Fotografias
1 Mudança de Vida
Notas iniciais
Agora poderia dizer que estava pronta para morar no Rio de Janeiro. Não que não quisesse antes. Queria, e muito. Só que primeiro precisava visitar sua família em Fortaleza e contar-lhes que, mais uma vez, ficaria longe de casa.
Manuela estava à beira de completar seus 23 anos e já havia vivido o suficiente para saber que existe realmente lugares tão belos quanto o Brasil. Quando estava na metade de seu curso de Fotografia, conseguiu uma bolsa para fazer intercambio em Atenas. Com tantos fatos históricos e tanta coisa bonita para se registrar, não titubeou em confirmar a matricula. Claro que sua mãe tentou de tudo para impedi-la, mas precisava disso para conseguir algo a mais na vida. Precisava ser mais do que o suficiente para ajudar sua família a ter o que realmente mereciam.
Então ela, uma cearense com orgulho, foi para o outro lado do planeta estudar aquilo que mais gostava. Pode se dizer que seu curso de inglês havia ajudado bastante num lugar onde as pessoas falavam totalmente embolado. Foi ali que realmente entendeu o ditado “Estou falando grego?”.
Na metade do seu curso, havia conhecido duas garotas. Claudia e Juliana. Elas eram jogadoras de vôlei da seleção brasileira e estavam na cidade para um amistoso beneficente contra a Grécia. Manuela diria que aquele foi o auge do seu intercambio. Foi graças àquelas duas que havia conhecido Sarah. Não só ela, mas também todos os outros. Só que a insistência de Claudia e Juliana em relação à Sarah sempre foi maior e até irritante às vezes. Por mais que não se importasse em ouvir sempre que elas formavam um lindo casal, ter mais seis pessoas metidas nesse complô já era demais.
- Onde eu coloco essa caixa, moça? – Um rapaz com um uniforme azul olhava para Manu esperando por uma resposta.
- Pode colocar naquele cômodo, por favor – apontou para o que seria seu quarto.
Havia decidido alugar um apartamento na Zona Sul, onde estaria próxima o suficiente de todas as meninas. Não queria ser um incômodo para Clara e Claudia, que estavam prestes a se casar. Ficou no quarto de hóspedes durante bastante tempo e sabia que elas mereciam privacidade. Não que dormir no quarto de hóspedes a incomodasse, mas Manu queria também uma casa que pudesse chamar de sua, mesmo sendo alugada.
Os cômodos eram espaçosos e aconchegantes, dando uma sensação de liberdade. Era muito diferente da casinha que vivia em Fortaleza. Havia suavidade nas cores pasteis de cada cômodo. Conseguiria fazer tudo que quisesse ali. Usaria dois deles para fazer um estúdio e para revelar suas fotografias. Precisava pagar o aluguel e não sabia fazer muito mais do que fotografar.
Manu puxou uma caixa retangular e usou um estilete para romper o lacre da loja. Era uma cama de casal que acabara de comprar. Também comprara um fogão, uma geladeira e um guarda-roupa. Como havia vindo para ficar de vez, não tinha muito mais que as roupas da mala para começar uma vida nova. Tudo que precisava agora era que aqueles homens começassem logo a montar o guarda-roupa e a cama para que pudesse deitar e finalmente descansar. Não havia parado um só minuto desde que decidira fechar contrato e alugar o apartamento.
- Você está bem? – A voz suave de Sarah a fez sorrir involuntariamente. Não conseguia tirar da cabeça que trocara sua família para ficar perto daquela garota. Mas sabia que iria valer a pena tal esforço. – Eu comprei uma macarronada para você. Aposto que ainda não almoçou.
- Eu estou bem – mas estendeu as mãos e pegou o embrulho de papel que ela segurava. Estava faminta. – Você é um amor, sabia?
- Claro que sabia. Eu sou uma pessoa maravilhosa – Sarah piscou, brincalhona.
- Cala a boca, ok? – Manuela riu da situação, tirando uma vasilha de plástico de dentro do pacote de papel. – Isso está com um cheiro maravilhoso – seu estomago roncou.
Quando estava na Grécia, passou mais ou menos uma semana com Claudia e Juliana. Foi amizade instantânea. O temperamento das duas fazia Manuela rir como um bebê. Elas eram divertidas e atenciosas. Fora o fato de sempre falarem de uma garota chamada Sarah. Dizendo que ela namorada um cara chato e arrogante e que sua missão era tirá-la dos braços dele. Como poderia fazer uma coisa dessa? Foi a primeira coisa que pensou. Só que ao olhar para uma fotografia no celular de Claudia, notou que aquela era a mulher mais bonita que já vira na vida.
Ela era linda. Apenas.
Mas isso não impediu as duas garotas de empurrá-la para Manuela. Tanto que a conheceu primeiro pela internet, ao invés de pessoalmente, como havia planejado passar no Rio quando terminasse seu curso na faculdade. Não contava que Sarah fosse tão divertida e muito menos com a súbita vontade de falar com ela todos os dias. Apesar da diferença entre os fusos horários, vê-la na webcam logo após acordar e ler as mensagens dela desejando boa noite era como um sustento para seguir firme e forte todos os dias.
A cada dia que passava, desejava abraçá-la e dizer que estava muito feliz em tê-la como amiga. Apesar do que as meninas queriam, era isso que eram. Melhores amigas.
E agora ela estava ali, supervisionando para que almoçasse direito. Cuidando dela.
A fotógrafa ergueu os olhos e observou a garota em pé ao seu lado. Seus cabelos eram tão brilhantes que a fazia lembrar das mais lindas estrelas do céu. Eles eram ruivos e levemente enrolados nas pontas. Como não querer deslizar as mãos por aqueles fios sedosos? Mas era o verde perolado daqueles olhos que mais encantavam Manuela. Qualquer pessoa conseguia se perder naquele mar profundo.
Sarah jogava vôlei no time do Flamengo, onde Juliana e Claudia também haviam começado. As duas já estavam na Seleção Brasileira, mas a ruiva permanecia levando sua carreira no time rubro-negro. Diversas vezes Manu foi vê-la jogar. Havia se apaixonado pela performance dela e também pela união do time. Imaginava como havia sido quando Claudia e Ju ainda jogavam nele.
- Obrigada pelo almoço, Sarah – Manuela levou a vasilha transparente para a pia que ainda não havia sido utilizada. Deixou-a ali e voltou para onde a ruiva estava. – Obrigada também por vir me ajudar com essa bagunça.
- Claro que eu viria. Não precisa agradecer.
Claro que preciso, pensou Manu com um sorriso terno nos lábios.
- Você vem dormir aqui hoje? – Quis saber. Ambas saíram da cozinha e foram até o quarto, onde os homens já haviam começado a montar os móveis.
- Venho, mas primeiro marquei de ir ao cinema com Júnior. Amanhã vou levar você na entrevista de emprego. É na central de um jornal, não é? – Sarah se escorou no colchão macio que estava em pé na parede, ainda no plástico.
- É. Acho que é aqui próximo. Ainda não me acostumei muito com o Rio e suas ruas mega movimentadas, mas qualquer coisa eu pego um táxi aqui na porta. Não deve ser difícil chegar lá – ela deu de ombros, antes de supervisionar o trabalho dos montadores, que estavam terminando o guarda-roupa para passar finalmente para a cama.
- Eu vou te levar, mulher. O que eu não faço por você? – A ruiva notou as bochechas dela ficarem coradas e sorriu. O barulho irritante da furadeira incomodava a ambas, mas ninguém disse nada sobre isso.
Um dos rapazes, o mais alto deles, pediu licença para Sarah e pegou uma das portas do guarda-roupa, que estava ao lado dela. O movimento foi suficiente para ela perceber o franzir de sobrancelhas da outra. Alguma coisa dizia que Manu não entendia absolutamente nada sobre montagem de móveis. Tal conclusão só veio quando notou a confusão evidente nos olhos azul-turquesa. Olhos esses que Sarah achava mais belos que a pureza de um céu sem nuvens. Com um suspiro, virou-se de frente para ela. Por um momento, apenas um momento, desejou que a tivesse para sempre em sua vida.
Nunca foi muito de ter amigos. Isso antes de conhecer Claudia e Juliana no vôlei, durante sua adolescência. Mesmo com as duas por perto, não se sentia completa. Não era como se todo dia quisesse sair com elas ou convidá-las para festas do pijama. Desde que se conhecia por gente, era a garota mais disputada do colégio. E isso não era o suficiente, pois a verdade é que não gostava de pessoas. Possuía uma personalidade maravilhosa, que as atraiam como um imã, mas sempre fazia o possível para afastá-las novamente. Até conhecer Manuela.
Era inexplicável sua vontade de estar perto daquela garota de cabelos loiros escorridos. Se, enquanto mantinham uma amizade virtual, já era difícil ficar longe, agora era quase impossível. Tinha algo naquele sorriso que a atraía. Em toda sua vida, havia atraído as pessoas para perto de si. Em nenhum momento foi atraída por qualquer uma que seja. Até seu namorado, Júnior, aproximou-se dela por ser bonita e ter um corpo atlético. Não o amava quando começaram o relacionamento, mas cismava em dizer para todos completamente o contrario nos dias de hoje. Mesmo não tendo certeza.
Manuela definitivamente havia mudado sua vida e suas prioridades.
Depois de muito suor, barulho e farpas para todo lado, os trabalhadores foram embora. Antes de saírem, Manu os deu uma gorjeta para uma possível cerveja. Com a vassoura nas mãos, ela juntou a sujeira em um canto só, enquanto Sarah – a mais alta das duas – tentava colocar a cortina na janela do quarto. Ver aquela cena a fez sorrir de leve. A ruiva vestia jeans e uma regata branca, que já estava bem suja àquela altura.
- Quer uma ajuda aí? – Manuela indagou, curvando-se para juntar o lixo na pá para jogá-lo na lixeira.
- Não, estou indo bem – respondeu com dificuldade a jogadora, que tentava se equilibrar na cadeira de plástico.
- Não está indo, não – com uma risada, Manu se aproximou e apoiou as mãos na cintura dela. Por estar a um nível bem a baixo, não conseguiu notar o rosto dela corar por causa daquele movimento. – Levanta os pés!
- Eu estou levantando!
- O que estamos vendo aqui? Que cena linda. Quando é o casamento? – Claudia entrou no quarto enquanto dizia. O susto que ambas levaram foi tão intenso que quase Sarah caiu da cadeira. Por sorte, Manu apertou as mãos na cintura dela e tornou a equilibrá-la.
- Garota, que susto! – Sarah esbravejou, descendo da cadeira devagar, com o auxilio da loira. – Como você entra assim na casa dos outros? Atrevida.
A morena de olhos azuis tinha um sorriso divertido nos lábios quando se escorou ao batente da porta para observá-las. Sarah era evidentemente bem mais esquentada que Manu. Quem não se divertia com aquelas duas meninas? Sempre ficavam sem jeito quando diziam que elas deveriam ter algum tipo de relacionamento. O que era pura verdade. Não via a hora de Sarah largar aquele ogro para ficar com a loira, só que primeiro ela precisava acordar e prestar um pouco mais de atenção naqueles olhos azuis que a observavam tão atentamente e que só ela não reparava.
- O que tem pra gente fazer por aqui? – Manu e Sarah olharam por sobre o ombro de Claudia e viram Juliana se aproximar do quarto. Os cabelos cheios e cacheados caíam como cascata sobre o ombro mulato desnudo. – Que cara vermelha é essa, gente? Perdi alguma coisa?
- Só o de sempre. Elas próximas demais para uma simples coincidência – Sarah fulminou a morena com os olhos.
- Sarah, só você não percebeu o quanto a Manu é linda – Ju entrou no cômodo com seu vestido tomara-que-caia jeans. Havia gostado da cor clara das paredes. Tinha certeza que, quando arrumado, o quarto ia ficar lindo. Só que antes disso, precisava irritar as duas um pouco mais.
- Onde estão Clara e Lia? Vocês deveriam estar com a mulher de vocês, não aqui, enchendo o nosso saco.
- Você ouviu isso, Claudia? – A mulata virou para olhá-la e piscou para ela. – A Sarah quer que a deixemos sozinhas. Vocês já estão assim, é? – Gargalhou alto quando o rosto de Manuela ficou evidentemente mais rubro que o normal. Ela, coitada, sempre era quem mais ficava sem jeito. Isso porque, tinha quase certeza, algo dentro dela dizia que não estavam implicando com elas a toa. – Mas respondendo à sua pergunta, Sarah. Clara e Lia estão trabalhando. Nanda e Mari também. Nós tivemos uma folga do Unilever hoje – ela se referia ao time Rio de Janeiro, o qual pertenciam. – e você está de férias.
- Interessante – ignorando o que ela falou, puxou a cadeira mais para o lado. – Já que veio para ajudar, ajeita essa cortina ai. Você é maior que eu, vai ter mais facilidade.
Sem se opor, mas ainda assim rindo um pouco, Ju fez o que ela pediu. E assim todas elas trabalharam juntas para arrumar a casa inteira. De vez em quando, Clara ou Ju as alfinetavam, mas ambas tentavam ignorar. Os poucos móveis foram colocados em lugares específicos para que não ficasse um vão muito grande nos cômodos. Manu tinha ganhado algumas coisas também de todas as meninas. Clara e Claudia deram um par de sofás; Juliana e Lia deram uma TV de plasma para colocar na sala; e Sarah havia dado uma mesa com quatro cadeiras, fora as compras que prometera fazer com ela.
Quando o sol estava quase se pondo, só restava Manu e Sarah paradas na porta da sala. A ruiva havia dito que iria sair com o namorado e por isso tinha que ir embora. O que Manuela poderia dizer? Isso mesmo, não poderia dizer nada. Apenas teria que ficar esperando ela voltar.
- Se eu não estiver acordada, aqui está a cópia da chave – colocou na mão dela e sorriu. – Divirta-se no cinema.
- Tem certeza que não quer vir?
- Tenho. Deus me livre segurar vela. Eu vou tomar um banho e deitar um pouco. Estou cansada. E você tenha cuidado, ta?
- Eu vou voltar logo e prometo que vou tomar cuidado. Vou estar de carro, não precisa se preocupar. Daqui a pouco a gente se vê – ela sorriu abertamente ao se aproximar para abraçá-la.
Manu apenas fechou os olhos quando sentiu os braços da ruiva a envolverem com carinho. Conteve um suspiro e se afastou, tentando manter o sorriso nos lábios carnudos. Precisava realmente entrar, concluiu ela, reparando as fracas sardas no rosto de Sarah. Então, quando ela saiu, fechou a porta, encostando-se nela depois. De olhos fechados, apenas imaginou que talvez tivesse se metido na maior encrenca de todas ao ter se mudado de vez para o Rio.
Continua...
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