Fotografias
14 Uma Condição
Notas iniciais
Só Deus sabia o tamanho do alivio que Sarah estava sentindo naquele momento. Apesar de seus ferimentos, de toda aquela dor, suas costas estavam mais leves. Sua cabeça estava explodindo, mas ainda assim estava tão mais fácil pensar em tudo que aconteceu. Era como se um enorme bloco de aço tivesse sido tirado de algum lugar da sua mente, de algum canto do seu coração. Não era idiota o suficiente para pensar que tudo estava acabado, sabia que ele voltaria, mas sem querer acabaram dando o primeiro passo.
Ainda não estava acreditando que tudo aquilo tinha acontecido em questões de minutos. Não estava mesmo contando que Manu aparecesse em seu apartamento. Isso foi a pior das loucuras, mas algo dentro de Sarah estava grato por isso. Acabou mostrando que ela realmente se importava. Não que não se importasse também. Importava-se, e muito, com a loira de olhos azuis. Em menos de dois anos tinham estabelecido um laço tão forte que nem mesmo Júnior foi capaz de quebrar. No decorrer dos dias, esse laço ficava cada vez mais indestrutível.
Vê-la tão vulnerável no chão, depois de ter apanhado daquele cafajeste, fez seu coração quase sair pela boca. Era como se seu corpo tivesse levado o mesmo impacto. Ela estava ali, apagada, e não podia fazer nada para ajudá-la. Quando ele a levou, já não tinha forças, porém conseguiu levantar ainda assim. Não permitiria que ele fizesse mais mal a ela. Morreria por ela se fosse preciso. Nunca tinha sido fã de dramas, mas sua vida acabou se tornando um dos mais fortes.
O desfecho daquela cena horrível não havia sido por sorte. Manu alegou ter ligado para Nanda logo após ter saído de casa. Podia confessar, foi uma ideia brilhante. Nunca imaginaria que os dois apareciam. A verdade era que, quando estava sendo pressionada na parede por Júnior e recebendo suas pancadas, já não tinha mais esperança. Tinha certeza que ele iria matá-la. Por isso não viu problema em jogar ao vento tudo que estava sentindo, esfregar na cara dele que estava apaixonada por Manu, mesmo que isso a assustasse um pouco ainda. Então apareceu Victor com todo seu charme protetor.
Apesar de tudo que aconteceu, Sarah se sentia um pouco triste com aquele principio de fim. Estava triste por causa de Manu. Ela estava ferida e fraca, ainda com a boca suja de sangue. Deveria ter cortado por causa da força da porrada que levou. Estava triste por envolver seus amigos nisso. Estava triste por, durante muito tempo, ter confiado e perdoado inúmeras vezes um homem que na verdade era um monstro. Só ela não conseguiu enxergar isso. Seus amigos sempre avisavam e ainda assim cismava em dizer que era apaixonada por ele, que o amava como se fosse a última pessoa na face da terra. Acabou que essas palavras viraram contra si mesma e o cara que alegava amar desesperadamente tornou-se um psicopata sem escrúpulos. Pensar nisso fazia seu coração apertar.
Não tentou brigar quando Nanda ordenou que fossem na delegacia mais próxima denunciar Júnior. Estava tão cansada. Todas suas forças haviam deixado seu corpo e não se importou quando Victor a pegou no colo. Manu reclamava toda hora de uma maldita dor nas costas, mas conseguia andar com o auxilio de Nanda. Então foram para a delegacia. Já era tarde demais para se acovardar novamente. Tudo o que queria era dormir no mínimo 24 horas, com Manu ao seu lado. Depois da denúncia e do corpo de delito, a oficial as levou de volta para casa.
– Tem certeza que vocês vão ficar bem? – Nanda indagou de braços cruzados, olhando para as duas sentadas no sofá.
– Ainda acho que deveríamos dormir aqui – o rapaz de cabelos enrolados e olhos verdes entrou na sala com dois copos d’água. Depois de oferecer a elas, ele continuou: — Ele pode voltar e eu quero estar aqui para esmurrá-lo outra vez.
– Ele não vai voltar, não hoje – Sarah disse, convicta. Sabia muito bem que Júnior morria de medo da polícia e que ele tinha certeza que estavam atrás dele.
– Pelo menos vamos ao médico –ele tentou mais uma vez, mas desistiu quando a índia apoiou a mão em seu ombro.
– Vamos deixá-las a sós. A policia está por perto, mas qualquer coisa me liguem.
Assim que terminou de dizer, Nanda beijou a bochecha das duas e foi pegar a chave do carro em cima da mesinha de centro. Esperou por Victor e, antes de saírem, as fez prometer que tomariam o máximo de cuidado possível. Mesmo depois de Sarah dizer que Júnior não voltaria, era melhor não arriscar.
Quando a porta bateu, o apartamento ficou totalmente em silêncio. Manu percorreu os olhos devagar pelo cômodo. Tudo era decorado em preto, branco e cinza. Os sofás eram quadriculares, cinza claro. Havia dois deles, ambos de três lugares, um de frente para o outro. As paredes eram brancas e os estofados estavam encostados nas laterais dela. Atrás de um tinha uma enorme janela, coberta por cortinas cinza quase brancas. Do outro tinha um quadro simples, na imagem tinha uma sombra de uma garota sacando uma bola de vôlei com um fundo branco atrás. Entre eles, na parede frontal, tinha uma TV LSD com altos falantes. O tom escuro dali sempre agradou Manu. Era um papel de parede de fundo cinza escuro com flores negras. Gostava de tudo naquela sala, pois ainda não tinha visto outro lugar tão bem detalhado. Do lado de lá dos sofás tinha uma luminária também clara. A única coisa que fugia dos padrões ali eram as almofadas amarelo areia e um vaso transparente, em cima da mesinha de vidro, com orquídeas de um amarelo tão vivo que parecia iluminar o resto do lugar. Entre os sofás, sob a mesinha de centro, um tapete felpudo cinza claro dividia espaço com o piso branco. Manu sempre imaginou o quão fácil aquele chão deveria ficar imundo, porém sempre que esteve ali ele estava limpo. Naquele momento, próximo à mesinha de centro, tinha pingos de sangue seco e diversas marcas de tênis.
O silêncio durou longos e tortuosos minutos, mas ninguém ousou quebrá-lo. Manu visualizava cada detalhe do cômodo e Sarah mantinha os olhos fechados. Sabia que ela estava com medo. Também estava, para falar a verdade. Suas costas estavam doendo demais e sabia que aquela tinha sido a maior loucura de sua vida. Levou a mão até a boca e resvalou os dedos de leve onde tinha cortado, franzindo as sobrancelhas quando doeu. Era a primeira vez que apanhara de alguém. Sempre fora a criança mais quieta da turma, a adolescente mais tímida da dança, a universitária mais na dela. Nunca teve motivos para levar uns bons tapas e, tinha certeza, não havia sido uma experiência muito boa.
– Desculpa por isso – assustou-se quando Sarah disse. Não tinha notado que ela a olhava intensamente. Quando retribuiu o olhar, sentiu toda dor desaparecer por um breve momento.
– Eu não conseguiria ficar muito tempo separada de você – Manu explicou, falando bem devagar. Se abrisse muito a boca sempre fisgava. – Acabei estragando os seus planos.
– Você é louca – a ruiva sorriu e se endireitou no sofá, virando de frente para ela. Pegou a mão alva e acariciou dedo por dedo. – Eu fiquei com muito medo.
– Estamos bem agora – e era verdade. Os ferimentos não eram nada comparado com o que passaram. – É verdade o que você falou?
– O quê? – Sarah corou.
– Você está apaixonada por mim mesmo? – Assim que terminou de indagar notou-a desviar os olhos.
– É verdade, sim – respirou fundo e não notou que seu pulmão havia parado de doer. – Só pode ser isso. Eu penso em você toda hora. Não como antes...
– E pensa como? – A loira sentiu seu corpo inteiro ficar tenso. O carinho que ela fazia em sua mão era o que estava deixando-a mais calma.
– Penso em você me beijando de novo – fez uma pausa, sentindo seu rosto esquentar de vergonha.
Manu também corou com aquela confissão. Seu coração parecia querer sair pela boca de tão acelerado que estava. Já tinha quase perdido as esperanças, mas Mari pediu para que não desistisse. Foi o que fez. E ali estava sua recompensa. A garota mais linda do mundo estava ali, dizendo que queria ser beijada novamente por ela. Ainda era meio diferente pensar dessa forma, mas seu corpo reagia sempre que estavam perto. Era só questão de tempo para se acostumar. Levou a mão livre ao rosto dela e acariciou a maçã suavemente, em seguida virando-o para que ela a encarasse. Em alguns pontos estava começando a fichar roxo por causa das pancadas fortíssimas que tinha levado de Junior.
Por um momento pensou que finalmente tudo estava acabado, mesmo não estando na realidade. Aqueles olhos verdes a fitavam de um jeito intenso, brilhantes e expressivos. Os cabelos vermelhos estavam caídos sobre os ombros, com aquelas ondulações nas pontas que tanto amava. Observou cada detalhe dela como se quisesse memorizar tudo naquele momento. Passou o polegar nas sobrancelhas ruivas e depois no nariz perfeito, prestando atenção nas sardas que a deixavam tão charmosa. Reparou também a calça jeans e a blusa colada que ela vestida, enquanto passava o polegar nos lábios delicados e rosados.
Aos poucos aproximou o rosto devagar e um filme passou por sua cabeça. Lembrou-se do dia que conhecera Claudia e Juliana em Atenas, quando estava tirando fotos do Paternon para um trabalho da faculdade. Elas tinham dito que precisava conhecer sua amiga e lembrava o quão ficou encantada com aquele sorriso. Com certeza era a melhor mais linda que já vira na vida. Também lembrou de quando viu a solicitação de amizade no face e de como seu coração acelerou estranhamente ao rever aquela ruiva tomando milk-shake na foto do perfil. Da vez que a viu na webcam pela primeira vez. Aqueles olhos verdes eram encantadores demais. O sorriso espontâneo sempre a fazia lembrar do brilho das estrelas num céu de verão, tão exuberantes e chamativas. Não tinha como não se apaixonar por aquela garota. Com todos os defeitos, todas as manias, Sarah ainda conseguia ser perfeita.
O dia que ela foi buscá-la no aeroporto foi sem dúvida um dos dias mais marcantes de sua vida. Só Deus sabia o quanto estava nervosa. Eram simplesmente inseparáveis, mas nunca tinham se visto pessoalmente. E a voz dela era tão diferente pessoalmente! Levemente aguda, mas com um toque suave como veludo. Nunca imaginou que fosse gostar tanto de um abraço. Se as meninas não estivessem ali teria permanecido nos braços dela por longos minutos. Ela era tão quente e aconchegante, tão única. A partir daquele momento era como se nada mais importasse em sua vida. Na verdade, a partir do dia que aquela garota de olhos verdes e sardinhas no rosto apareceu em sua vida, por aquela fotografia num aparelho de celular, tudo tinha mudado. Algo dentro do seu coração havia se transformado.
Com um fechar de olhos, Manu sentiu o toque suave da respiração dela em sua boca. Estavam muito próximas. Era difícil de acreditar. Ela não a estava rejeitando mais e algo dentro de si estava realmente aliviado com isso. Não conseguiu evitar sorrir com isso. Sarah estava ali, mostrando que estava totalmente à sua disposição. Deslizou a mão bem devagar do rosto dela para a nuca e subiu-a para segurar os cabelos vermelhos com firmeza. Tornou a sorrir quando o suspiro dela tocou seus lábios. Sem querer mais prolongar toda aquela tortura, Manu passou a ponta da língua no lábio inferior da ruiva, sentindo-a estremecer somente com aquele toque simples. Quando notou que ela estava impaciente, soltou uma risadinha abafada.
Sarah ficou totalmente encantada com aquele gesto, se fosse possível ficar ainda mais encantada por aquela garota de cabelos loiros. Os dedos dela estavam em seus cabelos, segurando-os com uma pegada que nunca imaginou que ela teria. Sentia a palma da mão dela fria e sabia que ela estava nervosa, mas não queria dizer. Ela estava torturando-a. Quando tentou puxá-la, ela a impediu, pegando seu braço com a mão livre e entrelaçando seus dedos. Mesmo depois de tudo que aconteceu, ela aparentava estar melhor. Os enormes olhos brilhavam e o sorriso denunciava que estava feliz. Ela, sem sombra de dúvidas, tinha o sorriso mais lindo do universo. Com a mão livre acariciou o rosto dela bem de leve, vendo-a fechar os olhos e sorrir. Tudo na sua mente se apagou quando ela a beijou. Não foi algo profundo e nervoso como na primeira vez. Os lábios dela se moviam com suavidade e calma, tão macios que pensou em como deveria tê-la beijado antes. As línguas se tocavam lentamente e Sarah sentiu que ela tremia em seus braços. Quando mordeu o lábio rosado e o puxou de leve ela gemeu de dor.
– Desculpa – disse ao se afastar. Quando ela abriu os olhos, sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
– Não tem problema – Manu sorriu, mas soltou o cabelo dela e levou os dedos até o machucado. – Como você está se sentindo?
– Eu estou bem. Não estou sentindo mais dor – também sorriu, mas seu rosto ainda estava um pouco dolorido. E deveria ficar assim por mais alguns dias.
– Não é disso que estou falando – ela sentia seu corpo ainda tremer por causa do beijo. – Como você está em relação a tudo isso.
– Eu não esperava – Sarah respondeu depois de alguns segundos em silêncio. – Não esperava que seria assim. Eu estou realmente triste, porque confiei minha vida e felicidade a um homem que não era o que eu sempre pensei que fosse. No fundo eu sabia que ele nunca ia mudar, mas eu queria tentar mesmo assim. Quando eu conheci você, já não o amava tanto quanto amei no primeiro ano de namoro. Eu estava afastada dos meus amigos por causa dele. Estava muito sozinha e ver tudo que eu pensei que daria certo ruir foi demais para mim. Mesmo assim eu tentei de novo. Só que agora tem você, eu não faria nunca algo que te machucasse. Realmente não esperava que você aparecesse aqui desse jeito, mesmo sabendo que você é teimosa demais. Eu não queria que você tivesse se machucado.
– Eu estou bem – ergueu a mão e colocou uma mecha ruiva atrás da orelha dela.
– Mas está machucada e eu não suporto isso – a ruiva desviou os olhos e mordeu os lábios. – Se eu tivesse dado um fim quando tive chance, isso não teria acontecido.
– Ficar se martirizando por causa disso não vai adiantar muita coisa – acariciou a bochecha dela e lhe deu um selinho de leve. – Você quer conversar sobre isso agora?
– Já estamos conversando – Sarah evitou um suspiro. – Quero que você tome cuidado. Não quero que ande sozinha por ai. Precisamos de um carro pra você.
–Tá louca?
– Não, você não vai andar de taxi mais. Tenho medo do Júnior fazer alguma coisa com você – segurou ambas as mãos da loira e olhou-a de forma suplicante. – Por favor, até a policia dar um jeito nisso.
– Onde eu vou arrumar um carro? Não tenho dinheiro pra isso – tentou argumentar.
– Eu vou comprar. Não adianta fazer essa cara, eu vou comprar um carro pra você – quando ela suspirou, Sarah sorriu. – Pelo menos até isso tudo se resolver.
– Eu até aceito, mas só por uma condição – Manu brincou com uma mecha do cabelo ruivo, enrolando a leve ondulação no dedo indicador.
– Qual?
– Quero que você fuja comigo por uns dias.
Sarah piscou três vezes antes de entender. Fugir por três dias? Mas pra onde? Sabendo que não tinha como negar aquele pedido, apenas suspirou e aceitou a condição proposta por ela. Afinal, com ela, iria para qualquer lugar do planeta.
Continua...
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