Fortaleza emocional (Caio & Théo)
4 Punhos
CAIO NARRANDO [[[
A tal da excursão, sim. Não nos conhecíamos muito bem. Eu sabia sim quem era Théo, mas meu conhecimento se limitava ao que ele projetava de si para as pessoas e à imagem que eu construía dele em minha mente. Não vou mentir: algumas vezes me peguei olhando para ele durante a aula, mas ainda maior que a minha curiosidade por este rapaz silencioso era o medo de que ele percebesse que estava sendo observado. De expressão sempre fechada, crua, Théo se isolava mesmo estando completamente cercado de pessoas. Era um silêncio latente, como o de um animal feroz imóvel, segundos antes de atacar. Não que ele não fosse de falar, pois na primeira oportunidade de zombar alguém, zombava; mas era nítido que só era verdadeiro consigo mesmo e com os outros nos momentos em que se confinava dentro de si.
Este meu medo não apenas me impedia de externalizar a curiosidade desejante que possuía por ele, como também fazia com que eu a escondesse de mim mesmo. Causava-me calafrios a mera ideia de me apaixonar por alguém tão seco, tão ácido e tão iminentemente perigoso. Assim, quando o professor lia em voz alta a lista de alunos que dividiriam as tendas na excursão que faríamos no dia seguinte, e meu nome acabou sendo lido junto ao de Théo, senti um calafrio súbito e terrível no estômago, como se tivessem anunciado que eu teria que dividir uma jaula com um leão. E quando vi que, do outro lado da sala, Théo virou sua cabeça em minha direção, meu olhar não soube para onde fugir; olhei para as paredes e depois tornei a mirar o professor, esperando que minha expressão facial não transmitisse qualquer sinal de que aquilo me deixava alterado. A última coisa que eu precisava era que Théo imaginasse um desconforto e uma antipatia em relação a ele.
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THÉO NARRANDO [[[
Lembro que, quando o professor anunciou nossos nomes, houve algo em minha mente, um lampejo, que não pude entender. Estava tão habituado a não sentir nada, e a sentir, ocasionalmente, um forte desprezo pelas coisas e pelas pessoas, que não fui capaz de processar um sentimento de felicidade ingênua quando ele despontou em minhas emoções sem mais nem menos. Foi uma alegria muito tímida, aparentemente sem sentido, que chegou sem pedir licença e se escondeu debaixo do tapete quando tentei entendê-la. Olhei instintivamente para Caio e, percebendo que ele não pareceu dar a mínima, presumi o mais evidente: ele sequer devia saber quem eu era. Dei de ombros e voltei a não sentir nada.
Mas no ônibus, quando o procurei e sentei no espaço vazio ao seu lado, fiquei confuso e até um pouco ofendido ao reparar que carregava no olhar um certo apavoramento ao me ver, como se tentasse não fazer movimentos bruscos para não despertar um ser furioso. Aquilo não fazia o menor sentido, especialmente considerando que nunca conversamos antes. Talvez ele tivesse ficado sabendo da vez em que esmurrei a cara de um moleque da escola, mas isso não significava que eu fosse esmurrar qualquer um, por qualquer motivo! Que imagem era esta que tinha de mim? Desisti imediatamente de tentar ser agradável.
À noite, porém, quando ele se aproximou temoroso, segurando pelo braço seu cobertor enrolado, incerto se podia ou não entrar na tenda, tive a sensação de ter tido os pensamentos e os sentimentos revirados, surgindo deles coisas que eu não sabia estarem lá. Tive vontade de apertá-lo, de abraçá-lo até seus olhos quase esbugalharem, de tão fofo que era, com aqueles olhos verdes tímidos e com aquela maciez branca de pele; tive vontade de sair correndo por sentir estas coisas, vontades que contrariavam tudo o que eu sabia sobre mim até então: sobre o meu jeito de ver e de me relacionar (ou melhor, de não me relacionar) com as pessoas. Suprimindo tudo isso, me levantei com as costas curvas para não bater a cabeça na tenda e disse, tentando regular meu tom para parecer descontraído, mas indiferente:
— Vai dormir aí fora?
— Não, eu... — Olhou para o chão.
— Entra aí, pô — eu disse, estendendo o braço e dando um soco leve em seu ombro. Por um instante, ele se contraiu como se estivesse vindo em sua direção um tiro, e, percebendo que meu soco foi quase fútil, de tão leve, ficou nitidamente constrangido.
Agachando-se, entrou na tenda, colocando seu cobertor ao chão e tirando sua mochila das costas. Apesar de não haver fonte luminosa dentro da barraca, a fogueira de fora — em volta da qual, horas antes, eu contava sadicamente algumas histórias de terror para colocar medo em meus colegas de turma — projetava sua luz fraca e instável através do tecido que nos cercava. Acostumado a dormir de barriga para cima, consegui observar Caio de esguelha, com um certo medo — medo não dele, mas do que eu mesmo poderia sentir se continuasse cedendo a esta minha curiosidade. Em vez de colocar o travesseiro sob a cabeça, ele o abraçou e virou o corpo e o rosto de lado, dando as costas para mim. Pela sua silhueta era possível observar a intensidade e o carinho com que se agarrava ao travesseiro; era possível imaginar quão macios e cheirosos eram seus cabelos e — "NÃO, QUE PORRA É ESSA? PARA COM ISSO! VOCÊ ESTÁ MALUCO, THÉO? Deixa o menino em paz, mas que merda. O que está acontecendo com você?"
Tentei convencer a mim mesmo de que aquele havia sido um longo dia e que o cansaço foi responsável por fazer brotar em minha mente aquelas ideias e sentimentos sem noção. Apertei os olhos de forma a fechá-los com força, implorando para que eu conseguisse finalmente dormir e esses pensamentos babacas fossem só uma memória a ser esquecida.
Não consegui dormir.
Duas horas depois, me peguei com os olhos abertos, vidrados, observando aquela silhueta imóvel que aumentava e diminuía suavemente conforme Caio respirava.
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CAIO NARRANDO [[[
Quando abri os olhos, vi a lateral da barraca. Soltei o travesseiro aos poucos e me virei de barriga para cima; apesar de estar acostumado, desde há muito tempo, a deitar de lado, não havia um dia sequer em que eu não acordasse dolorido; ainda assim, eu não conseguia dormir em outra posição. Lembrando que eu dormira na mesma tenda daquele garoto do colégio, me veio de súbito um sentimento de alarde, de perigo, fazendo com que meus olhos corressem imediatamente para o lado. Havia ali cobertores e travesseiros vazios.
Refleti por alguns momentos e, lembrando da noite anterior, cheguei à conclusão de que Théo não era este monstro que eu estava pintando; que era não só injusto com ele ser tratado com este medo todo, como também bastante constrangedor. Li em algum lugar que o primeiro passo para tratarmos as pessoas bem, da forma como elas merecem (embora às vezes elas mesmas não saibam que merecem), é não se sentir ameaçado por elas. Me sentei, então, e, coçando os olhos como faço matinalmente, levantei-me, determinado a ver em Théo, assim que me deparasse com ele, a criança vulnerável que se escondia em seu interior e que se mascarava fazendo piadas mordazes. "Quem quer tanto machucar os outros só pode estar muito machucado", concluiu, com um peso no estômago.
Durante o dia, nas tantas atividades que a turma toda teve de fazer sob a orientação chata do professor de educação física, qualquer um que tivesse dois olhos era capaz de ver as imensas olheiras de Théo e sua expressão de mau humor. Até tentei fazer contato visual por um momento, na expectativa de poder lhe dar um sorriso amigável para talvez diminuir sua zanga — afinal, se continuasse com essa agressividade até à noite, era bem provável que descontasse em mim de alguma forma —, mas ele estava muito focado em ser ranzinza: fazia de má vontade tudo o que o professor mandava, e volta e meia tecia comentários maldosos em voz alta. Chegou a falar com algumas pessoas, o que me fez ter pensamentos ligeiramente paranoicos por alguns minutos. "Não, isso é bobeira sua", pensei, dando uma bronca em mim mesmo. "É obviamente coisa da sua cabeça. O mundo não gira em torno de você, Caio. Pelo amor de Deus."
Fiquei tão distraído com este tipo de pensamento, e depois tão focado em tentar afastar essa preocupação ridícula, que em um determinado momento acabei deixando que isso atrapalhasse minha coordenação motora. Estávamos tendo que carregar troncos muito longos e pesados, para "treinar o trabalho em equipe" (meus olhos rolaram quando o professor disse isso). Foi então que, assaltado pela repentina ideia de que talvez eu tivesse roncado durante a noite, e de que tivesse por isso privado Théo de sono, por um lampejo de desatenção deixei escapar o tronco. Lían, um cara um pouco mais velho que sabe às vezes ser bastante escroto, embora no geral seja gente boa, não conseguiu segurar o tronco todo por uma só ponta: a madeira pesada bateu no chão e saiu rolando por um pequeno barranco de grama à nossa direita.
— Eita! Cara, desculpa! Você está b...
— VOCÊ É DOENTE? OLHA O QUE FEZ! — Lían gritou.
Todos estavam olhando. Me senti um lixo.
— Foi sem querer... — Tentei segurar as lágrimas para não saírem, mas quanto mais segurava, com mais força elas se apertavam por trás de minhas pálpebras. — Pegou no seu pé??
— NÃO, MAS PODIA TER PEGADO NO MEU PÉ! AGORA VAMOS PERDER O JOGO!
O professor chegou para tentar amenizar a situação, mas sua postura paternalista só me deixou ainda mais constrangido, como uma criança que precisa de proteção para não responsabilizada por seus próprios atos. Com as lágimas rompendo, saí correndo em direção às barracas, torcendo para que ninguém as visse.
Ninguém me seguiu; ainda bem. Talvez o professor tenha tido algum bom senso e recomendado que me deixassem sozinho, para não piorar a situação. Só tornei a ver alguém à noite, quando Théo entrou pela barraca com um olho vermelho. Entregou a mim uma pequena marmita e talheres de plástico.
— Toma. Você precisa se alimentar.
Quase recusei por educação, mas vi que não faria sentido algum. Além do mais, estava faminto; os lanches que trouxera na mochila foram todos consumidos ao longo da tarde. De olhos baixos, agradeci.
— Ah — acrescentou Théo, como quem diz algo sem muita importância —, a excursão foi encurtada. Vamos todos voltar para casa assim que amanhecer.
— Sério? Por quê?
Théo deu de ombros.
— Alguém quebrou a perna do Líon.
Passei aquela noite de olhos abertos, com os pensamentos a mil.
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