Fotografias

23 Sentimentos Verdadeiros


Notas iniciais
Como prometido, aqui estou eu, meus amores. Espero que vocês gostem do capítulo, eu amei escrevê-lo. OBS: Leiam ouvindo a música que me inspirou a escrever. (http://www.youtube.com/watch?v=EuLWwYD8Sso) All for love (Michael Bolton) Boa leitura a todos. Tentarei trazer o próximo sábado de manhã. Beijos

– Vai devagar com isso! – Sarah exclamou, segurando firmemente a parte de trás do selim da bicicleta. – Eu to falando sério, Manuela!

– Eu estou indo devagar, sua medrosa!

Manu vestia roupas simples e pedalava pela estrada de terra, com a ruiva sentada de lado na garupa, indo em direção à fazenda onde seu irmão trabalhava. A cesta de piquenique estava no colo dela, que tentava equilibrá-la enquanto se segurava da maneira que podia. Desde criança carregava pessoas em sua garupa. Principalmente Miguel. Levava e buscava na escola todo santo dia. Ninguém nunca reclamou, mas Sarah cismava em dizer que se ela pedalasse mais rápido que aquilo iriam se esborrachar no chão. Estavam praticamente se arrastando! Só ela que não percebia isso.

Se Sarah soubesse que seria carregada para uma fazenda localizada do outro lado do Ceará, tinha simplesmente escolhido ir de carro. Nada mais prático e seguro que um bom e velho automóvel. Andar de bicicleta era uma coisa, agora sentar numa garupa de ferro, ficar com a bunda amassada e descer morros e mais morros, enquanto tentava equilibrar uma cesta de piquenique no colo, era outra completamente diferente. Estava toda dolorida e gritava a cada vez que Manu errava o alvo e passava por algum buraco pelo meio do caminho. Ela pagaria muito caro por aquilo.

Assim que chegaram, a ruiva desceu toda desajeitada, arrumando o vestido violeta que vestia. Manu sorriu abertamente, porém resmungou e passou na frente.

– Poxa, você está chateada? – Manu indagou ao alcançá-la, empurrando a bicicleta.

– Estou com a bunda toda dolorida...

– Eu não fiz por mal. Queria que você se divertisse. Hein, desfaz essa carinha – cutucou a barriga dela com o dedo indicador, notando-a segurar um sorriso. Céus, como estava linda com aquela trança jogada por cima do ombro. Como ela não respondeu, continuou: — Sorri um pouquinho pra mim?

Era impossível não sorrir, por mais que tentasse se segurar. E Manu se perguntou se passaria algum dia sem se encantar por cada traço dela.

Enquanto caminhavam em direção a um longo portão de madeira, Manu contou que seu pai trabalhou nessa mesma fazenda, porém foi sócio do dono e amigo Juca. Eles se davam muito bem e por causa desse trabalho nunca faltava o que comer em casa. Miguel ajudava em cada lugar um pouco. Alimentava o criadouro de peixe, contava os gados, ajudava a concertar os motores de arados parados, entre diversas outras coisas. De acordo com Juca, ele era muito novo ainda para ter algo fixo e precisava daquilo para se achar lá dentro. Mas a principio, ele se dava muito bem com os cavalos. Manu puxou o descanso da bicicleta e deixou-a em pé para abrir o portão.

Talvez fosse apenas imaginação, mas a ruiva percebeu que aquele lugar era infinito. Um conjunto de quase uma centena de hectares de terra se estendia ao horizonte. A principio o pasto estava praticamente deserto, exceto pelos urubus que se amontoavam sobre mourões de madeiras empilhados perto da cerca. O céu estava limpo e claro, exatamente da cor dos olhos da loira, que agora comentava sobre o que estaria fazendo se ainda morasse ali. Mais a frente, Sarah viu bois e cavalos pastando juntos em harmonia. Um lago tomava conta de ambos os lados da pequena estrada, passando por baixo da mesma, e uma rã pulou da grama para dentro d’água.

–... Estaria colocando lenha no fogão para preparar a comida de Miguel, junto com minha mãe – a loira terminou de dizer, ainda empurrando a bicicleta com calma.

– Eu estaria cuidando dos meus cinco filhos, enquanto meu marido capinava o dia inteiro – brincou, provocando gargalhadas em Manu.

– E quem disse que eu deixaria você se casar e ter cinco filhos?

– Não deixaria? – Sarah a olhou e, como era de costume, borboletas dançaram em seu estomago.

– Se eu te conhecesse desde criança, com certeza já estaríamos casadas a essa altura – uma águia passou bem baixo e apanhou um peixe no lago que acabaram de deixar para trás.

– Você está ficando mais ousada – ela desviou o assunto, fingindo prestar atenção na ave que voltava a passar por elas e pousar numa árvore distante.

– É até irônico você dizer isso depois de ontem – Manu corou, embora estivesse sorrindo.

Sarah se manteve em silêncio, deliciando-se com flashes da noite anterior, onde fez Manu sua mulher pela primeira vez, onde a fez se segurar o máximo que podia até se explodir em gemidos incessantes. Recordou-se do corado exagerado no rosto alvo, devido ao imenso esforço que fizera; em como ela ficara ainda mais linda vulnerável, com a respiração arfante e o corpo trêmulo. Era impressionante como seu corpo a desejava, como sua boca ansiava por ela. Não só ontem, como agora também. E a ruiva teve a certeza que não importava quanto tempo passasse, sempre seria assim.

Depois de dez minutos de caminhada, a fotógrafa deitou a bicicleta na grama e levou Sarah até a sombra de uma enorme árvore, onde forraram uma toalha quadriculada e se sentaram animadas. Tudo ali era impressionante. Havia cores em todas as partes. As mangas acima de suas cabeças alternavam em vermelho, laranja e amarelo. Próximo dali, um periquito azul tentava insistentemente engolir uma lagarta maior que seu bico. Borboletas de diversas cores passaram voando, livres e felizes. Outro lago brilhava ao longe, correspondendo à luz do sol. O preto, castanho e mostarda se misturava entre os cavalos, que se destacavam em meio ao branco bovino. Mas nada se comparava ao vermelho dos morangos da primeira vasilha que Manu tirou de dentro da cesta.

– Vou confessar que fiquei super curiosa para saber o que dona Helena colocou aí dentro – disse com um sorriso no rosto, enquanto ela tirava um pote de bolo e outro de biscoito.

– Acho que mãinha não colocou nada salgado – Manu fez uma careta ao tirar outro compartimento, agora com pudim.

– Continua tirando – a ruiva gesticulou com as mãos.

Balançando a cabeça enquanto ria, a fotógrafa fez o que ela pediu. Encontrou salada de frutas e finalmente os salgados: Queijo branco cortado em cubinhos, presunto, pastel e sanduíches de patê. Também encontrou duas garrafinhas de suco, de limão e de maracujá, e uma de água. Ao colocar todas aquelas coisas sobre a toalha quadriculada vermelha, Manu ergueu os olhos e começou a rir.

– Você está com fome, não é?

– Está tão evidente assim? – Sarah revirou os olhos e cruzou os braços, se esforçando para não começar a atacar aquelas iguarias todas.

– Ta escrito na sua testa – ela riu graciosamente e pegou um morango. – Toma – levantou-se de onde estava para se sentar ao lado dela. Em seguida, levou a fruta até os lábios carnudos e esperou que ela mordesse.

– Você já fez isso alguma fez? – Indagou assim que engoliu.

– Não aqui. Já fiz em Atenas, com minhas amigas do intercâmbio. Era engraçado, porque cada uma levava uma comida diferente. Digo, do seu país, sabe? – Manu riu ao se lembrar. – Era momentos assim que me acalmavam, que diziam que faltava pouco para voltar para casa e passar todos os dias com minha família e amigos, de onde eu nunca deveria ter saído.

– Acabou que não foi assim que aconteceu...

– Mas não foi ruim – tratou logo de dizer, antes que ela entendesse errado suas palavras. – Não que seja bom ficar longe da minha família, longe disso. Eles são tudo pra mim, é meu único elo com a pessoa que eu realmente fui e ainda sou, a pessoa que você está conhecendo desde o dia em que pisou nessa cidade. Mas ir morar no Rio de Janeiro me amadureceu bastante. Eu era apenas uma jovem inexperiente fugindo das dores do passado. Conheci Roma e Madri, e vivi quase dois anos em Atenas – Sarah a olhava com atenção, esquecendo-se do sanduiche que em algum momento havia pegado. – Mas tudo que eu mais queria era voltar para casa, abraçar minha mãe e meu irmão e dizer que nunca mais queria sair de perto deles. Aí você apareceu.

– Eu não – a jogadora sorriu de lado.

– Claudia e Juliana – ela concordou, rindo abafado. – Elas vieram como um raio em um dia quente. Do nada e sem que ninguém esperasse. E vieram te empurrando para cima de mim logo no primeiro dia. Gente, eu nunca tinha me imaginado com uma garota e mesmo assim elas chegam e me mostram uma fotografia sua.

– Eu nunca perguntei, mas qual foi a foto que elas mostraram? – Ao indagar, Sarah mordeu o sanduiche, mal prestando atenção no gosto do patê caseiro de sardinha.

– Na verdade, foi Claudia que me mostrou. Você estava com ela na foto, com um sorrisão aberto. Naquele momento eu pensei que não tinha visto mulher mais linda na vida.

Sarah ficou sem palavras e as sardas foram se misturando a um leve rubor.

– E então você finalmente apareceu na minha vida. Você mudou tudo, Sarah – confessou, procurando alguma coisa para beber. Opinou pela limonada e, depois da terceira golada, olhou para a ruiva e notou que ela a fitava intensamente, esperando que continuasse. – Não foi fácil chegar até onde estamos.

– Eu sou difícil – brincou, dando de ombros.

– Realmente – Manu brincou com a ponta enrolada da trança dela e sorriu ao olhar para aqueles olhos verdes. – Mas valeu cada minuto de sofrimento.

– Eu demorei muito para perceber o quanto necessito em te ter na minha vida – um pouco mais solta, Sarah acariciou o rosto alvo e deu-lhe um selinho de leve nos lábios rosados. – Tanto como amiga, quanto como mulher.

Se o coração da loira batesse um pouco mais rápido, ele soltaria pelo peito.

– O que eu quero dizer com isso tudo... – Manu respirou fundo duas vezes e soltou a trança ruiva, ainda sentindo o calor dos lábios dela nos seus. Olhou para o céu e depois para ela de novo. – É que... eu não quero sair daqui no mesmo pé que cheguei.

– Como assim?

– Mesmo eu dizendo que estamos no mesmo passo, sei que já avançamos muitos sem nem ao menos perceber. Mas... o que eu quero realmente dizer... é que quero sair daqui como sua namorada – seu rosto esquentou ao mesmo tempo em que os olhos azuis desviaram para a vasilha de salada de frutas. Por algum motivo, o amarelo vivo manga estava parecendo muito mais atraente naquele momento.

– Espera, você está me pedindo em namoro? – Sarah sentiu o corpo inteiro esquentar de nervosismo. Finalmente tinha entendido porque ela estava dizendo aquilo tudo.

– Estou. Sei que é cedo, que tem pouco tempo que você terminou o seu namoro com o Júnior, que foi difícil pra você, que talvez não esteja preparada para iniciar um relacionamento novo, eu sei disso tudo, mas ainda assim sou egoísta, porque eu te amo demais, Sarah... Então..

Todas as palavras que tinha pensado em dizer e que ainda estavam para sair por sua boca morreram na garganta quando os lábios macios se fecharam contra os seus. Sabendo que provavelmente aquilo seria um sim, seus olhos arderam. Correspondeu-a como se sua vida dependesse disso. Foi um beijo lento e casto, com muito carinho. Sarah pegou sua mão e colocou-a um pouco acima do seio esquerdo. O coração dela martelava contra sua palma, demonstrando, em meio ao beijo, o que Manu a estava fazendo sentir. Então puxou-a mais para si, abraçando-a enquanto mordia-lhe o lábio inferior. Alguns segundos depois, Manu se afastou e abriu os olhos, porém ela manteve os seus fechados.

– Isso é um sim? – Segurava em ambos os lados de seu rosto, acariciando a bochecha suavemente.

Sarah assentiu devagar, sem abrir os olhos. Prendia a respiração e só a soltou quando os lábios roçaram sua testa e foram percorrendo um caminho suave. Ela beijou seus olhos, um e depois o outro. O mundo parecia ter apagado e apenas as duas estavam ali, sozinhas. A textura da pele dela era tão macia, os lábios eram tão delicados e únicos. Os dedos nervosos acariciavam seu queixo e a curva do pescoço. Formigava por onde passavam. A fotógrafa arrastou os lábios por sua bochecha e depositou um selinho lento no canto de sua boca. Ela estava sendo tão carinhosa... Uma lágrima escorreu de seus olhos no mesmo instante em que um suspiro lhe escapou dos lábios.

– Não chora... – Manu beijou o fio de lágrima para depois limpá-lo com o polegar. – Você é tudo pra mim.

Quando a ruiva finalmente os abriu, Manu sentiu todas as células do seu corpo reagirem. O verde água estava mais brilhante que o normal, devido as lágrimas que tentavam escapar. Daria um doce para saber o que ela estava sentindo ou pensando.

– Eu... – a voz saiu embargada. Manu mordeu os lábios, sem deixar de olhar para aqueles olhos um segundo sequer. – Eu... Te amo... Tanto... Tanto...

Manu fechou os olhos com força e respirou fundo. Abraçou-a com todas as forças do seu ser. Suas mãos tremiam quando deslizaram pelas costas alvas.

– Eu também te amo, mais do que você possa imaginar – apertou-a ainda mais contra seu corpo, sendo prontamente correspondida. – Eu sou capaz de fazer de tudo pra te ter comigo para sempre.

– Estou aqui somente pra você – Sarah beijou o ombro desnudo e um riso abafado e sincero escapou de seus lábios. — Você é perfeita.

Manu afastou o rosto para observá-la sorrindo.

– Posso dizer uma coisa mais séria? – Deu um selinho nos lábios risonhos e não pôde deixar de sorrir também. Quando ela assentiu, continuou: — Eu sei que não será nada fácil daqui pra frente. Não digo isso pelo fato de sermos duas mulheres, você sabe ao que me refiro. Mas eu quero deixar bem claro que não importa o que aconteça, eu nunca vou sair do seu lado. Eu quero te prometer isso, quero que você também me prometa. Eu não vou admitir que nada e nem ninguém te tire de mim – voltou a segurar o rosto dela com ambas as mãos. – Me promete?

– E se ficar perigoso? Eu não quero que você se machuque de novo por minha causa...

– Me promete, Sarah? – Insistiu.

Ela desviou os olhos.

– Sarah... Por favor – Manu encostou a testa na dela e fechou os olhos. – Já foi difícil o suficiente chegarmos até aqui. Passamos por tantas coisas juntas... me promete?

– Prometo, meu amor – ela respondeu, finalmente se rendendo e corando de leve por causa do apelido carinhoso. E não teve como não se encantar com o enorme sorriso que ela dera.

– Nós vamos embora amanhã – seu sorriso foi sumindo aos poucos.

– Vou sentir falta daqui, sabia?

– Vai? – A fotógrafa se aconchegou nos braços dela, pegando uma fatia de bolo de laranja. A cobertura do mesmo sabor estava uma delícia.

– Vou. Falta de toda essa calmaria, falta das pessoas maravilhosas que moram aqui. Já sinto falta de tudo, pra falar a verdade – fez carinho no braço dela e beijou seu pescoço de leve, notando-a encolher o ombro e sorrir. – Podemos voltar mais vezes?

– Claro que sim, amor. Fico muito feliz que você tenha gostado daqui. Era tudo que eu mais queria.

– Amei tudo e todos. Sua mãe é uma fofa e seu irmão também, sem contar com seus amigos. Fiquei muito feliz por eles já considerarem a minha amizade. Mas só de uma coisa que eu não gostei – Sarah franziu as sobrancelhas.

– Do Tom – a loira arriscou, sorrindo.

– É, ele é um idiota. Não vejo a hora de esfregar na cara dele que você é minha e só minha – abraçou-a apertado e a encheu de selinhos.

– Sua boba, eu sempre fui sua, só que você demorou muito para perceber – Manu mordeu-lhe o lábio inferior e sorriu. – Mas não a tempo de ser tarde demais.

– Agora você vai ter que me aguentar.

– Não será esforço nenhum – ela sorriu e beijou-a.

Passaram o restante da manhã conversando e rindo um bocado, simplesmente felizes por estarem finalmente namorando. Era tudo que Manu mais queria. No inicio achava ser impossível, pois Sarah era uma garota difícil, hetero e, ainda por cima, comprometida. Não sabia o porquê de tudo ter mudado de uma hora pra outra. Mas as provocações das meninas contaram muito e, talvez, todas as coisas que ela passou com o namorado também. Talvez Sarah só precisasse de alguém que a amasse de verdade, que dividisse todos os momentos consigo sem pedir nada em troca. E Manu estava ali para isso e para sempre.

Depois do piquenique, elas juntaram as sobras de volta na cesta e dobraram a toalha. Manu decidiu deixar tudo ali para caminharem juntas. Levou-a no lago que brilhava ao longe, onde se sentaram na beirada e observaram os peixes subirem à superfície para se esquecerem na luz do sol. Manu lhe disse todas as espécies que apareceram e riu quando ela fez um comentário qualquer dizendo que era informação demais, que nunca saberia identificar peixes pela espécie. Pouco antes do almoço, elas voltaram para a árvore e em seguida para casa. Aproveitariam o restante do dia primeiramente com dona Helena e depois com a galera. Aquele lugar realmente deixaria muitas saudades.

Continua...

Notas finais
E então, o que acharam do pedido de namoro? Eu ainda acho a Manu perfeita demais e a quero pra mim. Está chegando a hora da despedida =/ Não queria que esse arco na cidadezinha acabasse. Tava tão bom s//z Beijo, gente. Até o próximo.