Four Sun — Ecos do Inconsciente

3 Ecos do Inconsciente - III


Ecos do Inconsciente — III

Vinte e seis mil, oitocentos e noventa e três quilômetros de circunferência. Atmosfera cintilando entre um vivo tom de cor verde claro e o negro de seus pólos, lembrando a grama. Assim podia ser descrito Karkez, apenas mais um dos outros milhares de Planetas rochosos existentes na Via Láctea.

Lá, a noite chegou a uma rapidez impressionante, o que passou aos habitantes do mundinho esmeralda a impressão de que o dia havia sido mais curto. Indicando o anoitecer, os seus céus adquiriam uma firme coloração verde escura e o ar esfriou, trazendo o sereno.

Dois jovenzinhos com aparentemente a mesma faixa de idade caminhavam por uma estrada de terra, as mochilas nas costas indicavam que muito provavelmente estavam voltando do colégio. A moça, visivelmente diferente do rapaz que a acompanhava, parecia ter em mãos uma revista vermelha cheia de ilustrações, ou mais especificamente, um gibi.

Diferente do menino à sua direita, ela tinha a pele clara, era caucasiana. Media um e setenta de altura, pesava cinquenta e seis quilos, mas o que mais chamava atenção nela era o tom de cor violeta dos seus cabelos curtos, que não ultrapassavam a altura de seus ombros.

Os olhos possuíam a mesma cor, apesar de ocultos por pequenos óculos de grau e armação avermelhada. Uma outra característica sua, era a leve vermelhidão perto de suas narinas. As vestes que trajava eram simples na verdade, consistindo numa blusa branca tomara-que-caia, uma saia de mesma cor e os pés descalços.

Seu acompanhante possuía uma aparência exótica, mais digna de um extraterrestre. A pele era azul clara, os cabelos eram negros, arrepiados, os olhos castanhos eram ao menos duas vezes maiores que os dela, ele era um centímetro mais alto, suas mãos e pés continham apenas quatro dedos.

As roupas, não passavam de uma calça cumprida preta, seu peitoral estava sempre exposto, destacando-se do resto de seu corpo pela cor amarelada, como um felino. A alienígena ali era Yue.

— Agora, vamos ver se você acerta essa! Eu duvido! — Disse a garota entusiasmada, folheando a revista. — Foi com quantos anos que o Doutor Queens bebeu a porção cinza pela primeira vez...?

— Com quantos anos? Nossa, essa é difícil... pega mais leve, Yue, comecei a ler essa história ontem!

— Vai responder ou não?

— Tá bom, tá bom, mas me deixa pensar. — Pediu. Em alguns segundos, ele deu a resposta. — Acho que foi com... com treze!

— Errado! Foi com Dezesseis e na edição 29! — Apontou a menina, animada. — Perdeeu, perdeeeu, eu ganhei de novo, sei mais sobre HQ's do que vocêêê! — Cantarolava.

— Sabe nada! Quero dizer, só sobre essa! Além disso, fui eu quem transformou você numa leitora de HQ's, por isso, ponto pra mim! Quero revanche!

— Tudo bem, você vai ter sua revanche... — Disse, com um sorriso sapeca no rosto — Vou te dar dois dias e meio pra ler a Saga Frascos e Vidros e memorizar tudo, é o suficiente?

— Tá, fechado! — Concordou, apertando a mão dela — Assim eu provo de uma vez por todas que não há garota que saiba mais sobre HQ's do que Zerdin!

— Lá vem você com esse machismo outra vez. — Disse a jovem, afastando-se dele. — Sabe, isso...

Um tremor de terra sacudiu violentamente o planeta, os fez ir ao chão. Em seguida, um clarão preencheu os céus e cegou todos temporariamente, sendo avistado até mesmo fora de órbita do planeta.

Passado o fenômeno, Yue e Zerdin se olham assustados enquanto se levantam e afofam as roupas, limpando a poeira. Estavam assustados, mas seus instintos de aventureiros falam mais alto e eles correm o mais rápido que podem, em direção aos remanescentes do resplendor.

Correm quase um quilômetro para o Norte, precisando de vinte minutos para chegar ao local de impacto. Escondem-se atrás dos arbustos e lá ficam a observar o estranho objeto que pouco podiam ver, graças ao volume de fumaça e poeira que cobria suas visões.

— Vai lá! — A jovenzinha sussurrou para o amigo.

— O quê? Eu não! Eu sei lá o que é aquilo, e se explodir na minha cara?! Vá você, se quiser!

— Tá, tudo bem, eu vou... — deu-se por vencida — Mas depois de descobrirem que você ficou com medo e deixou que uma garota fosse verificar um objeto perigoso no seu lugar, vamos ver o que os outros irão achar...

— Você reclama do meu machismo, mas sabe usá-lo a seu favor, quando quer! — Reclamou, levantando-se dali.

Cautelosamente, ele sai de trás do arbusto. A um metro de suas costas, Yue o seguia com muito mais cuidado, juntos, eles andam sete metros e se veem na beirada da cratera que o objeto misterioso deixou quando colidiu com a superfície.

Abanando as nuvens de poeira e fumaça com as mãos, a dupla é finalmente capaz de ver o que era. Confiantes, eles escorregam as paredes da cratera como crianças brincando em um escorregador, se põem de pé e andam doze metros até o centro do buraco.

Veem algo que os deixa abismados, algo que muito se assemelhava a uma nave de viagens interestelares. Era preta, redonda, metálica, tinha um painel de vidro fumê na frente e inúmeros botões. Estava levemente inclinada para a esquerda e não parava de soltar fumaça da comporta, parecia até estar danificada.

— É... É uma n-nave espacial? —Yue o indagou.

— É o que parece. — Respondeu, somente. — O que será que têm aí dentro? Algum tipo de alienígena maligno?!

— Seja lá o que for, isso me lembra muito a edição 33 do Capitão Galáxia! Como disse o Dexter: Só vamos saber o que tem aí se olharmos!

— O quê?! Nem pensar que eu vou até lá! Se... — Antes que pudesse completar a sentença, ela já até estava lá. — Sua doida, sai daí, rápido!

— Por quê...? — Questionou-o, batendo o punho no vidro. — Parece que não tem nada e nem ninguém lá dentro, faz um tempão que eu tô batendo. — pôs o rosto no vidro — Não dá pra ver nada lá dentro por causa desse vidro estranho.

De repente, um punho atravessou a janela. O susto fez a corajosa leitora de histórias em quadrinhos cair sentada para trás, ela sequer teve tempo de ficar de pé antes que a criatura que lá dentro estava saltasse através da abertura, desse um salto mortal para frente e se pusesse de pé, sorridente.

Seu pavor se transformou em curiosidade, e ela, agora, somente encarava a figura do visitante alienígena, que muito se assemelhava a ela em aspecto físico: caucasiano, cinco dedos nos pés, nas mãos e os olhos normais.

Os cabelos, assim como os dela, continham a coloração nada comum: eram laranja e arrepiados, com apenas uma mecha loira de cabelo lhe caindo a testa. Tinha um metro e cinquenta de altura, pesava quarenta e dois quilos, olhos castanhos e as sobrancelhas abóboras, mas estava completamente nu.

— Fica longe dela! — Disse Zerdin, pulando na frente da garota caída, com os braços abertos. — Q-Quero dizer, de nós.

A expressão do moleque então muda, os assustando. Ele cerra os punhos, o casal, em perfeita sincronia, recua.

Tão rápido que nem Zerdin pôde ver, o garoto avança sobre eles mas por alguma razão a pequena de aparência frágil, Yue, é capaz de acompanhar seus movimentos, pôr-se a frente de seu amigo e receber na face aquele soco em seu lugar, mas os dois são arremessados longe.

Todavia ela caiu sobre ele, que amorteceu a sua queda. O jovem Karkeziano se levantou antes dela e lhe ofereceu a mão, a qual ela pegou e com dificuldades ficou de pé.

— Meu nariz... — Disse, endireitando-o com a mão. — Ai! Tá sangrando e tá doendo muito... Ai, acho que quebrou.

— Deixa eu ver — Pediu, a examinando. — Nossa, isso tá feio. Acho que quebrou mesmo. Espera. Eu estava lá na sua frente quando ele desceu da nave, nem sequer vi ele se mover. Você me salvou. Levou o soco no meu lugar. Mas... Como fez isso?

— E-eu não sei, eu... eu o vi vir em nossa direção e... eu até achei que conseguiria segurar o soco dele, mas não consegui pensar em nada. Foi tudo muito rápido.

— Yue... — Disse ele, abobado.

— Que foi?

— Seu nariz... parou de sangrar. Voltou ao normal.

— C-como isso é possível?

— A resposta é simples: você é uma deles. Possui os mesmos poderes que eles.

— Você está dizendo que eu sou uma retalha-

— Não diga essa palavra. Lembre-se do que eu contei pra você.

— Aí vem ele de novo... para trás, Zerdin!

Entretanto, ela foi novamente incapaz de se proteger e foi golpeada no rosto com cinquenta socos cruzados em um único segundo, sendo atingida com um direto no estômago para finalizar.

Contra-atacou com um chute alto mas o garoto se agachou e subiu acertando-a no queixo, a lançando para o ar e a deixando cair de costas no chão.

Ao levantar-se, foi violentamente cabeceada na testa, logo depois ganhou um chute na costela. Aproveitou-se da brecha que ele deu ao tentar encaixar o chute, agarrou a perna dele, o puxou para perto e socou sua face com toda a força, cortando o canto inferior de seus lábios.

Animado, ele enxugou o sangue que escorreu e sorriu.

— Essa não...

Imparável, atirou-se sobre a menina de cabelos roxos como um trem, carregando-a com os seus braços para fora dali a mais de quatrocentos quilômetros por hora.

Ambos logo caem no oceano, onde podem travar um confronto físico mais igual. Ela atingiu a boca dele com um cruzado de direita, ele a imitou, a chutando, em seguida, no rosto.

Yue socou a barriga do ruivinho, que lhe deu, no queixo, um chute frontal. A necessidade de buscar fôlego veio mais cedo para a menina. Ela tenta subir, mas recebe na cabeça um golpe que a impede de fazê-lo e que a joga contra o chão.

Tentou emergir novamente mas outra vez não obteve sucesso, foi detida por ele, que agora usou a si mesmo como barreira para mantê-la onde ela estava.

Sentia a morte cada vez mais próxima. Jamais pensou que morreria desta forma. Em seus últimos momentos de consciência tentou convencer-se de que aquilo tudo era um sonho que havia tido após mais uma noite lendo ficção científica, mas não conseguiu.

Por mais absurdo que fosse, aquilo era real.

Mas recusava-se a sofrer uma morte tão... comum. Não, "comum" não era a palavra que procurava usar para descrever. Talvez "indigna". Sim, de uma retalhadora.

Determinada, Yue encheu as mãos com areia do mar e a atirou sobre os olhos do baixinho, cegando-o por tempo o bastante para nadar até a superfície.

Lá, recuperou todo o ar, mas percebeu que sua falta de experiência com seus próprios poderes e com as batalhas lhe eram prejudiciais contra ele em qualquer arena:

— Ele é forte demais... Se estou viva agora é graças a essa habilidade de regeneração, mas em um confronto corpo a corpo não sou páreo para ele. — Falava para si, ao mesmo tempo em que nadava até terra firme. Alcançando o chão, ela subiu e se deitou para permitir que o ar retornasse pouco a pouco aos seus pulmões. — Preciso me acalmar. Eu acho que tudo isso me deixou em estado de choque, e por isso não consigo pensar direito. Não importa o quanto me acerte, ele não pode me matar com golpes simples. Se eu permitir que ele me golpeie até se cansar... É uma boa ideia. Qual é, garota, não fique com medo! Não pode doer tanto! Eu acho...

Os seus olhos se arregalam quando se deparam com a imagem do pequenino de semblante inocente carregando uma pedra de duas toneladas com as mãos nuas.

Yue engole seco.

É, eu tava errada...

Diferente do que ela esperava ao fechar os olhos com todas as forças e armar a guarda, ele devolveu a rocha para o mar e se aproximou.

Ainda esperando o pior, ela abriu os olhos e escutou o que ele disse a seguir:

— Oi, eu sou o Haru, quer ser meu amigo?

Desconfiada e surpresa, principalmente surpresa, ela o indagou:

— I-isso é algum tipo de técnica? Algum comando? Já sei: se eu apertar sua mão, minha cara vai explodir! Não é verdade?

— Não sei. — Respondeu-lhe, olhando a própria mão.

O que Yue não sabia, é que aquela era a primeira vez que Haru fazia contato com uma criatura viva.

Vivera todos os dez anos de sua vida trancado dentro da nave da qual eles os viram sair. As únicas coisas que o nanico sabia eram seu próprio nome e um comando: fazer amizades.

Yue, inconscientemente, compreendeu a tudo isto.

Isso porque a sua melhor habilidade estava longe de ser uma força que excede a de cem homens ou a de correr tão rápido quanto o vento... O que realmente a diferenciava dos outros era o dom de saber o que estava no coração das pessoas.

— Você agora parece indefeso. Um fofo. Tudo bem, eu aceito ser sua amiga.

Nele, ela via sinceridade, inocência. Ele agia como se não soubesse muito bem o que estava fazendo.

— Tá bom!

— Mas antes, aprenda uma coisa: amigos não batem em amigos. — Afirmou, se levantando.

— Não?

— Não. Bom, não do jeito que você me bateu. Aquilo doeu muito, pra um garotinho você é forte demais. Você é um — aproximou-se dele — retalhador?

— Não sei.

— Você não sabe de nada?

— Hmm... — balançou a cabeça — Não sei.

— Tadinho... Deve ter perdido a memória.

Após meia-hora de conversa, os dois foram cortados por Zerdin, que sem saber da reconciliação dos dois, teme se aproximar.

A quinze metros de distância, ele gritou:

— Está tudo bem aí, Yue? Conseguiu vencê-lo?

— Não exatamente — Ela respondeu. — Mas está tudo bem, pode vir, ele não vai te machucar.

Ele correu até ela e a deixou curiosa, dizendo:

— Não vai acreditar no que encontrei dentro da nave dele.

— Antes responde a pergunta que ele vai te fazer...

Sorridente, o pequeno estendeu-lhe a mão e sugeriu:

— Oi, eu sou o Haru! Vamos ser amigos!

Hesitante em pegar na mão dele, ele olhou para Yue.

— Está tudo bem, ele não vai te machucar, né, Haru?

— É! Não vou te machucar!

— Então está bom, vamos ser amigos. — Concordou, apertando a mão dele. — Como eu estava dizendo, você tem que vir comigo ver o que encontrei na nave dele. Eu... Eu tenho quase certeza de que ele vem do mesmo mundo que você!

Aquilo petrificou Yue. Sedenta por respostas, ela correu o mais rápido que pôde na direção onde a nave caíra.

— Ela me deixou aqui, não foi, Haru?

Confuso, o pequeno alienígena deu de ombros.

— Pode me levar de volta pra sua nave?

— Vamos lá! — Exclamou, cedendo a cacunda para ele, que subiu, e então correu, destinando-se ao local onde o objeto voador com o qual veio aterrissou.

Ao acordar, Yue achou que aquele natal seria igual a todos os outros. No instante em que abriu seus olhos, o dia inteiro já estava planejado.

Quem imaginaria que no caminho de volta para casa, quando o dia estivesse prestes a terminar, esbarraria em uma nave vinda do espaço, levaria uma surra de um alien e descobriria que é indestrutível? Ninguém.

Assim como ninguém seria capaz de especular que a chance de ela voltar a ver sua família surgiria.

A quase trezentos quilômetros por hora levou poucos minutos para retornar ao lugar onde tudo teve início, mas tem dificuldades ao frear, capota e cai de cara no chão.

Não menos animada, ela se levantou. Em sua memória veio a rápida lembrança do rosto de sua mãe, como numa fotografia.

— Muito bem...

A nave se abriu, Haru e Zerdin chegaram. Ao ser posto no chão, o mais velho amigo de Yue foi até ela e ajudou-a a procurar o que a ela prometera mostrar.

— Parece ser uma mensagem de voz. — Disse-lhe ele, com o aparato na mão. — Eu não sei o que diz ou quem diz porque não ativei, tive medo de se auto destruir depois que eu o fizesse.

Em agradecimento, ela o abraçou. Em seguida, correu e abraçou o pequeno alienígena.

Sentou-se no chão e ligou a mensagem, mas um tipo de holograma saltou do aparelho lhe intimidando de começo. O que a acalmou foi a face refletida através dele.

Os olhos da leitora de quadrinhos preenchem-se com lágrimas.

— M-Mamãe...

Yue — Começou. — Nós estamos com saudades...

E assim se encerrou a mensagem. Decepcionado com o pouco conteúdo, Zerdin acredita que sua melhor amiga também estava.

A fim de consolá-la, pôs a mão em seu ombro.

— Sinto muito, Yue. Sei que não é o que você estava esperando.

— Tá brincando? — Secou os olhos. — Foi o melhor presente de natal que eu poderia receber.

Os dois se abraçam emocionados e, enquanto eles o faziam, Haru une-se a eles, formando um abraço grupal.

Um grito muito forte, como o berro de uma fera, veio de longe. Eles ficam nervosos e, com os olhos, perguntam ao outro quem sabia do que se tratava aquilo.

Perceberam que os rugidos vinham da cidade e para lá olharam amedrontados.