Fotografias
11 A Partir Desse Momento
Notas iniciais
Quando encostou seus lábios nos dela, Manu sentiu que seu mundo tinha virado de ponta à cabeça. Aquela era a sensação mais deliciosa que já havia sentido em toda vida. Estava torcendo para que ela não a afastasse, por isso manteve suas mãos firmes nos ombros dela. Sarah não tinha mais para onde correr. Era corresponder ou rejeitar. Desejava de todo coração que ela não se afastasse, que correspondesse tanto como seu corpo estava correspondendo involuntariamente. A pele dela estava arrepiada. Sentiu-a estremecer quando encostou seu corpo no dela.
Quando as mãos dela pegaram em sua cintura, a loira pensou que ela a empurraria. Foi então que seu coração parou de bater por alguns segundos. Os dedos finos apertaram o tecido azul marinho de seu vestido e Sarah terminou de colar seus corpos. Um suspiro escapou de seus lábios e suas lágrimas se misturaram com as dela. Manu forçou passagem com a língua e, quando ela entreabriu os lábios para recebê-la, não tardou em explorar aquela boca que tanto desejava. Seu coração estava acelerado e seu corpo inteiro tremia, mas não pararia agora. Estava pouco se importando se ela namorava ou não, só queria tê-la pelo menos naquele momento. Só o fato de ela estar correspondendo já significava muita coisa. Significava que ela realmente sentia algo.
Então a beijou com todo o sentimento que havia guardado para si desde o dia em que quase a beijou na piscina. Era como se tudo que quisesse tivesse caído do céu em questões de segundos, mas Deus sabia o quanto havia sofrido para conseguir apenas um beijo daquela garota.
Aos poucos foi afrouxando as mãos dos ombros dela e as deixou escorregar por aquele corpo perfeito, até chegar à cintura modelada para poder abraçá-la. Envolveu sua língua na dela e tornou a subir uma das mãos para segurar os cabelos vermelhos pela nuca e apertá-los. O fraco gemido abafado pelo beijo fez com que Manu sentisse ainda mais vontade de aprofundar aquele momento. E foi o que fez. Pressionou o corpo ainda mais contra o dela e chupou sua língua devagar, sem deixar um momento sequer de segurá-la pelos cabelos com firmeza.
Quando o ar lhes faltou, a loira interrompeu o beijo com o medo de que nunca mais viesse a acontecer novamente. Não a soltou. Apoiou a testa no ombro desnudo e recuperou o ar de olhos fechados. Não fazia ideia sobre o que fazer agora. Muito menos sabia sobre o que ela estava pensando. Estava com medo de que ela se afastasse. Queria sim tê-la para sempre, mas não queria perder sua amizade, não queria ficar longe dela. Desde que chegou ali, era ela quem havia sido sua sustentação mais firme, seu muro mais alto. Era ela quem realmente fazia parte da parte mais bonita do seu mundo.
– Agora eu estou com medo – Manu falou tão baixo que mal conseguiu ouvir sua própria voz. Seu corpo ainda estava trêmulo e seu coração continuava batendo tão rápido que estava prestes a ter um ataque cardíaco.
– Eu também estou – respondeu a ruiva, mas permaneceu abraçando-a. – De verdade.
Sarah estava com medo do que podia acontecer se Júnior viesse a descobrir sobre esse beijo. Estava com medo de soltá-la. Estava com medo do que estava sentindo. Seu coração parecia querer sair pela boca e nada podia falar das duas pernas bambas. Borboletas saltavam do seu estomago. Manu estava do seu tamanho por causa do salto alto, mas parecia tão pequena e frágil em seus braços que temia por ela desaparecer se a soltasse. Nunca havia beijado uma garota na vida, porém em nenhum momento havia se arrependido em ter cedido a mais uma das investidas dela.
Quando ela levantou a cabeça, viu aqueles olhos tão lindos. Um azul tão profundo como o mais vasto oceano. Sentiu vontade de mergulhar neles e, mais uma vez, sentiu medo. O que diabos aquela garota estava fazendo consigo? Desde o dia em que quase foi beijada por ela, não conseguia tirá-la só um momento da cabeça. Achava que era porque tinha ficado impressionada com aquela confissão, mas não tinha tanta certeza agora. Não conseguia explicar porque havia correspondido àquele beijo, apenas não conseguiu afastá-la. Ao invés disso seu corpo reagiu contra sua própria vontade e exigiu que a puxasse mais pra perto.
A luz vermelha do quarto não impedia de ver com clareza aquela mulher maravilhosa. Ela a olhava com uma expressão indecifrável e Sarah percebeu que preferia quando ela sorria daquele jeito só dela.
– Do que você tem medo? – Manu finalmente quebrou o silêncio, olhando nos olhos dela. Ainda estava sendo abraçada por ela e era isso que estava acalmando seu coração aos poucos. Ao invés de responder, Sarah desviou os olhos. – O que foi? Por que você nunca se abre comigo?
– Eu não posso...
– Sarah, por favor – levou as duas mãos ao rosto dela e obrigou-a a olhá-la. – Me conta o que está acontecendo. Você não pode aguentar isso tudo sozinha, eu estou aqui para você. Desde o momento que você entrou na minha vida eu estou aqui, só para você.
– É por isso que eu não posso falar. Apesar de todo mundo me achar idiota e lenta, só eu sei o quanto você é importante para mim. Só eu sei o quanto eu preciso de você e não quero que nada nesse mundo destrua esse sentimento. Só eu sei que você é a parte mais bonita do meu mundo – o rosto da ruiva corou de leve quando disse essas palavras, porém ela não desviou os olhos um só segundo.
– Só eu posso te tirar dessa encrenca, Sarah – a loira disse, ainda não acreditando que ela realmente estava falando sobre seus sentimentos. – Só eu posso.
– Eu não quero sair...
– Você quer sim, mas não sabe como. O que ele está fazendo com você? – Suas mãos permaneciam no rosto dela. Ela ainda a abraçava e sustentava seu corpo com o dela.
– Deixa isso pra lá, Manu. Eu não quero que você se envolva nisso – pediu mais uma vez e, quando viu que ela ia mais uma vez teimar, fechou os olhos e encostou a cabeça na madeira da porta, fazendo as mãos dela escorregarem para seu pescoço. – Você é tão teimosa – falou com calma, ainda sentindo seu coração bater de forma acelerada.
– Eu sou teimosa porque não suporto saber que tem alguma coisa acontecendo com você e eu não posso fazer nada para ajudar – Manu olhou para ela, esperando que dissesse alguma coisa, mas não foi o que aconteceu. A ruiva permaneceu de olhos fechados por longos segundos e, quando os abriu, fitou o teto escuro ainda em silêncio.
– Eu fiquei com ciúmes – confessou.
Manu arregalou os olhos.
– Ciúmes de quê?
– De você com aquela garota. Eu sei, estou sendo egoísta mais uma vez – Sarah suspirou devagar e voltou a olha-la, não conseguindo deixar de pensar em como ela era linda.
– Por que você está me dizendo isso? – Seus rostos estavam tão próximos que a loira conseguia sentir a respiração dela tocando seus lábios.
– Não sei, sinceramente. Você ainda deve achar que eu sou uma idiota, não é? – Sorriu de lado e soltou um braço da cintura dela para levar a mão àqueles cabelos dourados. Tirou-lhe uma mecha dos olhos dela e a colocou atrás da orelha. – Pode acreditar, eu tenho motivos de sobra para agir como idiota, mas eu não sou uma.
– Você o ama?
– Já amei um dia – falou com sinceridade, deixando sua mão no rosto dela. Aproveitou e o acariciou com o polegar. – Mas não posso deixar ele.
– O que te prende a ele? Não foge disso, por favor – segurou a mão dela e beijou a palma.
– Manu, eu não quero mesmo te envolver nisso. Eu tenho motivos e não quero que acabe sobrando para você – beijou a testa dela e olhou para aqueles olhos azuis. – Não tive a oportunidade de dizer. Eu estava morrendo de saudade de você.
– Você mereceu – Manu tentou se afastar ao lembrar que, antes de tudo aquilo acontecer, estava ignorando-a do jeito que podia. Para sua surpresa, Sarah não permitiu que se afastasse.
– Você sentiu saudades?
– Não faz isso comigo, Sarah... – Pediu para ela, desviando os olhos para a madeira da porta.
– Você ainda me acha idiota? – A ruiva indagou.
– Acho...
– Por quê?
– Por que se não fosse, você já teria terminado com ele pra ficar comigo – Manu sorriu de lado e voltou a olhá-la. – E, sim, senti saudades. Você vai precisar se afastar de mim?
– Eu não quero me afastar, não quero mesmo. Se eu estou com ele é por que eu preciso. Eu não sei te explicar o que estou sentindo. Não estou dividida entre vocês dois. Eu gosto do Júnior, apesar de tudo – tornou a segurá-la com firmeza quando ela tentou se afastar. – Mas, como eu já disse antes, você é a parte mais bonita do meu mundo.
– Mas isso não é o suficiente, não é? – Mordeu os lábios, porém manteve seus olhos nela. Não choraria outra vez.
– É mais que suficiente para mim. Não estou querendo te iludir nem nada. Eu passei muito tempo da minha vida ao lado do Júnior. Sou apegada a ele e ao mesmo tempo quero mandar ele sumir. Só que eu não posso fazer isso, não posso te colocar em risco...
– Me colocar em risco?! Mas por que, Sarah?
– Eu gostei do seu beijo – Sarah disse, deixando-a completamente corada.
– Não faz isso. Me diz! – Contornou quando percebeu que ela queria desviar o assunto.
– Eu não vou dizer – Sarah suspirou e olhou para o teto mais uma vez. O que diabos faria sobre isso? – Manu, apenas deixa como está.
– Eu não posso deixar como está, por favor, Sarah – segurou-a pelos braços. – Me d... – Foi interrompida quando os lábios dela tocaram os seus levemente. Seus olhos arregalaram na mesma hora. Uma coisa era beijá-la, outra completamente diferente era ser beijada por ela. Foi apenas um selinho, mas havia significado muita coisa para a loira.
– Posso falar uma coisa? Antes que eu me acovarda outra vez – respirou fundo e sorriu. – Você já ouviu a música From This Moment On?
Manu balançou a cabeça negativamente. Não estava entendendo o porquê daquilo.
– Essa música é de mim para você. Eu não sei muito bem como lidar com esse sentimento, mas, como eu disse a você, não sou idiota – acariciou a bochecha de um rosado natural e sorriu de leve. – No começo, a cantora diz um texto. Na tradução, ele é essim: Eu juro que sempre estarei do teu lado. Eu darei qualquer coisa e todas as coisas. E sempre me importarei. Na fraqueza e na força, felicidade e tristeza, no melhor, no pior. Eu te amarei a cada batida do meu coração – terminou de dizer, sentindo o rosto esquentar de vergonha. – Só para constar, eu não estou brincando com você.
O coração da loira acelerou automaticamente. Ela estava mesmo dizendo que a amava? Logo Sarah, que se fez de idiota esse tempo todo? Seria muito bom se fosse verdade. Mas sabia muito bem que alegria de pobre durava pouco. Não que não acreditasse nela. Acreditava, e muito. Só que do que adiantaria acreditar nela? Ela estava dizendo aquilo, mas ficaria com o namorado. Não o deixaria para ficar consigo. Manu mordeu os lábios e tentou controlar a reação do seu corpo. Ainda continuava nos braços dela. Não queria sair mais dali, nunca mais.
– Isso quer dizer o quê? – Conseguiu perguntar.
– Quer dizer que essa é a terceirs, e última, vez que nos beijaremos. Você pode sair com a Lara ou com qualquer outra pessoa. Eu vou me incomodar, sim, mas é melhor para você. Você precisa me esquecer.
– Você tem certeza que está dizendo isso para mim? – Tentou se afastar, mas novamente Sarah a impediu.
– Você minha melhor amiga, meu bem mais precioso, tudo que eu tenho – abraçou-a forte e deixou as lágrimas escorrerem. – Já tem um tempinho que eu percebi o quanto gosto de você. Eu não queria aceitar no inicio, mas recebi um toque da Claudia. Eu percebi que tenho amigos muito importantes e que não vivo mais sem eles. Assim como também não vivo mais sem você. Desde o momento que nos conhecemos, você se tornou única. Na letra da música também tem essa frase. E é por isso que eu não posso ficar com você. Porque eu não sei o que faria se alguma coisa te acontecesse, eu não saberia seguir sem você.
– Para com isso, por favor – Manu sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Os braços dela a abraçavam com uma intensidade que nunca sentiu. Ela também estava chorando.
– A partir desde momento, enquanto eu viver, eu vou te amar – disse devagar, com a voz embargada por causa do choro.
Sarah estava com medo, com muito medo. Seu corpo tremia enquanto dizia todas aquelas palavras. A única pessoa que um dia disse “eu te amo” foi Júnior. E hoje ele agia como um idiota. Queria culpá-lo por tudo aquilo, mas não podia. A culpa era sua. Não por Manu se apaixonar e sim por ter permitido que seu namoro chegasse ao ponto que estava naquele momento. Se tivesse dado um basta na primeira vez que as coisas desandaram, isso não estaria acontecendo agora. Era difícil admitir, mas seu coração lhe repetia toda hora desde quando Manu quase a beijou na piscina a frase “Você a ama”.
Sem dizer mais uma única palavras, aproximou o rosto do dela e a beijou. Não precisava estar de olhos abertos para saber que ela estava surpresa com tudo aquilo. Também estava. Nunca se imaginou dizendo aquelas palavras para uma garota. Muito menos para sua melhor amiga. Via-a como uma irmã há muito perdida. Agora estava ali dizendo que a amava e que não conseguia viver sem ela. Não permitiria que Júnior a tratasse mal, nem que para isso precisasse se afastar um pouco. Fazia alguns dias que não atendia as ligações dele e isso já a estava preocupando. Nem queria imaginar se ele descobrisse onde Manu morava.
Por um momento decidiu apagar tudo e todos da mente e apenas se concentrou em beijá-la. Apertou-a firmemente contra seu corpo e se entregou a ela como nunca havia se entregado a ninguém. Depositou todo seu sentimento retido naquele beijo. Ele seria o último. Antes de se afastar, mordeu-lhe o lábio inferior e o puxou de leve. Suas lágrimas estavam misturadas com as dela. Já estava cansada de drama em sua vida, precisava dar um basta logo.
– Eu vou fazer o possível para não me afastar, mas vai ser tão difícil para mim quanto para você – disse e afastou-a lentamente do seu corpo. – Desculpa fazer você passar por isso.
Não esperou ela falar, pois se não desistiria daquilo e passaria a noite com ela. Apenas abriu a porta e saiu do quarto. Pegou sua mochila na sala e saiu sem olhar para trás. Foi direto para casa, no seu carro. Quando chegou, tirou o vestido e o jogou para o lado, mas notou cair dois pedaços de papel no chão quando o fez. Pegou ambos e observou atentamente a fotografia rasgada pela loira antes do beijo. O sorriso dela era tão lindo. Ela era toda linda. Involuntariamente as lágrimas começaram a vir. Muitas delas. Uma após a outra. E quando pensou que tudo ficaria em paz, seu telefone vibrou duas vezes. Eram duas mensagens.
Uma delas era da Manu, que dizia: “Eu ainda não desisti de você e quero saber o que está acontecendo. A propósito, eu também gostei do beijo. Manu.”
A outra fez seu principio de sorriso desaparecer, pois era de Júnior, dizendo: Onde você está? Estou te ligando tem dois dias. Estou chegando na sua casa, espero que, para o seu bem, você esteja lá”.
Começaria tudo de novo, pensou ela, limpando as lágrimas do rosto.
Continua...
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