Four Sun — Ecos do Inconsciente
4 Ecos do Inconsciente - Final
Ecos do Inconsciente — Final
O relógio pontuava meio-dia, o que significava que os dois mais poderosos retalhadores do grupo de elite haviam ficado três horas sem descanso ali fora tentando construir o maior e mais bonito boneco de neve que conseguiriam.
Juraram não entrar até atingirem a meta e, de frente para o resultado final, mostram-se satisfeitos.
A construção tinha dois metros de altura, um nariz de tomate, uma pequena folha de árvore para representar a boca, um par de nozes para os olhos, um gorro natalino na cabeça quadrangular, botões pretos em formação linear no corpo retangular e um agasalho como o do Papai Noel — só que na cor azul marinho.
— O que achou? — Ele perguntou à ela. — Ficou bonito, não ficou?
— Só falta uma coisinha — Disse, retirando de dentro da caixa uma linha cheia de luzes pisca-pisca, a qual usou para envolver sua criação — Prontinho. — Disse, ligando os enfeites — Ficou lindo.
— Ficou. E vai ficar ainda mais quando anoitecer. Eu-
Ela o abraçou, cortando a fala dele. Meio desajeitado, ele retribuiu o gesto.
— Obrigada, baixinho.
— Não sou baixinho, tenho um metro e oitenta e oito de altura... Você tem dois metros, perto de você qualquer um é pequeno. — Brincou.
— Eu não tenho dois metros, tenho um e noventa e nove. — Retrucou. Apontou para o boneco: — Ele é mais alto do que eu. A propósito, já pegou alguém esse ano, olhos azuis?
— N-Não sei o que isso tem a ver com a conversa...
— Vou entender isso como um "não". Me espera aqui, vou a cidade procurar um visco de natal. Vou precisar dele para dar o seu presente...
— Não precisa... — ela se vai antes que ele pudesse terminar a sentença — Me dar presente.
A terra de repente treme de maneira mais violenta do que nunca. Aquilo não era um abalo sísmico passageiro e ele sabia disso. Arashi tinha um mau pressentimento.
Quando estava prestes a sair para investigar, eis que a sua frente surge a criatura mais vil e demoníaca com a qual já topara.
Um monstro de cinco metros de altura com cabeça de lobo e corpo de homem, fantasiado de Papai Noel, o desafia para um embate, largando no chão os corpos de dois de seus mais poderosos companheiros de equipe — inferiores apenas à ele e Kin.
Sua mão direita segurava uma clava de três metros de comprimento, repleta de espinhos afiados e coberta por uma enorme sacola avermelhada.
A criatura infernal com quem se via de frente agora havia sido solta ali por um dos mais terríveis inimigos que a Terra de Áries já teve de enfrentar em toda sua história.
Fora estrategicamente liberta no centro da civilização, em um ponto surpreendentemente preciso. Desde então, viu-se a vontade para destruir tudo em seu caminho e tirar a vida de todo aquele que cruzava o seu maléfico olhar.
Centenas de pessoas morreram. Poucas construções ainda restavam de pé.
— Gray... Yuri... — Dizia Arashi, estupefato, incrédulo quanto ao que seus olhos lhe mostravam.
— D... Droga... Não... Não devia ter me visto... desse jeito... — Resmungava Gray.
— Per... Perdão... A-Arashi... Nós não... conseguimos vencê-lo...
— Está tudo bem, Yuri. — Lançou para o monstro o seu mais desafiador olhar. — Sei que fizeram seu melhor. Prometo fazer ele pagar pelo que fez a vocês.
— Não só a nós... Está tudo destruído... toda a nossa civilização... Se vai enfrenta-lo... tome cuidado... Ele é... poderoso demais...
Entediada, a criatura desfere sobre o trio um golpe de sua clava, mas agindo para salvar a si mesmo e aos seus companheiros, Arashi é ágil o suficiente para recolhe-los e saltar para longe dali.
Após deixa-los seguros, ele retorna para a arena.
Um rugido cuja as vibrações sonoras são poderosas o bastante para estremecer a arena vem da besta gigante, as ventanias provocadas são capazes de mover até Arashi. Era algo enlouquecedor.
Mantendo sua fama como o guerreiro mais calmo de seu grupo, ele invoca uma de suas habilidades e bate suas mãos no chão, congelando-o e prendendo os pés do bicho a terra.
Põe-se de pé e estende a mão esquerda, congelando o ar para criar uma estaca de gelo com vinte centímetros de comprimento. De repente some.
Num piscar de olhos reaparece diante do monstro lhe desferindo no rosto um corte com sua estaca, mas como consequência do choque o objeto se despedaça por inteiro.
Arashi sabia que na posição em que estava não podia recuar. Ele encara o gigante nos olhos, sente medo, mas não deixa isso cega-lo e o chuta na cabeça com toda a sua força, arremessando ele para longe de si.
— Essa coisa com certeza não pertence a esse mundo — Deduz. — Nunca vi algo parecido por aqui. Eu também nunca senti tanto medo...
Não tem tempo para ver, para pensar e muito menos para reagir quando o demônio retorna. Ele é impiedoso no contra ataque e com uma só mão o agarra pela cintura, o atira uma vez contra o chão, o atira novamente e o solta.
Recupera sua arma gigante e a suspende o mais alto que consegue, preparando-se para esmaga-lo. Arashi, no entanto, é forte o suficiente para, mesmo caído, parar seu golpe.
Ao menos momentaneamente.
Sua proximidade dele o faz enxergar uma coisa que não havia enxergado antes: ele tinha um ferimento imenso no meio do peito.
Com as mãos ocupadas a solução mais inteligente a seu alcance é usar seus poderes para construir um braço de gelo e usá-lo para perfurar a ferida da fera, o que faz, sendo libertado pelo invasor de sua terra.
Debilitado, tentou afastar-se do bicho. Mas o mesmo, mais furioso do que nunca, não dá trégua; avança sobre o retalhador que salta desviando-se de seus três primeiros socos, escala o seu braço direito e corre por todo ele até se ver em frente a sua face, a qual soca com toda a força e o derruba.
Aparentemente derrotada, a criatura só precisava ser finalizada pelo guerreiro ariano mas o mesmo se distrai ao ver o gorro de sua cabeça voar.
— "Foi o melhor presente que já recebi. Prometo que vou usá-lo todos os natais!" — Lembrara-se da promessa que fez a sua irmã.
Os segundos que ele perde são suficientes para que o bicho se recupere, o agarre no rosto, o suspenda e prepare o punho restante para desferir o soco fatal.
Porém ele não tem a chance de fazê-lo; é detido pela loira pervertida que acerta-lhe um chute no meio do rosto, lançando-o para trás a exatos cem quilômetros por hora.
— Kin...? — em seus braços, ele chama por seu nome — Gray e Yuri... Eles...
— Ficarão bem, eu os levei para o hospital. Descanse. Quando acordar, eu já o terei vencido. — Falou, pondo-o no chão com cuidado. — Aqui está o seu gorro. Cuide bem dele, deve ser importante.
— Tome cuidado, Kin. Não caia no erro de subestimar essa criatura... ela é muito poderosa.
Ciente da exata localização do monstro, ela corre até lá em velocidade máxima e, enquanto ele se levantava, lhe soca no queixo, atirando-o desta vez para cima.
Saltou em direção a ele mas o gigante desta vez foi mais rápido; esquivou-se da investida dela e a socou nas costelas, disparando-a longe.
Em meio aos destroços, ela agradece por estarem em uma zona desabitada, se reergue, pula para a esquerda, se esquiva de um soco, gira e acerta um chute giratório em sua face, o fazendo cambalear dois passos para trás.
Na investida seguinte há um impasse, pois os dois se socam e se afastam um do outro. Após um rugido, o bicho usa as próprias mãos para arrancar da terra uma rocha de cinquenta e seis metros de circunferência, erguendo-a no ar como um troféu, uma arrogante demonstração de força.
Kin, contudo, não tem dificuldade em destruí-la sem deixar vestígios; apenas aponta sua mão e dispara um raio dourado sobre ela, desintegrando-a completamente.
Parte para cima do monstro, acerta seu rosto com um cruzado de direita, um cruzado de esquerda, um gancho de direita e termina com uma cotovelada na cabeça, lhe deixando de joelhos.
A criatura se recupera, atinge seu estômago com um direto de esquerda, sua cabeça com um cruzado de direita, a segura e tenta lança-la para longe de si, mas a guerreira é capaz de se manter firme ao distanciar-se vinte metros do Papai Noel Assassino.
— Um confronto físico não levará a lugar algum, não sou muito superior à ele. A única chance que tenho de dar um fim a isso rápido, sem causar mais nenhum estrago, é acertando ele em cheio com uma rajada de luz, mas se eu simplesmente atirar, ele vai desviar. Ele não pensa, é um ser irracional, então não vai prever minha estratégia.
Ela investe contra ele, mas quando estão cara a cara, golpeia a terra com um soco, levantando destroços e muita poeira, o bastante para cegá-lo.
Mas o monstro demonstra um olfato apurado, sente o cheiro de seu sangue quando ela se move para suas costas e gira lhe acertando uma mãozada que a afasta setenta e dois metros de si.
— M-Meu braço... — reclamou, com o membro cheio de sangue — Ele pode me farejar graças ao forte cheiro de sangue que sai de mim. O que faço agora?
Como se tivesse escutado as suas preces, o seu mais fiel companheiro ressurge. Ele aplica um mata leão no ser, correndo para longe dele após petrifica-lo em gelo.
Olhou para Kin e falou:
— Isso não o segurará por muito tempo! Agora!
Ao seu comando, ela acerta em cheio a criatura, lhe desintegrando sem deixar rastros. Finalmente acabou.
Os dois respiram aliviados.
Impertinentemente, a loira retira do bolso o visco de natal que prometera buscar, caminha até o companheiro e sela a sua boca com um beijo desavisado.
— Agora quando te perguntarem você vai poder dizer que pegou alguém esse mês. Feliz natal.
O rosto dele se enrubesce, a divertindo. Confuso, ele diz:
— Por que fez isso? Você sabe que não sobrou nada do nosso boneco de neve, não sabe?
— Quem liga pro boneco de neve?
Ele a ensinou muito mais do que apenas construir um boneco. Lhe ensinou que quando estamos com quem nós amamos, todo dia é uma data especial.
A fez perceber que o tempo todo construir o boneco não o que ela queria, o que ela queria na verdade era ter a seu lado a companhia certa.
Na outra ponta da galáxia, a situação de Karkez não era boa. Os únicos seres capazes de fazer algo pelos seus habitantes estavam sendo brutalmente espancadas.
Também pudera; enfrentavam um monstro de quatro metros e setenta e seis centímetros de altura, composto de neve endurecida.
O verdadeiro Abominável Homem das Neves.
O último que parou em suas mãos era menor do que elas, sendo arremessado contra um edifício próximo pelo qual transpassou até cair no chão da rua do outro lado.
Valente uma corajosa menina de cabelos roxos se pôs a ataca-lo pelas costas, mas o mesmo desviou-se sem ter a necessidade de encará-la, segurou-lhe pela cabeça e lhe socou, enterrando-a no chão ao concluir.
Pisou nela por cinco vezes seguidas, pois quando via-se prestes a pisoteá-la pela sexta vez, o baixinho que ele acabou de fazer atravessar um edifício retorna o socando no rosto com todas as forças.
— Não bate na minha amiga! — Esbravejou depois de atirá-lo para longe.
— Ah... — disse a menina, se reerguendo — Obrigada mesmo, Haru. Se não fosse você, ele teria me esmagado. Mas não baixe a guarda, ele ainda está vivo!
— Pode deixar!
Uma rocha gigantesca foi lançada contra eles pelo ser demoníaco que combatiam, grande demais para mesmo a um ataque conjunto dos dois permanecer intacta, rápida e abrangente demais para que simplesmente saíssem da sua reta.
No auge do desespero Haru fecha os braços armando a defesa, criando por acidente um escudo dourado que os envolve e lhes protege do pedregulho, fazendo-os passar por entre uma cratera que se abriu através do material.
— E... Estamos vivos? Estamos vivos! — comemora a garota — Mas o que aconteceu?
— Hã? Aí vem ele! — Advertiu-a o pequeno.
Imbatível, como um touro, ele corria e destruía tudo em seu caminho, mas os seus dois adversários movem-se para direções opostas no instante em que ele se aproxima.
Haru retorna, lhe fere a face com um direto de direita e fica suscetível a um contra ataque inimigo, mas quando este estava prestes a fazê-lo foi golpeado na espinha por Yue, caindo em seguida.
O ruivinho pula, gira e tenta acertá-lo no rosto, mas o adversário lhe segura e depois o arremessa sobre Yue, os jogando sobre terra firme.
A dupla investe contra a criatura ao mesmo tempo, o golpeando no rosto com um direto de direita, um direto de esquerda e um gancho que o arremessa doze metros para cima.
Exaustos, ofegantes, eles observam seu desafiador ir ao chão, sem contar com o que veem a seguir: ele se pôr de pé como se nada lhe tivesse acontecido.
— Ele... É muito poderoso... Sempre gostei de ler... histórias em quadrinhos, mas nunca pensei que a vida de um herói fosse tão difícil... e que lutar contra o vilão fosse tão cansativo e doloroso...
— O que a gente... vai fazer?
— Não podemos ataca-lo separados... Os nossos... os nossos golpes só surtem efeito quando atacamos juntos... Mas eu já estou quase no meu limite, precisamos acabar com ele no nosso próximo golpe... portanto o ataque com todas as forças!
— Combinado!
— Esperem. Não vão fazer isso sem mim!
Yue repreende o garoto:
— Zerdin...? Não deveria estar aqui, é perigoso pra você...
— Trouxe agora que quero que usem. — Retrucou, os apresentando a sua espada.
— Mas é... é a espada que seu pai te deu, antes de...
— Não se preocupem, podem usar! Se ajudar a salvar nosso planeta e nossas vidas, não importa o que acontece com ela! Acho que agora entendi porque ele me deu essa espada como presente... toma! — falou, dando-a nas mãos de Haru.
— Tá legal, Haru. Eu o distraio e você usa a espada pra perfura-lo! Mas o ataque com toda a força, ouviu?!
— Ouvi sim!
Ao sinal da garotinha, os dois efetuam uma rápida e mortal investida contra o Abominável Homem das Neves que os ataca no processo, mas erra todos os golpes pois os dois desviam-se de todos os ataques.
Yue sobe em cima dele, corre até os seus ombros e o chuta na cabeça, fazendo-o virar e abrir a guarda para que recebesse a espadada seguinte.
— TOMA ISSO!
Tirando vantagem da brecha dada, Haru atravessa o coração da fera com a arma branca. A carcaça sem vida do bicho cai por terra.
Finalmente destruído.
Sem saber que eram espionados, os três comemoram a vitória. Um sorriso surge no rosto de Santsuki, que sem se aproximar assente e apenas diz:
— Talvez você tenha razão. Isso vai ser interessante...
Fim.
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