CAIO NARRANDO [[[

Era sempre assim: eu apertava a campainha da casa de Théo e esperava até Dona Lurdes abrir para mim, cumprimentando nos olhos. Mesmo que ela própria não soubesse que fosse minha sogra, era visível em seus olhos que lhe alegrava ter minha presença em sua casa e perto de seu filho. Eu subia as escadas, então, e batia na primeira porta à direita — porta esta que estava sempre trancada, a não ser para mim. Esse rito se repetia até eu perder a conta, e ainda assim não houve um dia sequer que não fosse muito bom e, ao mesmo tempo, muito estranho ser recebido.

Era bom porque me gelava a espinha ver o olhar que Théo deitava sobre mim ao me ver, um olhar carinhoso e tentador que parecia ver o melhor de mim, na mesma medida em que desejava me possuir por inteiro com seus beijos. “Uma pedra preciosa”, ele costumava me dizer quando me abraçava depois do sexo. “Você é uma pedra preciosa e eu tenho muita sorte de ter te encontrado.”

Por outro lado, a estranheza que eu sentia quando ele abria a porta e me deixava entrar advinha do fato de que, antes de mim, Théo era uma pessoa fechada ao extremo. Aliás, continuou o sendo, mas eu fui a exceção em sua vida. O Théo que conheci naquela excursão de escola, apesar de animado e aventureiro, não se deixava conhecer por absolutamente ninguém. Todos o ouviam fazer piadas sarcásticas sobre os professores, ou mesmo contar algumas histórias de terror numa roda de amigos ao redor da fogueira, mas ninguém ali jamais foi capaz de saber quem era Théo. Ninguém sabia do que ele gostava, o que pensava, o que fazia nos momentos em que estava sozinho. Divertido, porém sempre distante, Théo era um enigma até mesmo aos seus pais, que eram puxados para longe quando tentavam se aproximar.

Não fui a primeira pessoa na vida de Théo. Antes de mim, vieram Mônica, algumas Biancas, e talvez até mesmo uma Giovana. Mas nenhuma delas conheceu mais que apenas uma face que o próprio Théo fabricava para agradá-las, num fingimento que nem ele mesmo percebia fazer. Apesar de terem dormido com Théo num motel aqui ou ali, na beira da estrada, eu fui o único a deitar em sua cama e a cheirar seus cobertores. Fui não só o primeiro, como também o último a ser convidado para entrar em seu quarto e ver seu mundo por dentro. Théo me invadiu e me inundou em todos os sentidos possíveis, porém, talvez até mais que isso, fui eu quem entrou em sua vida.

E ali, naqueles momentos em que eu deitava em sua cama sozinho, no escuro, observando-o jogar seus jogos online de estratégia, eu me divertia pensando em como nenhum de seus conhecidos, amigos ou familiares de fato o conheciam. O Théo que conheciam não era mais que Théos rasos, indiferentes, uma máscara que escondia como aquele garoto realmente era de todos os olhares, e talvez até de si mesmo. Foi comigo que ele próprio descobriu um Théo carinhoso, sensível e vulnerável que se protegia muito bem à sociedade doente com seus tantos “foda-se”s.

Eu era sua maior fraqueza. Meus beijos faziam com que suas muralhas desmoronassem, dando-me acesso exclusivo ao âmago daquele ser, que insistia em se demonstrar alheio à preocupação mundana, e que no fundo era completamente perdido e solitário.

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Notas finais
É muito importante que vocês, leitores, comentem. Cada um de vocês importa para mim e eu realmente gostaria de saber se estou tocando o meu público. Me contem o que mais gostaram, o que vocês sentiram em cada parte e o que gostariam de ver nos próximos capítulos! Juro que leio tudo com muito carinho! (Se realmente estão gostando da história, peço também que compartilhem com amigos próximos que também poderão gostar. Minha maior motivação é a reação de vocês. Quanto mais leitores, com maior frequência escreverei!)