Fotografias
29 Sem Opções
Notas iniciais
– O que você quer? – Manu indagou de forma ríspida, embora seu coração martelasse ferozmente contra o peito.
– Fica calma, não vou fazer nenhum mal a você – a voz grossa soou brincalhona, mostrando que ele estava se divertindo com sua aflição.
– Como você entrou no meu carro? – Seus dedos tamborilavam nas coxas nervosamente. Precisava sair dali o mais rápido possível.
– É tão fácil arrombar um carro sem disparar o alarme – Junior explicou, relaxado. As pernas enormes estavam exageradamente abertas e por alguns segundos Manu se perguntou se ele não estaria se sentindo na praia, pelo jeito que estava sentado todo esparramado no banco traseiro. – Só vamos conversar um pouquinho, ta legal?
– Eu não quero conversar com você, Junior. Sai do meu carro – Manu se controlou para não gritar. Estava morrendo de medo, mas não demonstraria em momento algum. Tinha que se mostrar forte, tanto por si mesma, quanto por Sarah.
O corpo da loira reagiu quando ele se mexeu no banco, subindo o quadril para tirar alguma coisa da barra da calça jeans larga. Não era possível ficar ainda mais assustada do que já estava. Júnior tirou dali uma pistola prateada, que não conseguiu identificar o modelo, e apontou para ela. Todo seu ser congelou automaticamente ao observar o cano da arma. Manu engoliu em seco e ficou totalmente sem reação. Não fazia a mínima ideia do que aconteceria consigo depois disso. Se tentasse sair do carro, ele com certeza atiraria nela. E se ficasse...
– Me deixe em paz, Júnior... – Ousou dizer, tentando conter o estremecimento dos seus músculos.
Júnior vestia uma camisa larga de algum time de basquete americano ou canadense. A loira não fazia a mínima ideia de qual era o time, pois não conhecia nada sobre o esporte. Como se realmente fizesse diferença ou não saber alguma coisa sobre basquete. Tinha um cara maníaco apontando uma arma para sua cara e basquete nenhum a salvaria se ele resolvesse puxar a porcaria do gatilho.
E para piorar, toda a cena ocorrida na casa de Sarah, quase dois meses atrás, passaram por sua mente o pior dos filmes de terror. E com direito a continuação, pois o mesmo vilão estava de volta e com a pior das caras. Lembrou-se de todo o medo de Sarah, todo desespero que ela sentiu quando ele lhe bateu várias vezes. Não queria apanhar de novo. Não tinha feito nada de mais!
Tudo bem, tinha se apaixonado perdidamente pela namorada dele. Mas isso não justificava as surras que anteriormente deu na ruiva, na sua ruiva! Não admitiria que ele voltasse a tocar nem um só dedo nela. Poderia aparentar ser pequena e inofensiva, mas quando mexiam com as pessoas que amava, virava um bicho. Ainda assim, tudo aquilo era em vão, ao passo que era para sua cara que o cano prateado da pistola estava sendo apontado naquele momento.
Apesar de se mostrar corajosa, estava morrendo de medo de levar um tiro.
– Que tal darmos uma voltinha? – Ele sugeriu, ignorando sua pergunta.
– Não... – engoliu em seco quando ele encostou o cano em sua cabeça.
– Eu disse que vamos dar uma voltinha – voltou a dizer, agora com mais ignorância.
– Então vem dirigir...
– Não, você dirige. Vamos, vire para frente – Júnior pressionou a arma na cabeleira dourada, vendo-a obedecer prontamente.
– Para onde vamos? – Manu tentou manter a voz o mais firme possível, o sotaque cearense acentuando por causa do nervosismo. A calça incomodava tanto quanto All Star.
– Vai dirigindo, não sei ainda – ele respondeu, voltando se jogar no encosto do banco e deixando a arma ao seu lado como garantia se ela tentasse alguma gracinha. – Finge que eu não estou aqui.
Manu olhava fixamente para frente, tentando pensar em alguma maneira de sair daquela situação horrível. A porcaria do celular estava no silencioso, jogado dentro de sua bolsa. Não tinha como pegá-lo sem que Júnior percebesse. Sentia o coração apertado de tanto medo, mas ainda assim ligou o carro e acionou a ré para sair da vaga. Não conseguia prestar muita atenção no que estava fazendo, não com ele observando-a a todo instante do banco de trás.
Quando finalmente entrou no trânsito de final de tarde do Rio de Janeiro, ousou olhá-lo pelo retrovisor. O boné branco contrastava a pele escura. Aquele sorriso que passou a odiar, divertido e arrogante, brincava nos lábios carnudos. Ele cantarolava uma música baixinho, alguma espécie de Rap que contava a história da vida humana no mundo do crime.
Queria tanto fazer como num filme de ação. Abrir a porta com o carro ainda em movimento, se jogar para fora e deixar que ele se ferrasse sozinho. O carro tinha seguro, então não haveria problema. Mas sua vida não era um filme e nunca seria, por mais que namorasse uma mulher tão linda quanto as princesas de conto de fadas. Lembrar da ruiva fez seu corpo se acalmar um pouco.
– Vocês estão namorando? – Júnior quebrou o silêncio depois de longos e tortuosos minutos, assustando-a de leve. Os olhos de um azul-perolado o fitaram pelo retrovisor interno. – Não adianta negar, eu vi vocês duas se beijando na praia.
– Você estava nos seguindo?! – A fotógrafa perguntou, totalmente incrédula. As mãos alvas apertavam com força o volante, enquanto ela tentava prestar atenção no trânsito caótico à sua frente.
– Eu sei onde você mora, loirinha – fugiu da pergunta e olhou para fora do carro. Ela pagaria muito caro por ter tomado seu bem mais precioso. – Sei que vocês estão namorando e ela está dormindo na sua casa temporariamente, provavelmente para que eu não faça nada com você. Mas ela não pode te vigiar 24 horas por dia. Estou aqui agora com você e essa é a maior prova.
– Mas como... – Ela desistiu da pergunta quando ele riu de forma debochada. – O que é tão engraçado? – Mordeu os lábios, com medo da resposta.
– Eu perdi o amor da minha vida para uma mulher. Você não acha isso engraçado? – Manu o ouvia atentamente, embora não tivesse coragem para afrontá-lo. Os olhos estavam presos no tráfego. Notou-o parar um pouco, como se estivesse pensando sobre o assunto. – Pra falar a verdade, eu também não acho. Isso foi a pior coisa que você poderia ter feito contra mim, loira.
– Eu não fiz isso, você fez! – Olhou-o rapidamente pelo retrovisor, cuspindo as palavras, completamente enojada pelo que estava prestes a dizer. – Você batia nela! Quem diabos bate em quem se ama? Em mulher não se deve bater nem com pétala de rosas. Ela está feliz agora, eu a estou fazendo feliz, eu...
– Fique quieta! – Ele gritou, fazendo-a se interromper por causa do susto que havia levado. – Você não sabe o que eu passei pra dizer o que eu deveria ou não ter feito! Se eu bati nela é porque ela mereceu! Eu estava ali todo dia, toda hora, sempre pra ela! E ela não se importava com isso, não atendia minhas ligações, não respondia minhas mensagens! Quem não responde seu próprio namorado? E quando eu exigia alguma explicação, ela dizia pra eu sair de cima porque eu tava grudando demais. Eu não estava grudando demais! – Num gesto nervoso, Júnior tirou e colocou o boné umas três vezes na cabeça. – Eu só queria fazer tudo que a deixasse feliz. E ela me respondia de forma malcriada. Ninguém xinga a minha mãe como ela xingou! Ninguém me afronta como ela afrontou!
Manu não respondeu dessa vez. Tentou o máximo se concentrar no caminho a sua frente, dirigindo sem rumo pelas suas de Copacabana. Chegou até a passar de frente ao prédio que Sarah morava e também pela clinica que Mari trabalhava, em Botafogo, vários minutos depois. A velocidade do carro não passava de cinquenta quilômetros por hora. Temia que acabasse batendo se ele voltasse a assustá-la novamente.
– A primeira vez que eu bati nela foi com tanto gosto que eu me acalmei na mesma hora – ele tornou a quebrar o silêncio depois de tanto tempo.
No horizonte, o sol já havia desaparecido, dando lugar a um tapete negro sem estrelas. À medida que ia ficando mais escuro, os pontinhos brilhantes iam aparecendo, um por um. Sarah deveria estar morrendo de preocupação naquele momento. Ainda assim, tentava manter o pensamento focado nela, nas coisas boas que passaram juntas desde o dia que se conheceram. Não queria ser afetada pelas coisas horríveis que ele começara a dizer.
– Ela ficou tão surpresa – Júnior continuava falando sozinho. – Foi naquela hora que eu vi o quão excitado fiquei ao vê-la sangrando e partindo pra cima de mim. Não sei se você sabe, mas a Sarah é a pessoa mais brava do mundo. E não tinha pena em me bater. Então revidei várias vezes e aquele foi só o primeiro dia.
– Eu não preciso saber disso... – Ela respondeu em meio a dentes cerrados.
– É claro que precisa. Você é a namorada dela agora – deu de ombros e, embora sorrisse de forma despreocupada, Manu sabia que ele estava se remoendo por dentro. – Você não faz ideia de como foi gostoso fodê-la depois de espancá-la. Acredita que ela tinha beijado o David e Victor de uma vez só? Ela mesma me contou isso. Eu não admito traição, não quando eu faço de tudo para ser só dela. Você precisava ver a cara dela depois do primeiro soco.
Diferente do que ele deveria esperar, Manu se manteve calada, porém toda a força que tinha juntado para se manter firme diante das palavras dele se foram. As lágrimas desceram sem pedir permissão, grossas e incontroláveis. Mordia os lábios com muita força, tentando não imaginar o que ele dizia. Não queria pensar em Sarah atirada na cama, sangrando, chorando, enquanto ele a tocava daquele jeito tão... nojento. Não queria pensar em ninguém tocando sua namorada...
– Ela implorava para que eu parasse, mas isso me deixava ainda mais excitado – continuou dizendo, se divertindo com o sofrimento da loira no banco da frente. – A cama estava tingida de vermelho naquele dia. Eu estava com tanta raiva que chutei a barriga dela. Ela passou vários segundos vomitando sangue. Você consegue imaginar? Ela foi tão ruim comigo, foi merecido o que ela sofreu. Mas foi o dia que eu tive um dos orgasmos mais intensos da minha vida. Mas não se preocupe, eu não gozei dentro dela, embora fosse o que eu pretendia.
– Cala a boca... – Manu conseguiu dizer, a voz embargada por causa do choro. Todos os seus nervos pediam para que parasse aquele carro e fugisse dali o mais depressa possível. – Eu não quero ouvir isso...
– Acho que você não tem muita escolha, sabe? – Júnior riu e mais uma vez tirou o boné da cabeça, revelando os cabelos cortados bem baixinhos. – Eu tinha prometido antes que nunca mais bateria nela. E o que ela faz? Ela me trai e com dois homens! E se já não bastasse ela estar rodeada de lésbicas, ela ainda tinha que virar melhor amiga de uma garota que morava do outro lado do planeta.
– E o que há de mal nisso? – Com a mão trêmula, a loira secou as lágrimas, por mais que em seguida viessem mais.
– Você não entende! – Ele gritou novamente, assustando-a. – Você sabe quantas vezes ela me deixou de lado pra ficar falando com você? Perdi a porra das contas! Ela sempre dava uma desculpa diferente! Sempre enfurnada no celular, no computador! Nunca tinha tempo pra mim! E isso piorou depois que você veio morar nessa merda de cidade! O que diabos você veio fazer aqui? Você veio terminar de tirar a Sarah da minha vida!
– Você não merece nada de bom que venha da Sarah. Está me entendendo? Você é um idiota, arrogante, que só sabe resolver as coisas na base da violência. Mesmo que eu não a amasse como eu amo, mesmo se não estivéssemos juntas, eu faria o possível para vê-la livre de você. Porque você é um MONSTRO! – Manuela esbravejou em meio ao mar de lágrimas que saíam por seus olhos azuis.
– Para o carro – Júnior disse de forma irritada, voltando a colocar o boné na cabeça. – EU DISSE PRA PARAR O CARRO!
Sem qualquer opção de escolha, Manu fez o que ele pediu. Estacionou o carro no acostamento, de frente para a praia vermelha, no bairro da Urca. Não tinha a menor ideia de como havia parado naquele lugar, porém só agora percebeu que esse havia sido o seu pior erro. Não havia uma alma viva na rua e só entendeu o motivo quando viu que já havia passado das nove da noite. Apenas uma ou duas pessoas esperavam ônibus no ponto há umas quatro ou cinco quadras atrás. Não tinha noção de ter dirigido por tanto tempo
A praia era pequena, mas ainda assim era muito apreciada pelos turistas e também moradores da cidade. Ela se localizava entre o morro da Urca e o morro da Babilônia. Ambos completamente camuflados à escuridão da noite. O nome da praia de dava pelo fato da areia ficar num tom avermelhado durante o por do sol, por isso era tão visitada.
Apesar da falta de pessoas na rua, era até irônico o fato de haver um circulo militar bem próximo de onde estavam. Lembrou que Sarah lhe contou isso quando subiram para o Pão de Açúcar pela trilha, que tinha inicio dali daquele lugar. E isso fez a loira respirar um pouco aliviada, pois diminuía e muito as chances de Júnior tentar fazer alguma coisa.
Relutante, Manu abriu a porta do carro e saiu. Júnior fez o mesmo logo após e a observou com olhos divertidos. Só Deus sabia o quanto sentia nojo daquele cara! Todas as cenas tanto do dia em que havia batido nas duas, quanto as sobre as coisas que ele tinha contado no carro, voltaram em pura insistência à sua mente. Não queria pensar nisso, mas que droga!
As lágrimas voltaram a escorrer livremente quando a mão grande e forte se fechou em seu braço e ele a arrastou para a areia, indo em direção à água. Só faltava ser morta por afogamento. Em meio ao desespero nem havia notado que seu celular vibrava enloquecidamente dentro da bolsa, em cima do banco carona do carro.
– Me solta, eu sei andar sozinha – finalmente disse, tentando soltar o braço.
– Fica quieta, loira – ele pediu, ignorante. Continuou a arrastá-la pela areia e, devido à sua pequena extensão, poucos segundos depois chegaram à água.
– O que você quer de mim? – Manu sentiu seu All Star se encher d’água. Estava morna por causa da temperatura da noite. A maré estava alta, mas isso não mudava muita coisa, pois a praia não tinha onda.
Quando a água chegou aos joelhos da loira, molhando a calça de ambos, ele finalmente a soltou, empurrando-a para longe. Manu não sabia o que fazer. Ele era enorme e já havia sentido a potência do seu tapa. Não queria sentir novamente. Então mordeu os lábios com força, pensando em como agir agora. Ele a olhava furioso, o prateado da pistola brilhava intensamente devido à luz da lua.
– Eu só quero deixar uma coisa clara aqui – ele felizmente guardou a arma na calça, sem deixar um minuto de olhá-la. Os olhos escuros brilhavam de ódio. – Quero que você fique longe da Sarah. Ela é minha, está me entendendo?
– Não é mais. Ela é a MINHA namorada – a loira gritou, recuando quando ele se aproximou como resposta. – Minha e só minh...
Júnior a calou com um tapa no rosto, bem mais forte que o que tinha levado quase dois meses atrás. O barulho surdo se perdeu na escuridão da noite fresca. Manu cambaleou e por pouco não caiu na água. Seu rosto começou a arder muito e mais lágrimas vieram à tona, escorrendo de forma feroz. Mas não iria desistir de Sarah assim! Não iria!
– Ou você deixa a Sarah em paz ou vou ser obrigado a tirá-la de você. E meus métodos não são os mais gentis. Se ela não for minha, também não será de mais ninguém – Júnior fez um gesto com os dedos próximo à cabeça, simulando um tiro. – Espero que tenha entendido, loirinha.
Depois de dito, ele saiu da água e posteriormente deixou a praia. Estava completamente perdida naquele momento. Não no sentido literal, pois sabia como voltar para casa. Porém a única coisa que conseguiu fazer foi caminhar devagar até a areia e se sentar sobre ela, os pés encharcados, a cabeça latejando. Então se permitiu chorar noite a fora.
(...)
– Não, eu já liguei mais de cem vezes! – Sarah falava de forma desesperada, andando para lá e para cá. – Ela não me atende, Claudia! Pelo amor de Deus, alguma coisa aconteceu com ela – a ruiva fez uma pausa e passou a mão livre pelos cabelos. – Eu preciso encontrá-la...
Antes de desligar, Sarah já estava pegando as chaves do carro sobre a mesinha de centro na sala de estar. Apressadamente, ela saiu do apartamento e bateu a porta, nem se dando o trabalho de fechá-la. Seu coração precisava saber que sua namorada estava bem. Iria encontrá-la. Custe o que custar.
Continua...
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