Fotografias
7 Dê Valor a Quem Merece
Notas iniciais
Dois dias se passaram e Sarah não ligou ou atendeu as ligações de Manuela. Nunca tinha ficado mais de um dia sem falar com ela e aquilo estava fazendo seu coração se apertar cada vez mais. Também havia recebido algumas mensagens no celular, no Facebook e no whatsApp. Não respondeu a nenhuma delas, apenas as visualizou. Sabia que ela já tinha começado o emprego na revista e queria muito saber como ela estava indo, se ela estava se adaptando bem. Mas deixaria tudo o que aconteceu esfriar um pouco.
Júnior já estava melhor. Ele não estava mais agindo agressivamente e já não tocava no nome de sua melhor amiga, nem no restante de seus amigos. Tudo isso aconteceu porque ele bebeu demais. Desde o dia em que ele ficara sabendo que havia beijado David e Victor ao mesmo tempo, tudo tinha mudado. Não contou para ninguém que constantemente ele lhe proibia de aparecer e que foi por isso que passou um bom tempo sem ver seus amigos. Era de casa para o trabalho e do trabalho para casa.
Não podia negar que era uma completa idiota por ser apaixonada por um cara tão ciumento. Diversas vezes trocou tapas e socos com ele, pois não costumava levar desaforo para casa. Mas a partir de certo momento havia cansado daquilo, cansado de tudo. Já não apreciava tanto estar junto com ele, já não era a mesma coisa de quando começaram a namorar. A única coisa boa que ainda sobrava em si era o amor que sentia, ou pensava ainda sentir, por ele. Amor este que estava se extinguindo a cada briga sem motivos, a cada violência desnecessária.
Estava exausta de discutir, de revidar, de gritar com ele dizendo que um namoro não era uma prisão. Então, por bastante tempo, decidiu fazer o que ele queria. Apenas para não arrumar mais confusão. Estava farta disso. Então descobriu que esse havia sido o maior erro da sua vida, se separar dos seus amigos. As risadas das meninas constantemente ecoavam em sua mente, as cantadas baratas dos meninos a faziam rir em diversos momentos. Sentia saudade de quando Victor sempre implicava consigo. Sentia falta de ir para praia com todos eles para jogarem uma partida livre de vôlei, apenas por diversão. Sem toda aquela pressão do profissionalismo.
Havia passado a noite inteira em claro, depois que Júnior disse que ia embora. Torceu para que uma guarita parasse o carro dele e o levasse preso, mas era óbvio que isso não aconteceria. Toda vez era a mesma coisa. Pensou bastante sobre tudo que havia acontecido. Desde o momento em que vira Manu e o rapaz se beijando até a hora em que Júnior lhe dera um tapa no rosto. Demorou-se pensando em como seria se a garota de cabelos loiros a tivesse beijado ao invés de ter fugido. Não sabia porque pensava nessas coisas com tanta frequência agora, mas algo dizia que, a partir do momento em que Manuela entrou na sua vida, ela havia se tornado a pessoa mais importante dela.
Então os dois dias passaram tão lentamente que Sarah pensou que ia morrer de tanto tédio. Nunca tinha odiado tanto estar de férias. Queria estar trabalhando, ter algo para passar seu tempo e não ter que pensar nas decisões que havia tomado e nas quais não deveria. Tinha certeza que, se pudesse, Júnior machucaria Manu e não se perdoaria se isso realmente viesse acontecer. Mas não podia ficar sem vê-la também. Era uma escolha difícil. Não podia negar que estava morrendo de saudades dela. Cada minuto que passava só fazia aumentar.
Irritada com tudo o que anda acontecendo, vestiu uma roupa de ginástica e saiu para correr na praia. O telefone tinha voltado a tocar quando estacionou o carro e mais uma vez não atendeu. Era ela novamente. O que diria a ela quando se encontrassem? O que será que ela estava pensando sobre esse sumiço súbito? Deveria estar pensando que não atendia as ligações, pois estava chateada por causa do beijo.
Sem contar que havia sido uma grande idiota durante muito tempo. Por que diabos não percebeu que Manu sempre distorcia o assunto sobre o Júnior simplesmente por estar com ciúmes? Mas espera... Sabia que ela sentia ciúmes, mas não pensava ser o ciúmes de alguém que estava apaixonada por si. Jamais ia imaginar. Ou deveria, se não fosse tão lesada. Mas o que faria sobre isso? Esse tipo de relacionamento não a incomodava, mas tinha quase certeza que não sentia a mesma coisa por ela. Ou talvez sentisse, se parasse um pouco mais para pensar.
A brisa da noite corria suave pelo ar, enquanto a ruiva corria no calçadão da praia. Tentava com todo o sacrifício possível se concentrar na música que bombardeava seus ouvidos, mas não conseguia. A todo instante sua mente a transportava para o lugar que Manu poderia estar e o que ela estaria fazendo naquele momento. Queria ir até ela, mas tinha medo. Desde quando havia decidido que Júnior mandava na sua vida? Desde quando sentia medo dele? Estava decidido. Amanhã iria até a casa dela, pois pela hora ela já deveria estar dormindo.
Correu durante uma hora e meia em ritmo forte, queimando o pouco das calorias que tinha no corpo esguio. O suor descia pelo rosto, molhando a borda da camisa e também as costas. A música do cantor Justin Timberlake tocava animada nos ouvidos da garota de cabelos ruivos. Quando terminou seu percurso, voltou para o carro e foi para casa. Tudo que precisava agora era de um banho e cama. Dormir até não aguentar mais. Esperou o elevador parar no seu andar e caminhou até a porta, mas se surpreendeu ao notar que estava destrancada. Franzindo as sobrancelhas, entrou devagar e percorreu os olhos pela sala de estar.
Sentada no sofá estava a garota mais linda do mundo. Os cabelos longos e dourados estavam presos num rabo de cavalo alto, deixando os ombros livres. Os olhos azuis desprenderam da TV e agora a fitava com uma intensidade que nunca tinha sentido na vida. Ela vestia short jeans desfiado e uma blusa preta caída sobre um dos ombros. O coração da ruiva acelerou os batimentos e ela se perguntou o porquê daquilo sempre acontecer.
– Oi, Manu – a chave reserva que dera a ela estava sobre a mesinha de centro, pendurada num chaveiro de ursinho de pelúcia preto.
– Oi, Sarah – ela respondeu em tom baixo, voltando a desviar os olhos para a tela plana na parede à sua frente. Por longos segundos, Sarah permaneceu no mesmo lugar. – Está com raiva de mim? – Ela perguntou sem olhá-la.
– Não tenho motivos para sentir raiva de você... – Respondeu com toda a sinceridade do mundo, mas ainda assim sem sair do lugar. A porta continuava aberta.
– Então por que você está me evitando? Você tinha dito que ia esquecer que eu quase te beijei... – quando ela voltou a olhá-la, a jogadora de vôlei se acovardou e virou para fechar a porta, querendo fugir daquele olhar tão devastador.
– Pra falar a verdade... – deu alguns passos para frente, mas parou. – Eu não esqueci, mas isso não tem nada a ver com o fato de eu não ter atendido suas ligações.
– Então qual foi o motivo? – Manu estava se segurando para não chorar. Era simplesmente incrível como aquela garota tinha o dom de abalar toda a estrutura de seus sentimentos. Estava decidida a levar tudo adiante sem pensar nela como sua paixão, mas assim ficava cada vez mais difícil.
– Eu não posso falar... – Sarah desviou os olhos dos dela e mordeu os lábios.
– Por que não? Não confia em mim?
– Claro que confio... Manu, você é o que eu tenho mais de importante na minha vida – confessou e viu os olhos azuis se arregalarem. – Não sei porque estou dizendo isso para você agora, mas quero que saiba que o que eu fiz foi porque eu não quero que nada de ruim aconteça com você.
– Nada de ruim vai acontecer comigo. Do que você está falando, Sarah? – A loira levantou do sofá e foi até onde ela estava, parando bem diante do seu corpo. Estavam quase próximas demais.
– Não é nada. Eu não vou ficar mais longe de você – firmou seu olhar sobre o dela e o permaneceu. – Eu não consigo ficar longe de você – Manu corou.
– Para de ficar me dizendo essas coisas... – desviou os olhos e respirou fundo, tentando manter o foco da conversa. – Me conta o que está acontecendo.
– Desculpa, mas eu não posso...
– É sobre o seu namorado? Ele fez alguma coisa com você? Ele disse alguma coisa que fez você se afastar de mim? – Apoiou as mãos nos ombros dela enquanto fazia as séries de perguntas.
– Não... Não é sobre ele – agora Sarah quem desviou os olhos, prendendo a respiração.
– É, é sobre ele, sim – Manu se afastou, olhando-a com os olhos marejados. – Ele fez alguma coisa e você ainda o está acobertando. Meu Deus, como eu sou idiota. Não deveria ter vindo atrás de você.
– Espera, Manu. Não faz isso – segurou as mãos dela, mas ela se soltou com força.
– Não, Sarah. Eu vou para casa. Vim atrás de você porque pensei que estava chateada pelo fato de eu ter tentado te beijar. Foi um erro meu, eu pediria desculpas de novo se fosse preciso. Esse idiota fez alguma coisa com você e você ainda protege ele? Você deve amar muito um cara que só te faz sofrer, não é?
– Ele não me faz sofrer!
– A única lerda aqui nessa casa é você, Sarah – empurrou as mãos dela para o lado quando a notou tentar pegar as suas novamente. – Pensa que eu não sei que aquele show que ele deu no dia do bloco não havia sido o primeiro? Pensa que eu não sei que às vezes, depois que você sai com ele, você fica trancada em casa chorando e dizendo para mim por mensagem que está bem? Só você é lenta demais para perceber que quem quer te ver bem, você está afastando cada vez mais de você – a essa altura as lágrimas desciam grossas pelo rosto da garota de cabelos loiros.
– Eu não suporto te ver chorar. Para, por favor...
– E tem mais... Só você não percebe o que está sentindo. Nem ao menos tem ideia da confusão de sentimentos que ronda o seu corpo. Eu não vou mais ficar aqui e tentar abrir seus olhos enquanto você protege um cara que está te fazendo sofrer – parou para pegar um ar para então voltar a falar. – Diferente de você, eu não suporto sofrer. Posso estar apaixonada por você – falar isso sóbria e em voz alta a assustou um pouco. –, mas não sou idiota a ponto de beijar seus pés. Não suporto ver você com esse cara. E, não, não é porque queria que você estivesse comigo, mas sim porque você ainda continua sendo a minha melhor amiga e ver você nesse buraco sem fundo só faz com que eu sinta ainda mais ódio desse cara.
– Manu...
– E tem mais uma coisa – ela limpou o rosto. – A Claudia tem toda razão. Seu namorado é um rinoceronte com asas. E eu espero que um dia essas asas parem de funcionar e ele caia de cara no chão.
– Para com isso, Manu. Você não é assim – tentou se aproximar, mas a loira se afastou.
– Estou apenas farta, Sarah. Eu sou assim, sim, você que não deveria ser assim – Manu respirou fundo e caminhou em direção à porta, mas a ruiva a segurou firmemente pelo braço.
– Não vai embora...
– Quando você estiver pronta para agir como uma melhor amiga, você sabe onde me encontrar – respondeu sem virar para ela, apoiando em seguida a mão na maçaneta.
– Eu estou tentando te proteger – Sarah se explicou quase em um tom desesperado e a loira sorriu de um jeito irônico.
– Já notou que você está quase agindo como seu namorado? Se eu bem me lembro, no bloco ele também queria te proteger. Você não queria ser protegida por ele – se virou para ela e a olhou nos olhos. – Já parou para pensar que eu também não quero ser protegida por você?
Sarah arregalou os olhos e soltou o pulso dela, dando dois passos para trás. Nunca tinha visto Manu agir daquela forma. Ela estava realmente muito chateada. Mas o que poderia fazer? Estava com medo de que Júnior fizesse alguma coisa com ela. Será que o que estava fazendo era mesmo o certo?
– Você sabe onde me encontrar – Manu disse e saiu pela porta rapidamente, antes que a ruiva a impedisse de novo
Em cima da mesinha de centro ficou a chave que Manu usava para entrar no apartamento de Sarah. O ursinho de pelúcia preto tinha um coração no peito escrito “I Love You”. Havia sido a ruiva que dera para Manu.
(...)
O sol estava se pondo no horizonte quando Júnior entrou em casa depois de um dia longo de trabalho. Era quase possível ouvir o martelar do sangue bombeando em suas veias. O suor descia pela pele escura e a camisa social estava encharcada. Estava calor demais. Havia ficado daquele jeito somente do banco para o carro e do carro para casa. Ultimamente tinha tido mais aborrecimentos do que o comum.
Enquanto desabotoava a blusa, ele notou que já estava quase na hora de ligar para Sarah. Sempre ligava para ela três vezes ao dia. Quando acordava apenas mandava uma mensagem de bom dia e sempre dizia que a amava como nunca amou ninguém na vida. Depois ligava pela primeira vez, na hora do almoço. Era gerente do banco ITAÚ e apenas trabalhava de segunda à sexta. Conversava com ela durante quase dez minutos, era quase cronometrado. Então só ligava quando chegava em casa, mas só depois de tomar seu banho de rotina. Por último, ligava quando ia dormir, assim que deitava a cabeça no travesseiro de penas de ganso.
Mas hoje particularmente não estava com paciência para os estresses de sua namorada, mas sentia-se na obrigação de ligar para ela mesmo assim. Era o seu dever. Precisava se mostrar presente e provar para ela que não precisava de nada mais que ele na sua vida, que iriam se casar um dia. Para isso, precisava ligar para ela, mesmo quando não suportava ouvir sua voz.
Pensar sobre isso o deixava com náuseas. Antes de ir para o banheiro, foi até a geladeira e pegou um dos litros de uísque que estava no congelador. Despejou o liquido amarelado no copo até quase a boca e finalmente foi para o banheiro. O corpo musculoso já não estava tão suado, mas mesmo assim ligou o ar condicionado do quarto. Ao entrar no banheiro, deixou o copo já pela metade em cima da pia e tirou o restante das roupas.
Sabia que Sarah estava chateada e brava com ele. Tentava fazer de tudo para que isso não voltasse a acontecer, mas sempre acontecia. Ela era tudo o que tinha de precioso e tentava mostrar isso a ela, sempre fazendo o possível para agradá-la. Quando iam sair, sempre lhe dava uma rosa. Leva-a para comer em lugares fabulosos e se divertir sempre nos locais que ela escolhia. Também a buscava de carro nos treinos quando não estava trabalhando e a levava para casa, então voltava de taxi e levava o carro dela. Sarah sempre dizia que não precisava disso tudo, mas Júnior achava que poderia fazer de tudo e não seria suficientemente o que ela realmente merecia.
Assim que terminou o banho, vestiu um short e ficou descalço mesmo. Estava feliz por estar em casa. Era tudo o que almejava desde o momento em que entrara naquele banco. Como era o primeiro dia útil após o Carnaval, o banco estava lotado. Só hoje havia tido mais de cinco ocorrências. Numa delas, um cliente tentou arrumar confusão com a funcionária responsável pelos caixas eletrônicos. Foi quase impossível fazer com que ele se acalmasse e os seguranças o colocaram para fora. Sentiu-se obrigado a dar assistência para funcionária, já que ela era nova e sua agencia estava precisando de toda pessoa possível.
A partir de agora tentaria fazer ainda mais para que Sarah melhorasse seu humor. Júnior a amava mais do que tudo na vida. Sentia ciúmes, sabia disso, mas quem não sente ciúmes da pessoa que ama? Sempre que se sentia assim, decidia beber e, consequentemente, sempre acabava fazendo alguma besteira. Mas Sarah entendia, tinha certeza. Sarah o amava demais e em breve casariam.
Continua...
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