Notas iniciais
Genteeee volteeei! hihi

Eu sempre quis saber como era morrer. Não de um jeito depressivo, mas sim pela curiosidade vinda do desconhecido. Mesmo eu não esperando que o meu fim seria tão ruim, não depois de tudo que eu já havia passado, nesse momento não importava o que havia acontecido.

Eu não estava mais na biblioteca. Não havia mais livros, ou o cheiro deles. Ao contrário do lugar que povoava os meus pesadelos, eu agora sentia o cheiro que eu mais amava no mundo, o perfume do Tom estava espalhado por todo o quarto.

Não era apenas um quarto, olhando bem pude perceber que era o quarto que mais de uma vez havia aparecido para mim quando eu precisei. Era a sala precisa da época da juventude do Tom. E sentado ao meu lado na cama estava o moreno, jovem e com seu sorriso convidativo.

— Olá, dorminhoca. – Disse ele suavemente. Ao pensar em me sentar para ficar próxima a ele, percebi que eu na verdade não sentia vontade, a cama era tão confortável e macia.

Não ligando para o meu silêncio, Tom deslizou a sua mão suavemente pelo meu rosto, fazendo um carinho com as costas da mão. Era um toque morno, reconfortante e tão conhecido que a minha vontade era a de ficar ali para sempre.

— Eu te amo, minha bela donzela. – Era um momento tão bom, como se nada pudesse voltar a dar errado um dia. – Não importa o que você escolha, eu estarei lá com você.

Por um momento toda aquela tranquilidade falhou. Qual escolha eu deveria ter que fazer? Eu estava no melhor lugar de todos, em Hogwarts com aquele que eu amava. Nada ali indicava que eu precisava fazer uma escolha.

Escolha. Talvez tenha sido essa pequena palavra que trouxe toda a verdade à minha mente. Eu não estava em Hogwarts, não estava nem ao menos perto do Tom. Eu estava morrendo e aquela era a minha imagem do paraíso.

Não poderia ser o paraíso em si, já que Tom ainda estava vivo e não poderia estar ali comigo, mas talvez fosse a minha ideia de paraíso e talvez ali eu devesse escolher se queria ficar, e esperar pelo dia que o moreno chegasse até mim, ou então voltar e lutar.

Pensando nessas duas opções parecia simplesmente burrice voltar. Por que eu voltaria para o sofrimento? Não havia razão para que eu escolhesse voltar apenas para ser torturada ainda mais e por fim ser morta de uma vez. Eu estava tão perto do outro lado, talvez não com um pé de cada lado, mas sim muito mais lá do que cá.

Eu não poderia dizer que o mundo real havia me trazido apenas dor. Não. Minha família estava lá, os meus amigos também, todos aqueles que eu amava estavam lá. Porém ele havia me trazido uma enorme quantidade de sofrimento, muito maior do que a maioria das pessoas teria de enfrentar ao longo de suas vidas.

E onde eu estava não havia dor, não havia sofrimento, e um dia todos os que eu amava teriam de chegar ali. Não era uma opção, era apenas questão de tempo. Um tempo que nem ao menos eu sabia se corria normalmente ali. Talvez em um piscar de olhos eles poderiam chegar.

Tudo isso parecia uma escolha tão logicamente óbvia, porém olhando mais uma vez nos olhos do moreno que ali estava, o fruto da minha imaginação, eu soube que o certo não era o mais fácil.

Eu havia sido uma grifinória durante muitos anos e precisava lutar. Não importava se eu iria morrer mesmo ao voltar, ou se eu conseguiria de alguma forma sobreviver, o que importava é que eu não podia desistir. Isso não havia sido uma opção da outra vez, mesmo que eu tivesse sido destruída, e não seria uma opção agora.

— Eu amo você, Tom. – Juntando todas as minhas forças me sentei. – Porém eu amo estar com você, e eu vou lutar por isso. – Assim que consegui dizer essas palavras com total convicção nelas, o sorriso do moreno aumentou, antes dele e do quarto se tornarem uma névoa branca e então eu estava no total escuro.

Ali não havia o cheiro do Tom, nem eu conseguia saber onde estava sentada, já que a escuridão era profunda o suficiente para eu não enxergar absolutamente nenhuma luz. Por um momento quase entrei em desespero, pensando que talvez eu finalmente havia morrido, e que na verdade, não havia um outro lado, ou um depois.

Porém depois de um tempo, que podem ter sido segundos ou anos, eu não teria como saber, tudo começou a clarear. Inicialmente era apenas uma luz fraca, depois algo suficiente para eu notar que estava sentada no chão do vazio. Vazio que se estendia por tudo em um branco límpido.

Em seguida a luz começou a se tornar cada vez mais forte, chegando a um ponto em que a minha vista doeu com a intensidade e eu fechei os meus olhos, e por fim chegando a um ponto em que mesmo com os meus olhos fechados, berrei com a dor que a luz causava.

Felizmente a luz em sua forma mais intensa não durou muito tempo, e logo havia uma luminosidade comum através dos meus olhos. Porém mesmo que algo me dissesse que aquela luz não iria voltar, e que eu poderia abrir os olhos sem que eles queimassem, o cheiro da velha livraria fez com que eu não tivesse coragem de abri-los.

Apurando os meus ouvidos, tentei escutar ao meu redor assim que percebi que não estava sendo torturada. Tentei procurar ver o que poderia ter mudado para que eu não tivesse voltado para o mesmo ponto que estava antes. Porém tudo ali estava no mais perfeito silêncio, até mesmo digno de lugares que nunca haviam recebido qualquer tipo de som. Como se aquele lugar não fosse marcado por conversas de pessoas comuns, e pelos meus gritos.

Era como se eu tivesse voltado ali em outro tempo, talvez até mesmo em outro ano, mas isso era impossível, então tentei mover as minhas mãos, para ver se o problema estava nos meus ouvidos. Descobri que eu conseguia me mover, o que era bom, mas também descobri que eu provavelmente estava flutuando já que não havia nada embaixo de mim, a mesa não estava mais ali, e não havia sido substituída por outra coisa.

Sentia-me um pouco tola por ter lutado contra a morte, mas não ter coragem o suficiente para abrir os olhos, porém continuei ali, já que apesar do meu corpo começar a dar sinais de que havia machucados, dores e até ossos quebrados por toda a parte, ainda era uma sensação muito mais do que bem-vinda perto de um crucio. E minha cabeça não parecia estar boa o suficiente para registrar alguma coisa que eu conseguisse ver, aonde quer que eu estivesse.

Raciocinar até onde eu tinha conseguido já havia sido um grande feito, já que não só as dores, mas eu já estava sentindo todos os sinais vindos de alguém que havia passado por horas e mais horas de tortura. Fome, sede, cansaço extremo. Era um milagre eu não ter perdido a capacidade de pensar coerentemente.

Ficar ali para sempre também não era uma opção viável, mas ficar ali por enquanto era mais do que aceitável. Eu não estava em condições de bancar a sabe-tudo, precisava guardar qualquer energia para uma provável sessão de tortura que com a minha sorte, não iria demorar a acontecer.

Para mostrar como a minha sorte era uma das piores do mundo foi só eu pensar sobre as sessões de torturas que o silêncio e a paz que eu estava envolvida cederam com uma maldição berrada. Eu reconheci a voz com um profundo frio na espinha, já esperando ser atingida e tentando impedir que os berros começassem de início.

Porém eu estranhamente não fui atingida pelo crucio. O que eu ouvi foi uma ingestão de ar de aflição e então eu estava caindo. Mas ainda mais estranhamente do que antes, em poucos segundos eu já estava parada no ar novamente, dessa vez com uma barreira que parecia mais sólida abaixo de mim e podendo ouvir o que estava ao meu redor.

O silêncio havia estado apenas ao meu redor, já que agora eu conseguia ouvir os sons de feitiços silenciosos sendo lançados e defendidos. Era um número de feitiços suficiente para um duelo pesado, o que me deixava assustada e ao mesmo tempo com esperanças, já que alguém parecia estar lutando contra o lobo, e com sorte ele não possuía aliados nessa briga.

— Petrificus Totalus. – No longo segundo em que ouvi aquele feitiço sendo lançado tive certeza de duas coisas.

Primeira. Aquele feitiço não era para mim, já que eu continuava conseguindo me mexer. Segunda. O lobo não havia tentado me petrificar, já que eu conseguiria reconhecer de longe a voz carregada de ódio e divertimento da minha mãe.

Por fim, notando que eu estava bem minha mente aceitou que era um bom momento para finalmente sucumbir ao cansaço e apagar.

Notas finais
Logo saberemos o ponto de vista disso de alguém que não está desmaiada!