—Me deixe ver, você pode ter se machucado e não viu, vai precisar ir à enfermaria

—Não, — ela negou com a cabeça e abriu distancia entre nós, cruzou os braços em cima do peito para se defender – isso é antigo, já fui examinada, não é nada demais, papai estava chateado comigo e exagerou.

—Exagerou? – eu levantei uma sobrancelha – Isso esta enorme e parece profundo, me deixe ver.

—Não

—Por favor, – eu me esforcei em ser gentil, a olhando sem desviar em seus olhos castanhos – você não confia em mim?

A loira hesitou um tempo, até finalmente balançar a cabeça positivamente e descruzar os braços, eu dei um passo em sua direção e ela pareceu tremer de nervosismo.

—Vai ficar tudo bem – eu a confortei

Astoria respirou profundamente e respondeu com um acenar de cabeça.

Sem desviar meus olhos dos dela, eu toquei com uma mão em sua cintura, massageando-a com o polegar e com a outra peguei a barra de sua blusa, devagar comecei a subir a barra até a sua cintura, então baixei os olhos e encarei sua cicatriz, que descia da altura do seu umbigo até desaparecer dentro da sua calça.

Eu baixei meus dedos para sentir o revelo da sua pele, Astoria estremeceu com meu toque, não ouvi uma reclamação, então não parei, eu senti a profundidade na altura do umbigo e a forma que a cicatriz se tornava rala até chegar à calça, que parecia ser meu limite, embora eu ansiasse por tocá-la ainda mais, parei.

Astoria me olhou ofegante, mordendo o lábio inferior, parecendo estar sofrendo com algo, devo ter feito alguma coisa errada.

Fitei seus lábios mais rosados do que o normal e os desejei, não pensei se seria rejeitado, apenas fiz o que eu queria fazer, a beijei.

No mesmo instante Astoria correspondeu o beijo, eu a segurei pela cintura e apertei contra meu corpo, ela enlaçou os braços ao redor do meu pescoço e me puxou mais para ela, me surpreendo, jamais pensei em Astoria dessa forma. O beijo foi urgente, cheios de vontades implícitas pelos nossos corpos eriçados e mordidas nos lábios, ela me queria, eu também a quero e mesmo isso sendo muito de repente eu quero consumar esse desejo.

—Opa, desculpa – ouço a porta abrir e fechar acompanha por uma voz, Harry Potter.

Astoria e eu nos afastamos em um pulo, ela esta vermelha de vergonha, encarando o rapaz que está confuso, sem saber se deve ir ou ficar.

—Desculpe interromper, sério, – ele pediu sem jeito, só não tanto quanto Astoria e eu, eu estou escarando a parede, enquanto Astoria se esconde atrás de mim, envergonhada demais para encará-lo – eu só queria avisar que temos uma reunião de emergência no laboratório.

Visão de Harry Potter

—Quer mesmo levar isso a sério? – Pansy Parkinson esta de braços cruzados encostada a parede, os lábios em uma linha reta e olhar debochado estampam a sua opinião sobre o caso, não a culpo por ser pessimista – É o prédio mais protegido da cidade.

Os demais no laboratório nada respondem, o silêncio é a concordância com a garota, enquanto analisam a situação mentalmente.

—Crudelis me mandou uma mensagem, — eu avisei – nós temos até meia noite de quinta para entregar as velas.

Eu abro minha mochila e retiro algumas fotografias, então eu ponho em cima do balcão e deixo com que todos peguem e vejam.

—É o Draco e a Hermione, — eu continuei – com o corpo da Greengrass, Crudelis disse que se não fizermos o que ele manda, ele vai mandar isso para o Ministério, liga-los ao assassinato da Greengrass vai acabar levando eles para Azkaban.

—Ou para a morte, – Astoria Greengrass engoliu em seco – meus pais são advogados, eu conheço a lei, com o passado dos dois como suspeitos na cena do crime do Not e agora o da Greengrass, a promotoria levaria o caso à diante, o pouco que eles têm seria o bastante para sentenciar os dois à morte por assassinato em serie.

—Merda. – Pansy balbuciou — E como ele espera que façamos isso?

—Vamos fazer. – Blásio Zabini responde determinado batendo uma palma na mesa e chamando a atenção de todos – Isso vai nos dar a chance de nos encontrar com ele, nós podemos armar para desmascará-lo.

Os outros continuam debatendo sobre o roubo, mas eu me calo.

Hermione esta silenciosa, de braços cruzados no fundo da sala, seus olhos estão presos no vazio, mordendo o lábio inferior, apreensiva.

—O que você acha sobre isso, Hermione? – eu pergunto em alta voz, todos se calam para olhar a garota no fim da sala, que parece ter despertado dos seus devaneios, desorientada sobre o que estávamos falando – Devemos roubar?

—Bom, o museu saiu de obras recentemente, — ela começou a falar, descruzou os braços e tomou uma posição ereta enquanto se aproximava do grupo – suponho então que as forças de defesas devem estar em ótimo funcionamento, vai ser difícil, mas acho que ele não vai nos deixar em paz se fizermos o que ele manda.

—Não gosto disso, — Gina discorda – ele não pode pensar que está no poder da situação.

—Gina, ele está no poder da situação, — Rony respondeu – ele usa a gente como peças no tabuleiro, usou a Greengrass para ter uma maneira de encurralar a gente para fazer o que ele quiser. Eu voto para roubar.

—Rony, eu concordo com sua irmã, — Pansy esta transtornada — por que devíamos fazer isso?

—Também foi difícil resgatar você, mas eles ti resgatam – Greengrass respondeu.

—Você vai mesmo concordar com isso?

—Não sei, – a loira esta confusa, ela troca o peso das pernas e suspira – se formos pegos o tempo mínimo de prisão é sete anos por tentativa de roubo.

—Sete anos é bem melhor que pena de morte, — eu disse – nós temos que fazer isso pela Hermione e o Draco.

Eu me assustei ao ouvir minha própria voz usando seu primeiro nome.

—Eles são inocentes, — eu continuo – eles precisam de nós.

—Falando nisso, — Gina diz – onde o Draco está?

—Não sei, não o encontrei.

—Não importa o que vocês vão votar, — Hermione começou – eu preciso bolar um jeito de roubar o museu e eu vou fazer isso, vocês me ajudando ou não.

—Hermione, — Gina colocou uma mão no ombro da amiga – Pansy tem sua razão, é o prédio mais protegido da cidade, se formos pegos acabou qualquer chance que você tinha de provar sua inocência.

—Eu já não tenho nenhuma. Se eu não fizer é morte, se eu fizer e ser pega é morte, que diferença faz?

—Eu vou com você – eu respondo determinado.

—Eu também – Blásio concordou

—Eu também – Rony levantou uma mão

—Tudo bem, eu não vou deixar você fazer isso sozinha – Gina bufou – e vocês?

Pansy e Astoria se entreolharam por alguns segundos, a garota loira engoliu em seco e levantou a mão devagar, enquanto a morena olhava pro outro lado, indignada.

—Pansy, — eu disse com calma – é pelo Draco também.

A morena não parava de mexer uma perna, transtornada, nervosa com o momento, ela me encarou por alguns segundos e para o resto do grupo antes de dizer:

—Eu não sou útil para vocês.

—Pansy... – comecei.

—Eu não disse que não vou fazer, — a morena me interrompeu – eu vou ajudar.

—Todos são úteis, — eu discordei e continuei meu discurso olhando para todos – somos uma equipe e cada um de nós tem algo a oferecer, nós vamos fazer um bom plano e por em ação o mais rápido possível, nós só temos dois dias.

—Há algo estranho nessa foto... – Blásio pensou alto enquanto olha uma das fotografias – Todos os quartos da Sonserina são iguais, inclusive os móveis, eu sei onde a câmera estava no momento em que tirou a foto.

—E o que importa? – eu pergunto

—A câmera estava instalada na gaveta da mesa, escondida.

—Acha que a câmera bateu uma foto do verdadeiro assassino? – Astoria indagou, retirando a fotografia da mão do amigo.

—Não, Crudelis a instalou depois de mata-la. Deem-me algumas horas, — Blásio diz andando até a porta – eu vou armar um bom plano para o roubo.

—Aonde você vai? – Hermione pergunta.

—Coletar informações.

—Eu vou com você. – Gina se ofereceu rapidamente

Os dois trocaram olhares rápidos e saíram andando determinados.

—Eu preciso dormir, — a loira bocejou – foi um longo dia.

—Correu tudo bem no velório? – eu pergunto

—Só os mesmos hipócritas habituais.

As duas sonserinas deram os braços e saíram pela mesma porta, sem dizer nada Hermione saiu logo depois.

É perceptível que Hermione esta preocupada, muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, coisas que ela não tem controle e podem leva-la injustamente para a prisão e como se não bastasse, amanhã ela fará a prova mais importante — até agora — da sua carreira acadêmica, eu tenho certeza que ela não dormirá essa noite.

Não vou deixar que ela passe por isso sozinha, papai me deixou uma missão, eu vou protege-la até o fim e confiar mesmo nos dias mais sombrios, ainda que isso custe a minha vida.

—Você esta escondendo alguma coisa – Rony, é o único que restou comigo na sala, o ruivo esta sério, com certeza na voz.

—Não estou escondendo nada – eu menti.

—Harry... O que mais ele disse?

Eu coloco as mãos no bolso e solto uma bufada longa de ar, Rony não é mais tão lento como era quando éramos crianças, não vale a pena tentar esconder algo tão importante do meu melhor amigo, se algo acontecer afinal, é melhor que alguém esteja preparado.

—Crudelis me enviou uma carta, — eu relato com serenidade – mas ele não disse que entregaria a fotos para o Ministério agora.

—Por que mentiu?

—Por que eu achei melhor que a verdade. Crudelis enviou as fotos de manhã, mandou sem nada, sem remetente, sem carta, só várias fotografias dentro do meu armário no vestiário, os sonserinos da equipe estavam no velório e eu achei melhor guardar isso para falar no momento certo. Então no fim da tarde recebi a carta, Crudelis disse que se não fizéssemos o que ele manda pessoas da nossa equipe seriam as próximas a morrer.

—Você devia ter dito isso, pode ser qualquer um de nós, até eu!

—Não, — eu neguei com a cabeça – Crudelis foi muito claro sobre isso, eu vou ser o primeiro a morrer.

Rony respirou fundo e afundou seus dedos no seu cabelo ruivo, parecendo querer arrancá-los.

—Hermione não precisa de mais problemas agora, nós vamos roubar e entregar as velas pro Crudelis e vai ficar tudo bem, eu vou viver, ela não precisa de mais pressão.

—E se o Blásio não tiver um plano? E se a gente não conseguir roubar?

—Eu vou morrer.

Visão de Pansy Parkinson

Astoria respirou profundamente e bagunçou os cabelos loiros

—Este foi o dia mais longo da minha vida.

—Você esta bem?

—Não... – ela admitiu – Eu estou... Cheia. Nada vai ser como antes.

—Eu vou estar aqui com você, não se preocupe.

—Você me protege demais – ela bufou

—Isso nunca foi problema, o que houve?

Nossos olhares se cruzaram e por um instante posso jurar que seus olhos castanhos eram iguais aos de Robert Parkinson, meu irmão falecido.

—Isso tem haver com o Robert?

Eu engoli em seco ao ouvir alguém pronunciar o nome do meu irmão. Deve fazer três anos desde a última vez que ouvi alguém dizer seu nome, é claro, pois todos sabem que não é um assunto agradável para mim.

A morte de Robert, resultou na da minha mãe e o desequilíbrio do papai que destruiu a minha vida. Por que falar sobre algo que só traz destruição?

—Não gosto de falar sobre isso.

—Eu sei, eu nunca pergunto sobre isso, — ela suspirou – é sempre assim, você não fala da sua família e eu não falo da minha, é eficiente, ninguém sofre, mas hoje eu gostaria de falar com alguém que perdeu quem amava, um irmão.

—Rony não perdeu um irmão na guerra?

—Pansy, eu quero conversar com você sobre isso.

—Eles morreram por motivos bem diferentes.

—Eu sei, Dafne foi assassinada e o Robert morreu por Lithius, eu só queria saber se vocês eram íntimos, nem todos os irmãos vivem em guerra como Dafne e eu.

—Nós brincávamos com os cavalos se é isso que quer saber, ele era muito bom em montar, eu o admirava por isso — eu respondo secamente — ele era dois anos mais velho, sempre me protegia, se eu ralava os joelhos, Robert fazia meu curativo, nunca me decepcionava. Eu chorei por dias quando ele foi internado, depois que ele morreu mamãe dizia que ele era meu anjinho da guarda.

Astoria não respondeu, eu acho que a maneira seca como falei do meu passado a fez desistir de continuar cavando, por mais que eu amasse meu irmão, sempre vou lembrar-me disso como estopim das dores.

Robert... Eu o amava muito.

A caminho da sala comunal da Sonserina, Astoria e eu paramos no quadro de avisos, onde uma enxurrada de bruxos está em volta, rindo de alguma coisa, estou disposta a ignorar a curiosidade que isso me desperta, mas Astoria atravessa o grupo de pessoas para chegar ao quadro, portanto a sigo fazendo o mesmo caminho.

O quadro tem um pôster, Dafne Greengrass está usando um vestido, reconheço do baile de abertura da Ilha, porém tem olhos vermelhos, chifres na cabeça e uma calda comprida de diabo.

“O diabo voltou para o inferno. Sorte nossa.” Letras grandes e vermelhas destacam-se no pôster.

Meus olhos caem para Astoria imediatamente, a loira esta com os olhos cheios de lágrimas, esconde o rosto com as mãos e sai correndo.

Imbecis.

—Vocês não têm o que fazer? – eu disse alto para que todos ouvissem, levantei minha varinha e apontei para o pôster – Fogo maldito!

Os alunos em volta fizeram burburinhos, enquanto assistiam o pôster queimar.

—Como se você não a odiasse – um menino idiota entre os alunos, me encara raivoso – devia me agradecer.

—É você o artista? Faça isso de novo se quiser queimar.

—Esta me ameaçando?

—E você tem dúvida, moleque? – eu aponto minha varinha para ele – Eu sou louca, me tente e eu fulmino você.

O menino ergueu as mãos em sinal de rendição.

—Aguamanti – eu direcionei minha varinha para o quadro e apaguei o fogo.

Vendo o que se passava todos começaram a se espalhar e se distanciar indo em direções diferentes.

De repente sinto minha respiração falhar.

Encosto-me em uma parede, apoio minhas mãos nos joelhos e me concentro em capturar oxigênio do ar e jogá-lo para dentro dos pulmões, é uma tarefa difícil, pois quando eu estou muito estressada sofro de insuficiência respiratória.

Os médicos dizem que eu devia ficar satisfeita, por que meus ataques de asma são uma resposta do meu corpo contra minha predisposição a ter Lithius, ou seja, nunca terei Lithius como meu irmão, mas vou precisar sofrer com problemas respiratórios o resto da vida.

Não são frequentes, mas passaram a ser mais habituais desde que fui contaminada com wanina, eu estou fazendo um tratamento contra a substância que ainda está no organismo, todos os dias eu vou a ala hospitalar tomar poções e será assim por ainda mais duas semanas.

Enquanto minha respiração volta ao normal, tudo que eu consigo pensar é sobre Robert. Eu nunca falo sobre isso, mas Astoria está certa, o motivo para eu ser tão protetora com ela, é por que eu perdi Robert e não quero perde-la.

Depois que ele morreu eu precisava transmitir meus sentimentos por ele para alguém, e é ela, eu o vi morrer lentamente na cama de um hospital e não pude fazer nada, não vou deixar que isso aconteça novamente.

Minha mãe não conseguiu lidar com a morte dele, ela se culpava, por que ela se casou com um primo de primeiro grau para manter a linhagem de sangue puro, então cometeu suicídio, isso foi muito egoísta da parte dela, pois ela me deixou sozinha com meu pai, o homem que eu odeio.

Ouço passos no fim do corredor, está escuro e não sei quem são, nem me importo.

Eu já estou melhor, respiro profundamente e começo a andar sem pressa a caminho da sala comunal da Sonserina.

—Solte-me ralé. – a voz diz irada – Eu não vou dar nada para você.

Ouço a voz de Celestina Warbeck e corro para me esconder atrás de uma estátua, me agacho e fico quieta.

—Você é muito descuidada, Warbeck.

—E por que você acha isso?

—Por que qualquer um com bom senso se preocuparia comigo.

Viro-me um pouco e finalmente consigo ver quem é a segunda pessoa, é Lilá Brown, a garota da Grifnória que está dormindo com o detetive Adam O’hanoly.

—Você é só uma formiguinha debaixo do meu salto, por que eu me preocuparia com você? – a mulher negra deu um meio sorriso debochado

—Por causa do que houve com sua servente, — Lilá Brown aproximou-se perigosamente de Warbeck – Dafne Greengrass está morta, assassinada em seu próprio quarto.

—Minha servente? – Warbeck pergunta com descrença

—Sim, Crudelis. – Lilá Brown diz em alto e tom som – Você é Crudelis, eu sei disso.

Celestina Warbeck a encara por alguns segundos, curva os lábios em um sorriso e logo começa a gargalhar alto, chacoalhando seus ombros, uma reação nada esperada pela adolescente.

—Eu não sou Crudelis, querida. – Celestina Warbeck parou de rir, cruzou os braços e sorriu – Ele é uma pedra no meu sapato, tanto quanto é para você.

—Você está mentindo, — Brown profere com certeza na voz — eu não acredito em você.

—Não me interessa no que você acredita, eu posso ti dizer a verdade, mas você escolhe se acredita nela.

Lilá Brown solta uma lufada de ar, ri secamente e desliza dois dedos em seus lábios.

—Você é uma boa mentirosa.

Celestina Warbeck dá as costas para a adolescente, põe as mãos nos bolsos e se afastando diz:

—Se Dafne Greengrass está morta... Por quanto tempo pretende ficar viva?

Notas finais
comenteeemmm