Fotografias
38 Fim da Tormenta
Notas iniciais
Talvez aquele pudesse ser o pior momento da vida de Manuela Martins. Não que tivesse sido fácil saber da morte de seu pai, muito pelo contrário, havia ficado desesperada e chegou a enlouquecer por anos devido a isso. Mas agora... vendo Sarah presa àquele homem asqueroso, que apontava-lhe uma arma na cabeça, era como se tivesse seu coração capturado e fatiado a cada segundo que se passava.
Quando Nanda a colocou no chão, não soube de onde tirou forças para se manter em pé. Precisou se apoiar num poste a poucos centímetros de onde estava, para que não voltasse a desabar. Todo seu corpo doía, como se tivesse levado dias de surra. Seu estômago e garganta queimavam como brasa, ainda estava quase impossível respirar. Mas nada disso importada de verdade, não quando o amor da sua vida estava em perigo. Mesmo com dificuldade, negou-se a desviar os olhos deles. Tinha receio que Sarah desaparecesse caso o fizesse.
– Júnior, por favor, me solta – a ruiva pediu, sentindo-se sufocada pelo braço dele em seu pescoço. – Eu não vou fugir.
– Você resolveu ficar mansa? – A voz dele transbordava ódio e desgosto. – Tudo que eu queria era casar com você. Tudo que eu queria era que você ficasse comigo para sempre.
– Eu fico, vamos mudar isso. Não precisa ser assim – cada palavra que saía de sua boca parecia rasgar seu coração aos poucos. Era tudo mentira, mas só de dizer dava a sensação de que seria real. – Por favor, não faça uma besteira. Vai ficar tudo bem.
– Você está mentindo! – Júnior gritou, apertando ainda mais o braço contra o pescoço dela. Sarah tossiu e tentou afrouxá-lo fazendo força com as mãos. Se ele continuasse, acabaria desmaiando. – Você está tentando me enganar. Veio essa militar com uma mulher loira para me prender, foi você que as chamou.
– Como eu as chamaria? – Sarah indagou com dificuldade, a voz saindo estrangulada. – Você me amarrou pelos pulsos, Júnior. Eu não as chamei, não estou mentindo. Por favor, me solta. Juro que não vou tentar fugir, vamos para algum lugar – a medida que dizia, apertava ainda mais as mãos no braço dele, numa tentativa inútil de respirar melhor. Quando ele afrouxou um pouco, acalmando-se, Sarah se sentiu aliviada.
– Se você não está mentindo, se quer realmente passar todos os dias da sua vida comigo, então não se importará se eu matar essa loira – ao dizer, Júnior tirou a pistola da cabeça da ruiva e apontou para Manu, que, junto com Nanda, ficou tensa.
– Júnior, abaixa essa arma – a marinheira disse, tentando manter a calma. Estava de mãos atadas no momento. Se ousasse levar a mão para pegar sua pistola, que tinha guardado para poder carregar Manu, ele com certeza atiraria. Então só restava rezar para que Débora aparecesse para ajudá-las. – Isso só vai te prejudicar ainda mais. Vamos fazer um acordo...
– Não faço acordo com militares! – Ele gritou, áspero, sem se importar em fazer o que ela pedia.
– Por que matar pessoas? – Foi a vez de Manu dizer, os olhos azuis fitando-o com intensidade. Estava com medo, mas não havia muito mais o que fazer no momento. Apesar da garganta ruim, continuou sem se deixar abalar. – Por que sair atirando sem se preocupar com nada? Por que isso? Por amor?
– Sim, por um amor que você conseguiu destruir – a conversa tinha virado paralela e Nanda e Sarah apenas ouviam, em silêncio. – Você chegou e roubou a minha mulher.
– E isso lhe dar direito de querer matar alguém?
Aquela era a primeira vez que Sarah não o via retrucar uma resposta, por qualquer que fosse ela. Ele ficou quieto, olhando fixamente para a loira de olhos azuis. A arma em sua mão esquerda ainda apontava para ela, mostrando que, não importava o que ela dissesse, não mudaria de ideia. Mesmo assim, vê-lo sem saber o que dizer, era como se fosse a primeira vitória daquela guerra aparentemente sem fim. Por mais que Júnior estivesse decidido a acabar com tudo de uma vez por todas, ele ainda tinha medo de voltar para a prisão. Tinha medo de viver aquele inferno novamente e era isso que o fazia fugir a cada ameaça que fazia, Sarah tinha certeza, pois o conhecia melhor que ninguém.
– Quem você pensa que é para me dar sermões? – Demorou alguns segundos para que ele recuperasse toda sua ignorância. – Você não passa de uma vagabunda, ladra de namoradas. Deveria ter vergonha na cara.
Nanda achou irônico, mas, por questão de segurança, resolveu ficar quieta e seria, por mais que sua vontade fosse de rir daquelas palavras.
Droga, Débora estava demorando demais. Será que havia acontecido alguma coisa?
– Júnior, o que você realmente quer? – Indagou, olhando-o nos olhos sem se deixar intimidar.
– Quero levar Sarah comigo – respondeu prontamente, agora voltando a arma para a cabeça da ruiva. – Vocês ficam e nós vamos.
– O que vai fazer comigo? – Sarah perguntou, olhando-o pelo canto dos olhos.
– Nós vamos sair do país e ter uma lua de mel eterna – ele sorriu aberto, como se a ideia o agradasse em todos os sentidos. Manu sentiu vontade de vomitar ao pensar no assunto.
– Não podemos ficar no Brasil? Voltaríamos a ser como era antes...
– A polícia está atrás de mim, nós precisamos sair daqui o mais rápido possível – a loira mordeu os lábios, sentindo a ânsia aumentar cada vez mais. Por mais que soubesse que Sarah o estava distraindo, não suportava ter que ouvir aquela conversa. Fraca, abraçou o poste com um dos braços para que não caísse.
Nanda sabia que qualquer coisa que dissesse não seria válida e poderia piorar ainda mais a situação, se é que era possível. Foi pensando numa solução que viu Débora agachada atrás da lixeira, bem próximo de onde os dois estavam. Não fez movimentos bruscos para que ele não a percebesse. Por mais que tivesse escuro, a lua poderia facilmente denunciá-la. Então, tudo que precisava fazer, era atrair a atenção dele.
– Você não pode simplesmente levá-la. Será procurado pela polícia no exterior também. Acha mesmo que vai conseguir passar pelo aeroporto? – Pela expressão da ruiva, sabia que ela tinha ficado tensa, pois era fato que estava jogando tudo o que conseguiram por água a baixo.
– Eu posso fazer o que eu quiser – a resposta veio cheia de grosseria. – E não vai ser você quem vai me impedir.
– Ah, é? E o que você vai fazer comigo? – Seu tom era evidentemente de deboche, o que o estava irritando cada vez mais. Tinha que confiar muito numa pessoa para se arriscar daquele jeito.
Bastou apenas passar um segundo para que o sangue de Nanda parasse de correr pelas veias. Ao mesmo tempo em que levava a arma em sua direção, Júnior a destravava, deixando claro que não hesitaria em atirar. Um disparo que a teria atingido facilmente se Débora não intervisse no tempo certo.
Tudo aconteceu muito rápido. Não demorou muito para a detetive perceber o que Nanda estava querendo com aquela virada de diálogos. A intenção da marinheira era fazer com que Júnior esticasse o braço em que mantinha a pistola, pois ficaria muito mais fácil de tirá-la da mão dele. Então, quando ele o fez, precisou correr o mais rápido que conseguia. Não se perdoaria se Fernanda se ferisse por causa de alguma falta de competência sua. Assim que chegou até onde estavam, Júnior não teve tempo de reação.
O barulho do disparo foi ensurdecedor, porém a bala foi para o alto. No segundo seguinte, Débora entortou-lhe o braço e a pistola caiu no chão. Se a situação não fosse não tensa, teria sorrido para a reação rápida da índia, que logo pegou sua própria arma e apontou para ele. Como precaução, a detetive chutou a pistola para perto de onde Manuela estava.
– Solte-a, Júnior – Nanda não hesitou em destravar sua arma, deixando-o tenso. Também notou que o braço da loira estava todo sujo de sangue, tendo um pedaço de tecido amarrado com firmeza sobre o que parecia um corte.
– Acho melhor você fazer o que ela está pedindo – Débora disse num tom de deboche, mal se preocupando em pegar sua própria arma. Havia deixado o fuzil dentro do armazém, muito bem escondido. Tinha certeza que não precisaria dele mais, nunca foi de usar armamento pesado.
Aos poucos, sabendo que não tinha outra opção, Júnior foi afrouxando o braço que antes apertava o pescoço de Sarah e, quando a soltou, deu dois passos para trás. Débora não tardou em puxá-la pelos ombros para perto de onde estava, para que saísse da frente da mira da pistola de Nanda. Júnior poderia facilmente usar isso para fugir. De qualquer forma, o resultado foi o mesmo, quando a índia distraiu um segundo, ele virou e saiu em disparada, porém a detetive estava atenta e correu atrás dele.
Se tinha uma coisa que Débora mais gostava em casos como aquele, era poder correr atrás do bandido. Felizmente tinha tirado as botas assim que havia saído do armazém, pela porta lateral. Não correria o risco de andar descalça em meio a um monte de sucata, mas sabia que iria ser útil assim que saísse do lugar. Corria com maestria pelo asfalto, numa velocidade incrível, mal percebendo que Nanda agora corria para se certificar se Sarah estava bem. Antes de alcançar o armazém número cinco, a loira conseguiu agarrá-lo, jogando-o no chão facilmente, apesar de ele ser bem mais alto.
Não tinha tido nem tempo para gastar todo seu fôlego, havia sido muito fácil.
– Então você só é macho com as mulheres frágeis, não é? – Débora perguntou, não dando tempo para que ele respondesse, pois lhe acertou um soco no rosto. – Me responde! – Mais um.
– Sai de cima de mim, sua puta! – Sabendo que era bem mais forte do que aquela loira metida, Júnior girou o corpo e a jogou no chão, logo se levantando para poder voltar a correr.
Xingando, Débora levantou rápido e o interceptou novamente, agora jogando-o contra a parede de ferro do armazém número cinco. Por mais que a dor do corte fosse enorme, a loira não se importava nem um pouco. Olhava-o nos olhos enquanto segurava-lhe pela camisa com força. Conseguia sentir todo ódio e rancor que ele sentia pela garota de cabelos ruivos.
– Eu vou te dizer uma coisa. Só uma – Débora disse devagar, sem deixar um segundo sequer de pressioná-lo contra a parede. – Você não me pegou numa época boa.
– E quem diabos é você afinal?
– Saber meu nome não vai diminuir seus anos na cadeia – sorriu debochada e, quando sentiu que ele tentava se soltar, se afastou bruscamente e lhe deu outro soco na cara, fazendo-o bater contra a parede com força. – Dez anos de surra não vão diminuir o que você fez aquelas garotas passarem – mais um soco.
Meio segundo e Débora se viu contra a parede, pois ele a girou mais uma vez com facilidade. Ela sabia que estava descontando toda sua frustração, que era em Hugo que deveria estar batendo daquele jeito, que era nele que tinha que descontar todas as sensações ruins que estava sentindo. Mas não podia fazer isso, por mais que quisesse. Apesar de tudo, ele era como um irmão.
– Escuta aqui, loira de merda – Júnior disse tão próximo que a detetive sentiu o cheiro de uísque quando o hálito quente bateu contra seu rosto. – Não chegue querendo colocar moral sem saber as coisas que eu passei, o que elas me fizeram passar!
– Você batia na Sarah – ela disse com calma, embora a frieza predominasse em seu tom de voz. Havia sentido nojo quando Nanda havia lhe contado toda a história. – Você é um covarde.
– E bateria de novo, porque ela mereceu todas às vezes, por me deixar de lado e me abandonar – Débora franziu as sobrancelhas. Ele precisava de um tratamento urgente.
– Já que gosta tanto de bater em mulher, por que não bate em uma que aguente revidar a altura?
– Não pense que você é a maioral aqui, loira – sem que a detetive percebesse, ele levou rapidamente uma das mãos ao seu pescoço e começou apertá-lo com força.
Por mais que a loira tentasse se soltar, não conseguia. A cada segundo que passava, os dedos se apertavam ainda mais contra seu pescoço. Será que aquele seria seu último caso? Em uma cidade distante, com pessoas da qual não estaria envolvida se tivesse decidido voltar a Minas? Em um caso do qual não deveria estar fazendo parte? Aos poucos sua respiração foi diminuindo até não conseguir mais respirar. Mesmo com os cabelos ondulados presos num coque alto, estava sentindo um calor infernal invadir todas as partes de seu corpo.
Mas não poderia deixar tudo acabar assim, não mesmo. Se decidisse se entregar, nada mudaria. Júnior iria fugir e voltar a atormentar as meninas. E não podia jamais deixar isso acontecer, não depois de ter prometido a Fernanda que ficaria bem e que as salvaria. Também não podia simplesmente desistir de Rebecca para sempre. Se não ficariam juntas como um casal, a conquistaria como amiga e a protegeria por toda eternidade, não importando quais fossem os perigos.
Apesar dos pensamentos, seu corpo não reagia mais aos comandos. Estava começando a ficar mole e, se demorasse mais alguns segundos, desmaiaria. E aí sim tudo estaria acabado. Não permitiria que isso acontecesse. Com dificuldade, levou a mão até o cós da calça e tirou sua pistola de lá. Quando Júnior notou, ele tentou se afastar. Assim que os dedos soltaram seu pescoço, uma vertigem forte quase fez Débora desmaiar, porém apertou o gatilho mesmo assim.
Em seguida veio um grito alto de dor e um homem enorme lutando para se manter de pé. Havia atingido-o na coxa direita. Enquanto mantinha a arma apontada para ele, que se contorcia de dor, Débora tossia forte, tentando recuperar todo o ar que tinha perdido. Mas ele pagaria muito caro por aquilo. Sem dó nem piedade, atirou na outra perna, consequentemente vendo-o cair no chão.
– Agora eu quero ver você fugir – disse entre pigarros. Doía muito para respirar.
– Quem é você, afinal? – Júnior tornou a perguntar, a voz saindo estrangulada por causa da dor que sentia.
– Débora Rodrigues, detetive de homicídios – a loira se aproximou dele, sem deixar de apontar a arma um minuto sequer. Não podia vacilar. Ao chegar perto, agachou de frente para ele. – Mas estou apenas pagando um favor para uma amiga.
– Eu não sabia que a Sarah tinha uma amiga da policia...
– Não tinha, mas agora tem. Sou amiga da militar, como você a chama. E tenho um presentinho dela pra você – Débora quase riu com os pensamentos que passavam por sua cabeça.
– O qu...
Um soco de direita o fez interromper o que perguntaria. No segundo seguinte, Débora levantou e o chutou com força no peito. O impacto do golpe o fez deitar bruscamente e um gemido escapar pelos lábios grossos. Era como se tudo de ruim que estava sentindo se esvaísse a cada golpe aplicado. Aquilo era como se estivesse concluindo mais uma conquista.
Nem estava se importando com possíveis cacos de vidro que poderiam cortar seus pés descalços. Ao ouvir o barulho das sirenes se aproximando, Débora se agachou e apoiou um dos joelhos no peito dele.
– Espero que você apodreça na cadeia – murmurou com um princípio de sorriso nos lábios.
– Juro que te acho no inferno quando sair de lá – foi a última coisa que ele disse antes da detetive lhe dar uma coronhada na cabeça, fazendo-o desmaiar logo em seguida.
Sem forças, Débora sentou ao lado do corpo inerte. Ainda respirava com dificuldade, mas finalmente tudo estava acabado. Por sorte, não teria matado ninguém. Isso ajudaria ainda mais na perícia do caso. Poucos segundos depois, notou, simultaneamente, Nanda se aproximando com as garotas e os carros da polícia fazendo a curva no início da rua.
Não sabia explicar o que estava sentindo, mas poderia dizer com certeza. Tinha orgulho suficiente em mais uma vez livrar as pessoas do maior mal que as cercavam: O próprio ser humano.
Continua…
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