Notas iniciais
CAIO NARRANDO [[[
Escrevi muitas cartas — dezenas, centenas, já não sei mais quantas — e queimei uma por uma. Aquelas letras todas se acumulavam umas sobre as outras, naquele papel flácido, impotente. Confissões infantis; nem mesmo eu as levava a sério, de tão ridículas. Ficaram melhores na lareira improvisada que era aquele meu pote de Nescau velho, cujo metal interno já se encontrava carbonizado de tantas memórias que ali dentro queimei.
Crepitavam em minha mente as lembranças dos dias frios que passamos abraçados na rede, balançando deitados enquanto olhávamos do alto da sacada a cidade por cima. Víamos os carros que passavam lá embaixo feito formigas, sem sentimentos e sem propósito, seguindo seu caminho para levar o alimento diário e atender as expectativas da colônia de formigas, para seguir as regras não ditas. E, enquanto isso, eu me aconchegava em seus braços, com a mente tão cheia, mas ao mesmo tempo tão vazia. Era tanta coisa para processar, tanta dor e tanta felicidade, que eu não conseguia pensar em nada; e talvez nem quisesse. O calor de sua pele macia me ensinou a aproveitar o agora; a fechar os olhos para o passado e a mandar o futuro à merda. Ali, nada mais importava. Mas agora importa. Agora estou preso às marcas de um passado que desejo mais que tudo esquecer, e a um futuro que não parece jamais ser real sem ele.
Minha vida já foi feita de agoras. Me lembro do caminhão que nos jorrou água ao passar por cima de uma imensa poça num dia de chuva tão grossa que parecia servir até como neblina. Por duas semanas, culpei ele (em tom de brincadeira jocosa) por ter dito que não poderia piorar; que estarmos pegando chuva já era ruim o suficiente. Apesar disso, na hora, quando ainda víamos o caminhão partir, indiferente à nossa desgraça molhada — quando tínhamos todos os motivos do mundo para ficarmos bravos —, tudo o que fizemos foi rir. Ri da cara dele, ele riu da minha cara e rimos de nós mesmos antes de nos abraçarmos e voltarmos caminhando pela chuva até a cafeteria mais próxima, onde nos deram toalhas grossas e cafés quentes.
Me lembro da vez em que fomos viajar com os pais dele para uma cidade montanhosa em Minas Gerais. Eles não suspeitavam de nada, claro; eu era o amigo que sempre aparecia em sua casa para jogar videogame e ajudá-lo a aprender Física. “Mãe, esse é o Caio.” Caio. Ele me disse uma vez que dizer meu nome fazia seu estômago dar um duplo carpado; que era doce, mas ao mesmo tempo forte, como eu. Talvez nem precisasse dizer isso, pois não foi capaz nem mesmo de esconder de seus pais que este nome mexia com ele; o tom de voz que usou ao me apresentar foi hesitante como um suspiro, de forma que eu ficasse até constrangido, embora, confesso, adorasse perceber que a mera menção de meu nome fosse suficiente para desestruturar aquela inabalável calma que ele levava no rosto. Seus pais tiveram de esconder muito bem de si mesmos o amor que percebiam nos olhos do filho quando ele me olhava.
Em Minas, apesar de nos primeiros dias termos seguido o programa familiar e agido como amigos enquanto fazíamos as trilhas com seus pais, logo cansamos e resolvemos ficar no casebre alugado. “Podem ir vocês. Não estou me sentindo muito bem", dizia ele. "Não precisa ficar preocupado, pai. Fico aqui com o Caio jogando os jogos de tabuleiro que encontramos na gaveta do quarto. Se eu precisar de ajuda, ele cuida de mim.” Seu pai, apesar de não suspeitar de nada — ou não querer suspeitar —, tinha em mim uma confiança absoluta. “Vamos, amor”, dizia ele à sua esposa. “Nosso filho está em boas mãos”.
E de fato estava. Sozinhos na nossa própria intimidade, reviramos o casebre ao avesso. Meses antes, quando começamos a conhecer e a dividir nossos corpos, confessei a ele que eu tinha medo de deixar minha alma escapar por gemidos ridículos quando ele a invadisse. “Mas tudo o que eu mais quero nesta vida é fazer você gemer, Caio”, ele disse, me causando arrepios. Foi então um longo trabalho para que ele pudesse finalmente me convencer a me permitir, a me entregar por completo. Não tardou para que seus beijos em meu pescoço destruíssem por completo minhas barreiras emocionais, de forma que já não houvesse distância alguma entre nós: nem física, nem espiritual. E no casebre, ao ouvir meus gemidos, ele subia pelas paredes, delirando de prazer, num misto de paixão animal e de ternura absoluta. Eu deixava escapar: “Théo, Théo, Théo, Thééo, Théééo...”
Já não sei mais como esquecer tudo isso. Não sei sequer se devo esquecer. O calor de um passado vivo e cheio de fervor me dói hoje como marcas de brasa quente. E tudo o que consigo sentir é frio.
]]]
Fale com o autor