Notas iniciais
THÉO NARRANDO [[
Caro Caio
Você tinha razão. Esta não é a primeira vez que digo isso e com certeza não será a última. Eu sou mesmo fechado, o que é provado pela própria dificuldade que encontro para procurar em meu interior cada palavra desta carta estúpida que agora faço. Mas te peço que não desista de mim. Quando você me pergunta com estes teus olhos tão atenciosos como estou e eu não sei responder, não é porque não quero te deixar entrar em meu coração, mas porque eu próprio estou trancado para fora dele. Fiquei tão acostumado a me isolar até de mim mesmo que agora eu já não sei mais voltar. Não sei o que se passa dentro de meu coração, que até pouco tempo eu nem sabia que tinha, e que agora se revela preenchido por uma massa negra amorfa cuja única luz é você.
Sábado passado, na noite antes de te encontrar pessoalmente, eu não dormi. Quanto mais eu enxotava meus próprios pensamentos, mais eles me assombravam, como um vespeiro de abelhas no lugar do travesseiro. E nos meus braços eu sentia uma falta tão gritante, tão dilacerante, que eu não sabia com o que preencher. Eu peguei então aquele seu moletom, que eu te devolveria no dia seguinte, e o abracei. O que saiu dos meus olhos não foram lágrimas; foi a própria tristeza concentrada. Minhas memórias eram impregnadas de você assim como seu cheiro impregnava aquele teu moletom azul-marinho.
Não pense que foi fácil te ligar. Eu precisava, sim, tanto pela sede insaciável de ouvir a tua voz, sóbria e suave, quanto pela necessidade quase biológica de te encontrar pessoalmente — ainda que isso significasse te devolver aquele teu moletom e, assim, perder a única coisa tua que ainda restava em minha vida. Sacrificaria aquele pedacinho teu, macio, cheiroso e eterno, por um momento da tua presença, mesmo que efêmero.
E, então, no domingo, quando vi a tua silhueta dobrando o horizonte perto à sorveteria onde nos combinamos de nos encontrar, meu coração bateu mais rápido. Eu não saberia se aguentaria, mas não havia mais tempo. Me aproximei fingindo confiança, e a cada passo dado conseguia convencer a mim mesmo de que somos duas pessoas diferentes, perfeitamente independentes, cujos caminhos um dia se cruzaram e que no entanto já se separaram irremediavelmente. Devo confessar: por algum momento, isso funcionou. Cumprimentei a tua mão com a formalidade e a serenidade requeridas pela situação, e até ali mantive a postura mais alinhada que consegui. E então você me olhou com estes teus olhos e este teu sorriso, me quebrando em mil pedaços.
Me desarmei por completo. Este teu sorriso devia ser proibido, sabe? Esta coisa inédita na existência, tão angelical e ao mesmo tempo tão humana, que exala carinho e empatia por todos os seres perturbados e perdidos, como eu — aliás, principalmente eu. Me lembrei de todas as vezes que você me abraçou dizendo que eu parecia um cachorrinho caído da mudança, e naquele momento, diante do teu sorriso que desarmaria um exército de dois mil homens, tudo o que mais precisei foi que você me pegasse no colo e me levasse para casa. Como já fizera antes.
Então este sorriso se apagou com o teu ‘obrigado’, e na mesma velocidade em que recebeu o moletom devolvido também se despediu. Mal pude ouvir as suas palavras; aquele “foi bom te ver de novo”, seguido pelo “se cuida!” desapareceram no ar junto com todas as minhas forças quando você deu as costas e caminhou para a distância.
Há três dias não durmo, Caio. Não escrevo isso para que se sinta culpado, pois nós dois sabemos que o único e maior responsável por isto sou eu. Apenas te conto porque me pediste várias vezes que te escrevesse, que me abrisse para você, e agora o faço mesmo sendo tarde demais. Escrevo também para que esteja seguro de que estou cumprindo a pena merecida por meus atos, executada por minha própria consciência e pelo vazio absoluto que você deixou ao abandonar esta minha concha.
Espero que um dia você me perdoe, Caio. E, mais, espero que eu próprio consiga me perdoar. Até lá, precisarei aprender a viver novamente — reaprender, no caso —, pois não me lembro de como era a vida antes de você, e talvez nem seja possível.
Com todo o carinho que tenho
e coragem que pude juntar.
Théo.
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