Fotografias
6 Melhores Amigas
Notas iniciais
Sarah passou os próximos dez minutos dentro d’água, pensando em tudo que tinha acontecido. Se é que era possível com a cabeça latejando daquela forma. Duas ou três vezes havia mergulhado e permanecido submersa até não aguentar mais. Poderia estar podre de bêbada, mas tinha sã consciência de que sua melhor amiga quase a havia beijado. Ainda conseguia sentir os lábios dela resvalando nos seus. Não deu tempo para pensar em nada. Foi um choque para sua mente, mas seu corpo ainda reagia àquele movimento.
A água gelada não estava ajudando em nada. Ainda conseguia sentir o pulsar disparado do seu coração e o arrepio intenso, que, tinha plena certeza, não era de frio. O álcool também estava fazendo seu trabalho. A cada movimento, seu corpo parecia girar 360 graus. Sem contar que estava tonta e se sentia pesada, como se andasse num planeta de gravidade cem vezes maior que a terra. Precisava da sua cama.
Precisava dela.
Todas as palavras ditas por Manuela estavam gravadas em sua mente e não tinha certeza se estariam quando acordasse na manhã seguinte. Provavelmente lembraria sim, pois nunca foi de esquecer das coisas quando bebia demais. O que às vezes era ruim. Como seria quando estivessem sóbrias? E se ela não se lembrasse de tudo que havia dito? O que faria? E se lembrasse? O que faria também? Apertou os olhos e saiu da piscina, deixando os copos sobre a bancada e descendo assim que se vestiu para o apartamento, com a garrafa de vodka pela metade em mãos.
Quando chegou lá, não a encontrou de início. Procurou no quarto, na cozinha, área de serviço. Nada. Foi achá-la no banheiro, debruçada sobre o vaso sanitário. Os longos fios dourados estavam jogados para o lado, enquanto ela vomitava a alma. Sarah reparou as mãos delicadas apertarem a borda do vaso com força toda vez que ela inclinava o corpo para frente. Entrou devagar no cômodo e se agachou ao lado dela. Primeiro esperou e percebeu que ela já tinha notado sua presença. Levou as mãos aos cabelos dela e os prendeu no alto para que não sujasse.
Aproximadamente vinte minutos depois, ajudou-a a se levantar e deu descarga no vaso. Sarah notou que ela estava com vergonha e não por isso não a estava olhava diretamente.
– Precisa de ajuda para tomar banho? – A ruiva sentiu as próprias bochechas esquentarem.
– Não, eu consigo...
Assim que a ouviu sair do banheiro, Manu se sentou no vaso sanitário, apoiando a testa em ambas as mãos. O que diabos fora fazer? Esperava que sinceramente Sarah se esquecesse da merda que havia feito. Como poderia ter quase beijado sua melhor amiga? Ela era comprometida e não gostava de garotas. E desde quando gostava também? Às vezes se perguntava se havia feito certo mesmo em ter vindo morar no Rio. Sua vida tinha se tornado uma tremenda confusão. Não sabia mais o que fazer em relação à Sarah e ficar pensando nisso só fazia piorar sua situação. Ela não abriria jamais mão do namorado para ficar consigo, até porque ela mesma jamais cairá na real que também possa estar sentindo alguma coisa.
– Você é uma idiota – murmurou, tirando as mãos do rosto para olhar para a cerâmica pálida da parede. Ainda sentia o calor transbordando seu corpo. A sensação de finalmente estar a um passo de beijar a pessoa mais desejada de sua vida não ia embora nem se quisesse. Ainda conseguia sentir o resvalar de seus lábios nos dela.
Poderia tê-la beijado, mas não se permitiu. Ou não conseguiu. Não sabia dizer se era covardia ou sensatez. Levantou finalmente e tirou as roupas devagar, ainda se sentindo tonta. Seu estomago continuava embrulhado, mas parecia que não iria passar mal de novo. Assim que estava nua, entrou no box. Talvez havia feito a coisa certa. Não queria que Sarah se afastasse por causa dessa besteira. Um dia essa sensação passaria e voltaria a olhá-la apenas como sua amiga.
A água morna molhou seu corpo, passando-lhe uma enorme sensação de conforto. Era como se estivesse deitada sob seu edredom num dia chuvoso. Por um momento, desejou que Sarah estivesse ali também e se amaldiçoou por isso. Respirou fundo e, assim que se enxaguou, desligou o chuveiro. Precisava muito de pelo menos doze horas de sono. Ao se enrolar na toalha branca, saiu do banheiro e foi para o quarto.
Só queria que ela tivesse esperado na sala. Entrou no cômodo e a encontrou sentada na cama, olhando para algum ponto imaginário. Assim que fechou a porta notou-a levantar os olhos. Àquele verde lhe atingiu com uma intensidade desesperadora. Tentou ignorar e passou por ela, indo em direção ao guarda-roupa. Escolheu um de seus pijamas e o vestiu fingindo não se incomodar com a presença dela. Mas sentia o olhar dela nas suas costas e estava hesitante em retribuí-lho, pois não sabia se conseguiria se segurar dessa vez. Penteou os cabelos, ainda de costas para ela e, antes de se virar, respirou fundo duas vezes.
Sarah perdeu toda sua coragem e desviou os olhos para a porta do cômodo. Como aquela garota conseguia ser tão linda? Teve que se perguntar e voltou a olhar para ela. Gotas pingavam pelas madeixas douradas e escorriam pela pele alva. A ruiva acompanhou uma ou outra até desaparecerem na borda do baby-doll que ela usava. O short curto deixava as pernas à mostra. Engoliu seco e levantou para ir tomar o seu banho.
Manu apenas suspirou e deitou na cama, sem vontade nenhuma de esperá-la terminar para poder dormir. Então apagou quase instantaneamente.
Na manhã seguinte, ambas estavam com uma ressaca das brabas. A cabeça da loira explodia quando alegou que iria sair para comprar algo para comerem, mas Sarah sabia que ela provavelmente estava fugindo do que havia acontecido na noite anterior, apesar de não ter sido algo punível de morte. Quando ela voltou, pensou em perguntar, porém apenas comeu em silêncio durante quase todo o tempo.
– Sobre ontem... — Finalmente quebrou o silêncio, mas se interrompeu quando ela levantou os olhos do copo de refrigerante para olhá-la.
– Me desculpa por ter quase te beijado. Não vai voltar a acontecer – Manu apertou os dedos em volta do copo de vidro enquanto falava.
Sarah engoliu a seco e sentiu uma pontada de dor na cabeça pelo simples movimento. Maldita ressaca, pensou. Como se aquele fosse o pior de seus problemas.
– Não precisa se descul...
– Preciso sim – a loira a cortou e tomou três longos goles do refrigerante. Quando apoiou o copo na mesa, continuou: – Você é minha melhor amiga e eu quero que continue sendo. Além de tudo, você tem namorado. Um idiota, mas ainda assim um namorado. E também não gosta de garotas – desviou os olhos assim que terminou as palavras e respirou antes de continuar. – Até pouco tempo eu pensava que não gostava e não sei realmente se gosto. Estou confusa e preciso de um tempo para mim.
– Você quer que eu vá embora? – Indagou, olhando-a com intensidade. Não sabia explicar como estava se sentindo. Não queria ficar longe dela.
– Se você for embora agora, nunca mais será a mesma coisa. Não quero perder a sua amizade por conta desse sentimento idiota que eu estou sentindo. Também não sou criança para exigir algo de você se nem ao menos tenho absoluta certeza do que estou realmente sentindo – Manu tomou mais dois goles e tornou a encher o copo. Devido à ressaca sua garganta estava muito seca. – Só quero que você aja normalmente comigo. Não quero que se retire por causa disso, por isso estou te pedindo desculpas. Eu sei me controlar, tanto que você nunca soube que eu realmente sentia algo. Só acabou sabendo por que eu bebi demais.
– Eu quero que você saiba que eu não vou me afastar de você por nada nesse mundo. Você acha mesmo que eu faria isso? Nós vivemos no meio de um monte de lésbicas. Estamos fazendo o casamento de duas delas. Isso não é o fim do mundo. Eu sou hetero, mas gostar de uma garota é algo que eu vejo como normal – disse para ela, que ficou com vontade de chamá-la de idiota.
– Sei que sim – Manu sorriu de lado e suspirou em seguida. – Está afim de assistir alguma coisa? Afinal, hoje é domingo e temos um dia longo e chato pela frente.
– Vamos sim...
Então o dia passou depressa. As duas tomaram uma quantidade absurda de liquido por causa da ressaca e sentiam a cabeça martelar a cada simples movimento feitos. Mesmo assim assistiram um filme de suspense na enorme TV de plasma da sala. Quem sabe tudo não voltaria ao normal? Manu estava deitada no sofá de dois lugares e Sarah no de três. Ambas discutiam sobre quem realmente era o assassino da trama. A dúvida pairava entre o jardineiro e o advogado com cara de bonzinho. A ruiva cismava em dizer que era preconceito a fotógrafa desconfiar do jardineiro, mas no fim era ele mesmo o responsável pelas inúmeras mortes e perseguições. Manu riu da cara emburrada da outra e lhe lançou um beijo no ar mostrando que havia vencido daquela vez.
Antes de anoitecer, Sarah foi embora. Disse que precisava resolver algumas pendências e a loira sabia que ela estava se referindo ao namorado. Fingindo indiferença, apenas concordou e a levou até a porta. Limitou-se a abraçá-la por medo do que ela fosse pensar, mas se assustou quando os braços dela envolveram seu corpo de modo gentil e protetor. Tudo que pôde fazer foi retribuir. Talvez fosse apenas impressão, mas ao beijá-la de leve o ombro sentiu-a estremecer. Sem querer prolongar mais aquilo, Manu se afastou e esperou-a entrar no elevador para fechar a porta.
(...)
Sarah desceu do taxi na porta do seu prédio e subiu os andares pela escada. Não queria chegar tão depressa, porém não conseguiu evitar que seu percurso durasse mais do que cinco minutos. Caminhou pelo corredor com toda calma do mundo e girou a maçaneta da porta. Ao entrar, encontrou Júnior sentado no sofá. Ele estava com a mesma roupa do dia anterior e com uma cara de quem não dormiu nem um minuto sequer. Estava emburrado também, esperando impacientemente. Sabia que ele estava ali desde o momento em que havia fugido com Manuela. A garrafa vazia de uísque denunciava que ele não havia parado de beber e continuava alcoolizado.
Quando ele a viu, seu olhar era de ódio. Como se a culpasse por ter se alterado e por ter perdido o dia inteiro esperando-a, sendo que foi ele quem bebera demais e fizera merda. O que podia fazer? Não ia simplesmente deixar que ele machucasse seus amigos, principalmente a Manu. Se ele não sabia beber que bebesse mijo. Antes que ele dissesse alguma coisa, foi até seu quarto e colocou a mochila na cama. Estava usando um vestido que Manuela tinha lhe emprestado.
– Onde você esteve todo esse tempo? Eu te procurei desesperadamente – o alto rapaz entrou como um furacão no cômodo, quase levando a porta com ele. Sarah apenas respirou fundo antes de virar para ele. – Também não atendeu nenhuma das minhas ligações! Eu te liguei mais de cem vezes!
– Eu estava com a Manu – respondeu, tentando manter a calma. Ele se aproximou e a ruiva conseguiu sentir o forte cheiro de bebida vindo dele. – Você não teve nem a decência de escovar os dentes e muito menos tomar um banho. Aqui em casa ainda tem chuveiro.
– Não distorça o assunto. Eu vi a forma que aquela garota pegou você pela cintura – ele apontou o dedo na cara dela, totalmente exaltado. Só então Sarah percebeu realmente aquilo e se controlou para não ficar vermelha. – O que você tem com ela?
– Qual a parte do “ela é minha melhor amiga” você não entendeu? – Pegou o dedo dele com força e o afastou para o lado.
– Isso não quer dizer nada! – Depois do que havia acontecido na noite anterior Sarah podia concordar com o que ele acabara de dizer, mas não daria esse gostinho a ele. – Você não deveria ter saído daquele jeito. Acabou me envergonhando na frente dos seus amigos.
– Te envergonhando?! – Sarah o olhou com surpresa e se controlou para não alterar o tom de voz. – Foi você que me envergonhou. Era a primeira vez que saímos juntos com MEUS amigos. Era a primeira vez que saímos com a Manu e eu queria que você se desse bem com a minha melhor amiga, mas você fez a maior merda da sua vida.
– Eu estava tentando de proteger, queria cuidar de você, te levar para casa – o moreno tentou abraçá-la, mas ela o afastou.
– Eu não precisava ser protegida, apenas queria me divertir. Afinal, era para isso que eu estava lá, não é? Você não precisava ter empurrado a Manu daquele jeito! Você agiu como uma violência desnecessária.
– Eu empurraria de novo se ela se meter no nosso caminho. Ela não tem que... – Sarah o empurrou com força, sentindo as lágrimas virem aos olhos sem serem convidadas.
– Não se atreva a encostar um dedo nela de novo, ou eu termino tudo com você na mesma hora – avisou-o, com uma frieza que Júnior nunca vira na voz dela. Por um momento ele se sentiu intimidado, mas fez de tudo para não transparecer, logo se recuperando.
– Você não teria coragem, Sarah – ele segurou as mãos dela com força e a ruiva fechou os olhos por causa da dor. – Eu torno sua vida um inferno se você terminar comigo por causa de uma garota. Eu não tenho cara de palhaço.
– Essa garota que você está falando é a MINHA MELHOR AMIGA – lágrimas escorreram pelo rosto dela enquanto o olhava com desprezo. – E não me faça ter que escolher entre vocês dois.
– Para o inferno com esse assunto de melhor amiga. Você esteve a noite inteira olhando para ela e o garoto se beijando. O que aconteceu? Estava com ciúmes?
– ESTAVA! Assim como sinto ciúme dela com as meninas também – mentira, Sarah pensou com certo espanto ao perceber que realmente estava com ciúmes da loira com o garoto.
– Não quero que você veja essa garota, Sarah – ele a empurrou pelos ombros e a obrigou a sentar na cama. – Se é que você ainda duvida das coisas que eu possa fazer.
– Júnior, para com isso. Você está descontrolado – as lágrimas teimavam em escorrer pelas bochechas coradas por causa do choro. Estava cansada de discutir. – Eu não fiz nada de mais. Eu te amo tanto, não estraga a única coisa boa que eu sinto por você.
– Se você me ama, se afaste dessa menina – ele pediu, olhando-a também com desprezo. Aquilo cortava o coração da ruiva.
– Eu não vou me afastar dela – Sarah se levantou como um foguete e o olhou na mesma altura. O cheiro do álcool era forte vindo dos lábios carnudos. – Não me importa quem você já foi no passado. Ela é minha amiga e eu não vejo nada de mais em estar perto dela.
– Não seja tão idiota – Júnior deu um tapa no rosto dela, que caiu na cama devido a força. – Eu não estou descontrolado, apenas quero que você fique só comigo e eu sinto que você está muito mais próxima dessa garota do que de mim.
– Voce é um egoísta! A Manu foi a única pessoa que conseguiu fazer com que eu me sentisse realmente bem como amiga e você está cismando com uma besteira – massageou o rosto e o olhou de baixo. Estava ardendo muito, ele tinha a mão muito pesada.
– Não quero que você a veja ou eu terei que mandar ela de volta para Fortaleza – ele cruzou os braços e esperou por uma resposta. Quando não a obteve, continuou: — Num caixão.
Sarah estava assustada. Nunca o tinha visto daquele jeito antes. Não sabia dizer o que estava acontecendo. Aquele não havia sido o garoto por quem se apaixonou perdidamente e dividira sua vida até aquele presado momento. Não havia sido ele com quem um dia sonhou em se casar. Agora ele estava agindo como um cara possessivo e sem caráter, egoísta. Não sabia o que fazer. Não queria ser dominada por ele. Uma parte do seu coração ainda cismava em dizer que aquele era o amor da sua vida e a outra dizia que deveria deixá-lo de lado e seguir solteira.
– Tudo bem... mas não faça nada com ela – pediu em tom de súplica, ainda sentindo as lágrimas descerem descontroladamente.
Não o deixaria fazer nada com sua amiga. Talvez aquele pesadelo passasse e ele voltasse a ser o homem carinhoso e gentil que sempre havia sido.
Continua...
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