Fotografias

20 Teu Jeito de Balancear


Notas iniciais
Oi, geeeente. Tudo bem com vocês? Como prometi, trouxe o capítulo para vocês. Não foi exatamente Sábado de manhã, mas tá valendo né? kkk Só 20 minutinhos atrasada =P. As músicas do capítulo, em ordem de exibição, são: • Saga de Um Vaqueiro (Mastruz com Leite) • Xote das Meninas (Luiz Gonzaga) • Nosso Xote (Bicho de pé) Boa leitura, gente. Beijos.

Manu sentiu o olhar penetrante da mulher de cabelos da cor do fogo. Como sempre fazia para as festas da cidade, caprichou no visual. Colocou uma saia preta colada, um palmo e meio acima dos joelhos. A blusa sem mangas também colava em seu corpo e estava posta por dentro da saia, deixando as curvas sinuosas bem evidentes para quem quisesse apreciar. Nos pés preferiu rasteirinhas que trançavam suas canelas. Os cabelos caiam soltos como cascatas de ouro, batendo na altura da cintura e estava partido de lado. E os olhos de um azul perolado foram realçados por uma camada moderada de maquiagem, além de blush rosado nas bochechas.
Mas o que Sarah reparou e mais gostou foi como aquele batom vermelho havia caído bem nos lábios carnudos dela. E só então percebeu a mudança que Manu sofria toda vez que se arrumava. Não era a primeira nem a segunda vez. Lembrou da primeira vez que a viu pessoalmente, no aeroporto. Ela estava com uma cara de acabada, sem maquiagem e vestida numa roupa simples. Ainda assim conseguia ser a mulher mais bonita entre as presentes. Aí a vê fantasiada de policial, com aquele macaquinho preto de couro, que modelava todo o corpo dela. Completamente irresistível. Agora, ontem, ela estava parecendo uma princesinha, vestida naquele vestido azul claro. E hoje estava pronta para matar, mostrando o verdadeiro mulherão que ela realmente era. E, se não fosse Miguel ali, implicando com ela, teria babado mais um bocado.

– Vamos, crianças? – Dona Helena apareceu no corredor, com uma bolsinha simples pendurada no ombro direito.
– Leva ele, mãinha. Tá enchendo meu saco – Manu empurrou o irmão pelo corredor. – Eu já volto, vou pegar minhas coisas.
– Estamos esperando lá fora – a mulher mais velha avisou, puxando Miguel pela orelha, que ria e se divertia com aquilo.
– Vem cá – a loira puxou Sarah pelo braço, obrigando-a a entrar no quarto.

Sem ter muito o que fazer, Sarah se deixou levar pela garota. Só não imaginava qual era as intenções dela ao fazer isso. Só caiu na real quando já tinha sido prensada contra madeira da porta, agora fechada, e o hálito dela batia suavemente contra seus lábios. Olhou-a nos olhos, totalmente sem reação, e a viu sorrir de uma forma maliciosa. Sarah notou que gostava quando ela sorria daquele jeito, pois era sexy demais. Pensou que ela a beijaria, mas não foi o que aconteceu. Ao invés disso, Manu apenas cheirou seu pescoço e apertou um pouco mais o corpo dela no seu. E por fim sussurrou:

– Só não vou te beijar, porque vai te sujar de vermelho. Mas estou morrendo de vontade.

Sarah se arrepiou e respirou fundo, torcendo para que logo voltassem pra casa.

– Você adora me provocar, não é? – Indagou, olhando diretamente para aqueles olhos azuis.
– Você não sabe o quanto.

Ao terminar de dizer, ela piscou um olho e logo se afastou. A jogadora observou-a pegar sua bolsa e só desencostou da porta quando ela se afirmou que finalmente estava pronta. Então suspirou e saiu junto com ela. Seu coração ainda batia de forma descompassada, como se pressentisse que a loira poderia tornar a se aproximar a qualquer momento.
Diferente do dia anterior, eles saíram de carro. Se fossem a pé, não só demorariam para chegar, como poderiam sujar a roupa por causa da poeira da estrada de terra batida. Miguel quase suplicou, com os olhos brilhando, para ir dirigindo. Nenhuma das duas viu problema nisso e Sarah entregou a chave do Vectra preto alugado para o garoto de cabelos arrepiados, que sorriu radiante. Em pouco mais de dez minutos chegaram na casa do tal do seu Tião. De acordo com Manu, ele estava completando 78 anos e suas festas eram as mais famosas da cidade. Sempre lotava.
De início, Sarah não viu nada de diferente das outras casas da cidadezinha. Era simples e tinha o mesmo formato quadrado, com uma varanda lateral, de todas as outras. As paredes externas haviam sido pintadas de amarelo-bebê em algum lugar no passado distante, o que não significava que não seria confortável internamente. Em frente a ela havia cavalos, carros e carroças estacionados. Do fundo, Sarah conseguiu ouvir uma música animada tocando e o burburinho de algumas pessoas que haviam chegado antes deles. Miguel pegou sua mão e a de Manu e juntos passaram por um corredorzinho na lateral da casa.
Manu parecia estar voltando ao passado, quando vinha com sua família nas festas que seu Tião dava. Cada pessoa contribuía com alguma coisa. Dinheiro, bebida, prato pronto, ou até mesmo mão de obra para montar a festa. Alguns levavam seus instrumentos, para interagirem e se divertirem juntamente com todos. Era uma união perfeita que a loira sempre amou participar. Era uma pena não ter algo do tipo na cidade grande. No máximo, quando faziam uma social daquele tipo, era entre amigos e não entre conhecidos ou até mesmo moradores do outro lado da cidade. Isso seria impossível no Rio de Janeiro, por exemplo.
Reconheceu o som gostoso da sanfona, que era tocada por Juca, o maior fazendeiro daquela área. Nem sempre o dinheiro subia à cabeça da pessoa e Juca era um exemplo perfeito disso. Ele sempre contribuía muito nas festas. E sua espora, Léia, fazia a mais deliciosa galinha à cabidela da região. Ao lado dele, seu Tião estava sentado num banco de madeira e tocava animadamente seu triangulo. Era praticamente impossível não sorrir com aquilo. Logo algumas pessoas vieram abraçá-la, dizendo que estava com saudades e mais algumas trivialidades do tipo.
Era um ambiente completamente novo para Sarah, mas ela achou cada detalhe magnífico. Passou os olhos com curiosidade por todo o espaço. As pessoas estavam espalhadas pelo quintal de seu Tião, algumas dançando xote no centro. Três delas tocavam e um cantava no canto direito, próximo a um pé de fruta. A iluminação vinha de lâmpadas penduradas num fio, que vinha da parede da parte de trás da casa e terminava amarrado numa árvore localizada na outra extremidade. Algumas árvores também tinham uma lâmpada pendurada no galho mais baixo, iluminando as laterais do espaço. Encostada à parede traseira da casa, tinha uma enorme mesa, com diversas iguarias. De acordo com Miguel, eram comidas típicas do estado. O cheiro estava misturado, mas ainda assim fez a barriga da ruiva roncar.

– Sejam bem-vindos – uma senhorinha simpática os recebeu, abraçando um por um. Parou diante de Sarah e sorriu de uma forma simpática. – Você deve ser a amiga da pequena Manu. Seja muito bem-vinda a nossa cidade. Espero que você goste muito daqui.

Sarah se perguntou como ela sabia disso, mas limitou-se a pensar sobre o assunto. Isso era típico de cidade pequena. Um dia se acostumaria com todos sabendo coisas sobre si, mesmo que não conhecesse mais que dez deles. Retribuiu o abraço dela, achando aqueles braços aconchegantes. Vovós eram tudo de bom.

– Vamos, cheguem mais. Sirvam-se antes que a comida esfrie – ela se virou, indicando que a seguissem. – Tem de tudo por aqui. Fiquem a vontade.
– Obrigada, dona Arlete – Miguel agradeceu, sorrindo de um jeito fofo.

Quando ela se afastou, Dona Helena explicou que se tratava da esposa de seu Tião. Antes de pegar um prato para se servir, a ruiva virou para olhar a senhora mais uma vez. Os cabelos eram completamente grisalhos e bem ralinhos. Ela estava com um vestido bem simples e andava como se tivesse 20 anos ainda, com um vigor surpreendente.

– O que é isso? – Indagou, assim que virou, apontando para a panela que dona Helena tinha acabado de destampar.
– Buchada de bode – Miguel respondeu no lugar da mãe, enchendo uma concha e preenchendo seu prato.

Foi impossível Manu não rir da careta que ela fez ao olhar para o cozido de bucho com vísceras.

– Eu que não como isso – ela disse, se sacudindo de nervoso. – E aquilo. O que é?
– Sarapatel. Cozido feito de tripa de porco e mais um cado de coisa de dentro dele – respondeu a loira, colocando arroz em seu prato. Assim que terminou, abriu uma outra panela. – Isso aqui é panelada. Uma delícia.

Feito de tripa, adivinhou a ruiva, suspirando. Será que existia alguma coisa comestível naquele lugar?

– Esse é meu preferido, porque é mais leve que os outros dois. É feito de vísceras de boi – explicou Manu, segurando-se para não rir da expressão desapontada dela. – Deixa ver o que temos aqui – Manu tirou a tampa da panela ao lado e sorriu. – Baião de dois. É uma delícia.

Suspirando, Sarah colocou um pouco do baião no prato. Já tinha ouvido falar na buchada de bode e só o nome lhe dava enjoos. Agora ver e sentir o cheiro era algo completamente diferente. Manu e Miguel comiam e se deliciavam, como se aquilo fosse uma iguaria dos deuses. E se perguntou como é que eles conseguiam comer as tripas e os órgãos dos animais, tudo misturado e picado num cozido só. Como num milagre de Deus, acharam algo que fez seu estomago reclamar de fome novamente. Carne de sol com mandioca, ambos fritos. Quando provou, descobriu que o gosto era ainda mais delicioso que o cheiro. E aquele era o baião mais completo que já havia comido na vida. Tinha bacon, costelinha de porco, três tipos diferentes de linguiça e até queijo coalho. Além de ter sido super bem temperado.
Não demorou muito para a galera chegar. Todos estavam muito bem vestidos e logo vieram cumprimentá-los. Pouco tempo depois, o local ficou tão cheio que Sarah se perguntou de onde havia saído tanta gente. Mesmo assim, o centro do quintal continuava vazio. Alguns casais dançavam animados, seguindo a música.

– Você está magnífica, Manu – Marcela sorriu abertamente, mostrando seus dentes incrivelmente brancos. – Você também, Sarah.
– Obrigada, Marcela – a ruiva agradeceu.
– Eu concordo com ela – Bento comentou e riu quando seu irmão o empurrou. – As quatro estão lindas. Benza Deus.
– Garoto, cala essa boca – agora foi a vez de Denise o empurrar.
– A cada dia vem mais gente pra essa festa – Miguel comentou, bebendo um copo de refrigerante logo em seguida.
– Parece que veio alguns conhecidos de seu Tião lá da cidade grande – Fábio comentou, com as mãos nos bolsos, enquanto olhava os casais dançando.

A música teve fim e o lugar permaneceu em silêncio, tirando o burburinho das pessoas. O cantor tomou um pouco d’água e o restante aproveitou para esticar os braços e as pernas. Menos de um minuto depois, voltaram a tocar. O ritmo fez as sobrancelhas de Fábio arquearem e um sorriso brotou em seus lábios. E, por incrível que pareça, Sarah conhecia aquela melodia. Fazia muito tempo que não ouvia aquela música e sem querer sua mente se transportou para a época que brincava na sala, enquanto seu pai ouvia forró e sertanejo num radinho muito antigo, que era de seu avô.
Fábio estava com uma camisa regata preta e calça jeans. Os tênis também eram pretos. Os cabelos castanhos estavam arrepiados com gel.

– Manu – ele a chamou, estendendo a mão para ela. – Vamos dançar?
– Claro – a loira sorriu abertamente, sentindo o coração disparar somente de ouvir a melodia da música.
– Dança comigo, Sarah? – Bruno indagou ao se encaixar onde Manu estava segundos antes.
– Eu não sei dançar. Desculpa.
– Não tem problema. Vamos? – Insistiu e estendeu a mão, do mesmo jeito que Fábio tinha feito.
– Tudo bem – a ruiva suspirou e pousou sua mão sobre a dele.

Além dos dois casais, Miguel também convidou Marcela e Bento puxou Denise pela mão, mesmo sem saber se ela aceitaria ou não dançar com ele. Então todos foram para o centro do quintal, o único lugar que permanecia vazio, a não ser pelos que estavam dançando.
“Vou pedir licença pra contar a minha história. Como um vaqueiro tem suas perdas e suas glórias”
Manu deixou que o rapaz juntasse seus corpos e segurou a mão dele, também deixando a mão livre pousasse em suas costas. Pousou a sua no ombro dele e o olhou nos olhos, sorrindo abertamente. Desde pequenos que dançavam na festa de seu Tião. Não só com ele. Com Miguel, Bento, Bruno e mais alguns garotos. Aquilo fazia parte do que ela era de verdade.
“Mesmo sendo forte, o coração é um menino, que ama e chora por dentro e segue o seu destino”
Começaram a dançar numa sincronia perfeita, sendo levados pelo cantor e companhia. Manu o deixava guiá-la, mantendo seu corpo tão leve quanto uma pluma.

– Desde cedo assumi minha paixão de ser vaqueiro e ser um campeão. Nas vaquejadas sempre fui batalhador – Fábio cantava baixinho ao afastar seu corpo do dela, mas soltar a mão delicada e de dançar. – Consegui respeito por ser um vencedor – levantou o braço e girou-a para um lado e voltou fazendo o mesmo movimento.

Como a música tinha mais de oito minutos, logo as pessoas foram cansando de dançar e iam se afastando do centro. Só ficaram Manu e Fábio e Miguel e Marcela, dançando como se fizessem isso desde que nasceram. Sarah os observava com um sorriso no rosto. Era uma coisa bonita de se ver, mesmo admitindo que era horrível dançando. Não durou nem um minuto com Bruno. Não conseguia acompanhar os passos dele, que dançava meio desengonçado. Logo a música trocou e Miguel pediu permissão a Fábio, que se afastou e entregou Manu para ele.
“Mandacaru quando fulora na seca é o sinal que a chuva chega no sertão. Toda menina que enjoa da boneca é o sinal que o amor já chegou no coração. Meia cumprida, não quer mais sapato baixo, vestido bem cintado, não quer mais vestir timão”
Miguel girava sua irmã de um lado para o outro, unindo seus corpos logo em seguida. Seguiam o mesmo passo, no mesmo ritmo. Sarah percebeu que a sincronia deles era ainda mais perfeita que a de Manu com Fábio. Ele apoiava a mão no fim das costas dela. Ambos loiros de olhos azuis e excelentes dançarinos. Por um momento, Sarah desejou saber dançar daquele jeito.
“De manhã cedo já ta pintada. Só vive suspirando, sonhando acordada. O pai leva ao doutor a filha adoentada. Não come, nem estuda, não dorme, não quer nada”

– Ela só quer, só pensa em namorar – Manu cantou alto, rindo e acompanhando Miguel. – Mas o doutor nem examina. Chamando o pai do lado e lhe diz logo em surdina que o mal é da idade e que pra tal menina não tem um só remédio em toda medicina.

O som da sanfona seguiu tocando, envolvendo-os completamente. Manu estava suada de tanto dançar, mas nunca se cansava. Aquilo fazia parte dela. Sentia tanta falta disso. De dançar e esquecer no mundo, apenas seguindo os passos de seu parceiro. Sentindo o som gostoso da sanfona entrar em sua alma através dos ouvidos e acalentar seu coração. Cidade grande nenhuma era capaz de transmitir tal sensação de tranquilidade que aquele lugar conseguia. Ainda mais ao som de Luiz Gonzaga, que era um de seus cantores preferidos.
Quando a música teve fim, eles voltaram aos seus lugares.

– É, você não perdeu o jeito – Fábio comentou ao chegar junto com Marcela.
– Dançar é como andar de bicicleta, a gente nunca esquece – explicou a loira, sorrindo abertamente. Sua respiração estava ofegante e seu corpo levemente suado. – Quase esqueci o quanto isso é bom.
– É bom ter você aqui – Bento comentou e piscou para ela. – Mas ainda vai dançar comigo.
– Daqui a pouco. Primeiro quero desesperadamente alguma coisa pra beber – Manu virou as costas e foi para a cozinha, atrás de qualquer coisa que matasse sua sede.
– Vocês aprenderam a dançar com quem? – Sarah indagou, sentindo-se quase deslocada no meio deles.
– Isso vem da nossa raiz. Eu não sei explicar – Marcela disse.
– Você sabe sambar? – Fábio indagou, novamente com as mãos nos bolsos.
– Sei, desde pequena – a ruiva disse, assim que pensou um pouco na pergunta dele.
– Então. É a mesma coisa com a gente. É a nossa raiz. Nascemos e crescemos nisso. Não precisamos de escola de dança para aprender. Sempre vimos nossos pais dançando e os amigos dele. Sempre frequentamos esse tipo festa. A Manu, por exemplo, sabe tocar sanfona.
– Você sabe tocar sanfona?! – Sarah indagou assim que a loira voltou.

Manu abriu bem os olhos azuis, levando com calma o copo de cerveja até a boca. Depois de três goladas, sentiu-se bem melhor. O liquido gelado desceu lavando sua alma.

– Sei – finalmente respondeu. – Aprendi com meu pai. Miguel também sabe.
– Gente, que legal. Eu não sei tocar absolutamente nada – choramingou.
– Mas joga vôlei como ninguém – Denise falou, chamando a atenção delas, que olharam como se perguntassem: Como você sabe? – Eu vi seu jogo, que vocês levaram o título contra o Fluminense. Claudia e Juliana são excelentes jogadoras, mas elas não tem o seu forte corte de esquerda.

As duas ficaram boquiabertas, ouvindo-a. Não que fosse preconceito, mas Sarah não contava que eles tivessem visto seus jogos. Não fazia parte da seleção e nem de nenhum time grande do estado. Flamengo era time grande, sim, mas no futebol. No vôlei, era apenas mais um time a conseguir subir e chegar ao auge. Era um excelente time, com incríveis prodígios e uma categoria de base de dar inveja a qualquer outro clube do Rio. Mas ainda assim, não era um Rio de Janeiro ou Osasco da vida.

– E tem mais – ela continuou. – Acredito que você tem tanto potencial que elas para ir para o Rio de Janeiro, ou qualquer outro time do mesmo porte.
– Não sei o que dizer – Sarah sentiu as bochechas esquentarem de vergonha. – Obrigada.
– Parem de me olhar com essa cara – Denise reclamou, seu sotaque cada vez mais acentuado. – Eu adoro esportes.
– Disso eu sei, mas não sabia que você acompanhava os campeonatos de vôlei – Manu deu de ombros.

No instante seguinte, outro xote veio ao ar. Manu ficou paralisada pelo que pareceu uma eternidade. O som da sanfona entrando em sua mente, fazendo-a transportar-se para um passado distante. Para o dia em que dançou com seu pai naquele mesmo quintal, quando tinha apenas dez anos. Aqueles foram momentos realmente bons e que só agora estava voltando a ser como era antes, tirando o fato de que nunca mais teria seu pai em sua vida.

– Dança comigo? – Indagou para a garota de cabelos ruivos. Ela estava linda naquele jeans justo e a bata.
– Eu não sei dançar – justificou Sarah, mordendo os lábios.
– Aprende – Manu pegou a mão dela e a puxou para o centro do quintal.

Ao chegarem, sem pudor colou seu corpo ao dela. Sentiu-se arrepiar por inteira. Não só por causa da ruiva, mas por causa da música também. Era uma mistura de sensações difícil de se explicar. Mas era gostoso demais estar ali com ela. Então enlaçou a cintura fina e segurou a mão alva, sussurrando no ouvido dela os passos que deveria seguir. Como se Sarah realmente conseguisse prestar atenção em alguma coisa que ela estava dizendo.
Moreno, me convidou para dançar um xote. Beijou o meu cabelo, cheirou meu cangote, fez meu corpo inteiro se arrepiar.
Indo contra todos os seus dons não dados por Deus, Sarah conseguia seguir os passos da fotógrafa com uma facilidade que nunca imaginou ter. Ela dançava como uma profissional e explicava exatamente o que precisava ser feito. Enquanto fazia os mesmos movimentos que ela, ouviu-a alegar que tudo o que precisava era deixar o corpo solto, que o resto ela fazia. E Sarah nunca imaginou que ser guiada por ela fosse tão bom. Era como se estivessem apenas as duas ali. Como se estivessem dançando nas nuvens.
Fiquei sem jeito e ele me acolheu junto ao peito. E foi nos braços deste moreno que eu forroziei até o dia clarear.
Manu afastou o corpo do dela, sem soltar sua mão. Fez o famoso dois-pra-lá-dois-pra-cá, sem perder um momento o rebolado. Ela tentava fazer o mesmo e estava se saindo muito bem.
Oioioioioioi me encantei por teu olhar. Moreno, chega mais pra cá. Meu dengo, vem me chamegar.
Levantou a mão dela e disse para que se preparasse, pois iria girá-la. No segundo seguinte, fez o que falou. Girou-a com facilidade, para os dois lados.
Oioioioioioi teu jeito de balancear o corpo inteiro faz meu coração bater ligeiro. Assim eu vou me apaixonar.

Continuaram dançando até o final da música. Sarah sentiu que aquele momento havia entrado como um dos melhores de sua vida. Não precisava que ela lhe desse um beijo, nem nada do tipo. Estava feliz por estar ali, com ela, vivendo todos aqueles momentos. Sabia muito bem que estava sendo tão importante para ela quanto estava sendo para si. Afinal, quando amamos alguém, convivemos com tudo que a faz bem e aprendemos a gostar das mesmas coisas. Aquele não era seu mundo na realidade, mas era tão perfeito que receava em ter que voltar.

Continua...

Notas finais
Todas as músicas desse capítulo marcaram minha infância de um jeito muito forte. Não tanto quanto para Manu, mas meu pai e minha falecida vó sempre ouviam e acabou me marcando muito, agora que não a tenho comigo. Mas temos que dar graças a Deus que existe músicas, independente do gênero, que nos façam lembrar de momentos maravilhosos. Espero que vocês tenham gostado. Próximo capítulo vai pegar fogo o/ Vou tentar postar segunda de noite ou terça de manhã. Beijo, gente sz