Fotografias
3 Cabeça Dura
Notas iniciais
Era noite de quinta feira e todos estavam decidindo sobre os acabamentos do casamento de Clara e Claudia. As últimas a chegarem no apartamento foram Clara com as meninas, que estavam na casa de Manu. O ar condicionado da sala estava no máximo e o ambiente estava gelado como o polo norte, mas ninguém realmente se incomodou com esse fato. Um cheiro de pipoca pairava no ar, pois Juliana estava preparando na cozinha. Elas iriam assistir algum filme depois de resolverem as pendências do casamento, só para não passar o dia em branco.
Mariana, a médica do grupo, tirou um bloco de papel e o folheou duas vezes. Os cabelos loiros eram escuros e batiam na metade das costas dela, havia crescido bem depressa, era o que todos diziam sempre. Ela se sentia muito cansada, mas prometeu para as meninas que as ajudaria com os acabamentos. Trabalhava como pediatra numa clinica em Botafogo e havia saído de lá direto para a casa de Manu, quem havia decidido juntamente com Nanda, sua namorada, que seria uma das duas madrinhas de Gustavo, seu filho de um ano de idade. Também não desperdiçaria um dia com as meninas. Há algum tempo que todas não se juntavam assim. Sempre alguém estava ocupada e desmarcava em cima da hora.
Ao seu lado, Manuela supervisionava o que ela estava fazendo, com olhos atentos, enquanto tentava se lembrar de mais alguma coisa que faltava para ser resolvida. Precisavam ainda ligar para a mulher do bufê e o rapaz que ia organizar a festa só para os amigos, mas Lia e Ju já disseram que fariam isso daqui a pouco. Manu, Mari e Nanda estavam ajudando a Clara; e Lia, Ju e Sarah, Claudia. Poderiam ser duas garotas, mas aquilo ainda era um casamento e todos os costumes precisavam ser seguidos. Principalmente o fato de que o “noivo” não pode ver a noiva antes da cerimônia. Então cuidavam das coisas sem que a outra soubesse.
– Clara, você não ligou para a costureira, né? – Nanda indagou, enquanto pegava o carrinho de brinquedo em cima da mesa e entregava para seu enteado. Depois que ele saiu correndo pela sala, virou para a garota de cabelos loiros, que lhe olhava com uma feição de quem havia perdido o celular e não sabia onde.
– Você sabia que estamos quase no Carnaval? – A pergunta de Manuela fez com que Clara virasse para o outro lado. – O Brasil para nessa época, gata. Amanhã cedo você vai ligar para essa mulher.
– Só falta alguns ajustes, vai ser coisa rápida, gente – ela respondeu, suspirando. Havia esquecido completamente disso. Por Deus, mais o que faltava? Não sabia que casar era algo tão difícil. Tornou a prender os cabelos ondulados num coque algo, deixando alguns fios dourados caindo nos olhos.
– Amanhã você vai lá, mesmo sendo alguns ajustes – Clara suspirou e concordou, deixando as três mais aliviadas.
– Você já comprou seu vestido? – Nanda se voltou para Manu ao perguntar, notando-a levantar os enormes olhos azuis dos convites detalhados em azul e prata, que estavam sobre a mesa de centro.
– Ainda não, mas combinei com a Sarah de irmos no Sábado.
– Você e a Sarah vão sair Sábado? – Lia indagou da cozinha, fazendo com que Manuela revirasse os olhos. Elas iam começar tudo de novo.
– Podem parando – defendeu-se. – Vocês não perdem uma oportunid... – interrompeu-se ao ver Sarah abrindo a porta com dificuldade e entrando com duas sacolas de refrigerante. Respirou fundo e voltou a olhar para Lia. Erro fatal.
– Perdeu a fala, Manu? – A japonesa indagou com um sorriso divertido nos lábios. Atrás dela, vindo da cozinha, apareceu Ju e Claudia.
– O que foi que eu perdi? – A morena de olhos azuis indagou e depois foi até Clara e a abraçou por trás, dando um beijinho no pescoço dela em seguida. Sorriu e olhou para Lia.
– Ninguém acredita em mim quando eu falo. A Manu está apaixonada pela Sarah, gente – as palavras da garota de olhos puxados fez com que as duas ficassem ruborizadas.
Por um segundo, Sarah chegou a imaginar se aquilo realmente poderia ser verdade. Também imaginou como seria se sua melhor amiga estivesse realmente apaixonada, mas logo desistiu da ideia. Não era possível que algo assim realmente acontecesse. Bufou e deixou as sacolas no chão para fechar a porta com mais facilidade. Assim que o fez, virou para Lia e andou até onde ela estava. Sentia o olhar de todos em si, mas o que mais pesava era o de Manuela. Sabia que ela sempre ficava sem graça com aquelas insinuações e já havia passado da hora daquilo acabar. Pela primeira vez na vida realmente sentia-se bem em ter alguém para chamar de melhor amigo e elas estavam estragando tudo. E o motivo do seu coração bater acelerado toda vez que estava perto dela era simplesmente porque aquilo tudo era novo, nunca teve alguém tão próximo assim. Pelo menos era o que achava.
Ao chegar próximo o suficiente, olhou-a de cima. Lia era uma japonesa baixinha e abusada. As vezes sentia vontade de puxar a orelha dela, mas sempre se segurava. Respirou fundo três vezes antes de começar a falar.
– Quando você vai parar de implicar com a gente? Somos amigas, está tão difícil de entender? – Olhou para todas que estavam em volta. Conseguiu reparar que o bebê, Gugu, tinha parado de brincar com o carrinho para olhá-la também. Tadinho, havia assustado o menino, pensou. Manu estava do outro lado, sentada no sofá, olhando-a com intensidade. Mordeu os lábios, tentando voltar ao foco, e voltou-se para Lia. – Eu tenho namorado.
– Que é um rinoceronte com asas – Claudia disse, ainda abraçando sua noiva.
– Não o chame assim. O Junior é a pessoa que tem mais feito bem para mim hoje em dia – apontou o dedo e só então notou a mudança de Manu.
– Já chega – falou com frieza e levantou do sofá, deixando os convites de lado. Todas viraram para ela. – Já estou cansada disso. Estou cansada de dizerem que estou apaixonada, de insinuarem que sinto algo. Vocês realmente sabem como me sinto? – Olhou para todas elas e parou os olhos na ruiva. O verde daqueles olhos por algum motivo lhe era muito convidativo. Seu coração batia tão acelerado que parecia querer sair do peito. Por um momento, só um, parecia que só estavam as duas naquela sala. – Você sabe como me sinto? Ninguém sabe. Não se preocupe, Sarah, eu sou sua melhor amiga. Apenas isso. Eu já tenho tudo que preciso, ninguém mais é bem vindo – lançou-lhe um último olhar gelado e foi até a bancada para pegar sua câmera profissional.
Sem dizer mais nenhuma palavra, foi até onde Gugu havia voltado a brincar com o carrinho. Ele estava distraído quando chegou. Aproveitou esse momento para bater uma foto. Sorriu quando o barulho da câmera lhe chamou atenção. Tirou mais outra quando os enormes olhos verdes a olharam com curiosidade. Ele estava vestido com uma pequena calça jeans e uma camisa polo vermelha. Estava parecendo um homenzinho. Sorriu para ele e recebeu outro como resposta. Ele era lindo demais.
Conseguia sentir os olhos de todas elas nas suas costas. Bateu outra fotografia do bebê e riu quando ele fez uma careta para poder bater outra. Estava ignorando-as e continuaria quanto tempo fosse necessário. A verdade é que a afirmação dada pela ruiva de alguma forma a havia afetado. Claro que sabia que Sarah amava seu namorado e sabia que eles poderiam sim se dar muito bem. Até porque ninguém ficava com outra pessoa tanto tempo sem gostar de verdade. Sabia também que ele fazia bem para ela, mas ouvir isso da boca dela foi diferente. Sentiu como se tivesse ali para nada. Não que quisesse tomar o lugar do rinoceronte. Apenas havia doído onde não imaginou que doeria. Fechou os olhos e mordeu os lábios.
O que diabos estava acontecendo? Olhou novamente para o bebê de olhos verdes e sorriu, bagunçando o cabelo dele em seguida. Levantou-se, colocou a câmera em cima da bancada e saiu da sala sem dizer mais uma palavra sequer.
Todas continuavam em silêncio, mesmo depois que Manu saiu da sala para a cozinha. Os olhares se encontravam ora ou outra, mas ninguém dizia nada. Nunca tinham visto Manuela daquele jeito. Ela sempre foi a mais calma e meiga de todas. Sempre tentando tirar o corpo fora das confusões. Por isso aquilo as havia assustado.
Sarah ainda estava sem palavras para aquilo. Não sabia o que fazer. Queria ir até onde ela estava e perguntar o que estava realmente acontecendo. Tudo que fez foi tentar defendê-la, mas de alguma forma ela havia ficado chateada. Sabia que Manu sentia ciúmes, mas não sabia dizer se esse era o motivo da vez. Os olhos dela lhe passaram uma mensagem rápida: Talvez não seja do jeito que você imagina. Conseguiu captar aquilo, mas não sabia como interpretar. Estava com medo de ir até ela e terminar de estragar tudo.
A brincadeira tinha se tornado algo sério e as meninas voltaram seus afazeres e deixaram Sarah em paz. Em silêncio, ela guardou os refrigerantes na geladeira e, hesitante, caminhou até o antigo quarto da garota de cabelos loiros. Abriu a porta devagar e viu-a mexendo no celular, sentada na cama. Sentiu vontade de voltar quando ela levantou os olhos para si. Só quando notou que estavam marejados, esqueceu-se de tudo. Entrou no cômodo e sentou-se ao lado dela. Queria abraçá-la e pedir desculpas por qualquer coisa que tenha feito, mas primeiro tirou o celular da mão dela, colocando-o ao lado de seu corpo.
– Posso falar uma coisa? – Indagou num tom baixo, mas ela não respondeu, apenas olhava para ambas as mãos. Não se intimidou por aquilo. – Você foi a coisa mais importante que me aconteceu nesse ano. Eu nunca tive dias tão felizes.
Manu permaneceu em silêncio, absorvendo as palavras.
– Eu sei que disse aquilo para as meninas, mas eu só queria que elas parassem de implicar com a gente. A verdade é que... – desviou os olhos para a parede, só agora notando o tom verde dela. – Desde que você chegou, meu mundo se tornou melhor...
Não precisava virar para saber que agora ela a fitava, mas ainda estava quieta.
– Obrigada por ter me feito uma pessoa melhor do que eu era antes e desculpa se eu te magoei – quando notou que ela não falaria mesmo se dissesse que lhe daria o mundo, suspirou. Então levantou e saiu do quarto.
A loira permaneceu quieta, apenas repassando tudo que ela havia dito. Com certeza, aquelas palavras havia piorado o turbilhão de sentimentos que estava dentro de seu corpo. Deitou de costas e colocou as mãos no rosto, tentando recuperar o pouco da sanidade que ainda lhe restava. O que diabos estava acontecendo com seu corpo? Seu coração batia acelerado e sua respiração estava um pouco desregulada. Respirou fundo quando ouviu a porta do quarto tornar a abrir.
– Posso entrar? – Não precisava abrir os olhos para saber a quem aquela voz pertencia. Conseguia enxergar Mariana com um semblante preocupado, vestida numa calça jeans e camiseta branca.
Limitou-se a falar, apenas balançou a cabeça afirmativamente e ouviu os passos dela até parar perto da cama e sentar ao seu lado. Continuou com as mãos no rosto e sabia que ela a fitava. O cheiro leve de remédio exalava dela, misturado com o perfume suave que ela usava, mas aquilo não incomodou Manu. Havia conhecido Claudia e Juliana primeiro e passou longos seis meses na casa da primeira, só que havia se apegado bastante a Mari. Gostava da sua companhia e suas manias sempre a fazia rir.
– Você está bem? – A voz dela era calma e baixa ao perguntar. Ao vê-la balançar a cabeça, sorriu com ternura. – Você não se importa com as brincadeiras da gente, né? – Mais uma vez, Manu balançou a cabeça negativamente. – Quer desabafar?
A loira tirou as mãos do rosto e abriu os olhos, fazendo Mari notar o quão brilhantes estavam. Ela estava chorando minutos antes. Estava com pena dela. Sabia o que ela estava sentindo, mesmo ela própria não sabendo. Só de olhá-la, sabia que estava sofrendo por algo que não conhecia. Havia se apegado tanto àquela garota, que não suportaria vê-la cair cada vez mais nesse buraco sem fundo. Tinha certeza que, a cada dia que passasse, ia piorar ainda mais.
– Eu não sei o que está acontecendo comigo, Mari...
– Eu posso arriscar dizer o que é? – A médica pegou na mão dela e a ajudou a sentar. Quando ela assentiu, continuou: — Você está começando a se apaixonar pela Sarah, mas ainda não percebeu isso. Sei que isso é repentino e que você não quer que aconteça, porque a Sarah é sua amiga, mas é isso que está acontecendo, Manu.
– O que eu faço? – Se isso fosse mesmo verdade, não teria volta. Desviou os olhos da loira para a parece, o mesmo movimento que Sarah havia feito instantes antes.
– O que você quer?
– Não quero me apaixonar por ela como todos desejam... – Um fio de lágrima escorreu pelos olhos azuis e Mari as secou com as costas da mão. – Não quero conhecer o namorado dela, não quero me sentir mais desse jeito... – Era a primeira vez na vida que se sentia tão mal por algo e não queria que se repetisse.
– A Sarah é cabeça dura e você foi a única pessoa que conseguiu realmente se aproximar dela – confessou Mari, olhando-a com ternura. – A Sarah é extrovertida e engraçada, mas ainda assim consegue ser muito fechada para todos. Ninguém realmente sabe como ela se sente. Só você conseguiu extrair o máximo dela, só você conseguiu fazê-la agir como ela é. Até você aparecer nas nossas vidas, não tínhamos visto ela com vergonha ou ansiosa por algo. O máximo que conseguimos tirar dela foram momentos de desespero quando a Clara foi atropelada ano passado – Manu ouvia as palavras dela com atenção, ainda tendo sua mão entre as dela. – Fora isso, foi você que conseguiu se aproximar dela como ninguém.
– O que você quer dizer?
– Eu quero dizer que a Sarah também está sentindo algo diferente por você, mas também não percebeu isso ainda. Eu tenho certeza disso. No começo, era apenas uma brincadeira das meninas, mas agora até elas conseguiram reparar nisso. Sarah sempre se irrita mais que você quando brincamos sobre vocês serem namoradas, mas a verdade é que ela tem medo de perder você. Ela tem medo que você se aborreça conosco e se afaste dela por conta disso, ela já não consegue ficar mais longe de você. Ela diz que o namorado é o alicerce dela, mas na verdade esse alicerce agora é você.
Aquela afirmação pegou Manu de surpresa. Os olhos arregalados fizeram Mari suspirar de leve e sorrir. Tanto Manu quanto Sarah eram tuas cabeças duras. Não percebiam o que estava acontecendo. O máximo que podia fazer era abrir os olhos da loira, mas sabia que mesmo se esfregasse na cara da Sarah, ela não perceberia. Das duas, ela era a pior. Quando ia dizer mais uma coisa, Gustavo entrou correndo no quarto. Os cabelos loiros, quase brancos, brilhavam com a luz do cômodo. Ao invés de ir para seus braços, ele se jogou no colo de Manu, que sorriu pela primeira vez. O menino tinha pouco mais de um ano e já era muito esperto.
– Como você e a Nanda se conheceram? – Indagou, tentando mudar de assunto. Mais tarde, quando estivesse sozinha, pensaria melhor sobre isso.
– Nos conhecemos através da Lia, por quem eu tive uma certa queda – confessou, notando-a olhá-la descrente. – Não faça essa cara, deixa eu explicar primeiro. Ela e a Ju não estavam juntas nessa época, mas no dia em que eu as conheci, percebi que rolava algo entre elas. Uma semana depois, a Lia me convidou para uma viagem, onde ela seria interprete de alguns japoneses. Como você sabe, ela trabalha numa empresa de turismo. Fomos para Paraty e a Nanda foi quem guiou o nosso iate até lá. Foi aí que nos conhecemos.
– Mas como foi que aconteceu? – Sentou Gugu em seu colo e beijou a bochecha rosada.
– A Lia nesse dia resolveu que não era comigo que queria ficar e me deu um chute – deu de ombros, suspirando, mas depois sorriu. – Logo assim que ela saiu do quarto, a Nanda chegou. Dizendo ela, já estava de olho em mim desde que havia me visto. Eu só deixei rolar e arrisquei. Ela se dá muito bem com meu filho e até resolveu morar comigo para podermos cuidar dele de uma forma melhor. Ela é oficial da Marinha e eu médica, então não temos todo o tempo do mundo para cuidar de uma criança.
– Que lindas vocês... – Manu ficou um pouco corada e baixou os olhos para o bebê em seu colo. Ele estava distraído com o carrinho de brinquedo nas mãos.
– Obrigada... Manu, antes de você parar para pensar, quero te dizer uma coisa. Antes de conhecer a Nanda e dizer que ela é o amor da minha vida, eu me relacionava apenas com homens. E tive um filho com um deles. Esse filho é o que eu tenho de mais importante na minha vida e eu não me arrependo de nada que eu tenha feito. Então – Mari fez uma pausa, esperando que ela a olhasse. Quando o azul perolado a atingiu, continuou: — Quero que saiba que não é o fim do mundo você se apaixonar por uma garota.
– Não quando não se trata de Sarah Alves – a loira suspirou com a ideia. – É, sim, o fim do mundo se apaixonar por aquela garota.
– O que você vai fazer? – Tentou não rir. Elas eram tão bonitinhas.
– Não é óbvio? Vou fazer de tudo para me livrar desse sentimento – passou Gugu para o colo da loira de olhos cor de mel e saiu do quarto.
– Você não vai conseguir – disse Mari, mas a outra já tinha passado pela porta e, provavelmente, não havia ouvido. – Corrigindo, você é tão cabeça dura quanto a Sarah – terminou de dizer, rindo, e pegou o celular que a fotógrafa havia deixado sobre a cama.
Ao ligá-lo, notou que estava sem senha. Desbloqueou e soltou uma risada abafada. A galeria do aparelho estava aberta e, em modo de exibição, estava uma fotografia em que Manu e Sarah estavam juntas na praia. A ruiva beijava a bochecha dela, que tentava protestar enquanto os óculos escuros caíam da sua cabeça.
– Não vai conseguir mesmo – disse e bloqueou novamente o celular, saindo do quarto em seguida.
Continua...
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