Fotografias
47 Felicidade Mútua
Notas iniciais
Por um momento, Manu não conseguiu dizer uma única palavra. Era como se simplesmente tivesse travado ao ouvir aquelas palavras. Ela estava mesmo pedindo-a em casamento? Não esperava por aquilo, nem quando ela havia revelado tudo que esteve fazendo nesse tempo todo. Muito menos agora. Sabia que precisava dizer algo, mas não conseguia. Uma bola se formava em sua garganta, impedindo-a de pronunciar a palavrinha que ela tanto esperava.
– Eu sei que eu não mereço, pois fiz você chorar esse tempo todo e nem percebi o quanto te fiz sofrer com as minhas ações, por mais que eu tivesse tido boas intenções – Sarah desviou os olhos para o céu nublado, sentindo as finas gotas do chuvisco caírem em seu rosto. – Então eu vou entender se você não quiser – ambas ainda estavam deitadas no chão barrento, nuas e sujas de lama. Sarah sentia o coração bater acelerado. Estava muito nervosa.
– E quem foi que disse que eu não quero? – A loira finalmente disse algo, fitando-a com os olhos marejados. A garganta estava seca e borboletas sambavam em seu estômago. – Como eu iria negar passar o restante da minha vida ao lado da mulher que eu tanto amo?
– Então isso é um “sim”?
– Não – sorriu quando ela mordeu os lábios de um jeito nervoso. Amava quando ela fazia aquilo. – É um milhão de “sim”. É claro que eu quero me casar com você. Eu te amo tanto, Sarah... mesmo você sendo tão lerda.
– Eu posso ser lerda, mas ninguém no mundo te ama mais que eu – a ruiva ficou de pé e a puxou para que fizesse o mesmo. Naquele momento, suas mãos estavam sujas de lama, mas não ligou. Levou-as ao rosto dela, sujando-o nas laterais e riu. Estava se sentindo tão mais leve agora, chegava a parecer bobo.
– Melhor nós nos vestirmos, antes que alguém resolva aparecer por aqui – Manu tentou se afastar, mas Sarah a segurou e riu abafado.
– Não antes de eu beijar você – olhava-a nos olhos quando disse. Manu sorriu abertamente, arrepiando-se por causa da brisa que voltou a soprar.
– E está esperando o q...
Sarah não a deixou terminar, pois selou seus lábios num beijo intenso e apaixonado. Por mais que estivessem sujas de lama, não se importou e a abraçou apertado, melando-a ainda mais. Depositou todo seu sentimento naquele beijo, envolvendo-a de um jeito que nunca tinha feito antes. Precisava mostrar que nunca houve outra pessoa em sua vida, por mais que agora ela acreditasse em suas palavras. Amava-a com todas as forças de seu ser, era um sentimento incondicional. Não sabia explicar o quanto ela era essencial em sua vida.
Mesmo tendo boas intenções ao sumir diversas vezes sem explicação, Sarah sabia que poderia colocar tudo a perder. Mas estava tão compenetrada em fazer aquela surpresa, em agradá-la, que acabou não percebendo o quão estava fazendo-a sofrer. Podia dar graças a Deus por ter sido perdoada. Por mais que a intenção fosse perfeita, nem todo mundo olharia apenas esse lado. Havia feito-a sofrer por longos e incessantes meses. Podia-se dizer que estava extremamente aliviada por tudo ter dado certo. Não foi exatamente desse jeito que havia planejado. Queria pedi-la em casamento num jantar que prepararia naquela casa, já mobiliada, onde passariam a primeira noite juntas. Não deitadas na lama, depois de terem feito sexo em meio a uma tempestade violenta. Poderiam ter morrido eletrocutadas por um raio!
Mas não foi menos perfeito. Muito pelo contrário, havia sido bem mais que isso. Todos os acontecimentos ficariam gravados para sempre em sua mente. Manuela era tudo que tinha de mais precioso e nunca deixaria nada afastá-la de si. Simplesmente porque ela já era uma parte insubstituível do seu corpo. Era a mulher da sua vida, com quem passaria todos os dias até que ela enjoasse da sua campainha.
Quando o ar lhes faltou, ambas se afastaram devagar. Sarah encostou a testa na dela e custou a abrir os olhos, com receio de que tudo aquilo fosse um sonho. Com medo de que Manuela não fosse real, que desaparecesse de seus braços se fizesse qualquer movimento brusco. Ao finalmente abri-los, encontrou o azul dos dela e um sorriso perfeito. Foi impossível não sorrir da mesma forma. Manu era maravilhosa, a mais linda do universo.
– Agora podemos nos vestir – a ruiva sorriu e piscou para ela, que riu como resposta. – Dona Helena vai nos matar quando ver o estado das nossas roupas.
Manu corou imediatamente, como se tivesse se lembrado de algo muito constrangedor. No segundo seguinte, deu um tapa forte no braço nu da ruiva.
Ai! – Sarah massageou o braço ao levar mais dois. – O que eu fiz?
– Meu Deus, como eu vou encarar minha mãe?! – A fotógrafa passou a mão no rosto, sujando-o ainda mais. Sarah se segurou o máximo para não rir. Com certeza apanharia mais se o fizesse. – Deus, eu serei zoada até a morte. Eu vou matar você, Sarah!
– Não me inclua nisso – rindo, a ruiva abaixou para pegar as roupas encharcadas e correu para dentro da casa em construção.
– Você está muito encrencada, garota – ela arfava ao dizer, assim que também havia chegado à casa, apoiando as mãos nas coxas para respirar melhor.
– MANU! SARAH! – Alguém gritou do lado de fora, chamando a atenção das duas.
Elas se entreolharam, ambas com os olhos arregalados. Então começaram a se vestir o mais rápido que conseguiram. Voltaram a chamar, mas não pararam para responder. Quando já estavam devidamente vestidas, apesar de as roupas imundas estarem coladas no corpo de ambas, elas começaram a gargalhar. Manu precisou se apoiar numa pilha de madeiras para não se desequilibrar.
– O que vocês estão fazendo? – Fábio apareceu na entrada do cômodo inacabado, vestindo bermuda jeans e casaco de capuz. O costumeiro cabelo arrepiado agora estava baixo e molhado por causa da chuva.
– Por que não nos avisaram que viriam? – A voz histérica de Marcela preencheu o ambiente. No segundo seguinte, ela apareceu atrás do garoto de cabelos negros. – Gente, vocês estão horríveis – ela fez uma careta de nojo, olhando-as de cima a baixo.
– Acidente de trabalho – Sarah explicou e novamente ambas caíram na gargalhada.
– Qual é a graça? – Denise perguntou, aparecendo de repente no vão onde seria uma das janelas da casa. Os cabelos ondulados também estavam molhados, como os de Marcela e Fábio.
– Vocês vieram em bando?! – Manu apontou, ainda querendo rir. Seu rosto começava a ficar corado aos poucos.
– Estávamos curiosos – os gêmeos, Bento e Bruno, pularam a janela do outro cômodo e apareceram pela porta de trás. – Então quer dizer que você está namorando uma menina e não nos conta nada? – Era Bruno quem indagava, a pele de um bronzeado jambo repleta de gotículas da chuva.
– Bruno, fique na sua – a veterinária apontou do outro lado do cômodo, os olhos castanhos semicerrados ao desviá-los dele para a loira, que tinha o rosto vermelho como um pimentão. – Como você não me contou uma coisa dessas, dona Manuela?
– Eu vou matar você – a loira falou baixinho, só para Sarah ouvir. Estava morrendo de vergonha e sabia que eles não aceitariam menos que uma explicação decente.
– Pare de intimidar a menina, valentona – Fábio a abraçou por trás e beijou o ombro exposto, já que ela estava com os cabelos castanho-claros preso num coque alto. Marcela se arrepiou, mas não desviou os olhos da fotógrafa. – Desculpa atrapalhar o sexo selvagem de vocês.
Agora foi a vez de o casal corar imediatamente.
– Desculpa, mas dava para ouvir os gemidos – Denise comentou entre risos, sendo acompanhada pelo restante. – Mas nos conte tudo, tim-tim por tim-tim.
– Sou eu quem merece explicações – Manuela olhou para cada um dos seus amigos, boquiaberta. Graças a Deus Miguel estava trabalhando. Se não iria ser um constrangimento a mais. – Como vocês caem na lábia da Sarah e resolvem esconder as coisas de mim?
– Eu sou boa em persuasão – a ruiva deu de ombros e riu, levando outro tapa logo após. – Estou vendo que vou apanhar toda hora agora, não é?
– E será bem pouco para o que você aprontou – fez biquinho e virou para frente, só agora se tocando da proximidade de Marcela e Fábio. – Espera um pouco, vocês estão juntos?!
– É parte da surpresa – a veterinária desdenhou, embora agora sorrisse feito boba. Como fosse um jeito costumeiro, ela virou um pouco e deu um selinho no rapaz. Manu achou tão estranho! – Estamos junto há três meses.
– Mas eu vim aqui antes disso, sua cobra! – Manu apontou para ela, boquiaberta. – Por que não me contou?
– Por que você não me contou sobre a Sarah? Estamos quites.
– Mas é diferente!
– Por quê? Só porque Sarah é uma garota? Apesar de não parecer uma – riu ao ver a careta que ela fez. Haviam ficado próximas depois de tudo. – Você não confiou na gente, Manu.
– Podem parar as duas – Fábio interveio, soltando o corpo de sua namorada para ficar entre ambas. – Não estamos aqui para brigar. Pelo que está parecendo, as duas estão bem e é isso que importa. Não queremos julgar o passado, queremos? – Ele virou para Marcela com a expressão que dizia “negue e você levará um soco”.
– Tudo bem – ela concordou com um suspiro e cruzou os braços, contrariada. – O que vamos fazer agora?
– Comemorar, lógico – foi Denise quem respondeu. – Vamos beber!
– Não tenho outra opção, não é? – A fotógrafa mordeu os lábios e revirou os olhos azuis. – Deus, o que minha mãe vai dizer?
– Você vai vir morar aqui de novo, Manu! – Bento quase gritou, todo animado. – Ela está surtando com a ideia, pode apostar – ao lado da loira, Sarah sorria discretamente. Gostava da energia positiva que aquela turma emanava. Imaginava a loucura que seria quando eles se juntassem com o povo do Rio.
– Tudo bem, eu acredito. Vamos até lá em casa, eu preciso trocar essa roupa imunda – ao dizer, a loira pegou timidamente na mão de sua futura esposa. Por mais que estivesse morrendo de vergonha, sentia-se feliz por tudo ter tomado um caminho completamente diferente do que esperava.
(...)
Se enfrentar seus amigos já havia sido uma tarefa terrivelmente difícil, enfrentar sua mãe e irmão foi um milhão de vezes pior. Nunca tinha ficado tão nervosa na vida. Seu rosto parecia estar pegando fogo de tanta vergonha. Mesmo tendo-os encarado antes, agora era muito diferente. Tinha ciência que eles sabiam de tudo e as possibilidades a estavam matando aos poucos. E quando dona Helena apareceu na porta da simples casinha Manu pensou que fosse desmaiar.
Mas acabou sendo tudo mais leve do que esperava, novamente. Diferente do que esperou que ela dissesse, apenas levou uma bronca, junto com Sarah, por causa das roupas sujas. Ela também deu-lhes um sermão, dizendo que já eram grandinhas demais para se sujarem daquela forma e que não entrariam no banheiro dela com aqueles pés imundos. Manu apenas riu. Sentia-se tão leve que a qualquer momento poderia flutuar.
Já Miguel... Com ele havia sido mais intenso, como tudo era quando o tinha envolvido no meio. Os três conversaram e felizmente Sarah o conduziu até onde queriam. E, mais uma vez, se surpreendeu. O garoto loiro e de olhos azuis apenas sorriu abertamente e agradeceu a Sarah por trazer sua irmã querida de volta. Manu chorou e o abraçou apertado. Estava tão feliz que não conseguia medir as proporções.
– E vocês vão se casar mesmo? – Ele perguntou num tom curioso, fazendo a irmã corar levemente. Não sabia se acostumaria a falar sobre sua vida amorosa com sua família.
– Vamos – Manu respondeu e piscou para ruiva de olhos verdes, que sorria abertamente.
– Quando? Vai ser na cidade? Poderíamos ir pra lá, né? Mãinha vai pirar com isso.
– Você está muito animado, seu interesseiro – a fotógrafa o cutucou e riu.
– Não sabemos ainda, Miguel. Mas você pode ir para o Rio se quiser. Passar uns dias e tal – Sarah riu ao notar os olhos do garoto brilharem. Parecia uma criança. Ele era a cópia de Manu.
– Posso mesmo? – O loiro olhou para a irmã, que deu de ombros e sorriu.
– Claro que pode.
(...)
E Miguel acabou indo mesmo, junto com elas. Passou duas semanas inteiras indo à praia e jogando futebol com os meninos. Ele simplesmente amou a cidade, maravilhado com tudo e todos. Era como se fosse um estrangeiro visitando o país pela primeira vez. E Sarah achou aquilo uma gracinha nele. Amava seu cunhado e seria eternamente grata por tudo que ele havia feito por ela até hoje.
A galera simplesmente o amou, quase implorando para que ele não voltasse para o mato. Adotaram-no como mascote, já que era o mais novo da turma. Manu sentiu-se obrigada a dar uns tapas em Lia, que não parava de implicar com o garoto. E, quando ele passou pelo portão de embarque, desejou ter ido com ele. Mas ainda tinha muita coisa a ser resolvida por ali, então teria que esperar mais um pouco.
Só Deus sabia o quão insuportável eles ficaram quando finalmente decidiram contar sobre o casamento, logo após chegarem do aeroporto. A zoação parecia nunca ter fim, juntamente com as provocações e gargalhadas contínuas. Poderia passar anos, mas aquilo nunca mudaria.
Como o contrato de Sarah com o Flamengo duraria até o fim do ano, tudo estava planejado para dali a seis meses. , então precisavam aprontar tudo o quanto antes. E, ao passo em que os meses passavam, tudo ficava ainda mais confuso e corrido. Conseguiram arrumar um padre que as casassem e até o espaço onde seria realizada a cerimônia. Por mais que dona Helena cismasse em dizer que preferia as coisas com mais calma e dedicação, simplesmente seguiram por um caminho totalmente oposto.
Em Fortaleza, a casa foi sendo terminada sem pressa. Fábio e Marcela supervisionaram, juntamente com Miguel. Todos ajudaram da maneira que podiam, deixando o futuro lar do casal simplesmente perfeito. Mas tudo só ficou realmente pronto faltando menos de um mês da data marcada para o casamento. Só que, de acordo com eles, elas só a veriam quando voltassem da lua de mel.
– Eu já disse que não quero vestir isso! – Manuela exclamou, afastando-se de Lia como o diabo foge da cruz. – Me ajuda aqui, Mari!
– Não me meta nos seus assuntos – a médica levantou os braços em sinal claro de rendição, embora em seu rosto tivesse um sorriso divertido.
– Você é uma traíra, garota – disse, correndo para o corredor de seu apartamento. Sarah estava sentada no sofá, apenas rindo das duas garotas. Lia a obrigava a vestir uma lingerie que tinha comprado, mas que ficou muito larga em seu corpo.
– Não custa nada, Manu! Vem cá, eu tenho certeza que vai ficar lindo em você – a japonesa correu atrás dela, segurando um sutiã vermelho em uma mão e a calcinha da mesma cor na outra.
– Lia pode ter duzentos filhos que ela nunca vai mudar – Claudia comentou assim que as duas sumiram de seu campo de visão. – Como você atura? – Indagou, olhando para a mulata de cabelos cacheados.
– O amor nos faz aturar até a mais chata das criaturas – Sarah respondeu por ela, gargalhando logo após.
– Você fala como se... – Juliana se autointerrompeu quando ouviu a campainha tocar.
– Eu abro – Clara, que estava mais próximo da porta, levantou do tapete e foi abri-la.
Ao fazê-lo, não conseguiu evitar seu queixo de cair. Parados do outro lado da porta havia sete pessoas, todos eles com um sorriso enorme no rosto. E poderia passar dias olhando para eles, mas só reconheceria um.
– Onde está a cadela da Manuela? – A voz fina e irritante de Marcela chamou a atenção da turma presente na sala de estar.
Assim que ouviu aquela voz tão marcante, a loira de olhos azuis apareceu na porta do corredor, sendo logo alcançada pela japonesa. No chão, próximo a Nanda, Gugu e Luquinhas brincavam de carrinho com David e Victor.
– Não acredito que vocês vieram mesmo – os olhos da fotógrafa brilharam, mas logo as sobrancelhas franziram ao notar a proximidade da mulher atrás de si. – Sai de mim, garota! Eu não vou vestir isso.
– Mas não custa nada, Manu! – Lia disse, contrariada. Como se tivesse uma ideia maravilhosa, ela virou com um sorriso de orelha a orelha.
– Vem cá – pegou na mão da japonesa e a puxou até a porta, passando por uma confusa Clara. Em seguida, fez o mesmo com Marcela, puxando-a para perto. – Marcela, essa é a Lia. Lia, Marcela. Agora você tem alguém para experimentar essa coisa que você comprou.
– Mas o quê...? – Foi a única coisa que a veterinária conseguiu dizer, antes de ser arrastada pela japonesa apartamento adentro.
– Você é tão má – Victor comentou, começando a rir logo após.
– Vamos, entrem – Manu abriu espaço para a galera passar. – Senti sua falta, mãinha – e abraçou a mulher mais velha, para depois fazer o mesmo com o irmão. – Estou surpresa que vocês vieram mesmo.
– Nós não perderíamos esse casamento por nada nesse mundo – Miguel comentou, sorrindo abertamente.
Sem sombra de dúvida, agora a bagunça estava armada. Apesar de que tinham muito com o que se preocupar, já que o casamento estava marcado para o dia 22 de Setembro, ou seja, dali a dois dias.
Continua...
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