Força e Vida - Tomione

72 Capítulo 72 - O último suspiro de sanidade


Notas iniciais
Talvez tenha sido o número incrível de comentários e visualizações que atingimos, ou as duas novas recomendações em um espaço de tempo tão curto, inclusive esse capítulo é totalmente dedicado para a Alissa com suas maravilhosas palavras! Sei que já fiz isso antes, mas sabem bem que não é comum, e cá estamos com mais um capítulo no dia! hihi

— Finalmente você acordou. – Era uma voz distante, como se eu estivesse usando um feitiço cabeça-de-bolha em um rio e alguém estivesse tentando falar comigo, mas ainda sim era alguém me chamando.

A voz me chamando para a realidade parecia conhecida, mas eu não conseguia saber de onde. Em um segundo parecia que eu estava próxima de ver o rosto da pessoa na minha cabeça, mas no outro, ela simplesmente sumia.

Eu não conseguia abrir os meus olhos, eles estavam pesados e cansados, como se eu não dormisse há dias e estivesse lutando contra o sono. Como não conseguia ver, tentei ouvir, mas essa tentativa também foi em vão, já que o lugar estava totalmente silencioso de uma forma completamente estranha. Poucos lugares poderiam ser tão silenciosos, sem ao menos passos, pessoas ao redor, ou correntes de ar.

Teria desistido e voltado há dormir, se algo não tivesse finalmente chamado a minha atenção. O cheiro. Não era um cheiro comum, e também não poderia ser considerado um cheiro ruim, não ao menos para alguns tipos de pessoas, mas para mim aquele era o pior cheiro na Terra.

O cheiro de livros antigos estava impregnado no lugar de uma forma que apenas bibliotecas ou livrarias conseguiam. Aquele cheiro, tão próximo, tão impregnado, me queimava a cada respiração. Há muito tempo eu não chegava tão perto dessa forma, e dessa vez não era apenas um, era o cheiro.

Certamente eu estava na mesma biblioteca onde tudo havia acontecido, e no momento em que eu consegui associar isso abri os meus olhos e gritei com toda a minha força renovada vinda do medo. Tentei me mexer para tentar sair dali, mas os meus braços e pernas estavam amarrados, ao que eu notei ser uma das mesas presentes na biblioteca.

Assim que percebi a minha situação voltei a me mexer e tentar me soltar, porém eu estava muito bem amarrada, tanto que tentar me soltar forçava os meus braços e pernas e causava uma dor profunda. A corda estava molhada com alguma coisa que causava ferimentos profundos rapidamente, tão rapidamente, que em poucos segundos a corda já estava começando a ficar encharcada com o meu sangue.

— Essas amarras não foram feitas para soltarem, minha jovem. – A voz estava de volta, porém ao girar a minha cabeça em sua direção, dessa vez eu também conseguia ver um rosto. E definitivamente não era um rosto que eu queria ver.

Fenrir Greyback. O lobo que eu não esperava ver novamente, não vivo pelo menos. Mesmo que eu tivesse medo de que a minha família se machucasse tentando acabar com ele, ainda sim, eu não queria que ele continuasse por aí, para machucar outras pessoas.

Ele parecia ainda mais assustador do que no jantar, já que agora ele não estava mais tentando fingir que se comportava. Seus olhos pareciam ainda mais com os de um animal selvagem, e com toda certeza ele se sentia como o topo da cadeia alimentar, principalmente naquele momento.

— Isso é impossível. – Falei finalmente controlando um grito com o ar daquele lugar. – Eu só posso estar sonhando. – Minha mente começou a voltar ao normal.

Não fazia sentido eu estar novamente naquele lugar. Eu estava em Hogwarts, mais especificamente na câmara, não era possível que ele tivesse me achado. Era apenas um terrível pesadelo, claramente de profundo mau gosto. Tinha que ser.

Mas ao invés de eu acordar ao atestar o óbvio, eu continuei no mesmo lugar, sentindo as mesmas dores nas extremidades e com o mesmo medo profundo daquela situação se repetindo. E a única coisa que realmente mudou, foi a aproximação lenta do lobo e uma horripilante e assustadora risada que ele começou a dar.

— É incrível o que a mente humana pode criar para tentar fugir de um trauma. – Disse ele com um sorriso perverso. – Você estava em Hogwarts, voltando para um banheiro quando eu a achei. – Eu estava começando a me sentir confusa novamente. – É Natal e você parecia tão solitária, então eu achei melhor trazê-la para cá. – Sua expressão era o mais perto que ele conseguia de alguém inocente, o que não era muita coisa.

Como eu podia não me lembrar disso? Tudo que eu conseguia ver na minha mente era eu conversando com o Grün sobre os meus presentes e os vendo, mas estranhamente não havia absolutamente nada depois.

— Nós nos divertimos bastante nas últimas horas. – Disse ele quando notou que eu continuei em silêncio. Olhei rapidamente para baixo e notei que a minha camiseta estava toda rasgada e eu estava sem a calça, mas não havia sinais de sangue. – Porém não o bastante, já que a cada quinze minutos você desmaia ou cochila, tenho que te ensinar que não é assim que se brinca? – Eu não me lembrava de ter desmaiado uma vez sequer, ele só poderia estar mentindo.

— Você está mentindo. Eu estive em Hogwarts nas últimas horas. – Ainda me lembrava claramente da sensação de ter visto o presente do Tom.

— Isso é uma pena. – Disse ele com uma tentativa de olhar de compaixão. – É realmente uma pena saber que meia dúzia de crucios destruíram a mente de uma sabe-tudo. – Ele havia me torturado durante horas? – Você não se lembra da nossa diversão? Ou está fingindo para ganhar mais? Prometo que será bem mais divertido com você acordada.

Eu não tive tempo para me preparar, já que assim que ele acabou de falar puxou a sua varinha e me lançou a maldição imperdoável. A dor me atingiu rapidamente e com muita força, porém de certa forma ela já me era conhecida, e assim que percebi isso, flashes de memória começaram a passear pela minha mente.

Eu via o Greyback caminhando até a biblioteca comigo apoiada como um saco de batatas. Vi o momento em que ele arrancou a minha calça, antes de me amarrar e desfazer o feitiço. Eu avisei para o Grün onde eu estava. Ele havia pedido ao Crabbe e ao Goyle para ir com eles, quando soube dos planos de invadir Hogwarts por um armário sumidouro. Em outro lampejo ele estava quase no mesmo lugar que estava agora, me torturando da mesma forma, e eu gritava de dor, de medo, e de agonia. Até que eu já havia parado de gritar, enquanto ele me torturava eu apenas encarava uma ampulheta em que os grãos quase não caíam, qualquer resistência da minha parte já havia sumido.

Olhando para a mesma ampulheta que continuava no mesmo lugar com apenas mais alguns grãos caídos percebi que tudo havia sido real e a minha mente havia apagado, para me acalmar, ou para me dar forças para continuar viva. Muitos chamariam isso de loucura, mas pensar que tudo estava bem, e que eu estava segura havia me dado forças para continuar sã e voltar a acordar.

— Você não está se divertindo? – Perguntou Fenrir depois de alguns minutos. – Pessoas que ficam quietas não estão se divertindo.

Era óbvio o que ele ia fazer a seguir, porém mesmo esperando que ele fosse aumentar a pressão na varinha e a intensidade da maldição, eu jamais poderia esperar por toda aquela dor que ele queria me causar. Tentei travar a minha mandíbula por um tempo, achando também que não teria forças para berrar sentindo tanta dor, mas logo eu percebi que o zumbido nos meus ouvidos, vinha dos meus gritos de desespero e das risadas dele que quase conseguiam mascarar que eu estava gritando. Quase, mas isso era impossível.

O passar do tempo estava relativo, eu provavelmente estava ali há poucas horas, mas eu já havia conhecido uma ampulheta como aquela, e a última não era tão lenta. Mentalmente eu já poderia estar ali há dias. E depois do que pareceram mais alguns dias, mas foram apenas minutos de tortura, eu finalmente percebi que eu havia parado de gritar. A dor não havia diminuído de intensidade, tão pouco eu havia me acostumado com ela, mas eu simplesmente não conseguia mais associar a parte da minha mente que dizia para eu continuar gritando, com a parte que faria com que eu gritasse.

Nesse momento pessoas começaram a passar pelos meus pensamentos. Meus pais adotivos. Harry e Rony no primeiro ano. Gina. Os Weasley. Dorea e Cedrella. Elisa. Leonard. Meu pai. Draco. Minha mãe. Esme. Königin. Grün. E por fim, Tom. O moreno quando jovem sorrindo, brincando, sério, estudando. Ele em todos os momentos em que eu me lembrava, e também ele agora, adulto.

Tudo que eu havia passado nos últimos meses, todas as dificuldades, pareciam tão distantes agora. Eu me sentia anestesiada, como se nada nem ninguém pudesse mais me ferir. Para que tanta força em resistir quando tudo acabava dessa mesma maneira? Todos os eventos haviam me trazido para o mesmo lugar.

— Eu amo todos vocês. – Sussurrei baixinho antes de me deixar levar pelo vazio.