Fotografias
39 Os Sóis do Universo
Notas iniciais
Para Sarah, tudo agora parecia passar em câmera lenta. Um misto de felicidade e tristeza invadia todo seu ser, tornando seus pensamentos confusos e conflituosos. Não que estivesse triste por ver a pessoa que acreditou ser o amor de sua vida sendo levada em uma maca, com dois tiros nas pernas e o rosto todo ensanguentado, por uma ambulância até o hospital público mais próximo, mas sim por ter visto que muitas pessoas haviam se machucado por causa de um assunto que era seu. Por sua culpa, pessoas havia se ferido. Aquilo era pior do que todas as coisas ruins que já havia sentido na vida.
Ainda assim, um peso enorme saiu de suas costas. Finalmente estavam livres de Júnior. Depois de tanto tempo sofrendo na mão dele, simplesmente era como se estivesse livre, liberta de um mal que um dia pensou nunca ter fim.
Assim que a detetive de cabelos dourados saiu em disparada atrás de seu ex-namorado, a primeira coisa que fez foi correr até onde Manu estava e abraça-la com força. Mesmo não tendo mais lágrimas, chorou novamente, agora sendo suavemente embalada pelo corpo fraco colado ao seu. Graças a Deus ela estava bem. Estava extremamente aliviada por Júnior não ter conseguido tocar mais profundamente em seu corpo.
Lembrou que olhar diretamente para aqueles olhos azuis perolados foi o presente mais gratificante que recebeu depois de todo aquele sofrimento. Amava-a com todas as suas forças. Não saberia como seguir se algo grave tivesse realmente acontecido a ela.
Também agradeceu a Nanda e a detetive, que só depois ficou sabendo que se chamava Débora. Não sabia de onde ela tinha saído, mas não diminuiu nem um pouco sua gratidão. Vê-la tirar o colete e a regata que vestia, com dificuldade por causa do ferimento que ainda sangrava, mostrando o abdômen rígido e bem trabalhado, apenas para entregar a peça para cobrir o corpo seminu de Manu, fez Sarah perceber o quanto ela era generosa. Se era amiga da militar, também era sua. E será assim sempre.
– Tem certeza que foi só isso? – Um homem alto, com os cabelos cobertos por um boné azul-marinho e farda da polícia militar, indagou. Sarah despertou de seus pensamentos. Estava sentada com uma xícara de café nas mãos e, por mais que Nanda tinha lutado contra, respondia todas as perguntas da polícia. – Não aconteceu mais nada?
– Tenho. Não sei o que aconteceu com os seguranças de plantão e muito menos como os bandidos passaram pelos do prédio, mas sem mais nem menos arrombaram minha porta. Foi isso e mais o resto que eu contei – por mais que o respondesse prontamente, seus olhos estavam cravados na ambulância a frente, a única que havia ficado. Nela, Manu, que já havia respondido as perguntas de um outro policial, estava passando por uma série de exames.
– E qual é o envolvimento da detetive de homicídios com vocês? Você tem noção de qual é o grau de gravidade um oficial se envolver em casos do qual não lhe pertencem?
– Ela é minha amiga, precisa de envolvimento maior que esse? – Apesar de ser parcialmente mentira, não podia simplesmente deixar que a mulher que salvou sua vida sair no prejuízo. Os 18 pontos no braço já havia sido o suficiente.
Sarah não conseguiu conter um suspiro ao vê-lo se afastar, finalmente a deixando em paz.
O policial se aproximou a passos largos da detetive de cabelos ondulados, agora com os fios ondulados e dourados caindo como cascata sobre um dos ombros, enquanto uma mulher vestida num jaleco branco costurava seu braço. Ela nem ao menos deu importância e fingiu que não estava vendo-o. Quando estava bem ao lado dela, fez questão de limpar a garganta para chamar sua atenção.
– Posso fazer algumas perguntas, detetive? – O tom de voz dele era claramente irritado.
– Claro – Débora respondeu, as sobrancelhas franzidas por causa da dor incômoda.
– Por que você decidiu se envolver nesse caso?
– Sou amiga das vítimas e apenas ajudei a encontrá-las. A Capitã Cairu estava envolvida, com autorização de seus superiores na Marinha. Não tenho porque ser tratada como a vilã aqui – tentava não se concentrar na agulha furando sua pele, mas era praticamente impossível.
– Você atirou em quatro homens.
– Sabe o que eu odeio na polícia militar? – A detetive não se importava em medir palavras. – Alguns de vocês não se importam com o que realmente aconteceu. É por esse motivo que eu trabalho na parte de homicídio. É preciso matar alguém para que vocês realmente façam alguma coisa, não é? – Débora fechou os olhos por causa da dor. Ela tinha mesmo aplicado alguma anestesia? – Foi preciso que alguém de fora, que estava na cidade curtindo as férias, se envolvesse para que isso fosse resolvido.
– Você sabe que eu posso prendê-la por desacato? – Ela teve que rir, apesar da dor.
– Você acha mesmo que eu estou ligando para alguma coisa, policial? Você deveria estar preocupado em como vai enviar seu relatório ao delegado. Como vai explicar que, quando chegou ao local do crime, tudo já tinha acabado e Júnior já estava detido? Como vai explicar para seu chefe que fui eu quem pedi para que Oliveira chamasse vocês? Vocês não fizeram nada e querem tirar proveito da situaç... ai, vai com calma aí – olhou para a mulher ao seu lado com as sobrancelhas franzidas. Tentou sorrir quando ela lhe pediu desculpas.
– Eu não sabia que detetives mineiros eram tão abusados – o policial semicerrou os olhos, nada satisfeito com a enxurrada de palavras que ela lhe jogou.
– Meu parceiro é uma mula – Débora disse, entediada. – Mais alguma coisa? Espero que não.
Assim que ele saiu de perto, bufando e pisando duro, Fernanda se aproximou a passos lentos e calmos. Dava para ver em sua expressão o quanto ela estava aliviada com o resultado de toda aquela bagunça. Sorriu de leve e piscou para ela, obtendo outro como resposta.
– Eles vão ficar um bom tempo no seu pé – a índia disse com um sorriso culpado. – Desculpa por isso.
– Eu estava te devendo essa, esqueceu? Mas teria vindo mesmo se não tivesse. Afinal, amigos são para essas coisas, não é? – Sorriu abertamente, o que era realmente raro naquela mulher. – Fico feliz que eu tenha conseguido ajudar.
– Ajudou mais do que você imagina.
(...)
O céu já clareava no horizonte quando as quatro mulheres chegaram ao apartamento de Manuela. A porta continuava da mesma forma, arrombada, porém encostada. Ao entrarem, perceberam a aflição das pessoas que ali estavam, esperando por notícias. Victor e Claudia tentavam dizer, provavelmente pela milésima vez, a Lia que nada de mais havia acontecido, que ela deveria se acalmar, pois algo sério poderia acontecer ao bebê. Próximo a eles, Mari embalava Gugu e David fazia um carinho suave na cabeleira loira do menino. E Clara batia um papo com Juliana na outra extremidade, algo sobre tentar ligar mais alguma vez.
Se não estivessem todos desesperados, Manu acharia engraçado as caras que eles fizeram quando as viram. Pareciam que tinham morrido e voltado à vida. Estava com um dos braços apoiado em volta do ombro de Nanda, que a ajudava a andar. Havia recusado a ir ao hospital, pois os odiava. Sem contar que sua comadre era médica, o que ajudava e muito as circunstâncias a seu favor.
– Meu Deus, o que vocês tem na cabeça? – Foi Lia quem explodiu, levantando abruptamente do sofá. Ao que parece, ela tinha segurado as emoções durante todas as horas que esteve esperando por respostas. – Querem nos deixar loucos?
– Desculpa, Lia. Não tivemos como fazer contato – Nanda se defendeu, percorrendo a sala até o sofá em que Victor estava sentado. – Levanta daí – ele a obedeceu prontamente. Em seguida, sentou Manu sobre o estofado. – Quer mais água? – A loira assentiu, um pouco tímida por ter a atenção de toda galera voltada para si.
– Deixa que eu pego – David também levantou e logo saiu do cômodo.
Todos abraçaram as três, demorando-se um pouco em Manu, que parecia ser a mais debilitada. Fizeram diversas perguntas, mas Fernanda prometeu que logo responderia todas elas. Poucos segundos depois, o moreno de olhos azuis trouxe o copo d’água e entregou para a fotógrafa, que agradeceu logo após pegá-lo.
– Meu amor, eu fiquei tão preocupada – a médica se aproximou com Gustavo no colo. Os enormes orbes verdes, por mais que Mari o tentasse manter fechados, continuavam vivamente abertos. Era impossível fazer aquele garoto dormir. O sorriso lindo dele fez Nanda se derreter, como sempre.
– Tudo acabou bem – sem se importar com nada, deu-lhe um selinho nos lábios. Depois tratou de pegar seu filho no colo. – Tudo bem, meu amor? – Beijou-o na bochecha e sorriu para a detetive ao seu lado.
– Gente, essa aqui é a Débora. Ela é uma grande amiga minha. Veio...
– Como eu não estou sabendo disso? – Mari semicerrou os olhos cor de mel, olhando fixamente para a mulher estranha. A calça jeans que ela usava estava suja e vestia um colete jeans estava fechado, evidentemente mostrando que ela estava sem camisa por baixo, pois conseguia ver claramente partes do sutiã preto.
– Ela é de Belo Horizonte – Sarah finalmente se manifestou, tratando logo de cortar a cena de ciúme, antes que Mari voasse no pescoço da pessoa errada. – Detetive de homicídios e salvadora de nossas vidas. Direi novamente, Débora. Serei eternamente grata a você. E desculpe pelo seu machucado.
– Isso não foi nada de mais, fico feliz em ter ajudado – agora que o efeito da anestesia estava passando, o braço enfaixado começava a doer. Mas acabou valendo a pena.
– Ela não é muito boa com pessoas – Nanda riu e deu mais um selinho em uma Mari emburrada. – Mas é uma excelente pessoa.
– Vocês simplesmente poderiam contar o que aconteceu? – Claudia se prontificou a perguntar, já que ninguém o fazia. – Está evidente que Manu não está nada bem. O que diabos aconteceu?
– Calma, nós vamos contar tudo – a única ruiva presente respondeu, sorrindo de leve. – Primeiro, que tal tomarmos uma cervejinha?
– Eu estava ansiando por isso desde o momento que entrei naquele maldito armazém – a detetive disse, quase choramingando. – Sério que vocês tem cerveja aí? – Todos riram, agora aliviados.
– Eu vou lá pegar – David tornou a levantar do sofá.
– Gente, David ta se achando dono da minha casa – Manu comentou, apesar de sua voz ainda sair um pouco rasgada. Seu corpo ainda doía, mas os remédios estavam amenizando a dor. – Não vou poder beber, mas vou contratá-lo como meu garçom – mais uma vez, todos riram.
Enquanto bebiam com calma, Sarah explicava sua versão até o momento em que havia sido obrigada a perder a consciência dentro do carro dos bandidos. Depois veio Manuela retratando sobre a surra que havia levado e todas as coisas absurdas que Júnior havia dito antes de também perder a consciência, agora já dentro do armazém abandonado na zona portuária do Rio. Após alguns comentários e xingamentos, Nanda e Débora contaram com conseguiram encontrá-la e a loira aproveitou para esclarecer como havia entrado no local e se livrado dos três capangas de Júnior.
– Deus do céu, você quer casar comigo? – Victor se ajoelhou de frente para ela, que estava sentada no tapete felpudo de pernas cruzadas. – Eu preciso mesmo de uma mulher como você.
– Ela vai te dar uma surra todo dia – Juliana implicou, gargalhando logo em seguida.
– Desculpe, mas eu gosto de mulher – o moreno de cabelos ondulados murchou na hora, enquanto todo mundo caía na gargalhada.
– É melhor morrer solteiro, porque tá foda pro meu lado – ele levantou e voltou a sentar em seu lugar.
– Ainda bem que me contive, porque tive a mesma ideia que você – todos voltaram a rir quando David confessou, contrariado.
– Voltando ao final da história... tem algum problema, Sarah? – Débora olhou para a ruiva, sorrindo de leve ao notá-la assentir. – Corri atrás dele quando tentou fugir e digamos que trocamos algumas gentilezas em forma de porrada. Nunca bati tanto numa pessoa como hoje.
– Você encontrou o melhor jeito de extravasar – Nanda sorriu ao vê-la dar de ombros. Por mais que os olhares curiosos perguntassem sobre o que elas estavam falando, não se atreveu a dizer mais algo. Débora era insociável demais para que falasse de seus problemas para aquele tanto de pessoa.
– Digamos que eu não estou em um momento bom e bater nele me ajudou bastante – a detetive deu de ombros e sorriu, sentindo realmente leve depois de tudo aquilo, embora seu coração ainda sofresse de saudade da sua estudante de jornalismo. Era uma maldição que tudo a fizesse se lembrar dela. – Não tive a oportunidade de dizer – ela olhou para a marinheira, que estava sentada ao lado de Mari. – O filho de vocês é lindo.
– Lindo – Gustavo repetiu e bateu palmas, fazendo-a rir.
– Obrigada, de verdade – Mari agradeceu, agora tendo seus ciúmes devidamente controlados. – Obrigada também por se arriscar tanto por pessoas que você nem conhece.
– São amigas da Fer, também são minhas amigas – deu de ombros e sorriu quando Gugu desceu do colo da mãe e foi até onde estava, sentando e se aconchegando no seu. – É muito gratificante saber que sou responsável pela felicidade de alguém – mesmo sendo culpada por não ter a minha, pensou, não conseguindo colocar em palavras.
– Você podia virar nossa detetive particular. Consegue capturar mulheres que desejam namorar homens? – David indagou, sem querer livrando Débora dos pensamentos tristes e fazendo a todos rir logo após.
– Eu sou melhor fazendo mulheres que desejam namorar homens mudarem de ideia – ergueu as sobrancelhas e sorriu.
– Então não serve. Está demitida.
(...)
Quando todos foram embora, Sarah não sabia muito bem o que fazer. Precisava muito de um banho e sabia que tinha que cuidar de Manuela também. Não conseguia vê-la tão quietinha e frágil. Depois de fechar a porta arrombada com a tranca de segurança, caminhou até o sofá em que ela se mantinha sentada desde o momento em que chegaram no apartamento. Só Deus sabia o quão estava aliviada.
– No que está pensando? – Perguntou, sentando-se ao lado dela e pegando a mão alva.
– Nas loucuras que fazemos por amor – os lábios rosados se abriram num breve, porém perfeito, sorriso. – Eu poderia simplesmente ter desistido de tudo e simplesmente ter voltado para Fortaleza. Nem todo mundo aguentaria a pressão que me obriguei a aguentar.
– Isso acabou sendo culpa minha... – Desviou momentaneamente os olhos dos dela, mas logo voltou a olhá-la, com medo de que a qualquer momento ela sumisse da sua frente.
– Em certa parte – ela concordou e suspirou. – Você deveria tê-lo denunciado enquanto podia. Se não podia, deveria ter contado para Nanda em algum momento, pois ela saberia o que fazer. Só que talvez não estaríamos aqui e agora se isso realmente tivesse acontecido.
– Como assim?
– Vem comigo – com esforço, Manu levantou do sofá e caminhou devagar até a varanda. No céu, o sol brilhava forte e aquecia toda a cidade. Quando ouviu os passos bem próximos, continuou: — Se não tivéssemos passados por tantos obstáculos, talvez nosso amor não fosse tão poderoso como é agora. Afinal, não foi você mesma que disse que ele é como o sol? — Seu coração falhou uma batida quando Sarah sorriu abertamente. – Então, o meu amor por você é bem mais forte do que todos os sóis existentes no universo. Foi por isso que eu enfrentei todos os problemas, porque eu amo você mais que a mim mesma.
– Agora sou eu quem estou sem palavras – Sarah sentia o coração martelar contra o peito. – Fiquei com tanto medo de te perder... Estava enlouquecendo ao ver aquele idiota te tocando, ao te ver toda machucada. Dessa vez eu digo com toda certeza do mundo... – pegou em ambas as mãos dela, olhando-a nos olhos. Mesmo toda suja, com o cabelo desalinhado, olhos e expressão cansados, ela continuava sendo a mulher mais linda do mundo. -... Nunca mais vou deixar que ninguém te faça mal. Eu vou te proteger e te fazer minha para sempre. Temos pouco mais de dois meses de namoro, mas esse pouco tempo só serviu para provar o quanto eu te amo e o quanto você é essencial na minha vida – terminou de dizer, sentindo os olhos marejarem, agora de emoção e felicidade.
– Por você, eu enfrentaria tudo de novo. Sabe por quê? – Sorriu ao vê-la esperar pela resposta. – Por que não existe no mundo alguém que me faça sentir tão amada e desejada. É por isso que um dia eu vou casar com você, mesmo que todos os bandidos do mundo lutem contra isso – ao terminar de dizer, não a deixou que respondesse. Fechou seus lábios sobre os dela, num beijo intenso e cheio de diversos sentimentos. Alivio, liberdade, leveza, carinho, necessidade, saudade, paixão, amor.
Não eram necessárias mais palavras sobre aquele assunto. Simplesmente uma coisa era certa: Não importava pelo o que fossem passar futuramente, só de estarem juntas, seguiriam em frente sempre. Afinal, o amor era a prova de tudo. E elas se amavam numa proporção que chegava ao limite do universo. Se é que ele havia um.
Continua...
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