Força e Vida - Tomione
4 Capítulo 4 - Uma nova família
Notas iniciais
✣ Draco Malfoy
Parecia que ela falava a verdade. Eu sabia que os seus pais adotivos haviam morrido, Dumbledore estava comigo quando recebeu a notícia. Eu entendia que isso lhe causava dor, mas de onde vinha a indiferença? Ela parecia morta. Durante anos eu a ataquei verbalmente por ela ser nascida trouxa, um grande engano pelo que fiquei sabendo quando li a carta da minha tia, e ela nunca pareceu tão machucada como estava agora. Um simples ataque com uma arma trouxa não a deixaria assim. Estava indiferente, mas desde que eu a vi entrando na estação, percebi que não era só indiferença. Era uma dor profunda, seus olhos estavam opacos e sem vida, parecia que sua alma havia sido ferida e não somente o seu corpo.
Isso não fazia nenhum sentido, e parecia coisa da minha cabeça já que nenhum de seus amigos parecia ter notado, mas agora com ela sentada na minha frente eu podia claramente ver. Minha irmã, e prima, sofria profundamente por algo, parecia machucada até o último pedaço do seu ser. Será que a haviam torturado? Algo além dos cortes? Mas o que a machucaria tanto? Eu não sabia a resposta para essas perguntas. Porém sem pensar levantei de onde estava sentado, sentei ao seu lado e a abracei com força, apertando-a contra o meu peito.
— O que aconteceu com você? – Foi a única coisa que consegui dizer. E então ela retribuiu meu abraço, meio hesitante, e escondeu seu rosto na curva do meu pescoço.
— Eu morri. – Ela respondeu, com aquele tom de voz que eu não reconhecia como dela. Não havia raiva, ou dor ou qualquer emoção naquele tom. Era opaco como os seus olhos.
A abracei com mais força. Sempre tivemos nossas desavenças, mas no momento em que descobri que ela não era somente minha prima, mas também minha irmã soube que tudo estava no passado. E agora ela estava ali, sem vida, apagada, e acabada. Eu iria protegê-la, ela me teria ao seu lado.
—--✣—--
Ele me abraçou com tanta segurança, tanta força e tanto cuidado ao mesmo tempo, que eu não consegui resistir e retribui. Ele me perguntou o que havia acontecido comigo, eu não estava pronta para contar para ninguém. Mesmo ele não sendo meu amigo, ou parte da minha família, aquela lembrança era além de dolorosa, também vergonhosa para mim. Mas eu não consegui dizer que estava tudo bem, ele estava sendo tão bom, não consegui mentir para ele também. Disse o que eu pensava desde o momento em que percebi que tudo aquilo não havia sido um pesadelo. Ele me abraçou mais forte e eu permaneci em seus braços.
Acabei dormindo ali, e ele pelo visto também. Só acordamos quando começou o barulho dos alunos terminando de se trocar e se preparando para chegar a Hogwarts. Olhei pela janela e notei que realmente estávamos chegando, mas não saí dos braços do Draco. Eu estava me sentindo quase bem ali, e isso eu há muito tempo não tinha a chance de sentir. Quando chegamos eu estava prestes a me desvencilhar, levantar e esquecer que nossa conversa e esse momento haviam acontecido, mas ele não parecia querer esquecer.
— Você pode não gostar disso, mas não importa o que os outros digam, eu sou seu primo e seu irmão. E começarei a me portar como tal. Não posso prometer que vou começar a me sentar com você, mas não quero mais que nos tratemos como inimigos, porque isso não vamos conseguir voltar a ser. Apenas saiba que pode contar comigo para tudo o que precisar, e para cuidar de você mesmo que de longe. — Nunca vi tamanha sinceridade em palavras ditas por Draco Malfoy.
Ele queria mesmo tentar ter uma boa relação comigo. E eu percebi que no fundo, precisava disso. Precisava de alguém que não estaria lá para comparar quem eu sou agora, com quem sempre fui. Tinha meus amigos, mas precisava de alguém que não iria, e também não poderia, me julgar pelo meu passado. Ele não me conhecia totalmente antes e realmente, querendo ou não, era da família na qual eu havia nascido.
— Igualmente, Draco. – Ele seria meu irmão a partir de agora. Ele apenas sorriu e me tirou de seus braços.
— Nos vemos mais tarde, Hermione.
Quando estava saindo do trem encontrei com Harry, Rony, Gina, Neville e Luna. Eles queriam saber o porquê de eu ter sumido, e eu disse que não consegui encontrá-los. Ninguém pareceu desconfiar, sinceramente, cada dia mais sabia mentir com firmeza. Pegamos então uma carruagem vazia e nos dirigimos ao castelo.
Todas as vezes em que eu entrava no salão principal ficava deslumbrada como na primeira vez, mas dessa vez eu sentia apenas saudades e um pouco de tranquilidade. A professora Minerva iria começar a seleção das casas e como sempre o chapéu seletor resolveu que precisava falar mais, talvez para assustar ainda mais os alunos novos, porque realmente não era todo dia que um chapéu falava. Dessa vez não parecia que ia cantar, parecia apenas recitar.
Dor não falta neste mundo, como em qualquer outro,
Dor que move montanhas, como o amor e como o ódio,
Dor que destrói pequenos corações e almas.
Mas nem tudo nesse mundo é dor, criança.
Essa escola foi fundada por quatro grandes bruxos.
A leal e paciente Helga Hufflepuff, nunca desprezava ninguém,
Mostrava sua dedicação e carinho por todos.
Rowena Ravenclaw buscava inteligência e sabedoria em todos à sua volta,
Era firme, porém sábia e forte, buscava não o amor, mas a dedicação a sua causa.
Godric Gryffindor, era ousado e corajoso, não havia um desafio que fosse impossível,
Não havia uma dificuldade que o desanimasse.
Salazar Slytherin era astuto e defendia suas ambições,
Buscava companhias que possuíssem o sangue mais encantado possível.
Os quatro conseguiam manter sua amizade e viver em harmonia,
Mas isso mudou quando um deles aumentou sua ambição.
A dor destruiu a harmonia e machucou nossa escola.
Agora, tantos anos depois, tal dor é sentida desde a fundação de nossas casas.
Tal ressentimento é visto entre nossos alunos,
Não deixe a dor te destruir, pequena criança.
Nunca havia visto o chapéu ser tão sério e decidido em suas palavras. Logo Dumbledore deu início ao banquete, e quase todos pareceram se esquecer das palavras a pouco recitadas, já eu parecia que as tinha gravadas em minha memória, algo me dizia que elas seriam importantes um dia.
Quando o banquete terminou, Dumbledore deu os avisos sobre o início do ano letivo. Nada de floresta proibida, sessão reservada, andar de noite por aí. Também nada de torre de astronomia e toque de recolher às 21h30min. Eu era campeã em quebrar essas regras, uma delas não por vontade própria é claro, eu não havia gostado tanto assim da minha aventura na floresta proibida.
Agora eu e Rony precisaríamos levar os alunos novos para conhecer os seus dormitórios, Harry não pareceu muito animado com isso e Rony foi à frente para segurar os pequenos.
— Não fique assim, você não precisa de mais obrigações em suas costas. – Harry pareceu melhorar um pouco.
— É, bem, vou indo. Até mais, Mione. – Acho que uma hora ele iria aceitar ou esquecer.
Precisava ir atrás do Rony, mesmo que ele conduzisse e falasse tudo, eu precisava estar presente. Caminhamos em silêncio nós dois a frente dos alunos, eles pareciam animados com tudo, isso me fez sentir nostálgica em relação ao meu primeiro ano. Ao chegarmos ao salão comunal, Rony explicou onde seria o quarto dos calouros e me desejou boa noite, antes de subir para o seu quarto e ir atrás do Harry.
Eu não queria ir para o meu quarto, precisava de um banho, mas não estava com a mínima vontade de ver as minhas companheiras de quarto, com suas fofocas e barulhos. Convivi bem com elas durante esses anos, mas nesse exato momento não conseguiria aguentar.
Decidi ir à biblioteca, precisava espairecer um pouco. Saí pelo quadro da Mulher gorda, eram apenas 20h30min, os alunos mais velhos ainda passeavam pelos corredores. Desci para o andar da biblioteca com calma, normalmente aquele caminho era tão automático para mim, que eu queria aproveitá-lo hoje. Cheguei à porta da biblioteca e olhei para dentro, madame Pince parecia mal-humorada e resmungava algo sobre alunos que não sabiam se comportar em uma biblioteca e como as férias eram boas. Quando eu estava prestes a entrar senti o cheiro e estaquei na porta. Todas as lembranças estavam de volta como um relâmpago, o feitiço de paralisia parecia estar sobre mim novamente, eu não conseguiria entrar. Era o cheiro dos livros antigos.
Dei meia-volta e me encostei à parede. Aquilo estava acabando comigo, parecia que eu estava prestes a cair no choro, e eu havia prometido a mim mesma que aquilo não iria acontecer, eu jamais iria chorar por aquele dia. Escorreguei para o chão e me sentei olhando para o teto. O corredor estava vazio e não havia ninguém, além da Pince, dentro da biblioteca. Era pelo menos o que eu achava.
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