Fotografias

36 Se Arrepender Jamais


Notas iniciais
Meus amores, desculpa a demora. Dessa vez o problema não foi nem a falta de costume com a nova rotina. Eu não sou tão boa escrevendo cenas de ação, então dei uma travada básica. Mas entrei finalmente no rítmo *-*

Algo dizia para Sarah que a noite comaçava a cair do lado de fora, pois a temperatura estava diminuindo aos poucos. Era como se tivessem desligado o forno e finalmente ele tivesse esfriando. Só que na realidade nada daquilo importava de verdade. Não quando seu ex-namorado estava praticamente montado na sua mulher, obrigando-a a fazer coisas abomináveis. Não adiantava gritar ou espernear. Ele não parava de dizer aquelas coisas horríveis e sujas, poluindo seus ouvidos pouco a pouco e provocando lágrimas que há tempos não tinha mais para chorar. Seus pulsos estavam roxos e queimados pela corda que a mantinha naquela posição desconfortável. Só queria poder se soltar e tirar aquele filho da puta de cima dela.

Manu permanecia em silêncio e com o corpo inerte sob o de Júnior. Não que estivesse permitindo o que ele estava fazendo, muito pelo contrário, queria empurrá-lo para longe de si. Só que não tinha forças para isso. Estava difícil até para respirar. Todos os membros doíam como se um trator tivesse passado por cima de seu corpo. Mal conseguia mover as pernas e os braços. Tudo que podia fazer era senti-lo acariciar seus seios de forma rude, chegando a machucá-los por causa dos apertões.

Naquele momento, um filme passou em câmera lenta por sua cabeça, mostrando como sua vida tinha mudado drasticamente desde o momento em que tinha conhecido Claudia e Juliana em Atenas. Naquele mesmo dia, tinha ouvido falar e visto uma fotografia de uma ruiva linda no aparelho da líbero da Seleção Brasileira. E quem imaginaria que ficaria viciada naquela mulher? Era como se fossem unha e carne, sempre arrumando uma forma de se falarem, seja por mensagem ou até mesmo por vídeo conferência.

Em questão de semanas viraram melhores amigas. Não se desgrudavam um minuto sequer. Manu pensou que sabia todos os segredos dela, assim como contava todos os seus. Dos garotos que pegava à maneira como odiava cada pessoa da aula de inglês, tirando a turminha da qual andava.

As mãos grandes e calejadas acariciaram sua barriga e Manu sentiu vontade de vomitar. Fechou os olhos com força e tentou controlar sua respiração pesada.

Então viajou para o Rio de Janeiro. Só Deus sabia o quanto havia sofrido dentro daquele avião. Estava mais nervosa que tudo na vida. Mal conseguiu dormir. Estava tão ansiosa para vê-la pessoalmente que quase não lembrava que todas as meninas estariam presente no aeroporto, que também teria que conhecer outras pessoas.

Por um momento o grito de Sarah a fez acordar de seus pensamentos. Ela ainda tentava de todas as maneiras se soltar. Queria pedir para que ela ficasse quieta, pois se machucaria ainda mais, mas não podia culpá-la. Em seu lugar, estaria agindo da mesma forma, se não pior. Se pelo menos tivesse forças para tirá-lo de cima de si. Mas nem isso tinha. Nem gritar conseguia, pois sua garganta parecia estar fechada.

Mordeu os lábios com força quando sentiu que ele estava abrindo o botão de seu short jeans. Estava com tanto nojo dele...

Automaticamente, as imagens retornaram. Não conseguiu ouvir mais Sarah gritar ao fundo, nem sentir os movimentos pecaminosos do homem em seu corpo. Parecia que estava começando a desmaiar.

Cada detalhe da discussão que teve com sua mãe lhe passou pela cabeça, quando decidiu que moraria no Rio de Janeiro. Sabia que estava magoando a todos, pois mais uma vez estava abandonando toda a sua família, amigos e conhecidos. Tudo por causa de uma única garota. Tudo por causa daquela ruiva linda de olhos verdes.

E quem diria que acabaria se apaixonando por ela? Mesmo ouvindo-a dizer a todo tempo o quanto amava o namorado? Era simplesmente impossível resistir àqueles sorrisos e àquele jeito que só ela tinha. E mesmo depois de todo sofrimento que passou para saber que era correspondida, não havia se arrependido em nenhum momento.

Não se arrependia agora. E nunca se arrependeria.

Por quê?

Aquela mulher era sua vida. Por ela não teria medo de enfrentar qualquer perigo se fosse para vê-la livre daquele psicopata. Poderia estar ali, deitada num chão sujo, com um homem asqueroso tocando seu corpo como se fosse apenas um pedaço de carne, jamais mudaria de ideia sobre seus sentimentos. Jamais mudaria o foco do seu amor. Jamais permitiria que qualquer pessoa no planeta tirasse aquela ruiva do seu coração e da sua vida.

– MANU!

E foi o grito daquela mulher que impediu sua mente de se perder na escuridão. Não podia desmaiar e deixar sua namorada sozinha com aquele maníaco. Estava exausta, mas a voz e presença dela lhe dava forças que pensava não ter. Mal conseguia se mexer, mas podia manter seu consciente vivo por causa dela, pois o que sentiam uma pela outra era forte demais para que pudesse desistir tão fácil assim.

(...)

O crepúsculo caía lentamente sobre a Cidade Maravilhosa, mostrando que em pouco mais de meia hora o céu estaria completamente escuro. Esse fato tinha seus pontos positivos e negativos. Débora poderia facilmente citá-los, como se os tivesse decorado para uma apresentação na escola. Um dos pontos negativos era que a visão seria muito prejudicada por causa da falta de luminosidade, dependendo também do local em que os bandidos as estivessem mantendo encarceradas. E um dos positivos era a facilidade que teriam em se camuflar nas sombras.

Graças a Deus o tempo havia dado uma regularizada. Débora não estava acostumada com aquela onda de calor que muita das vezes acontecia no Rio de Janeiro. Em Minas geralmente o tempo era fresco durante o dia e gelado à noite, o que era uma delícia. Mas ali? Mesmo sem sol, ainda continuava quente.

No momento estavam todos no carro da Capitã Cairu, indo na direção das coordenadas dadas pelo serviço da operadora móvel de Sarah. Não tinham um plano, como Oliveira tinha sugerido que tivessem. Ele também perguntou se não levariam reforços, porém Débora somente negou com a cabeça. Estava escurecendo e queria evitar que a situação pudesse ficar pior do que já deveria estar. Não precisava ter nascido na cidade para saber que a zona portuária era uma das mais perigosas.

Todos mantinham um silêncio incômodo e apreensivo. Conseguia sentir o quão Fernanda estava nervosa, apesar de seus muitos anos nas forças armadas. Afinal, eram as amigas dela que haviam sido sequestradas, então não podia culpá-la.

Durante todo o percurso, que não durou mais que dez minutos, eles não disseram uma única palavra. Débora aproveitou para pensar em como continuar seguindo sua vida sem ter que se esbarrar sempre com Rebecca. Era impossível não se sentir mal ao saber que tinha acabado por tornar a vida dela um inferno. Tudo que queria era embalá-la em seu colo até que dormisse tranquilamente, como sempre fazia. Ela era sua menina, sua pequena estudante de jornalismo. Ninguém precisava dizer que havia uma diferença significante de idade entre elas, pois tinha plena consciência disso. Mas nada importava, pois se amavam como nunca.

E agora estava ali, no Rio de Janeiro, fugindo daquela que acreditava ser o amor de sua vida.

– Acho que chegamos – Oliveira disse do banco detrás, acordando a detetive do conflito que era seus pensamentos.

Nanda já tinha passado por aquela parte da cidade de carro, mas nada no mundo parecia ser tão sombrio e obscuro vendo tão de perto. Uma sequência de armazéns abandonados davam àquela parte da cidade um ar de filme de terror. O cheio forte da maresia lhes invadia as narinas e a lua aos poucos começava a aparecer no céu cada vez mais escuro.

– E então, qual é o seu plano? – Oliveira perguntou. Tudo indicava que ele não confiava na loira.

– Preste bem atenção, novato – a voz da detetive estava baixa e cautelosa. Ela apontou para o final da rua em que estavam e nem ao menos se deu ao trabalho de olhá-lo. – Qual daqueles armazéns você acha que as meninas estão? – Quase sorriu quando ele franziu as sobrancelhas e passeou os olhos pela sequência de armazéns. – Não sabe? Pra que você quer um plano?

– Nós precisamos nos organizar e...

– E chamar reforços? – Completou a frase com a pergunta, arqueando as sobrancelhas bem desenhadas.

A marinheira apenas acompanhava a discussão dos dois em silêncio, sem expressar opinião alguma. Já tinha convivido tempo suficiente com Débora para saber que ela sempre tinha razão, não importando o meio de suas ações. Só bastava esperar, pois ela acharia a solução. Se preferia não ter reforços, respeitaria sua decisão. Ela dizia não ter um plano, mas com certeza tinha algo guardado na manga.

– Por que não? Você viu que um deles está armado com um fuzil – o praça tentou discutir, porém ficou ainda mais furioso ao ouvi-la rir de um jeito debochado.

– Você é da área mercante também, não é? – Suspirou quando o viu assentir. – Nós não sabemos o que eles são capazes de fazer. Se chamarmos reforços, elas podem ficar em sérios apuros, pois nesses casos o bandido tende a fazer besteira quando está sendo pressionado. Vamos?

– A pé?

– Lógico. Não podemos denunciar nossa chegada – Débora levou a mão até o cós da calça e tirou de lá uma pistola preta. – Estou com dois pentes de munição, acho que é o suficiente.

– Eu tenho um pente só comigo – a marinheira mostrou o objeto para a detetive e em seguida também tirou sua pistola cós. – O que você pretende fazer?

– Nós vamos nos aproximar primeiro, para sabermos a localização dos homens – a loira explicou, caminhando pela rua pouco iluminada. Nenhum carro passava por ali, estava deserto. – Oliveira, você fica aqui para nos dar cobertura.

– Faça o que ela está dizendo – Nanda ordenou assim que percebeu que ele argumentaria, em seguida notando-o murchar. – Eu dou um toque do seu celular caso alguma coisa aconteça. Fique atento. Qualquer coisa, ligue para delegacia e chame reforços.

Assim que o rapaz assentiu, ambas se afastaram, caminhando pela rua sem saída. De acordo com Débora, eles deveriam estar no armazém número três, pois não ficava tão óbvio quanto os outros cinco. Nanda não entendeu a lógica, mas também não perguntou. Os passos ecoavam cada vez mais baixo no asfalto rachado. De toda a rua, apenas três postes realmente estavam funcionando. E um deles piscava toda hora, dando uma sensação de que estavam num filme sobrenatural. A fileira de armazéns abandonados e sombrios também não ajudavam. Apesar disso, as duas mulheres não se sentiram assustadas.

Nanda estava muito focada em salvar suas amigas. Nada mais importava no momento. Só queria livrá-las das mãos de Júnior e mandá-lo de uma vez para a cadeira, coisa que deveria ter feito quando teve a chance. Mas agora terminaria o que tinha começado e aquele idiota, psicopata, teria o que realmente merecia. Isso se Débora o deixasse sair de lá inteiro.

Quando chegaram quase na metade da rua, a marinheira percebeu que a loira tinha razão. Havia um cara de preto na frente do armazém com a numeração três bem grande e em evidência. Se não tivesse forçado a vista, não o teria visto encostado na parede de ferro, totalmente distraído.

Como se agisse no automático, a detetive puxou Nanda para trás de uma lixeira cheia de papelão velho empilhado.

– Toma aqui – ela pegou um objeto cilíndrico prateado e colocou nas mãos naturalmente bronzeadas. Um silenciador. – Talvez você não precise, porque tudo indica que esse é o único que está de vigia. Os outros devem estar do lado de dentro, distraídos com alguma coisa – a voz da detetive saía baixo para que o homem não a ouvisse. O fuzil na mão dele poderia fazer um estrago enorme.

Assentindo, Fernanda fez o mesmo que a loira: Encaixou o silenciador na boca da própria pistola e verificou se estava realmente carregada. Então esperou em silêncio o comando dela. Não demorou mais que dois segundos para que ambas escorregassem sorrateiramente do outro lado da rua, pela sombra, na direção do primeiro armazém. Ao chegarem, contornaram-no e, agora mais livres, correram pela parte dos fundos até chegarem ao terceiro novamente.

– Não podemos entrar sem pegar o nosso amigo lá da frente – Débora explicou, seu tom de voz quase inaudível. – Deixe todos eles comigo. Vou distraí-los e você resgata as meninas.

– Certo – a índia assentiu, obediente.

– Eu vou por aqui e você seque pelo outro lado – não esperou que ela assentisse, apenas virou as costas e foi em direção a uma das laterais da enorme construção abandonada.

Poderia dizer que estava ficando enferrujada depois de todo aquele tempo de crise. Não havia sido fácil enfrentar o fato de que tinha matado um garoto de doze anos de idade. Ainda assim, todas as células de seu corpo vibravam de expectativa. Amava aquele trabalho e a reação que tinha em cada caso provava aquilo. Apesar de que aquela não era sua área. Trabalhava com homicídios, mas isso não tirava a adrenalina das coisas. Muito pelo contrário, só fazia aumentá-la.

Teve que passar por um portão enferrujado para chegar até a frente do armazém. Era uma sorte e tanto ele estar com fones de ouvidos, totalmente disperso. Mas a posição não era boa para atirar. Precisava ir até onde ele estava, pois de perfil e no escuro era quase impossível derrubá-lo. A não ser que atirasse na cabeça, mas ainda assim as chances não eram muitas, não naquelas condições.

Mordendo os lábios com força, deu dois passos na direção dele e se agachou atrás de uma lata de lixo. Poderia parecer louca, mas gostava de sentir o coração martelando desesperado contra o peito. Então foram cinco segundos. Enquanto corria na direção dele, Débora desejou estar fumando um cigarro. Quando o homem notou sua presença já era tarde demais. Não havia dado tempo para absolutamente nada. A detetive se postou atrás dele, apesar de bem mais alto que ela, e fechou o braço sobre o pescoço musculoso. Não conseguiria segurá-lo por muito tempo, tinha certeza disso, mas bastou os últimos dois segundos para despejar três disparos silenciosos nas costas largas. Prendendo a respiração, Débora o colocou no chão devagar para não fazer barulho.

Antes de arrastá-lo para a lateral do armazém, ela tirou-lhe o fuzil das mãos e o pendurou nos próprios ombros. Ao voltar para a entrada, encontrou Nanda a esperando em silêncio.

– Ok, agora nós vamos entrar. Tome cuidado e não me perca de vist... – A loira se interrompeu ao ouvir um grito alto e agudo vindo lá de dentro. – Merda, vamos logo!

Continua...

Notas finais
O que acharam das cenas desse capítulo? Ele foi curtinho, eu sei, mas não tinha mais o que encaixar nele, se não ficaria muito desnecessário. Débora divando como sempre sz Amanhã responderei a todos os reviews. Beijo gente sz