Notas iniciais
Oi, gente. Tudo bem? Bom, estou trazendo mais um capítulo para vocês. Sonhei com essa cena e resolvi escrevê-la. Boa leitura a todos. Beijos

Sarah respirou fundo três vezes quando a segunda mensagem de Júnior chegou em seu celular. Agora ele estava dizendo que já estava entrando no elevador do prédio. Já tinha tomado um banho e tirado o suor que havia adquirido no casamento e depois na festa. Também tirou a maquiagem e penteou os cabelos. A todo instante pensava em Manu e no que aconteceu entre elas. O gosto doce misturado com álcool dos lábios dela ainda estavam nos seus. Queria beijá-la outra vez. Se tivesse imaginado o quanto seria bom, teria feito isso há algum tempo. Só que não voltaria a acontecer de novo, então tinha que se contentar com sua vidinha. Não via hora de os treinos voltarem para poder manter sua mente ocupada.

Ainda conseguia senti-la puxar seu cabelo enquanto a beijava. Seria difícil esquecer aquilo, mas precisava. Com todas as forças. Porém não queria. A verdade é que ainda não estava acreditando que disse todas aquelas coisas para Manu. Disse que a amava com todas as letras. Era verdade que a amava, eram melhores amigas. Mas ambas sabiam que aquela declaração não era de amizade e sim de amante. Seu rosto esquentou ao lembrar, mas todos os seus pensamentos sobre ela foram forçadamente apagados quando a porta do quarto abriu.

Júnior entrou devagar, vestindo jeans e blusa polo. Na cabeça tinha um boné branco de aba reta. Ele trazia uma sacola quadricular de papelão de uma loja que não fez a mínima questão de identificar. Quase suspirou de tédio quando ele fechou a porta e se virou. Não estava com a mínima paciência para ele ultimamente. Na verdade não lembrava qual havia sido a última vez que realmente teve paciência para as chatices dele. O perfume amadeirado invadiu o ambiente e Sarah sentiu saudade da colônia floral da loira de olhos azuis.Â

– Por onde você andou? – Ele indagou com calma, enquanto andava pelo cômodo e parava bem diante dela. – Eu tenho tentado falar com você há dias. Você não tem estado em casa esse tempo.

– Era casamento das minhas amigas e eu estava com elas. Não vejo problema nenhum nisso. Não atendi suas ligações porque estava ocupada e nem mexi no celular direito – respondeu olhando para cima. Os olhos negros a fitavam com dúvida.

– E você dormiu aonde nesses dias? – Júnior colocou a sacola sobre o colchão.

– Na casa da Claudia. Onde mais eu dormiria, Júnior?

– Na casa daquela loira ridícula – disse com ignorância e se surpreendeu quando Sarah levantou.

– Não admito que você fale assim dela – o afrontou, aproximando-se dele com a cara fechada. – Eu aguento calada tudo o que você faz, mas não quero que você fale mal dela. Está me entendendo?

– E quem é você para falar isso, Sarah? – Indagou, segurando os braços dela com força. Quando ela tentou se soltar, ele puxou-a para perto com ainda mais força. – Você está protegendo sua namoradinha por quê?

– Ela não é minha namorada, cara! Para com isso! Ela é minha melhor amiga, está tão difícil de entender isso? Você tem seus amigos, eu também tenho os meus. Me solta, Júnior! Mas que inferno! Toda vez que você aparece tá sendo a mesma coisa. Não foi com esse cara estúpido e violento por qual eu me apaixonei e um dia quis casar – Sarah se controlou para não chorar. Não choraria de novo na frente dele.

– Você está agindo como uma descontrolada.

– EU?! Você que está ficando louco – os olhos verdes o fitaram com raiva e mais uma vez a ruiva tentou se soltar, em vão.

– Você deveria parar de me afrontar, Sarah – ele a empurrou, fazendo-a cair na cama. – Você não era assim. O que aconteceu? Não me ama mais?

– Você está fazendo tudo para que deixe de amar – ela respondeu com raiva enquanto massageava os pulsos, que estavam vermelhos por causa da brutalidade dele.

– Eu faço de tudo para você e você ainda assim não acha suficiente. Eu te compro presentes, te dou carinho, te ligo todo dia. Eu só te amo demais – Júnior abriu a sacola de papelão e tirou um vestido preto de dentro. – Eu comprei para você. Quero que use ele quando formos sair na próxima vez.

– Ele é lindo – Sarah disse sem emoção. – Mas eu não quero.

– Você quer sim e vai usar – ele jogou em cima dela e virou o boné para trás. – Não seja ingrata com seu namorado.

– Eu. Não. Quero.

O rapaz alto parou e olhou para ela incrédulo. Sarah apenas virou o rosto e pensou em Manu, queria que ela estivesse ali ao invés dele. Queria ter ficado com ela, mas ainda bem que veio para casa. Se não tivesse ali quando chegasse, ele iria procurá-la no inferno e temia pela loira. Não queria que ele descobrisse onde ela morava. Já temia o suficiente pelas meninas, que ele sabia onde moravam. Não aguentaria saber que Manu estava realmente em risco e que ele poderia aparecer na casa dela a qualquer momento. Era melhor assim.

– Acho que você precisa de algum estimulo para melhorar esse seu humor – ele enfiou a mão no bolso de trás da calça jeans preta e tirou seu celular. Discou primeiro o número e o levou até o ouvido.

– O que você está fazendo?! – Sarah arregalou os olhos verdes.

– Eai, Betinho, tudo bem, cara? Firmeza. Cara, preciso que você descubra um endereço para mim – virou as costas e esperou a pessoa do outro lado da linha terminar de falar. – Não, não precisa fazer nada com ela. Não ainda.

– Pelo amor de Deus, Júnior. Desliga esse celular! – A jogadora de vôlei saiu correndo da cama e o abraçou por trás, na intenção de pegar o aparelho da mão dele, mas ele não deixou. – Por favor, Júnior! Eu imploro, para com isso. Não faz nada com a Manu, ela não tem culpa de nada. Eu prometo que vou me comportar. Uso o vestido agora, se você quiser, mas deixa a Manu em paz. Júnior, por favor!

– Está bem, está bem – ele falou algumas palavras com o rapaz da linha e desligou o aparelho, colocando-o no bolso em seguida. – Coloque o vestido. Quero ver como minha linda namorada fica nele.

– Tudo bem...

Sarah pegou o vestido e, relutante, começou a tirar as roupas. As lágrimas estavam quase escapando dos olhos, mas não permitiria. Não queria chorar na frente dele. Seu coração estava acelerado e apertado ao mesmo tempo. A cada batida doía como nunca. Mordendo os lábios, ela vestiu a peça devagar. Era um vestido longo e sexy, com um corte na perna direita. Provavelmente Júnior não a deixaria vestir na rua, pois jamais permitiria que as pernas de sua namorada ficassem a mostra daquela maneira. Foi por esse motivo que não retirou a etiqueta da peça. Ele mandaria devolver depois que a apreciasse em seu corpo.

Quando já estava vestida, ele se aproximou e a visualizou com olhos apaixonados. Acariciou os cabelos da cor do fogo e jogou-os por cima dos ombros para deixá-la ainda mais chamativa e atraente. Júnior pensava que sua mulher deveria se vestir assim apenas para ele. Ninguém mais no mundo precisava vê-la assim. Só ele. Só o fato de saber que ela jogava vôlei com aquele shortinho curto já o deixava com dor de cabeça. Odiava que ficassem olhando para o que é de fato seu. Ela era sua e ninguém nunca mudaria esse fato.

Tudo que Sarah queria era que ele virasse as costas e fosse embora. Caiu do céu diretamente para o inferno. O que havia feito para merecer um homem daquele? Sabia que era sua culpa e que agora tinha que aguentar as consequências, mas por que ele não poderia ser apenas o Júnior que conheceu anos atrás? Seria tudo mais fácil. Ele era carinhoso e gentil. Até descobrir que ele já havia sido fichado na policia por porte ilegal de armas e homicídio. Era tão apaixonada por ele que decidiu perdoá-lo por ter omitido algo tão importante. Só que a partir desse momento tudo mudou.

Até hoje Sarah não sabia como ele havia conseguido ser gerente do banco sendo fichado na policia. Só que não se surpreendia mais com nada nessa vida. No Brasil se acontece de tudo sem que saibamos. Ainda assim quis ficar com ele. Havia sido uma completa idiota. No primeiro dia que ele a bateu, era para ter ido na delegacia e ter dito tudo que havia acontecido. Mas não, não foi isso que fez. Tudo ia melhorar, ele dizia. E acreditou nas malditas palavras dele. Mais uma vez, não foi o que aconteceu. Ele bebia constantemente, se drogava, e Sarah dormia muitas vezes sozinha e machucada por causa de um ciúme que não conseguia entender.

Ainda assim o amava com todas as forças do mundo. Só que com o tempo esse amor foi se transformando em ódio. Duas vezes tentou denunciá-lo, mas ele a pegou no caminho. Trocou tapas e socos com ele na primeira vez que isso aconteceu. Arranhou o rosto dele e como consequência passou meses sem ver suas amigas. Só Deus sabia o quanto sentiu saudades delas nesse tempo. Ele também ficou sabendo que havia beijado Victor e David no jogo da verdade. O idiota os perdoou, mas a surra sobrou para quem? Foi depois desse dia que se afastou de todos. Ele tem a cicatriz de suas unhas no rosto e no pescoço até hoje. E Sarah ainda achava pouco.

Prendeu a respiração quando ele cheirou seu pescoço profundamente, inalando o cheiro recente de sabonete. Ele virou-a de costas e colocou os cabelos molhados para o lado, baixando a alça do vestido lentamente. Quando os lábios dele tocaram sua pele, as lágrimas escorreram silenciosamente. Sarah fechou os olhos com força e se controlou para ele não perceber que estava chorando. Não era ali que queria estar. Manu apareceu em sua mente, sorrindo daquele jeito perfeito. Os cabelos tão longos quanto loiros estavam soltos e oscilantes por causa do vento de um lugar que não fazia ideia de qual era. As mãos grandes e calejadas dele desceram modelando suas curvas e desejou de todo coração que fosse Manu quem tivesse fazendo aquilo. Nem acreditava que realmente estava pensando nisso, mas era o que queria de todo coração. Por que simplesmente não o chutava para longe e ficava com ela?

Só que tinha medo. Medo de que algo acontecesse aos seus amigos, a ela. Medo de perder o que tinha de mais precioso na vida. Tinha medo até que ele fizesse algo a sua família. Eles não sabiam quem ele era e o adoravam. Seus pais nunca entenderiam se o deixasse para ficar com uma garota. Para eles, ele era o seu par ideal. Era. Não é e nunca mais seria.

Mais lágrimas escorreram quando ele mordeu sua orelha. Seu corpo estava tenso, mas estava fazendo o possível para que ele não percebesse que queria sumir dali. Suas mãos estavam fechadas firmemente em punho, tentando se segurar para não sair dos braços dele. Por um momento pensou em Clara e Claudia e sorriu triste. Estava tão feliz por elas finalmente terem alcançado a felicidade. Já estava mais que na hora de procurar pela sua.

– Hoje não, Júnior – ela limpou as lágrimas e deu dois passos para frente. Tirou o vestido que ele deu e deixou na cama. – Eu estou cansada. Preciso descansar.

– Não se atreva, Sarah.

Sem dizer mais uma palavra sequer, ela pegou a roupa que estava vestindo antes, seu celular e foi para o banheiro. Trancou-se lá dentro e encostou as costas na madeira fria da porta. Ele com certeza descobriria o endereço da Manu e tentaria fazer algo com ela. Estava cansada, queria apenas sumir por alguns dias. Chorava descontroladamente agora, soluçando e tentando se controlar. Só então lembrou da foto rasgada sobre o criado mudo. Ele com certeza iria vê-la e faria outro escândalo. Quando ia tentar se recompor para voltar para o quarto, seu celular vibrou em sua mão. Seu coração disparou quando viu a imagem da loira no visor.

Respirou fundo antes de atender.

– Oi, Manu – disse, tentando disfarçar a voz para que ela não percebesse que estava chorando. Em vão. Escutar a voz suave dela do outro lado da linha fez seu coração se acalmar um pouco. – Eu não estou chorando. Só estou ficando resfriada – mentiu, sabendo que ela nunca acreditaria. – Não, não precisa vir aqui. É melhor não. É melhor ficarmos sem nos ver por algum tempo. Vou sentir saudade de você... – as lágrimas voltaram a descer e então ela desligou o aparelho.

Seria melhor assim. Levantou-se, colocou a roupa e lavou o rosto. Então voltou para os braços do cara que naquele momento estava odiando mais que tudo em sua vida. Era melhor do que saber que algo aconteceu com Manuela. Por ela faria tudo. Pouco estava se importando com si mesma. Queria mais que ela fosse feliz, mesmo se fosse com outra pessoa. Quem sabe isso um dia não mudaria e poderia enfim ser feliz?

(...)

Manu ficou olhando para o aparelho em sua mão. Algo de muito grave estava acontecendo com Sarah e algo a estava impedindo de dizer. Aquele idiota a estava tratando mal, tinha certeza. Não permitiria que isso acontecesse. Estava em dúvida se ia ou não até a casa dela. Queria dar logo um fim aquilo. Queria pegar aquela ruiva e arrastar para um lugar isolado, para tê-la só para si. Queria que ela pelo menos se abrisse. Não entendia. Não queria ser protegida por ela. Não queria que ela sofresse por sua causa.

Estressada com tudo isso, a loira olhou para seu computador e visualizou as fotos que havia tirado da jogadora na hora da cerimônia. Ela estava ainda mais linda que as noivas naquele vestido verde água. Sorriu triste e virou as costas, procurando por sua bolsa. Antes de sair colocou um short jeans e uma blusa larga. Estava farta de deixá-la no comando da situação. Sabia que já era tarde, mas mudaria aquela história de uma vez por todas. Ao sair, bateu a porta e não se importou em trancá-la.

Continua...

Notas finais
E então, o que acharam? Deixem suas opiniões. Beijos e até o próximo capítulo.