Força e Vida - Tomione
2 Capítulo 2 - Quem eu realmente sou
Notas iniciais
Então eu acordei. Eu queria que aquilo fosse um pesadelo e não uma lembrança. Nunca chorei por aquilo, não conseguiria. Luke tinha razão, tudo foi embora naquele dia.
Já havia se passado um mês. Toda noite aquilo vinha a minha mente. Depois que eles me abandonaram lá, juntei tudo que me restava de forças, conjurei uma adaga e me cortei com cortes profundos pelo corpo todo. Arrumei minhas roupas, tirando todas as manchas de sangue da saia do meu vestido. E saí na rua, pedindo ajudava, dizendo que havia sido atacada.
Ninguém nunca soube, ou saberia, o que realmente aconteceu. No St. Mungus, disse aos curandeiros que não vi quem me atacou e que me atacaram por causa do meu sangue. Fiquei com cicatrizes por todo o peito, braços, coxas, pescoço e rosto.
O senhor e a senhora Weasley foram como pais para mim. Eu não conseguia voltar para casa. E dez dias depois do acidente descobri que nem teria para quem voltar, meus pais haviam morrido em um acidente de carro.
Se eu estivesse viva, teria chorado verdadeiramente, mas foi algo mecânico. Todos acharam que era a emoção, ninguém pareceu perceber que eu havia morrido antes deles.
Agora estou na sede da Ordem da Fênix. Essa noite o Harry chegou, parecia furioso por não ter sido avisado e por não ter recebido cartas minhas ou do Rony. Pareceu ficar mais calmo, quando contamos que Dumbledore havia pedido para não comentarmos onde estávamos e o que fazíamos, mas só esqueceu-se de tudo isso, quando prestou atenção nas minhas cicatrizes e soube o que havia acontecido comigo. A história cada vez parecia mais verídica, depois de ser contada tantas vezes ninguém duvidava e também eu tentava ao máximo esconder a minha falta de emoções. Sorria, mesmo que falsamente, com certa frequência, fingia que doía bastante a morte dos meus pais e que havia me esquecido do momento em que fui atacada. Eram ótimos motivos para ficar sozinha.
Os dias foram passando, nada demais acontecia por aqui. A Ordem apenas vigiava os passos dos comensais, porque Voldemort ainda não havia se apresentado ou pronunciado. Ficávamos em casa o dia todo, eu tentava ler a cada dia mais, mas eu não conseguia aguentar o cheiro dos livros por muito tempo. Minhas amizades também não iam muito bem.
Gina ainda era muito próxima, porém eu comecei a conduzir nossas conversas para um sentido unilateral, só ouvia o que ela contava sobre seu namoro com Dino, e sobre o Harry, que ela ainda amava. Eu me tornei oca, e ao mesmo tempo uma rocha sólida, nada nem ninguém conseguia entrar.
Harry e Rony estavam muito distantes. Harry estava ficando obcecado com a ideia de o Voldemort estar atrás de uma arma e eu não ligava muito, já que dessa forma não precisava conversar também. Rony estava muito feliz com sua carta de Hogwarts, eu e ele seríamos monitores da Grifinória esse ano, ele estava orgulhoso e animado, por conseguir algo que seus irmãos mais velhos também tinham conquistador. Mas ao mesmo tempo, ele estava bem distante por pensar que eu ainda gostava dele e estar confuso com o que sentia por mim. E por ter o emocional de uma pequena colher de chá, tinha medo de se aproximar já que não entendia minha falta de emoções.
Apenas uma coisa, naquele quase fim de férias, fez com que eu sentisse algo dentro de mim. Dumbledore me chamou para conversar em uma tarde.
— Senhorita Granger, é bom ver que a senhorita está bem, depois de tamanhas dificuldades. – Falou ele sorrindo para mim como um pai.
— É bom ver o senhor, professor. – Meu tom era polido e simples, ele havia mudado depois dos acontecimentos.
— Senhorita, pedi para que viesse falar comigo por um assunto de grande importância. – Disse ele sério. — Recebi uma carta recentemente, que eu diria que é melhor a senhorita ler.
Então eu peguei a carta e a examinei, primeiramente. Reparei que a escrita era firme e desenhada, porém um pouco bagunçada.
Caro Sr. Dumbledore,
Sempre achei perigoso relatar as informações que escreverei aqui a alguém, porém provavelmente o senhor é a pessoa mais indicada para isso. Não pretendia, inicialmente, deixar que alguém tão próximo a ela soubesse disso, mas em virtude dos recentes acontecimentos achei melhor que alguém soubesse e alguém a protegesse. O Lorde das Trevas voltou, e eu estando em Azkaban, achei que ela estaria protegida contra qualquer ataque. Mas ela está envolvida demais em toda esta Guerra, para eu deixá-la sozinha novamente.
Até aqui o senhor não deve estar entendendo nada. Pois então, acho que a hora para as explicações é esta.
Eu era jovem e inconsequente, tinha apenas 16 anos, quando me apaixonei por Lúcio Malfoy. Ele me amava e eu amava a ele, mas eu estava prometida ao Lestrange e ele a minha irmã Narcisa. Éramos amantes desde jovens, e esperávamos que todo aquele fogo e desejo passassem, porém ele só aumentava.
Eu me casei, ele também, mas não conseguimos manter distância. Era impossível e doloroso para ambas as partes.
Um dia, em uma de nossas noites juntos, não nos protegemos. Semanas depois eu comecei a passar mal e descobri que estava grávida. Me escondi, ele me ajudou, disse ao meu marido que ficaria um tempo fora buscando por magias diferentes. No dia 19 de setembro de 1979, nascia minha bela princesinha Hermione. Continuei escondida com ela, mas uma hora teria de voltar para minha vida, eu sabia disso.
Então esse dia chegou. Minha irmã Narcisa estava grávida e precisava da minha ajuda. Eu não queria mais o Lúcio na minha vida. Se ele me amava ou não, eu não me importava. Fervia de raiva, pois para a criança da minha irmã ser esperada para junho. Logo, dias antes da minha menina nascer, ele havia estado com ela e isso me irritava profundamente.
Minha menina era a paixão de Lúcio e também era o meu maior tesouro, mas ela não podia crescer com dois pais comensais, e não podia crescer sem o pai, por ele ser também seu tio. Ela merecia uma vida decente.
Em um momento de coragem preparei o meu plano. Hermione seria criada por uma família trouxa, livre de qualquer envolvimento com o lado das trevas e das complicações da sua verdadeira linhagem. Seria tratada como nascida trouxa, mas na hora certa, se fosse preciso, eu a protegeria. Estava tudo decidido, minha menina com seis meses foi deixada com os Granger. Eu havia escolhido bem a família, seriam carinhosos e eu não precisei mudar suas memórias para a aceitarem, contei sua verdadeira história e a minha. Eles prometeram ir para o túmulo com esse segredo.
Infelizmente, soube recentemente que eles se foram. Peço ao senhor que, por favor, cuide dela. Não tenho o direito de me aproximar agora e não quero que o pai dela a encontre. Pode contar a ela, mas não a deixe cometer nenhuma loucura.
Belatriz Black Lestrange
Por inúmeras vezes, minha vontade foi a de parar de ler. Entendi logo no início de quem se tratava a carta, mas só ao fim a ficha caiu totalmente. Eu sou filha da Belatriz e do Lúcio. E para completar sou meia-irmã e prima do Draco. Eu sou uma sangue puro.
Senti como se alguém apertasse o meu coração. Não sei se doía por nunca ter ficado sabendo enquanto os meus pais estavam vivos ou por saber que eles não eram os meus verdadeiros pais. Eu não faria uma loucura, alguns tempos atrás talvez, mas agora eu definitivamente não me importava.
Lá no fundo até sentia um estranho calor por saber que eu ainda tinha uma família, mas isso não chegava a minha superfície.
— Alguém mais sabe? – Foi o que eu consegui falar ao terminar de ler.
— Apenas uma pessoa. Pedi para ele ler, assim como você ele precisava saber. – Disse ele calmamente.
— Quem? – Eu estava com muito medo da resposta.
— O jovem Draco.
Draco estava sabendo disso? O que eu não daria para ver a reação dele, se eu tivesse descoberto isso há algumas semanas atrás.
— Imagino que ele deve ter reagido um pouco menos tranquilo do que eu. – Com tranquilo, eu queria dizer mais dramático.
— Ele reagiu bem, não esperava, naturalmente, mas entendeu. – Como era possível Draco Malfoy, entender que a mãe dele havia sido traída pelo pai com a tia dele, eu não saberia responder.
— Entendeu? – Eu precisava não colocar meu sarcasmo em ação nesse momento.
— Ele nunca teve um bom relacionamento com o pai, mas sempre percebeu que a raiva dele vinha de uma paixão não correspondida, e que apesar do carinho quase não aparente do Lúcio pela Narcisa, ele nunca a amou. – Draco decididamente havia crescido e amadurecido muito nessas férias.
— Entendo. – Era minha vez de entender alguma coisa nessa história.
Um momento de silêncio se instalou na sala. Eu não precisava falar, apenas precisava pensar. E o professor Dumbledore também parecia estar absorto em seus próprios pensamentos.
— Senhorita, acho que agora já irei me retirar. Espero vê-la na escola em poucos dias. Talvez fosse bom você passar, novamente, pela seleção das casas.
— Não acho necessário, professor. O chapéu sempre soube sobre o meu sangue, apesar de eu não saber, e no dia da minha seleção cogitou a Sonserina, mas não me mandou para lá. Acho que por enquanto, fico melhor no meu lar. – Eu não aceitaria ser uma sonserina, já bastavam todas as mudanças que precisei aceitar até ali, essa não seria mais uma.
— Como quiser, senhorita. Nos veremos em breve. – Com seu sorriso leve e atemporal, Dumbledore finalmente me deixou com os meus próprios, e levemente alterados, pensamentos.
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