Força e Vida - Tomione
46 Capítulo 46 - A dor de uma vida
Notas iniciais
— Hermione, você precisa comer, minha querida. – Papoula tentava pela terceira vez, mas como nos últimos dias, ela apenas suspirou e deixou a bandeja de comida na cabeceira da cama e por fim olhou para mim, sabendo que eu tentaria também.
Hermione estava assim desde que chegamos há um mês. Ela não havia sofrido nenhum ferimento, porém desmaiou em meus braços assim que chegamos à sala atual do Dumbledore, deixando a mim e ao diretor desesperados. Desde então, e após acordar alguns minutos depois, ela não havia dito uma palavra sequer.
Dumbledore, assim como eu, entendia os motivos dela, ele não lembrava tão detalhadamente, já que para ele haviam se passado 50 anos, mas conforme as novas lembranças foram aparecendo ao longo do ano que havíamos passado fora, ele também conseguia compreender o silêncio da morena.
Ela não chorava, o que me deixava ainda mais preocupado. Ela quase não dormia, apenas fechava os olhos por algumas horas quando o cansaço vinha, e também não comia, por mais que qualquer um de nós tentasse convencê-la, estava se mantendo apenas com poções fortalecedoras.
Eu nunca havia me sentido tão impotente como me sentia agora, vendo minha irmã definhar lentamente em uma cama, já que ela não parecia cansada ou chateada, ela parecia morta. Toda força e coragem que ela havia tido e havia demonstrado ao assumir os ataques, havia ido embora aos poucos até sumir totalmente quando viajamos no tempo.
Ainda teríamos dois meses de férias, porém ninguém sabia que já havíamos voltado e que provavelmente passaríamos todo esse tempo em Hogwarts, já que tudo havia mudado no tempo em que estivemos fora. Voldemort estava de volta, agora assumidamente. A Umbridge havia chegado ao limite da tirania, e havia simplesmente ido embora, segundo palavras do Dumbledore, algo que eu quase havia achado mais preocupante do que a volta oficial do Lorde das trevas.
O Potter e os Weasley haviam procurado pela Hermione e pedido informações sobre ela inúmeras vezes ao longo do ano, desistindo apenas na última semana de aula, quando finalmente o diretor havia conseguido convencê-los de que ela estava bem, e voltaria no início das aulas.
Suspirei alto, ainda olhando para a figura da pequena Hermione deitada na cama. Eu tinha certeza do motivo dela estar assim, e não tinha nada a ver com a viagem, porém eu não queria forçá-la a falar, nem forçá-la a tentar esquecer e seguir em frente, porque eu bem sabia que o que ela sentia pelo Riddle não era algo passageiro.
Sobre ele, Dumbledore havia dito que o garoto havia se tornado ainda mais recluso, do que era antes de o conhecermos, depois que fomos embora. Ele havia tentado manter uma máscara de indiferença, mas o diretor disse que ao longo do ano seguinte, por mais de uma vez o viu distraído, sozinho e triste.
Porém ao se formar em Hogwarts, ele ainda havia mantido seus planos originais, e certamente ainda havia se tornado quem sempre desejara se tornar. O poder ainda tinha vencido o amor e o carinho que ele podia sentir, ainda mais com o coração partido que certamente ele havia ficado, já que eu sabia que ele a amava de verdade. Para nenhum dos dois aquilo havia sido fingimento, apenas ele havia sido mais forte, havia seguido em frente ao longo dos anos, e não se machucado tanto quanto minha irmã parecia machucada.
— Sinto que a hora ainda é ruim, porém tem alguém aqui que tem pedido para ver vocês nas últimas semanas. – Disse Dumbledore me fazendo quase pular do lugar que eu estava. Ele era sempre silencioso, eu nunca conseguia perceber o momento em que ele se aproximava.
— Quem, senhor? – Tentei parecer curioso e tranquilo, porém já sabia que se fosse um dos amigos da morena, eu não teria a mínima paciência.
Sem me responder, apenas sorrindo levemente, o diretor abriu a porta da enfermaria, deixando que uma mulher magra toda vestida de preto entrasse na grande sala. O olhar dela diretamente chocou-se com o meu, enquanto ela atenta observava todos os detalhes da sala.
— Tia Bela. – A cumprimentei totalmente surpreso. Não só por ela ser uma das últimas pessoas que eu esperava encontrar aqui, mas por eu vê-la depois de tantos meses e sob uma perspectiva que eu nunca tive antes.
Ela não era só uma comensal fria e irritantemente leal, ela era mãe de uma menina forte e meiga, era ex-namorada do meu pai e irmã da minha mãe, o que estranhamente não me incomodava, e pela primeira vez em anos, não havia um vazio em seus olhos, mas um turbilhão de emoções.
Medo. Preocupação. Carinho. Apreensão. Pela primeira vez ela parecia uma pessoa comum, que estava desesperada para ver a filha pessoalmente.
— Olá, Draco. – Até mesmo sua voz parecia diferente. Então me peguei pensando no quanto os anos longe da filha não haviam tirado de sua felicidade.
Andando rapidamente ela veio até mim e inesperadamente me abraçou, algo que ela não fazia há anos, tanto que foi um abraço rápido e meio sem jeito. Mas ela não parecia envergonhada de eu saber de tudo que havia acontecido entre ela e o meu pai, na verdade assim que ela colocou seus olhos na morena deitada na cama, ela pareceu se esquecer de tudo e qualquer outra coisa.
Ali ela não parecia minha tia, confiante, letal e por vezes insuportável. Ali estava uma mãe, com lágrimas nos olhos ao ver a filha cara a cara pela primeira vez e em tão complicado estado. Apesar dos olhos dela estarem fixos na minha irmã, a morena apenas olhava para a porta da ala hospitalar sem nenhuma emoção aparente.
— Minha pequena. – Era um sussurro doce, baixo e cheio de carinho, que quase me fez chorar junto. Foi então o que bastou para que lágrimas começassem a cair no rosto da Hermione, fazendo com que a Bela se aproximasse e começasse a fazer carinho no seu rosto. – Não chore. Não precisa. Não tem porque, eu e Draco estamos aqui para cuidar de você. – Se eu não conhecesse minha tia, e aquela ali não estivesse vestindo as roupas dela, diria que era alguma pessoa totalmente estranha.
Mas a mudança estava no fato de que pela primeira vez eu via como ela agia com alguém que ela amava além da própria vida. Na verdade, como ela agia com a única pessoa que ela amava dessa forma.
Hermione agora além de chorar, tremia, como se todo o nervosismo dos últimos dias, fosse sair de uma vez do seu corpo. Bela então a abraçou, dessa vez não de um jeito desajeitado, mas com força e carinho, era um abraço que apenas mães poderiam dar, já que vinha de um instinto que apenas elas tinham.
Minha irmã ainda não estava falando, mas me senti já um pouco aliviado, mesmo que ela estivesse chorando, pelo menos estava reagindo de alguma forma.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali, apenas olhando para as duas, porém em algum momento Hermione parou de tremer, e depois de mais algum tempo, também suas lágrimas pararam de cair, já que minha tia parou de secá-las. Bela estava apoiada agora na cabeceira da cama com a filha deitada em seus braços enquanto mexia nos seus cabelos.
— Eu fui idiota. – Hermione estava com a voz rouca, depois de dias em silêncio, e fraca, mas perfeitamente clara. – Achei que o meu amor por ele poderia fazer alguma diferença. Mas só serviu para que eu fechasse os meus olhos para tudo que estava acontecendo. – A dor que ela parecia sentir nos últimos dias, estava em cada difícil palavra que colocava para fora.
— Não diga isso. Você não foi, e não é idiota. – Belatriz disse a abraçando mais forte. – Ele te amou. Foi a única que ele amou durante todos esses anos, mas quando você desapareceu, o lado negro dele lentamente voltou a tomar conta, até que ele foi dominado por completo. – Bela suspirou. – Quando as lembranças começaram a vir, ele se lembrou de tê-la procurado por anos a fio após sair de Hogwarts, até que em um estúpido dia, quando ele já não aguentava mais, passou pela sua cabeça que se ele conseguisse todo o poder que sempre sonhou, seria mais fácil encontrá-la. Era a esperança de um coração desesperado, e de uma mente ambiciosa. – Bela sempre foi a comensal mais próxima e mais leal a ele, poderia saber de qualquer coisa. – Ele nunca acreditou que você estivesse morta, nem pensava na possibilidade, e ainda não pensa. Quando as primeiras memórias vieram, do orfanato, ele me chamou para perguntar de alguma Hermione Black na família, mesmo que fosse bastarda, foi quase impossível esconder você da minha mente, já que ele me pegou de surpresa. – Hermione estava calada todo tempo, não tentando interferir uma vez sequer.
Eu não conseguia imaginar o que havia sido o sofrimento do Riddle, já que eu nunca havia amado na intensidade que eu sabia que eles se amavam, e que mesmo Hermione sofrendo, ela sempre saberia onde ele estava, tanto no passado quanto agora, já para ele, ela havia sumido completamente do planeta.
Apesar de minha irmã parecer firme por fora, eu a conhecia o suficiente para saber que por dentro ela estava chorando desesperadamente, e não estava nem perto daquela forma estática de apenas olhos arregalados que estava demonstrando. Ela sempre soube que o amava, mas ter tanta coisa colocada em sua frente ao mesmo tempo, não devia ser algo fácil de lidar.
— Eu sei que vocês estão seguros em Hogwarts, e muito bem assistidos também. Mas eu gostaria que vocês fossem ficar comigo durante o resto dessas férias. – Disse Bela depois de um tempo de silêncio. – Vocês dois estariam seguros em minha casa, já que existem fortes barreiras em torno dela, e o próprio Dumbledore é o fiel do segredo. – Depois de tanto tempo centrada em Hermione, ela havia olhado para mim. Em seus olhos havia um pedido silencioso.
Ela queria poder ficar perto da filha, e sabia o quanto era perigoso ficar indo a Hogwarts, ela poderia ser descoberta em uma dessas visitas, e seria bem difícil explicar seus motivos por estar ali. Eu também preferia ficar com ela a ficar ali, já que pelo o que eu havia entendido, ir para casa não chegava a ser uma opção segura, e essa nova versão da minha tia, era mais fácil de ficar perto.
— Bem. Se Hermione estiver disposta, acho uma boa ideia. – Disse depois de alguns segundos de total silêncio na ala hospitalar.
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