Four Seasons
12 Capítulo 12 - Natsu²#
Notas iniciais
Natsu²#

De dentro da cabine da roda-gigante, olhávamos para baixo. Conforme subia, menor ficava o que estava abaixo de nós: pessoas, brinquedos, barracas. Joshua correu para ficar sobre o banco à minha frente e apontou em direção aos prédios, a zona residencial ao centro.
– A mamãe está por ali?
– Não, Josh, a mamãe está pra lá. – Apontei na direção contrária. – Está na casa dos seus avós.
Ele voltou a observar, não estava nem um pouco assustado com altura, ao contrário, parecia ter encontrado seu brinquedo preferido.
Paramos lá em cima, a cabine movimentou-se de um lado a outro e parou. Joshua se agitou, perguntou por que tinha parado, eu disse que seria uma oportunidade de as pessoas admirarem a paisagem urbana. Peguei minha Nikon e fiquei olhando as fotos que tinha tirado de Joshua, ele é fotogênico como o Allen.
Descemos do brinquedo e Joshua disparou correndo para uma barraca de tiros, segui andando atrás dele, em passos largos. Ele apontou para o prêmio, um urso panda enorme, ergueu o rosto para mim e pediu o urso. O dono da barraca parecia animado e duvidoso quanto eu tentar a sorte.
– Deve somar quinhentos pontos se quiser ganhar o prêmio. – Anunciou ele – 20 mil ienes a tentativa, senhor. Tem direito a cinco tiros.
– Papai é capaz de tudo! – Disse Joshua, orgulhoso.
– Nunca peguei numa arma antes. – Eu disse, puxando o dinheiro do bolso.
– Mantenha a arma um pouco abaixo do queixo, os braços quase retos e firmes.
Ele recolheu o dinheiro e entregou-me uma espingarda.
– Boa sorte. – Deu uma piscadinha para Joshua e afastou-se, dando vista ao tiro ao alvo.
Retirei o tapa-olho e entreguei a Joshua. Ajustei a arma como o dono da barraca havia dito e como havia visto nos filmes de ação, fechei o olho direito, mirei no alvo de 300 pontos e acabei por acertar o de 100. Droga.
– E lá se foi o primeiro tiro! – Anunciou o dono, sorridente.
– Boa pontaria, papai! – Disse Joshua animado.
Se ele soubesse que eu tinha mirado o de 300 e acertado o de 100 por acidente, não faria o comentário. Ao menos foi animador, ajustei a arma, mirando no alvo de 200, certo de que iria atingi-lo e consegui!
– Uau! – Joshua comemorou, abraçando-se a mim. – Papai, você acertou o de 500!
– Sim... – Eu estava tão desacreditado do meu feito que baixei a arma bem devagar. Olhei para o dono, ele parecia não acreditar também. Joshua me abraçou, seus braços ao alcance das minhas pernas.
– Aqui está seu prêmio, senhor. – O dono entregou-me o panda. No momento em que eu peguei o prêmio, devolvi a espingarda.
Joshua queria muito levar o urso para casa, mas não pude deixar ele fazer isso, se mal tinha um metro e dez de altura, que dirá carregar um urso que pesava quase seu peso.
Ser pai me trouxe uma calma maior, responsabilidade e maturidade. Sinto que sou capaz de fazer tudo para agradar o pequeno, mas com cuidado para não mimá-lo demais. Atualmente, estou com 23 anos, sou fotógrafo profissional e estou prestes a assumir a Editora Bookman. Allen formou-se em gastronomia. Joshua está com 3 anos, mas é tão esperto que já parece ter 6, próximo ano iremos colocá-lo numa escola bilíngue.
– Papai, pra onde vamos agora?
Joshua apertou minha mão com a sua pequenina grudenta de algodão-doce, mostrando um largo sorriso e os olhos ansiosos. Estávamos no centro de Tóquio, saindo do parque de diversões, a caminho do carro que estava estacionado há cinco quadras ruas abaixo.
– He... – Olhei para cima, pensativo – Que tal para casa?
– Não, agora não, papai!
Ele franziu o cenho, apertou minha mão notei o quanto ficava parecidíssimo com o Allen ao demonstrar irritação. Evitei rir, pois sempre que fazia isso ele ficava mais irritado.
– A mamãe está fazendo bolos, você vai se entocar e voltar a trabalhar e eu... Vou ficar sozinho... – Sua voz sumiu, fazendo um bico enorme.
– O Kod sempre lhe faz companhia, não?
– Mas o Kod só brinca de bola. – Ele parou de andar e cruzou os braços.
– Josh. – Abaixei-me ficando na altura do pequeno, agarrei o urso, encostando meu queixo a cabeça dele – Está quase na hora do almoço.
– Que horas são? – Ele perguntou com “ares” de detetive, desconfiado.
Olhei para o relógio, contorcendo a cara, fazendo um pequeno suspense.
– São 12:30. Não acha que o Allen ficará preocupado se demorarmos demais?
– Uh...
Ele sempre pensava duas vezes em teimar com alguma coisa quando eu falava no Allen.
– Vamos? – Abri minha mão.
– Tá... – Ele resmungou, colocando a sua mão sobre a minha – Não tem jeito mesmo.
Fiz um cafuné nele, sorrindo.
– Que lindo, Lavi!
Olhei por cima de Joshua e vi dois homens parados, um de cabelos curtos espetados, era mais baixo que o outro, que tinha os cabelos longos presos num rabo-de-cavalo e cara amarrada. Tinha a impressão de tê-los visto antes, de ter conversado com eles. Olhei para Joshua, estava tão confuso quanto eu.
– Então, esse é o Joshua? – Ele perguntou sorrindo, colocou a mão sobre a cabeça de Josh, fazendo um cafuné nele.
– Quem são, papai? – Perguntou Joshua baixinho, os olhos bicolores arregalados.
– Esse pirralho é a cara do Moyashi. – O mal-humorado falou.
“Ah! É o Kanda!”. Levantei de imediato, segurando o panda com as duas mãos, olhando de um para o outro. “E esse é o Alma!”, lembrei-me dele no meu casamento, bastante animado e meio alto por ter bebido muito champanhe, acho que um dia Kanda ainda cede e casa com ele.
– Kanda, Alma. – Sorri para os dois, querendo disfarçar o lapso de memória temporário – Puxa, quando tempo não nos vemos. Sim, esse é o Joshua. Uma gracinha, não?
– É sim! E tão sua cara, Lavi. – Disse Alma, sorrindo.
– Eu o acho mais parecido com o Moyashi. – Disse Kanda, colocando as mãos nos bolsos, avaliando o pequeno Joshua como se ele fosse um extraterrestre. É, ele não deve gostar de crianças nem um pouco.
– O quê? O Josh é minha cara! – Peguei-o no colo, deixando nossos rostos lado a lado para exibir a semelhança.
– Uhum, foi o que eu disse. – Gabou-se Alma, olhando para Kanda como se quisesse irritá-lo.
– Tch. – Ele virou o rosto, pouco ligando.
– Como vocês estão? – Perguntei de forma simpática, havia outra forma de começar um diálogo com duas pessoas que não vê há anos?
Quando Alma abriu a boca para falar, escutamos uma voz estridente:
– Kyaaaa! Kami-sama! Kami-sama! A Kiyo-san e a Mitsu-san estão dando autógrafos!
– O quê?! Onde?! – Gritou outra garota.
Alma paralisou com a boca aberta e Kanda permaneceu calado. Virei para trás com Joshua, vi uma legião de garotas adolescentes, umas de uniformes outras a paisano. Fãs das autoras dos contos eróticos, enlouquecidas por histórias homoeróticas. Sorri, franzindo o cenho. Não sei como aquelas duas aguentam essa algazarra toda.
– Usui e Mitsu? – Perguntou Alma, refletindo.
– Kiyo Usui e Mitsu, as madrinhas do Moyashi Júnior, amigas do Moyashi e do Bookman. – Respondeu Kanda.
– Ah. – Alma pôs a mão no queixo – São elas as escritoras de maior sucesso da atualidade, não?
– É, é. – Sorri e balancei Joshua, tomando sua atenção – Que tal fazermos uma visitinha a suas tias, Josh?
– E a mamãe? – Ele perguntou preocupado.
– Já, já vamos para casa. – Olhei para Alma e Kanda – Vocês querem vir conosco?
– Claro! Eu quero autografar meu livro também! – Alma tirou da mochila que trazia um exemplar, a capa era vermelho sangue e tinha escrito em letras douradas Noite Sinuosa. Cara, me pergunto o que elas escreveram, porque esse título dá o que pensar.
Caminhamos atrás das garotas eufóricas, estávamos indo em direção a Cafeteria Maria’s. Ah! A cafeteria da mãe do Allen! Fazia dois anos que ela havia entrado no mundo dos negócios e mamãe ainda fazia suas fantasias. Entramos e lá estavam as duas rodeadas por elas. Preciso dizer que elas estavam fazendo uma zona? Logo Alma se juntou ao grupo e Joshua se agitava nos meus braços para ir de encontro as duas.
– Oh! Lavi! Joshua! – Escutei Kiyo dizer, se levantando, acenando animada.
Uma das garotas abraçou-a, bem que eu sabia que isso aconteceria. Mais algazarra, mais gritaria. Mitsu puxou a amiga de volta para cadeira, estava sentada, acenou e sorriu para o Joshua, depois continuou autografando os livros com um floreio e aumentando a pilha de Kiyo.
– Depois conversamos! – Gritei, acenando com a mãozinha de Joshua que sorria.
Minutos depois, a legião havia ido embora. Alma, com um sorriso bobo, tinha se despedido indo embora com Kanda. Kiyo e Mitsu terminavam seu cafezinho, felicidade e satisfação grudadas em seus rostos, óbvias pela fama. Joshua estava no colo de Kiyo e sendo mimado por Mitsu, acho que ela só aceitava ser chamada de tia porque o Josh era muito carismático.
– Afinal, do que se trata Noite Sinuosa? – Perguntei, observando as entretidas senhoritas.
– Um romance baseado na sua história com Allen. – Resumiu Kiyo, sorrindo largo.
– Minha nossa! Vocês escreveram mesmo? – Elas haviam feito essa promessa no meu casamento com Allen, não imaginei que fariam, pensei que fosse somente pelo momento.
– Vínhamos escrevendo faz um tempo. – Confessou Mitsu, sorrindo de forma malandra. – Só faltava o casal aceitar que fosse publicado.
Olhei abismado para Kiyo.
– Mas, não se preocupe, não é exatamente igual. – Ela corou de leve, sorrindo. – Joshua deve estar orgulhoso de ter seus pais como protagonistas do famoso conto erótico.
– Erótico? – Repetiu Joshua, virando-se para mim – O que é isso, papai?
Mitsu riu e Kiyo segurava a risada.
– Não é nada, é algo de se comer. – Evitei falar mais me servindo do milk-shake de chocolate.
Maria e Jane estavam de passagem por lá, as duas cheias de sacolas de compras. Nossa, estava quase uma reunião familiar. Quantas coincidências de uma vez só.
– Filho! – Mamãe andou depressa sobre os saltos, colocando as sacolas no balcão, beijou meu rosto, depois beijou a cabeça de Joshua, cumprimentou Kiyo e Mitsu, logo puxando a cadeira. – Que sorte encontrá-los aqui.
Maria cumprimentou-nos, mas tinha menor pressa que mamãe, graciosamente, sentou-se ao lado dela, sorrindo como a perfeita lady que era.
– Hoje teremos um almoço em família. – Disse mamãe, sorrindo largo.
– Por que vocês não vão, meninas? – Perguntou Maria, sorrindo para Kiyo e Mitsu.
– Ah, infelizmente não poderemos ir. – Comentou Kiyo, passando Joshua para meu colo, mal ele se sentou, Jane o tomou de mim. Pobre Josh, não para quieto.
– Teremos que ir acertar mais uma remessa de livros na Bookman. – Disse Mitsu.
As senhoras mostraram desapontamento, porém, elas não se demoraram muito insistindo para que as madrinhas de Josh fossem lá para casa, Kiyo e Mitsu tiveram de sair às pressas.
– Devemos nos apressar, Jane. Cross me ligou há pouco. – Disse Maria.
– Oh, é mesmo! Lavi, pode dirigir para nós? – Mamãe levantou-se, mal esperando minha resposta, recolhendo as suas sacolas e entregando as de Maria.
– Tudo bem. – Sorri.
~*~
Lavi Bookman, vulgo meu pai, estava na entrada de casa, sentado na varanda bebendo na companhia de Cross Mariam. Eles estavam sérios, o que era estranho, pois estava acostumado a vê-los sorrindo e falando alto. Aproximei com Joshua seguro no meu colo e o urso panda seguro no outro braço. Vi que eles estavam concentrados num jogo de buraco. Mamãe e Maria logo se animaram a juntar-se a eles e formarem duplas, ocupando as mãos com copos e servindo-se de vinho.
– Chame Allen e formem uma dupla. – Disse Cross em tom severo.
– Diferente do pai, Allen tem um espírito de jogador. – Disse papai, rindo.
– Ora, Bookman. – Cross irritou-se com o comentário.
– Não, papai brincará comigo depois do almoço! – Disse Joshua, agarrando-se ao meu pescoço.
– Ouviram o desejo de Josh, passaremos nossa vez. – Sorri, passando pela família unida por jogos e bebida, entrando na mansão Marian.
Allen, Joshua e eu moramos numa casa próxima do meu trabalho, fica ao centro de Tóquio, é amplo e confortável, não é nada comparável a esse esplendoroso palácio, é modesto. Coloquei Joshua no chão, ele correu livre, desviando dos obstáculos valiosos da casa. Coloquei o urso sobre o banco e segui Joshua, chegando à cozinha, vi Allen de costas para a porta, sendo abraçado na cintura por nosso filho.
– Mamãe! – Joshua espiou a bancada acima dele, tinham dois bolos enormes inacabados – Uau! São pra mim, mãe?
– Não, querido, são encomendas. E, Joshua, eu estou todo sujo de bolo. – Disse Allen, batendo as mãos e sorrindo para o pequeno que não o largava. Ele virou-se para mim, tinha massa na bochecha.
– Tadaima. – Eu disse, indo de encontro a ele.
– Okaeri. – Ele sorriu, encostando o quadril a pia. – Se divertiram?
– Muito! Eu vou pegar o que o papai ganhou pra mim! – Joshua erguia os braços de forma exagerada e desengonçada, os olhos enormes e brilhantes.
– Nossa, parece estar se saindo muito bem como pai. – Ele sorriu largo.
– Como sempre. – Abracei-o pela cintura, dando-lhe um beijo demorado nos lábios. – Eu encontrei com Kanda e Alma na rua, acredita?
– Sério? Como eles estão? – Ele se abraçou a mim, ficando sem graça ao notar que tinha me sujado, não desfiz o abraço.
– Estão bem. Também encontrei com Kiyo e Mitsu, elas estão bem famosas por causa do livro que escreveram com base na gente.
– Nossa, quanta coincidência. – Ele sorriu.
– Ah, Allen, deixou sujar aqui. – Lambi sua bochecha, sorrindo ao vê-lo corar levemente. – Delicioso.
– Ó, mãe! – Disse Joshua, entrando na cozinha com dificuldade, o urso parecia maior em suas mãos – É um panda!
– Ganhei na barraca de tiros. – Eu disse, ajudando Joshua com o urso. – Joshua, leve o panda de volta para sala, ok?
– Ok! – Joshua saiu com o urso em mãos.
– Allen. – Virei-me para ele, sorrindo – Eu quero sair com você hoje, só nós dois, relembrar sobre o passado.
Ele sorriu, voltando-se para o que fazia, pegou uma bisnaga, dessas de enfeitar bolos.
– E o Joshua?
– Podemos deixá-lo aos cuidados da Kiyo e da Mitsu, acho que elas estarão livres depois de acertarem lá na Bookman.
– Tudo bem. Já até imagino para onde iremos. – Abracei Allen novamente e beijei sua bochecha.
~*~
O Cherry Park não era o mesmo durante o outono. A paisagem geralmente verde no tom amarelo avermelhado era bonita, mas não apaixonante como o rosea da primavera. Eu estava de mãos dadas com o Allen, aproveitando o momento que há anos não tínhamos. Compramos churros numa barraquinha e sentamos num dos poucos bancos vazios. O parque, agora, tinha bastante movimento, comércio e casais.
– Parece até que demos mais vida a esse lugar. – Eu disse, beijando Allen rapidamente nos lábios que continham gosto de chocolate.
– Eu preferia quando era só nosso. – Ele disse, encostando a cabeça em meu ombro, aconchegando-se do frio que fazia afinal o inverno estava próximo.
– Lembra de quanto fizemos sexo ali? – Apontei para as cerejeiras além de onde estávamos.
– Como eu poderia esquecer, Lavi?
Ri. Aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida.
– Allen. – Ele olhou para mim, ainda encostado contra mim – Eu te amo cada vez mais, sabia?
Ele sorriu.
– Eu também te amo cada vez mais, Lavi.
– Você me tornou uma pessoa maravilhosa, eu não esperava tanto de mim.
Ele ajeitou-se no banco, olhando-me sem entender.
– Não, Lavi. Eu não fiz nada. Só fui eu mesmo o tempo todo, até te dou trabalho.
– É, você dá trabalho. – Ri, negando com a cabeça, logo desmentindo – É um prazer cuidar de você. E sou muito bem recompensado, cuidado, amado. – A cada palavra dita, estalei um beijo em seus lábios.
Ele gemeu contra minha boca, provocando-me.
– Vai soar clichê, mas não me importo. – Encaixei minha boca a sua, beijando-o lenta e demoradamente, como sempre fazia para demonstrar o quanto eu precisava dele em minha vida – Sou o homem mais feliz do mundo, Allen.
Fim
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